Será que recursos partilhados serão sempre mal usados ou
utilizados em excesso? Será a propriedade de terras, florestas e
recursos pesqueiros pela comunidade um caminho garantido para o desastre
ecológico? Será a privatização o único meio
de proteger o ambiente e acabar com a pobreza no Terceiro Mundo? A maior parte
dos economistas e planeadores do desenvolvimento responderá
"sim" e como prova indicarão o mais influente artigo
já escrito sobre estas importantes questões.
Desde a sua publicação na revista
Science
em Dezembro de 1968, o artigo "A tragédia dos baldios"
("The Tragedy of the Commons")
foi reproduzido em pelo menos 111 livros, tornando-o um dos mais reimpressos
alguma vez aparecidos em qualquer revista científica. É
também um dos mais citados: uma pesquisa recente no Google descobriu
"cerca de 302 mil resultados para a frase "tragedy of the
commons".
Durante 40 anos ele foi, nas palavras de um World Bank Discussion Paper,
"o paradigma dominante pelo qual cientistas sociais avaliam
questões relativas a recursos naturais" (Bromley e Cernea 1989;6).
O artigo foi usado repetidamente para justificar o roubo de terras de povos
indígenas, a privatização de cuidados de saúde e
outros serviços sociais, a entrega a corporações de
"licenças comerciáveis" para poluir o ar e a
água, e muito mais.
O famoso antropólogo Dr. G.N. Appel (1995: 34-5) escreve que o artigo
"foi abraçado como um texto sagrado por académicos e
profissionais na prática de conceber futuros para os outros e impor a
sua própria racionalidade económica e ambiental sobre outros
sistemas sociais dos quais eles têm um entendimento e conhecimento
incompletos".
Tal como a maior parte dos textos sagrados, "The Tragedy of the
Commons" é mais frequentemente citado do que lido. Como veremos,
embora o seu título soe autorizado e científico, ele está
muito longe da ciência.
Garrett Hardin incuba um mito
O autor de "A tragédia dos baldios" foi Garrett Hardin, um
professor da Universidade da Califórnia que até então era
mais conhecido como autor de um manual de biologia que argumentava em favor do
"controle da procriação" para pessoas
"geneticamente deficientes" (Hardin 1966: 707). No seu ensaio de
1968 ele argumentou que as comunidades que partilham recursos inevitavelmente
preparam o caminho para a sua própria destruição. Assim,
ao invés de riqueza para todos não haverá riqueza para
ninguém.
A sua argumentação baseava-se numa ficção acerca
dos baldios
(commons)
na Inglaterra rural.
(O termo "commons" era utilizado na Inglaterra para mencionar os
pastos, campos, florestas, sistemas de irrigação e outros
recursos partilhados que se encontravam em muitas áreas rurais
até o século XIX. Organizações comunais de
agricultura semelhantes existiram na maior parte da Europa, e elas ainda
existem hoje em várias formas por todo o mundo, particularmente em
comunidades indígenas).
"Imagine um pasto aberto para todos", escreveu Hardin. Um vaqueiro
que quer expandir o seu rebanho pessoal calculará que o custo do animal
adicional (redução do alimentos para todos os animais,
esgotamento rápido do solo) será dividido entre todos, mas ele
sozinho obterá o benefício de ter mais gado para vender.
Inevitavelmente, "o vaqueiro racional conclui que o único caminho
para avançar é acrescentar outro animal à sua
manada". Mas todo "vaqueiro racional" fará a mesma
coisa, de modo que em pouco tempo os baldios estarão demasiado cheios e
os pastos demasiado gastos até o ponto em que já não
suportarão quaisquer animais.
Hardin utilizou a palavra "tragédia" tal como o fez
Aristóteles, referindo-se a uma consequência dramática que
é inevitável e resultado não planeado de
acções de personagens. Ele denominou a destruição
dos baldios através da super-utilização como
tragédia não por ser penosa, mas por ser o resultado
inevitável do uso partilhado do pasto. "Liberdade num baldio traz
ruína para todos".
Onde está a prova?
Dada a subsequente influência do ensaio de Hardin, é chocante
perceber que não apresentou qualquer prova para apoiar as suas vastas
conclusões. Afirmou que a "tragédia" era
inevitável mas não mostrou que isto alguma vez tivesse
acontecido.
Hardin simplesmente ignorou o que realmente acontece num baldio real: a
auto-regulação pelas comunidades envolvidas. Um de tais
processos foi descrito anos antes num texto de Friedrich Engels sobre a
"mark", a forma tomada pelos baldios baseados em comunidades em
partes da Alemanha pré-capitalista:
A utilização da terra arável e das pastagens estava sob a
supervisão e direcção da comunidade...
