Os pareceres de Heinz Dieterich
por Juan M. Diaz
Não é necessário apresentar Heinz Dieterich como
intelectual de esquerda, já que é sobejamente conhecido, tem
livros publicados, visita a Venezuela frequentemente e escreve de forma
sistemática sobre o processo revolucionário venezuelano.
Não há muito tempo apareceu o seu último artigo sobre a
Venezuela, intitulado Perigo Mortal na Venezuela. Pretende ser uma
mescla de alerta crítica conselhos para os
revolucionários venezuelanos. Agradecemos as boas
intenções do autor. No entanto não partilhamos, nem a
essência deste trabalho, nem muitas das afirmações e teses
deste artigo. Antes de emitir qualquer juízo analisemos objectivamente
uma
peculiaridade deste artigo de apenas duas folhas e meia A4,
limitemo-nos simplesmente a registar como neste pequeno espaço, por um
lado se
associa o conceito de DERROTA com o Processo Bolivariano e os Bolivarianos, e
por outro, o conceito de TRIUNFO com as forças do imperialismo.
DERROTA PROCESSO BOLIVARIANO
- Parágrafo 1. ...possível perda do poder pelas
forças bolivarianas. Tal perda...
- Parágrafo 4. Perder esta batalha significa perder a
guerra. - Significa, perder tudo.
a liquidação do processo bolivariano seria o fim de toda a
intenção de...
- Parágrafo 5. A derrota seria equivalente...
...o fim do potencial progressista...
- Parágrafo 6. Para evitar uma eventual derrota...
equipa que levou... ao desastre actual e que ficou totalmente
desacreditada...
- Parágrafo 7. Independentemente de que tenham produzido a
calamidade... é imperdoável que um dos estados
mais ricos da América Latina... não tenha podido derrotar uma
direita golpista e demagógica, debilitada...
- Parágrafo 8. Esse fracasso aponta o principal tendão de
Aquiles do processo bolivariano: a insuficiência...
- Parágrafo 9. Parte deste quadro humano derrotista é o
triunfalismo que não se pôde vencer nas fileiras
bolivarianas. era impossível penetrar o muro de
triunfalismo e individualismo imperante nas altas esferas do processo...
- Parágrafo 10. O fracasso na
bolivarização das forças sindicais é
outro exemplo... lançou-se uma campanha improvisada
que foi derrotada pelo sindicalismo corrupto... erro grave que se
pagou...
- Parágrafo 13. ...A popularidade actual do Presidente não
confere nenhuma segurança para o futuro...
- Parágrafo 14. A ideia da singularidade histórica... tem
um efeito derrotista complementar...
- Parágrafo 26. Para não chegar a este momento de extrema
desolação para todos os patriotas e revolucionários
latino-americanos...
- Parágrafo 27. Não se pode improvisar esta batalha
decisiva, porque se se perde, perde-se o futuro da Pátria Grande.
Temos assim que, ao longo deste pequeno artigo, o processo bolivariano fica
sistematicamente associado com: perda de poder, perda, perder,
liquidação, derrota, desastre, calamidade, imperdoável,
fracasso, tendão de Aquiles, erro grave, nenhuma segurança,
efeito derrotista, extrema desolação, ingenuidades, triunfalismo,
democratismos equívocos, artesanal...
Em momento algum se associa o processo ou os bolivarianos com vitória,
mas antes com determinado triunfalismo que tem efeito derrotista.
Será que o camarada Dieterich, apesar das suas constantes viagens
à Venezuela, não conhece nenhuma vitória da
Revolução Bolivariana?
Como se explica então que tenhamos chegado até aqui?
O seu artigo não explica este mistério.
Seguramente, poucas vezes tínhamos visto tanto derrotismo por
centímetro quadrado de artigo.
ÊXITO IMPERIALISMO
- Parágrafo 1. A legalização do ardiloso referendo
revogatório contra o Presidente Hugo Chavez conduzido pela
direita venezuelana... abre as portas para uma possível perda do poder
pelas forças bolivarianas...
