Venezuela
Uma nova revolução na América Latina
Chávez tem contra si todos os meios de comunicação
privados e ainda os estrangeiros. A oposição recorre
também ao terrorismo. As suas manifestações
políticas são vandálicas. Em Valencia contaram-me que a
uns estudantes que regressavam de Cuba, roubaram na rua as malas, todo o seu
dinheiro e outros pertences. Mais de 80 líderes camponeses foram
assassinados. E um psiquiatra contou-me que têm de tratar muitos
pacientes afectados pelas campanhas de terror da direita.
Os jornais cada vez se vendem menos, devido aos seus ataques a Chávez, e
em consequência também diminuiu a publicidade que angariavam. Eles
mesmos o reconhecem. Ao fim do dia, vêm-se nas ruas muitos volumes de
El Nacional
e
El Universal
por abrir, o encalhe a ser devolvido. A pergunta que o povo se coloca é
quem suporta as perdas desses jornais. E quem paga os canais de
televisão para dedicarem o seu precioso tempo, não a
notícias nem a publicidade, mas antes a ataques políticos.
Chávez é continuamente caricaturado por esses meios de
comunicação, com um racismo novo que agora surgiu na Venezuela.
Troçam dele pelas suas feições e pela cor da sua pele.
Como há partidários seus que lhe chamam Mi Comandante, a direita
apodou-o de Mico Mandante, porque é mestiço ou mulato ou talvez
as duas coisas, e por a cor da sua pele ser um tanto acobreada. A campanha da
direita é abertamente anti-povo, e contaram-me de um animador de
televisão que aos pobres chama feios, desdentados e negros violentos. Os
média
, além disto, apelam também à insurreição. O
desrespeito não tem limites, e o presidente de um partido gritou a
Chávez na televisão
"¡El coño de tu madre!"
. Em que outro país disseram uma coisa destas a um chefe de Estado?
"Creio que não conheci nenhum outro país em que exista tal
libertinagem na comunicação social", escreveu Marta
Harnecker.
Contudo, nenhum jornal, nem televisão nem rádio foram encerrados.
E nem sequer há presos políticos.
Em Mérida alojaram-nos num hotel onde também se hospeda
Chávez quando lá vai. Contaram-me que muita gente, e sobretudo
estudantes, aí fazem então vigília, toda a noite, à
espera de o poder ver e de conversar com ele. Chávez costuma sair,
geralmente de madrugada, para cumprimentar e conversar com eles.
Acusam Chávez de populista, mas creio que isso não é
correcto, e que é autenticamente revolucionário, ainda que
também
populachero.
O seu amor ao povo é evidente, bem como a sua
predilecção pelos pobres. Tratam-no por tu, sobretudo os mais
humildes. Percorre incessantemente o país, desde há anos, desde
que se lançou na política pela primeira vez. Foi pescar com
índios que pescam com a mão ou com uma grande pedra, e deu-lhes
equipamentos de pesca.
Cita Bolívar a cada passo, e sabe-o de memória. Mesmo que fale
muitas horas seguidas, o povo continua atento, e interrompe-o no momento
devido, com aplausos, gritos, palavras de ordem, exclamações ou
apupos, de acordo com o que estiver dizendo. Parece-se com Fidel, na medida em
que ambos falam tanto tempo (cativando o auditório), mas Fidel é
bastante sério, e Chávez bastante jocoso.
Ao contrário de Fidel, fala muito de Deus e de Cristo nos seus
discursos. Cita muito o Evangelho, e às vezes são
citações falsas, pondo na boca de Cristo coisas que não
disse, ainda que no mesmo espírito das que realmente disse.
Não devo negar que encontrei na Venezuela intelectuais honestos, alguns
deles amigos meus, que se opõem visceralmente a Chávez. Mas para
mim, a sua revolução bolivariana é como se Bolívar
tivesse voltado à Venezuela, donde o expulsou a oligarquia. Para mim,
vive-se uma autêntica revolução, e não se trata
apenas de um líder carismático, mas sim de milhões de
venezuelanos que há por detrás dele. É uma
revolução distinta de todas as outras, como são distintas
todas as revoluções.