Assim como a fatia de cada membro em tanto da "mark" como fora
distribuída era de igual dimensão, assim era também a sua
fatia na utilização da "common mark". A natureza desta
utilização era determinada pelos membros da comunidade como um
todo...
Em tempos fixados e, se necessário, mais frequentemente, eles
encontravam-se ao ar livre a fim de discutir os assuntos da mark e decidir um
julgamento sobre rupturas de regulações e disputas referentes
à mark. (Engels 1892)
Historiadores e outros académicos confirmaram amplamente a
descrição de Engels da administração comunal de
recursos partilhados. Um sumário de investigações
recentes conclui:
O que existiu de facto não foi uma "tragédia dos
baldios" mas ao invés disso um triunfo: que durante centenas de
anos e talvez milhares, embora não haja registos escritos para
demonstrar um período mais longo a terra foi administrada com
êxito pelas comunidades. (Cox 1985: 60)
Parte daquele processo de auto-regulação era conhecido na
Inglaterra como "parcimónia"
("stinting")
estabelecendo limites para o número de vacas, porcos, carneiros
e outro gado que cada membro da comuna
(commoner)
podia pastorear no pasto comum. Tais "parcimónias" protegiam
a terra da utilização excessiva (um conceito que agricultores
experientes entenderam muito antes da chegada de Hardin) e permitiam à
comunidade distribuir recursos de acordo com os seus próprios conceitos
de justiça.
Os únicos casos significativos de super saturação [de
pastos] encontrados pelos principais peritos modernos sobre os baldios ingleses
envolviam latifundiários ricos que deliberadamente colocaram demasiados
animais nas pastagens a fim de enfraquecer a posição dos seus
vizinhos mais pobres em disputas sobre as privatizações
(enclosures)
de terras comuns (Neeson 1993: 156).
Hardin assumiu que camponeses são incapazes de mudar o seu comportamento
em face do desastre inevitável. Mas no mundo real, pequenos
agricultores, pescadores e outros criaram as suas próprias
instituições e regras para preservar recursos e assegurar que a
comunidade dos baldios sobrevivesse nos anos bons e nos maus.
Por que o vaqueiro há de querer mais?
O argumento de Hardin arrancava com a afirmação não
provada de que os vaqueiros querem sempre expandir as suas manadas:
"É de esperar que cada vaqueiro tentará manter tanto gado
quanto possível sobre os baldios... Como um ser racional, cada vaqueiro
procura maximizar o seu ganho".
Em suma, a conclusão de Hardin foi predeterminada pelas suas
hipóteses. "É de esperar" que cada vaqueiro
tentará maximizar o tamanho da sua manada e que cada um faz
exactamente isso. É um argumento circular que nada prova.
Hardin assumiu que a natureza humana é egoísta e imutável
e que a sociedade é apenas um agrupamento de indivíduos
interesseiros que não se importam quanto ao impacto das suas
acções sobre a comunidade. A mesma ideia, explícita ou
implicitamente, é um componente fundamental da corrente dominante (isto
é, pro-capitalista) da teoria económica.
Toda a evidência (para não mencionar o senso comum) mostra que
isto é absurdo: as pessoas são seres sociais, e a sociedade
é muito mais do que a soma aritmética dos seus membros. Mesmo a
sociedade capitalista, a qual premeia a maior parte dos comportamentos
anti-sociais, não esmagou a cooperação humana e a
solidariedade. O simples facto de que durante séculos o "vaqueiro
racional" não tenha super-pastoreado os baldios desmente as
suposições mais fundamentais de Hardin mas isso não
impediu a ele ou aos seus discípulos de erguerem na política
económica castelos sobre fundações de areia.
Mesmo se este vaqueiro quisesse comportar-se como Hardin descreveu, ele
não poderia fazê-lo a menos que existissem certas
condições.
Teria de haver um mercado para o gado, e ele teria de estar focado em produzir
para aquele mercado, não para o consumo local. Ele teria de ter
bastante capital para comprar o gado adicional e a ração que
precisaria no Inverno. Teria de ser capaz de contratar trabalhadores para
cuidar de um rebanho maior, construir maiores silos, etc. E o seu desejo de
lucro teria de sobrepujar o seu interesse a longo prazo na sobrevivência
da sua comunidade.
Em suma, Hardin não descreveu o comportamento de vaqueiros em
comunidades agrícolas pré-capitalistas ele descreveu o
comportamento de capitalistas a operarem numa economia capitalista. A natureza
humana universal que ele afirmou destruir sempre os recursos comuns é
realmente o comportamento de corporações guiadas pelo curo,
"cresça ou morra".