Parágrafo 4. Tal como a legalização do roubo
eleitoral de George Bush pelo Supremo Tribunal de Justiça em Washington
iniciou um processo de desgraça...
Parágrafo 5. A derrota seria equivalente ao triunfo da ALCA, do
Plano Colômbia, da dolarização...
Parágrafo 10. ...uma campanha que foi derrotada pelo sindicalismo
corrupto da IV República...
Parágrafo 18. ...Washington, conseguiu que os sandinistas
perdessem o governo...
Parágrafo 20. A porta voz do parlamento, Nina Burdhzanadze...
substituída por uma campanha
eleitoral perfeitamente concebida e financiada por Washington...
Parágrafo 21. ...processo de triunfo eleitoral de Boris Yeltsin...
a Casa Branca... enviou uma equipa gestores eleitorais que converteu a
moribunda candidatura num sólido triunfo em Junho (!) do mesmo ano.
Parágrafo 23. ...em apenas quatro meses obtiveram um resultado
que um comovido Presidente Bill Clinton chamou a
consolidação do processo democrático na
Rússia.
Parágrafo 24. Se a ... de Washington consegue repetir o
êxito da Rússia e da Geórgia...
Parágrafo 29. ...Os métodos da guerra suja que triunfaram
na Rússia, Geórgia e Nicarágua...
Neste trabalho o imperialismo não aparece associado com derrota e
perder, mas com êxito, triunfo, resultado... Não conhece Dieterich
nenhuma derrota do imperialismo ?
Finalmente temos a equação de Heinz Dieterich no próximo
dia 15 de Agosto:
REVOLUÇÃO BOLIVARIANA (DERROTADA)
VERSUS IMPERIALISMO (TRIUNFANTE)
Frente a este quadro desolador e derrotista que nos apresenta o autor,
pareceria que só nos restava, aos revolucionários bolivarianos,
sentarmo-nos a chorar e admirar a invencibilidade do imperialismo.
MAS NÃO, a salvação existe. O camarada Dieterich deixa-nos
uma porta de salvação, que seria possível, essa sim, se
seguirmos os conselhos com que nos brinda o autor que, a partir do
México, já sabe tudo o que temos de fazer, como por exemplo, que
não sejamos artesanais, que empreguemos a homeopatia
eleitoral e abundantes recursos, etc. Depois de termos sentido tanto
medo, que alívio, devemos dizer-lhe obrigado.
OS CONSELHOS DO CAMARADA DIETERICH
E AS SUAS COINCIDÊNCIAS COM A OPOSIÇÃO
Não é a primeira vez que o camarada Dieterich aconselha a
Revolução Bolivariana. Vejamos alguns deles:
No ano de 2001, Dieterich recomendava aos bolivarianos não aprovar a Lei
das Terras já que isso era perigoso, pois podia pôr os
latifundiários contra a Revolução Bolivariana.
Então, na sua visita à Venezuela, dedicou-se a infundir medo aos
bolivarianos e aos movimentos populares dizendo-nos que estava perto a
arremetida da oligarquia contra a Revolução e que nos
cortariam a cabeça.
Isso era exactamente o que queria a oposição: que
sentíssemos medo e que não fosse aprovada a Lei das Terras. Se
tivéssemos seguido o conselho, hoje o campesinato não estaria ao
nosso lado em momento tão decisivo.
Nos acontecimentos do ano 2002, sobretudo durante e depois da greve
geral e da sabotagem petrolífera, o camarada Dieterich aconselhava-nos
naquele momento tão difícil a que aceitássemos as
eleições gerais.
Essa era então o principal pedido da oposição:
eleições gerais. Mas isso significava a violação
da Constituição e felizmente o Governo Bolivariano
manteve-se firme e disse que havia que respeitar a Constituição
da República
da Venezuela e que nela estava a saída da crise: o referendo
revogatório presidencial. Mas a oposição não queria
esperar, pois desejava aproveitar a situação económica da
Venezuela e de caos que haviam criado, para aplicar na Venezuela uma variante
da estratégia empregada na Nicarágua. Era aconselhável
combater no campo definido pela oposição ou levá-la por
fim para o nosso terreno em condições mais favoráveis como
as que hoje tem o processo bolivariano? A resposta é óbvia; a
nossa opção, a Batalha de Santa Inês.