Talvez o mais popular que Chávez possui seja o seu programa
"Aló Presidente", aos domingos na televisão, no qual
recebe chamadas telefónicas de toda a Venezuela e debate com o seu povo
durante 5, 6 e 7 horas. Durante essas horas, quase toda a Venezuela
pára. Contava-me uma escritora que o seu pai não sai da frente do
televisor desde que começa o programa até que termina. Outro
contava-me do filho, de caderno e lápis tomando notas como numa aula, e
lhe chama a sua "aula". Todos os domingos esse programa se realiza
numa localidade diferente. Quando estive na Venezuela, fui convidado por
Chávez para o seu "Alô Presidente" numa cidade
não muito longe de Caracas e que durou 6 horas. Havia grandes toldos com
vários milhares de pessoas, principalmente gente humilde do lugar,
sobretudo rapazes e raparigas, de mistura com ministros e altos
funcionários. Ele estava em camisa, diante de uma mesa em que havia um
mapa-múndi e lápis. Apontava o que lhe diziam nas chamadas, e
dava longas respostas muito detalhadas, dizendo frequentes graças, e o
público também intervinha e gracejava com ele.
Dei-me conta que é um homem culto, que cita muito autores e livros, e se
referia com frequência à Constituição levantando o
livro que também sempre anda consigo. Pareceu-me um caso único no
mundo, o de um Chefe de Estado em conversa franca com o seu povo, os presentes
e os ausentes, num programa ao vivo e durante tantas horas seguidas.
Uma poetisa australiana assistiu junto comigo a esse programa, e enquanto ele
fazia uma descrição da paisagem que nos rodeava e dos cerros em
que uma vez acampou Bolívar, ela gritou-lhe: "¡Tu és
poeta!".
É uma torrente verbal, cheia de digressões e digressões e
digressões, mas retoma o fio volta ao que tinha começado a dizer.
E se bem que fale sem parar, também sabe ouvir, e deixa-se interromper.
Naquele "Alô Presidente", uma mulher do povo que lhe telefonava
de um remoto canto do país, tirava-lhe a palavra:
"Pero corazoncito escucha, no me dejas hablar, deja que te
explique...".
A essas chamadas respondia com o lápis na mão. O seu manuseio de
números é como o de Fidel. Demonstra um grande conhecimento da
História da Venezuela. Também da Geografia pois nestas
audições públicas faz campanha para promover a leitura,
recomenda livros e recita. Dessa vez, em atenção a mim, leu um
poema meu.
Entre os seus defeitos conta-se o de ser impulsivo, o actuar às vezes
com brusquidão, talvez com arbitrariedade; o de ser demasiado exigente
com os seus colaboradores, pelo que é difícil trabalhar com ele,
conforme ele próprio reconhece. Mas admite facilmente os seus erros e as
suas falhas. Naquela ocasião ouvimo-lo atribuir-se a culpa por
decisões erradas.
A hierarquia católica é contrária à
revolução, como em toda a parte. E, tal como na Nicarágua,
é corrupta. O presidente da Conferência Episcopal é dos
piores. O cardeal, já falecido, foi ter com Chávez quando os
golpistas o tinham preso, e pressionou-o para que renunciasse.
Em Caracas há um edifício branco muito grande e muito belo, que
era a sede central de Petróleos de Venezuela. Ali a riqueza
petrolífera era autonomamente administrada, sem que o Estado pudesse
intervir em nada, e essa riqueza era roubada. Só agora, mediante a nova
Constituição, o governo conseguiu obter o controle da empresa.
Chávez despediu milhares de pessoas corruptas e expulsou todos os que
estavam nesse edifício branco, que converteu em sede da Universidade
Bolivariana, a universidade dos pobres.