Será que a propriedade privada faz melhor?
Isto conduz-nos a um outro viés fatal na argumentação de
Hardin: além de não apresentar evidência de que a
manutenção dos baldios inevitavelmente destruirá o
ambiente, ele não apresentou justificação para a sua
opinião de que a privatização o salvaria. Mais uma vez,
ele simplesmente apresentou os seus próprios preconceitos como facto:
Devemos admitir que o nosso sistema legal de propriedade privada mais
herança é injusto mas nós aturamos isto porque
não estamos convencidos, por enquanto, que alguém tenha inventado
um sistema melhor. A alternativa dos baldios é demasiado horripilante
para contemplar. A injustiça é preferível à
ruína total.
A implicação é que proprietários privados
farão melhor a tarefa de cuidar do ambiente porque eles querem preservar
o valor dos seus activos. Na realidade, académicos e activistas
documentaram um grande número de casos nos quais a divisão e a
privatização de terras administradas comunalmente teve resultados
desastrosos. A privatização de baldios repetidamente levou
à desflorestação, erosão do solo e esgotamento,
super-utilização de fertilizantes e pesticidas e à
ruína de eco-sistemas.
Como escreveu Karl Marx, a natureza exige longos ciclos de nascimento,
desenvolvimento e regeneração, mas o capitalismo exige retornos a
curto prazo.
Todo o espírito da produção capitalista, a qual é
orientada para os lucros monetários mais imediatos, posiciona-se em
contradição com a agricultura, a qual tem de preocupar-se com
toda a gama das condições de vida permanentes exigida pela cadeia
das gerações humanas. Uma ilustração gritante
disto é fornecida pelas florestas, as quais só raramente
são administradas de um modo mais ou menos correspondente aos interessas
da sociedade como um todo... (Marx 1998: 611n)
Ao contrário da afirmações de Hardin, a comunidade que
partilha campos e florestas tem um forte incentivos para protegê-las
tão bem quanto puder, mesmo que isto signifique não maximizar a
produção actual, porque aqueles recursos serão essenciais
para a sobrevivência da comunidade durante séculos. Os
proprietários capitalistas têm o incentivo oposto, porque eles
não sobreviverão no negócio se não maximizarem o
lucro a curto prazo. Se o etanol promete lucros maiores e mais rápidos
do que florestas húmidas seculares, as árvores serão
derrubadas.
Este foco sobre o ganho a curto prazo atingiu um ponto de um absurdo aterrados
em livros recentes de Bjorn Lomborg, William Nordhaus e outros, que argumentam
ser irracional gastar dinheiro para parar emissões de gases com efeito
de estufa
[1]
hoje porque o benefício está demasiado distante no futuro.
Outros investimentos, dizem eles, produzirão muito melhores retornos,
mais rapidamente.
A administração comunitária não é um caminho
infalível de proteger recursos partilhados: algumas comunidades
administraram mal recursos comuns, e alguns baldios foram super-utilizados
até à extinção. Mas nenhuma comunidade com base em
baldios tem impulso intrínseco para por lucros actuais à frente
do bem estar de gerações futuras.
Um mito politicamente útil
A coisa verdadeiramente aterradora acerca de "A tragédia dos
baldios" não é a sua falta de evidência ou
lógica artigos mal investigados e mal argumentados não
são desconhecidos em revistas académicas. O que é
chocante é o facto de que esta peça de insensatez
(nonsense)
reaccionária tenha sido saudada como uma análise brilhante das
causas do sofrimento humano e da destruição ambiental, e adoptada
como uma base para políticas sociais por supostos peritos que vão
desde economistas e ambientalistas até governos e agências das
Nações Unidas.
Apesar de ter sido refutado vezes sem conta, ele ainda é utilizado hoje
para apoiar a propriedade privada e mercados não controlados como
caminhos seguros para o crescimento económico.
O êxito do argumento de Hardin reflecte a sua utilidade como uma
explicação pseudo-científica da pobreza global e da
desigualdade, uma explicação que não questiona a ordem
social e política dominante. Ele confirma os preconceitos daqueles no
poder: erros lógicos e factuais nada são em
comparação com a afirmação muito atraente (para os
ricos) de que os pobres são responsáveis pela sua própria
pobreza. O facto de que o argumento de Hardin também culpe os pobres
pela destruição ecológica é um bónus extra.
O ensaio de Hardin tem sido amplamente utilizado como uma resposta
ideológica aos movimentos anti-imperialistas no Terceiro Mundo e ao
descontentamento entre indígenas e outros povos oprimidos por toda a
parte do mundo.