Já em pleno ano de 2004, no meio da guarimba
[NT]
, visita-nos o
camarada Dieterich e, perante os factos que estavam ocorrendo, aconselhava que
o governo devia actuar, qualquer coisa como tomar a ofensiva.
Por sorte o Governo não seguiu o seu conselho e manteve-se numa
estratégia defensiva, enfrentando a
guarimba
com o uso discreto do seu poder, mas com firmeza. A quem convinha que o
governo actuasse ? O objectivo das forças reaccionárias era
precisamente que o governo se precipitasse e actuasse contra a
guarimba. A essência da
guarimba
era: fecha a tua rua, se vier a guarda nacional escondes-te na tua casa
e depois voltas a sair; mas o que se passava por a guarda não vir
a reprimir era que o jogo perdia todo o sentido e só ficava
como real os danos e a agressão contra os habitantes da zona este de
Caracas; a quem se não a estes afectou a queima de pneus e outras
barbaridades que se cometeram com a
guarimba
? Por sorte, uma vez mais o Governo não seguiu o conselho do camarada
Dieterich. Se tal houvesse ocorrido a campanha sobre as
violações dos direitos humanos por parte do governo teria sido
mais credível.
Em Junho de 2004, presumivelmente a oposição consegue
praticamente o mínimo necessário para activar o referendo
revogatório presidencial. O número é muito
questionável pelo descobrimento de
acções fraudulentas. O Presidente aceita o desafio para Agosto
. Aparece o camarada Dieterich com o seu artigo e considera a
aceitação como uma calamidade imperdoável dos
bolivarianos, um fracasso, e esboça-nos um quadro derrotista frente ao
mito da invencibilidade imperial. Uma vez mais existe uma coincidência.
A oposição considera a aceitação como um grande
êxito e uma derrota dos bolivarianos. Afirmam, e dão-na como
certa na sua propaganda, a derrota dos bolivarianos em Agosto.
Que nos aconselha? Que sigamos os mesmos métodos imperiais de
técnicas eleitorais que vai usar a oposição ?
É este um bom conselho? Não, não é um bom
conselho. Essa não é a essência do problema. Os nossos
métodos têm de ser fundamentalmente REVOLUCIONÁRIOS e
POLÍTICOS. Não é que não tenham importância
as técnicas eleitorais imperiais, claro que há que
conhecê-las para poder combatê-las. Mas o centro da nossa
estratégia não é um problema técnico, mas sim
político-revolucionário, são os métodos dum povo em
Revolução, os métodos de massas, trata-se de mobilizar
inteligentemente o povo para esta batalha, pois o que vai decidir o êxito
não é, de per si, o trabalho fechado de um qualquer comando
eleitoral, por muito importante que este seja, mas a força do povo,
organizada, consciencializada e mobilizada. Criatividade revolucionária
é o que
se necessita e na sua vanguarda vai o Comandante-Presidente Chávez
que, como um genuíno líder revolucionário, soube
correctamente convocar o povo. Se há um problema técnico
importante, esse é impedir que ocorra uma fraude informática e
electrónica.
Não queremos com o exposto apresentar o camarada Dieterich como membro
da oposição ou qualquer coisa parecida, essa NÃO é
a nossa intenção. Queremos pensar que tais coincidências
com a oposição são puramente casuais. Mas arrogamo-nos o
mesmo direito que se arroga Dieterich para criticar duramente os bolivarianos:
o camarada Dieterich não pode pretender ser alheio à
crítica. O estudioso intelectual de esquerda Dieterich, tão
pouco é infalível e também se engana e comete erros.