Agora, milhares de estudantes pobres estudam ali, em cintilantes
escritórios com fofas almofadas, casas de banho de luxo e poltronas de
couro. (A princípio, Chávez pensou dar-lhes o palácio de
Miraflores, porque dizia ele que se podia acomodar em qualquer parte).
Antes disto, a revolução venezuelana teve de enfrentar uma greve
petrolífera que paralisou por dois meses o país. Sabotaram os
poços, as refinarias e os oleodutos, encerraram as gasolineiras,
sabotaram os barcos, bloquearam os portos. Não havia gasolina para os
veículos nem gás para as cozinhas, e em muitas localidades do
país cozinhava-se com lenha. Ao mesmo tempo, encerraram os supermercados
e outros grandes comércios e as processadoras e distribuidoras de
alimentos.
O governo teve que importar petróleo aos preços internacionais,
bem como enormes quantidades de alimentos: carnes do Brasil, leite da
Colômbia, arroz e milho da República Dominicana. O governo
instalou também em todo o país supermercados populares, onde o
povo podia comprar a preços mais baixos, e estes mantêm-se desde
então. As Festas do Natal foram passadas com estas carências de
tudo, mas o povo não se rendeu. Uma espanhola que lá esteve
nesses dias e agora de novo voltou, contou-me que o povo aguentou com toda a
espécie de inventivas e com humor. As filas eram enormes e para
qualquer coisa que fosse, mas nessas filas não se desesperavam, nem
culpavam Chávez.
No mesmo domingo em que assisti ao "Alô Presidente", todos os
poetas do festival fomos convidados a jantar com Chávez no
palácio de Miraflores. Apesar de Chávez acabar de chegar do
programa de 6 horas, antes do jantar teve uma conversa de mais de duas horas
connosco. Contou-nos que o salão em que estávamos tinha sido onde
se haviam reunido todos os golpistas, e onde o presidente da Câmara de
Empresários se tinha ajuramentado a si mesmo como o único poder,
abolindo o Congresso Nacional, o Tribunal de Justiça e o Tribunal
Eleitoral, enquanto todos davam vivas à democracia.
Uns irlandeses que estavam a fazer um trabalho cinematográfico em
Miraflores quando do golpe, filmaram tudo isto, e Chávez deu-nos
cópias dessa película. Foi o golpe militar mais breve do mundo,
pois os pobres cercaram Miraflores, além de que em todo o país o
povo saiu às ruas, os camponeses saíram às estradas, os
estudantes ocuparam as universidades e os trabalhadores as fábricas, e
os indígenas saíram da selva. Quando Chávez foi libertado
da ilha onde o tinham, já o chefe golpista estava preso.
"La revolución bonita", chama Chávez à da
Venezuela
No jantar, calhou-me ficar sentado ao lado do Presidente. Enquanto
jantávamos, acercou-se alguém a informá-lo de uma
tentativa de privatizar as águas da Venezuela (lagos, lagunas, rios, o
Orinoco incluído) e disse-me ele que isso ia contra a
Constituição e que pararia o processo, que essa mesma noite ia
chamar o presidente da Assembleia, mesmo sendo já perto da meia-noite.
Depois que se retirou, e nós íamos fazer o mesmo, disse-me um
empregado do palácio:
"Não se vai deitar; deita-se muito tarde". Perguntei-lhe a que
horas se levantava, e respondeu-me: "Muito cedo".
Antes de se retirar, Chávez pediu-me a bênção.
Escusei-me, como às vezes faço, dizendo-lhe que já estava
bendito. Mas ele insistiu, e vi que o pedia muito a sério, e que isso
era importante para ele. Dei-lhe uma bênção solene, a ele
e ao seu povo, e recebeu-a emocionado.
Quando regressei à Nicarágua, apenas vendo uns títulos de
jornal, tomei consciência do abismo que separa os nossos dois
países.
[*]
Sacerdote nicaraguense. Participou do governo sandinista.
O original encontra-se em
El Nuevo Diario
, de Manágua, e em
http://www.rebelion.org/venezuela/040504ecardenal.htm
. Tradução de Carlos Coutinho.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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