A fábula de Hardin foi adoptada pelas forças conjuntas da
reacção neoliberal na década de 1970, e o seu ensaio
tornou-se o fundamento "científico" das políticas do
Banco Mundial e do FMI, tendo em vista a privatização de baldios
e a privatização da propriedade pública... A mensagem
é claro: nunca deveremos tratar a terra como um "tesouro
comum". Devemos ser implacáveis e gananciosos ou então
pereceremos. (Boal 2007)
No Canadá, lobbystas conservadores utilizam argumentos derivados do
panfleto político de Hardin para explicar a pobreza nas reservas das
Primeiras Nações e argumentar por novos desmantelamentos de
comunidades indígenas. Um estudo publicado pelo influente Fraser
Institute insta à privatização de terras das reservas:
Estas grandes quantidades de terras, com seus respectivos recursos naturais,
nunca renderão o seu benefício máximo para o povo nativo
do Canadá enquanto elas permanecerem como propriedade colectiva sujeita
a administração política... A propriedade colectiva
é o caminho da pobreza, e a propriedade privada é o caminho da
prosperidade. (Fraser 2002: 16-17)
Isto não é apenas o posicionamento da extrema direita. O governo
federal do Canadá, o qual recusou-se a assinar a
Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos de
Povos Indígenas, anunciou em 2007 que "desenvolverá
abordagens para apoiar o desenvolvimento da propriedade individual sobre a
reserva" e criou um fundo de $300 milhões para fazer exactamente
isso.
No mundo de Hardin, a pobreza nada tem a ver com séculos de racismo,
colonialismo e exploração: a pobreza é inevitável
e natural em todos os tempos e lugares, o produto da imutável natureza
humana. Os pobres provocam-na para si mesmos por terem demasiados bebés
e agarrarem-se ao colectivismo auto-destrutivo.
A tragédia dos baldios é um mito político útil
um meio que parece científico de dizer que não há
alternativa à ordem mundial dominante.
Despojado do excesso de verborreia, o ensaio de Hardin asseverava, sem prova,
que os seres humanos são prisioneiros indefesos da biologia e do
mercado. A menos que refreados, nós inevitavelmente destruiremos nossas
comunidades e nosso ambiente por uns poucos tostões de lucro.
Não há nada que possamos fazer para tornar o mundo melhor ou mais
justo.
Em 1844 Friedrich Engels descreveu um argumento semelhante como uma
"blasfémia repulsiva contra o homem e a natureza". Aquelas
palavras aplicavam-se com plena força ao mito da tragédia dos
baldios.
Obras citadas
Appell, G. N. 1993. "Hardin's Myth of the Commons: The Tragedy of
Conceptual Confusions."
Boal, Iain. 2007. "Interview: Specters of Malthus: Scarcity, Poverty,
Apocalypse." CounterPunch, September 11, 2007.
Bromley, Daniel W. and Cernea Michael M. 1989. "The Management of Common
Property Natural Resources: Some Conceptual and Operational Fallacies."
World Bank Discussion Paper.
Cox, Susan Jane Buck. 1985. "No Tragedy on the Commons."
Environmental Ethics 7.
Engels, Friedrich. 1892. "The Mark."
Engels, Friedrich. 1844. Outlines of a Critique of Political Economy.
Fraser Institute. 2002. Individual Property Rights on Canadian Indian
Reserves.
Hardin, Garrett. 1966. Biology: Its Principles and Implications. Second
edition. San Francisco. W.H. Freeman & Co.
Hardin, Garrett. 1968. "The Tragedy of the Commons."
Marx, Karl. [1867] 1998. Marx EngelsCollected Works Vol. 37 (Capital, Vol.
3). New York: International Publishers
Neeson, J.M. 1993. Commoners: Common Right, Enclosure and Social Change in
England, 1700-1820. Cambridge University Press.
Nota de resistir.info:
[1] Trata-se de um mito, o qual é dissecado pelo grande climatologista
francês
Marcel Leroux, falecido em 12/Agosto/2008, no artigo
Aquecimento global: uma impostura científica
e no seus livros. Dentre eles destacam-se:
Global Warming - Myth or Reality: The Erring Ways of Climatology
,
Dynamic Analysis of Weather and Climate: Atmospheric Circulation, Perturbations, Climatic Evolution
,
The Meteorology And Climatic of Tropical Africa
,
La dynamique du temps et du climat
. Uma entrevista recente do Prof. Marcel Leroux encontra-se em
http://www.dailymotion.com/video/k4KneMdjV5jpTmlJEU
.
[*]
Editor de Climate and Capitalism,
www.climateandcapitalism.com
,
e editor associado de Socialist Voice,
www.socialistvoice.ca
.
O original encontra-se em
http://mrzine.monthlyreview.org/angus250808.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.