ESQUECIMENTOS E SUBESTIMAÇÕES DO CAMARADA DIETERICH
No seu artigo assinala: ... é imperdoável que um dos
Estados mais ricos da América Latina, cujo governo conta com o
sólido apoio das Forças Armadas, uma popularidade relativamente
alta, maciços programas sociais e que dispõe de duas
estações estatais de televisão e um canal
radiofónico nacional, não tenha conseguido derrotar uma direita
golpista e demagógica, debilitada, carente de projectos e personalidades
nacionais. Esqueceu o camarada Dieterich o golpe de estado, a sabotagem
petrolífera e económica em geral que teve um custo
astronómico de mais de 10.000 milhões de dólares?
Esqueceu-se do papel e do enorme poder dos meios privados de
desinformação? Precisamente no parágrafo 16 ensina-nos o
camarada Dieterich que: A subestimação do enorme poder de
manipulação das ciências sociais contemporâneas seria
outro erro garrafal. E que tal as ciências sociais e
contemporâneas sobre a comunicação ?
Indubitavelmente, o próprio camarada Dieterich está cometendo um
erro garrafal ao subestimar a capacidade manipuladora dos meios privados
venezuelanos de desinformação. A sua análise da
oposição venezuelana não pode ser mais simplificada,
subestima-se a oposição que o Governo Bolivariano enfrenta.
Crê Dieterich que Gustavo Cisneros e Marcel Granier, por exemplo,
são subestimáveis ? Que a experiência de muitas
décadas de governo e de armadilhas da Acção
Democrática e dos Democratas Cristãos é
subestimável? Que prejuízos ideológicos semeados durante
200 anos de dominação oligárquica, são
subestimáveis? Que Collin Powel é subestimável? Que a
CIA é subestimável? Que o imperialismo que apoia essa
oposição é subestimável? Não sabe Dieterich
que a nossa batalha não é com Enrique Mendoza, mas com George
Bush? Não comete Dieterich o erro de triunfalismo ao subestimar estas
forças ?
Dieterich fala de um dos Estados mais ricos... Não conhece a
diferença entre Estado e governo
? Não conhece Dieterich
as limitações, dada a autonomia do Banco Central da Venezuela,
para que o governo possa usar as reservas do país ?
Não Dieterich, não há nada imperdoável
que tenhamos cometido. Nós, os bolivarianos, não temos que pedir
desculpa, pois sabemos que alcançámos impressionantes
vitórias. O que acontece com os famosos reparos não é
nenhuma derrota, antes uma grande vitória da Revolução
Bolivariana, pois apesar de ter empregue todo o seu poder económico,
técnico, ideológico e mediático, as ameaças de
despedimento dos trabalhadores, e as manobras, o imperialismo não
pôde alcançar o que se propunha que era apresentar a recolha de
assinaturas como se fosse o referendo, já que tinham como meta recolher
tantas assinaturas quantos os votos necessários para revogar o mandato
ao Presidente Chávez; o que alcançaram foi muito magro,
pírrico. Sabem já que num escrutínio sério
não têm os votos necessários para revogar o Presidente. Se
nos abstrairmos das fraudes cometidas, e supondo que de forma limpa
alcançaram as assinaturas mínimas requeridas, qual é o
problema? De acordo com as votações anteriores, os votos contra
o Presidente já diziam que matematicamente, teriam o número
necessário para convocar o referendo. Porquê surpreender-se com
isto? Se tivesse alcançado com lisura as assinaturas necessárias
para revogar o Presidente, então sim, teria sido uma derrota para a
Revolução, mas isso NÃO aconteceu.
Além disso, esquece-se que a estratégia principal e o
carácter da Revolução Bolivariana é
democrático e pacífico, isto quer dizer que de qualquer forma,
cedo ou tarde, havia que encarar o repto de nos medirmos nas urnas.
O USO DA HISTÓRIA PELO CAMARADA DIETERICH
No seu artigo Dieterich usa a história para fazer
comparações. Compara o referendo presidencial com grandes
batalhas, como Waterloo e Kursk. Na realidade o autor sabe que estas
comparações não são cientificamente adequadas, pois
essas foram as batalhas finais mas não decisivas; para Napoleão
foi a campanha da Rússia que o derrotou estrategicamente, e aos nazis,
na União Soviética, foi Stalinegrado. Mas o Presidente
Chávez não concorre ao referendo ante o peso de uma derrota
estratégica, a recuperação de assinaturas não foi
nem a campanha da Rússia, nem Stalinegrado, bem ao contrário, ela
foi-o, isso sim, para a oposição, pois quem concorre ao referendo
com uma derrota estratégica é a oposição e
não o governo.
