As emissoras de TV trapaceiam o público ao negar-lhe documentários poderosos

por John Pilger

Clique para ampliar (323kB). A Grã-Bretanha continua a ser um dos poucos países onde ainda são mostrados documentários na televisão nas horas em que a maior parte das pessoas está acordada. Mas documentários que vão contra a visão estabelecida e são informativos estão a tornar-se uma espécie em perigo, no exacto momento em que mais precisamos deles. Isto será uma tragédia, pois o público da TV neste país está não só habituado como deseja um conjunto ecléctico de programas — ao contrário dos EUA, onde as pessoas esperam que a televisão seja pouco mais do que um centro comercial com artistas de rua (buskers) . O Fox Channel de Rupert Murdoch, uma paródia de jornalismo, ajusta-se perfeitamente a esta definição, e ele quer que tenhamos o mesmo.

Inquérito após inquérito, quando se pergunta às pessoas os que elas mais gostariam de ter na televisão, respondem: documentários. Não acredito que queiram dizer documentários burla sobre aeroportos e agentes imobiliários. Nem querem eles dizer com isso um tipo de "negócios actuais" que seja uma plataforma para políticos e "peritos" do establishment e que meramente gesticulam para a verdade, evidenciando um equilíbrio especioso entre as grandes potências e as suas vítimas, entre opressores e oprimidos. Eles querem dizer aquilo que James Cameron chamou "jornalismo da narração verdadeira fixado em filme": documentários que são a antítese de notícias, que desnudam as fachadas da "verdade oficial" e recuperam os factos desagradáveis e o contexto histórico do buraco da memória a que o noticiário "imparcial" os remeteu.

A escritora indiana Vanda Shiva tinha isto em mente quando descreveu, "a insurreição do conhecimento subjugado" contra o "conhecimento dominante" do poder opressor. Se não tivesse havido Death on the Rock e A Licence to Murder , de John Ware, muitos de nós não teriamos sabido do papel criminoso e secreto do Estado britânico na guerra da Irlanda do Norte.

Os opositores a esta espécie de jornalismo televisivo realmente independente nunca estiveram melhor organizados ou foram mais ruidosos. Os meus últimos dois documentários para a ITV, Breaking the Silence e Palestine is Still the Issue , foram sujeitos a campanhas políticas de queixas orquestradas, muitas vezes odiosas, originadas principalmente nos EUA, onde o filme nunca foi exibido. No entanto, a Independent Television Commission investigou, e o meu produtor e eu tivemos de explicar e justificar quase todas as sequências, factos e fontes. O processo levou seis meses, no fim dos quais a ITC concluiu que ambos os filmes eram equilibrados, justos e precisos. O filme da Palestina foi louvado pela "perfeição da sua pesquisa e pela sua integridade".

Os aspirantes a censores são não só os frenéticos remetentes de emails dos grupos sionistas americanos, mas também aqueles jornalistas liberais do establishment neste país que estão na campanha de recuperação de um desacreditado primeiro-ministro. Estes tribunos têm-se manifestado na imprensa ultimamente deplorando a influência dos media sobre a "política" (eles querem dizer as mentiras de Blair sobre o Iraque) e exigindo que os jornalistas retornem aos "valores básicos" (autocensura). O relato de Ron Nail para a BBC, uma reacção ao branqueamento Hutton, é parte disto; os jornalistas da BBC que ofendem o governo têm de tomar cuidado.

O aspecto reflectido de tudo isto é que a grande maioria dos media britânicos, especialmente a BBC, obedientemente canalizaram e reproduziram as mentiras do governo anteriores à invasão, ao invés de desafiá-las e expô-las como jornalistas numa democracia real deveriam fazer. Segundo Charles Lewis, o antigo jornalista estrela da televisão americana que agora dirige o Center for Public Integrity, uma unidade de investigação independente em Washington, o Iraque não teria sido atacado se os jornalistas americanos tivessem cumprido a sua tarefa e alertado o público para as falsificações de Bush e Blair.

Pode-se dizer o mesmo do jornalismo britânico? Não o suficiente. The Independent e o Daily Mirror romperam as fileiras e, agora e então, The Guardian . Contudo, entre todas as grandes emissoras de rádio e TV do mundo, segundo um estudo da Media Tenor, a BBC deu a mais pequena cobertura à dissensão anti-guerra, até menos do que as redes americanas. Por outras palavras, as visões da maioria dos britânicos foram ignoradas. Toda aquela conversa sobre imparcialidade é, naturalmente, conversa. A BBC, na sua linguagem, com ênfases e omissões, apoiou todas as guerras de que há memória. Após Hutton, mesmo as suas honrosas excepções mantêm-se silenciosas.

Tal como o vejo, só documentários podem dar sentido às imposições do poder desenfreado que agora afecta toda a nossa vida. E mesmo assim dentro da indústria há uma resistência a documentários que têm um eco familiar: "Eles não dão audiência". Como o Channel 4 descobriu, os documentários muitas vezes dão melhores taxas de audiência do que certos shows e programas "reality". Mas não é isso que importa. Documentários fazem avaliações de um modo que clama por reconhecimento. Death of a Nation: the Timor Conspiracy , que fiz em 1994 com David Munro, foi seguido por telefonemas do público à razão de 4000 chamadas por minuto segundo a British Telecom, e isto continuou bem após a meia noite. Quando uma versão actualizada foi mostrada quatro anos depois, mais de 150 mil chamadas foram registadas dentro dos 25 segundos que se seguiram ao fim do filme. E este foi um filme sobre um pequeno país que poucos sabiam existir.

Minha tese é que a qualidade da resposta do público a documentários poderosos é pelo menos tão importante como medida de popularidade, de interesse público, como as audiências. Isto não significa que os produtores de documentários possam descansar o seu julgamento sobre as conveniências da "emissão de serviço público". Os espectadores hoje em dia não estão preparados para aceitar uma noção paternalista que remonta a Lord Reith, o fundador da BBC e autor de formas inspiradas de propaganda do establishment. Isto prolonga-se, juntamente com um corporatismo exemplificado pelos valores de Murdoch, ao qual Blair prometeu apoiar muito antes de chegar ao poder. Ao anunciar recentemente "menos intrusão", o novo regulador do governo, a Ofcom, está a cumprir aquela promessa.

Os espectadores merecem o melhor; e os produtores de documentários verdadeiros, na verdade todos os que trabalham em redes de TV, têm uma responsabilidade especial: a partir do seu canto, combater como nunca antes.


Ver também:
  • "Media Class War: Firing Shots Across the Edwards Bow"
    by Norman Solomon, CommonDreams.og (July 08 2004)
    http://www.commondreams.org/views04/0708-15.htm

  • "Butler acts to prevent PM 'spinning' his report"
    by Marie Woolf, The Independent (July 12 2004)
    http://news.independent.co.uk/uk/politics/story.jsp?story=540136

  • "Greasing up to power" by George Monbiot, The Guardian/UK (July 13 2004)
    http://www.guardian.co.uk/Columnists/Column/0,5673,1259935,00.html

  • "The 'prop-agenda' war" by Miren Gutierrez, Asia Times (July 02 2004)
    http://www.atimes.com/atimes/Front_Page/FG02Aa02.html

    O original encontra-se em The Independent (06/Jul/2004) e em http://pilger.carlton.com/

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info .
  • 21/Jul/04