Coloca o exemplo da derrota dos sandinistas,
mas esse também não é o caso venezuelano. Na
Nicarágua um pequeníssimo e pobre país, o imperialismo,
lamentavelmente para os sandinistas, pôde desencadear,
com todo o seu poder, uma guerra mortal contra o governo sandinista que custou
dezenas de milhares de mortos.
Estes já reconheceram os erros cometidos. Se os sandinistas tivessem
contado com os recursos e os programas sociais venezuelanos, a história
talvez tivesse sido outra. Venezuela e Nicarágua são
países muito diferentes, sobretudo em matéria de recursos.
No artigo referido usa-se o exemplo de Yeltsin na Rússia. Parece que
Dieterich ficou muito impressionado com o filme de Hollywood, em que um dos
actores é o mesmo que integrou o filme Dinossauro, sobre a
lenda da equipa ianque que, através de manobras eleitorais, permitiu o
triunfo de Yeltsin. Esta é uma análise altamente redutora e
simplista dos factos então passados. A
famosa equipa pode ter tido algum papel nesse acontecimento, mas não
foi decisiva
. Toda a gente sabe que o que inclinou a balança,
no meio de uma desastrosa situação económica do povo russo,
foi o anúncio do Ocidente de que se não triunfasse Yeltsin, a
Rússia não receberia os empréstimos de milhares de
milhões de dólares que tanto necessitava para atenuar a sua
situação económica e pagar a sua dívida externa.
O FMI adoptou uma posição dura, tal como a União Europeia
e o governo dos EUA e essa é que foi a bomba atómica
para as eleições e não os meneios do sr. Yeltsin, quando
bailava na sua campanha eleitoral assesorado por tal equipa. Fora tudo isto,
seria muito extenso estabelecer as enormes diferenças com o processo
venezuelano. Definitivamente, para uma parte do povo russo, dadas as complexas
situações que se verificaram nesse país e os enormes erros
cometidos, Yeltsin era considerado quase um herói e era o único
líder do país. Recentemente, perante as eleições
em Salvador, o governo dos EUA voltou a ser, tal como na Rússia, actor
eleitoral e exerceu brutais pressões económicas, declarando, sem
pudor que, se triunfasse Shafik Handal, impediria as remessas que se tornaram
na principal fonte de entrada de divisas desse pobre país e que poria
fim ao tratamento dado à entrada de salvadorenhos nos EUA, o que,
naturalmente, inclinou a balança eleitoral; isto sem entrar em
considerações sobre as possíveis fraudes eleitorais
cometidas.
No caso da República Soviética da Geórgia, a
situação ali criada por muitas razões, era muito
propícia ao imperialismo. Não foi nenhuma façanha fazer o
que fizeram. Lamentavelmente a Geórgia, já no tempo da
União Soviética era uma das Repúblicas mais corruptas.
Neste caso havia que analisar muitos outros factores, como o nacionalismo, o
enfrentamento da Rússia, entre outros. Além disso, não se
pode comparar, mesmo que remotamente, Edvard Shevardnaze com Chávez,
pois o georgiano foi um político entreguista da equipa de Gorbachov,
estando ainda fresco na memória a infame imagem de Shevardnaze como
chanceler da então União Soviética a levantar a mão
no Conselho de Segurança das Nações Unidas, para dar luz
verde à primeira guerra contra o Iraque, exactamente o que queria o sr.
Bush pai, então presidente dos EUA.
O TRIUNFALISMO-DERROTISMO DOS BOLIVARIANOS
E OS MÉTODOS CIENTÍFICOS DO CAMARADA DIETERICH
No seu artigo o camarada Dieterich afirma que o nosso derrotismo, na
prática, não no
campo ideológico, está ligado ao nosso triunfalismo
no campo ideológico, exemplo parágrafos 9 e 11.
Descreve a história das derrotas dos bolivarianos, como por
exemplo o golpe de Estado, as
eleições sindicais e outras e, na sua análise, projecta-as
no cenário do referendo. Parece
que o camarada Dieterich não é muito consequente com os
métodos científicos que ele próprio enuncia,
que funcionam quando lhe convém aparecer com a razão mas,
misteriosamente, não se aplicam quando não lhe convém.
Em que ficamos?
Por que razão a sua análise do nosso derrotismo
não se aplica a todo o parágrafo 13, onde nos ensina:
...que há diferenciar entre essa extrapolação
psicológica do passado e a natureza da verdade objectiva...(...) Todo
cientista sabe que uma tendência de evolução
empírica de um fenómeno social pode mudar drasticamente a sua
direcção ou o seu comportamento em pouco tempo.
Será que não cabe esperar que os bolivarianos tenham podido
aprender algo das nossas derrotas e não serem tão
burros para não cometer
os mesmos erros no futuro?
Porque é que essa extrapolação psicológica
é válida quando se trata do triunfalismo dos
bolivarianos e não o é para o nosso derrotismo ? Que se
está a passar aqui com a verdade objectiva? O camarada Dieterich
não parece ser cientificamente coerente.
O OPTIMISMO E A FÉ REVOLUCIONÁRIA DOS BOLIVARIANOS
Nada do anteriormente dito nos exime de erros, pois cometeram-se erros e os
mais trágicos foram em 11 de Abril, quando se actuou com excesso de
confiança e inclusive ingenuidade, e isto já se reconheceu
publicamente. Coincidimos com o camarada Dieterich em que alguns bolivarianos
atribuem um carácter absoluto às características
peculiares da Revolução Bolivariana. Nós, bolivarianos,
não somos infalíveis, mas tão pouco somos derrotistas.
Sabemos perfeitamente
o que está em jogo. Mas perder a perspectiva pensando numa
possível derrota e em todas as suas consequências,
gastar as nossas energias neste cenário poderia paralisar-nos e,
inclusivamente, derrotar-nos-ia antes de
entrar em combate. Sem fé na vitória não existiriam
revoluções, nem revolucionários,
pois um revolucionário é, por definição, uma
pessoa optimista. Isto não é o mesmo que triunfalismo, esse
é o caso quando os revolucionários se tornam soberbos e se
alheiam da realidade
. O nosso optimismo e a nossa fé são fundamentados, as nossas
melhores armas são o nosso grande líder e o grande povo que
temos. Não temos dúvidas de que em Agosto alcançaremos a
vitória.
Naturalmente, as vitórias não se alcançam por actos de
magia, há que trabalhar pela vitória, só trabalhando
arduamente por ela a podemos alcançar. Se alguém se senta a
esperar por ela jamais a alcançará, há que ir à
luta. Desta vez sim, seria imperdoável voltar a cometer o erro de
sermos confiantes e ingénuos. Ao mesmo tempo, não devemos ter
medo, mas há que estar vigilantes e pensar em tudo, sem pânico,
sem nervosismo.
Virá aí uma grande guerra psicológica para nos amedrontar,
para nos convencer que a fraude é infalível, que nos
derrotarão, tratarão de nos desmoralizar; alguns, a
menor parte, atemorizar-se-ão e inclusivamente saltarão
fora da carroça. Tudo isso teremos que enfrentar com coragem, com
ânimo, com firmeza, com inteligência, mas sobretudo com moral de
combate e um inquebrantável optimismo e vontade de vencer. E esperamos
que nessa luta nos acompanhe também com optimismo o camarada Dieterich.
[NT]
Para ver o sentido que os venezuelanos atribuíram à palavra
guarimba
ver esta jóia elocubrada pelos fascistas locais:
http://www.tierradegracia.com/manualguarimba.html
.
O original encontra-se em
http://www.rebelion.org/noticia.php?id=1166
.
Tradução de JPG.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
.
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