No xadrez geopolítico, xeque ao hegemónico

Daniel Vaz de Carvalho

Megalosauro.

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O xadrez geopolítico tem como adversários os EUA-UE-NATO e aliados (abreviadamente o ocidente) e a Rússia-China e aliados. Dois lances da Rússia-China colocaram em xeque o ocidente, cujo jogo tinha ficado bastante fragilizado com a reeleição de Putin. Não se tratou apenas dos impressionantes 87% em eleições altamente participadas com centenas de observadores internacionais, mas também das felicitações vindas de todos os continentes, enquanto no ocidente as consideravam "ilegais". Pelos vistos ainda não perceberam em que mundo vivem. [1]

A declaração de Putin de que "quanto a Karkov de momento não temos plano para ocupar a cidade", anula a jogada de militarização da UE/NATO, dado que vencida a Ucrânia a Rússia iria invadir a Europa, da Polónia talvez até Lisboa.

A partir do momento em que se tornou evidente a derrota da guerra da NATO por procuração na Ucrânia, a propaganda passou do triunfalismo idiota para uma espécie de pânico não menos idiótico, atestando a incapacidade de previsão dos estrategas do ocidente e seus propagandistas. Assim, de repente, devido à ameaça de uma "invasão russa", propagam uma economia de guerra, passou a ser urgente discutir o serviço militar obrigatório, aumentar as despesas militares para mais de 2% do PIB, querer enviar tropas para a Ucrânia (além das que formal ou informalmente já lá estão) e que o material fornecido pela NATO possa atacar o interior da Rússia.

Embora tudo possa levar o mundo a uma guerra nuclear, faz parte da palração de gente cuja missão se limita a apoiar a NATO, sem medir as consequências do que diz. São pagos para isso – claques – mas irresponsáveis e sobretudo ignorantes na matéria. Fazem parte do jogo inconsequente, incapaz de inverter ou mesmo alterar a situação em que os estrategas do ocidente se colocaram.

Vem então a declaração conjunta de Putin e Xi Jinping que coloca o ocidente na situação de assumir a derrota no jogo que provocou e partir para outro jogo em que não tem a primazia (não joga com as "brancas", não lhe compete a jogada inicial) ou então desistir do "xadrez" geopolítico e passar à violência direta. Diga-se que o ocidente está muito mal colocado em ambos os casos.

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A declaração conjunta da China e da Russia não é apenas um extenso registo da colaboração entre os dois países em todos os campos, incluindo o militar, constitui uma recusa determinada do mundo unipolar liderado pelos EUA. Define a filosofia política que os dois países apresentam ao mundo para o século XXI e que estão a implementar com nítido sucesso.

A incapacidade de análise, cobardia intelectual ou dever de obediência, levou os "comentadores" a ignorarem o texto e o que representa para as vidas de todos, perdendo-se a fantasiar sobre alegados antagonismos históricos entre os dois países ou mentindo – estupidamente – de que 90% das exportações da China seriam para o ocidente – ou seja, a China não pode passar sem "nós"!

Toda esta deformação da realidade histórica e atual esquece várias coisas. Primeiro, se recriminações o povo chinês tem a fazer são às potências ocidentais e ao imperialismo japonês, com guerras de agressão, ocupação, a infame guerra do ópio, o tratamento como sub-humanos, etc. [2] Segundo: a afirmação geopolítica depende de um conjunto de fatores interligados, destacando-se: o potencial económico, a capacidade militar, a credibilidade e influência internacional. Áreas em que o ocidente tem apresentado um continuado declínio.

O texto ultrapassa a formalidade de uma reunião entre Chefes de Estado, o que está em causa é a definição de um novo relacionamento entre Estados, designado por multipolaridade, que consideram em acelerada consolidação. A multipolaridade, conforme defendem, contribuiu para a democratização das relações e da justiça internacional, no respeito e pleno cumprimento incondicional dos objetivos e princípios da Carta das Nações Unidas.

Na visão exposta da multipolaridade, todos os países têm o direito de escolher de forma independente o seu próprio modo de desenvolvimento, sistemas políticos, económicos e sociais, de acordo com as condições nacionais e os desejos de seu povo, opondo-se à ingerência nos assuntos internos de Estados soberanos, às sanções unilaterais e à “jurisdição de armas longas”, bem como a ações baseadas na ideologia. A multipolaridade opõe-se à politização das relações económicas internacionais, incluindo no trabalho de organizações multilaterais nas áreas de comércio, finanças, energia e transportes.

A par destas afirmações, o documento identifica claramente os que se opõem às teses da multipolaridade:   os países que aderem ao hegemonismo e à política de poder, tentando substituir e subverter a ordem baseada no direito internacional, por uma “ordem baseada em regras”, condenando-se no texto as ações unilaterais que contornam o Conselho de Segurança das Nações Unidas, violam o direito internacional e a Carta das Nações Unidas. O neocolonialismo e a hegemonia são apontados como totalmente contrários à promoção de intercâmbios e compreensão mútua entre civilizações, considerando inaceitável interferir nos assuntos soberanos dos Estados por meio de jurisdições multilaterais ou de um país.

As tentativas dos Estados Unidos de minar a estabilidade estratégica para manter sua superioridade militar absoluta, constituem uma "séria preocupação", para a Rússia e a China. Os EUA e o Reino Unido, desenvolvem com a Austrália a cooperação com submarinos nucleares, implementando um sistema para se implantarem no acesso às regiões da Ásia-Pacífico e da Europa. É também "séria preocupação" o facto dos Estados Unidos terem começado a tomar medidas para instalar sistemas de mísseis terrestres de alcance intermediário na região da Ásia-Pacífico sob o pretexto de realizar exercícios conjuntos com seus aliados que claramente têm como alvo a China e a Rússia.

O documento "condena com a maior veemência possível essas ações extremamente desestabilizadoras, que representam uma ameaça direta à segurança da China e da Federação Russa", que perante estas ameaças, fortalecerão a coordenação e cooperação "para lidar com a política não construtiva e hostil de “dupla contenção” dos Estados Unidos em relação à China e à Federação Russa." "A Rússia tem planos para implantar e fornecer aos seus aliados mísseis terrestres de curto e médio alcance."

O documento declara a oposição à formação de blocos fechados e exclusivos na Ásia e no Pacífico, especialmente alianças militares contra terceiros. Os movimentos destrutivos da NATO na região da Ásia-Pacífico têm um impacto negativo sobre a paz e a estabilidade estratégica na região da Ásia-Pacífico, como a Parceria de Segurança Trilateral EUA - Reino Unido - Austrália (AUKUS).

O que pode ser considerado como uma demarcação de campos é, além da situação de Taiwan, a clara afirmação do posicionamento da China e da Rússia opondo-se aos atos de dissuasão dos Estados Unidos e seus aliados na esfera militar, provocando o confronto e um possível conflito armado com a República Popular Democrática da Coreia. As duas partes instam os Estados Unidos a tomar medidas eficazes para aliviar as tensões militares na península, abandonar a intimidação, as sanções e a repressão e criar condições favoráveis para ser reiniciado o processo de negociação entre a República Popular Democrática da Coreia e os outros países envolvidos, com base no princípio do respeito mútuo, levando em consideração as preocupações de segurança de cada um. Os meios políticos e diplomáticos são a única saída para os problemas na península e apelam a todos os países para apoiarem a iniciativa conjunta construtiva da China e da Rússia.

Na sua declaração, a Rússia e a China expressaram claramente que "se opõem aos atos hegemónicos dos Estados Unidos para mudar o equilíbrio de poder no nordeste da Ásia, expandindo o seu poder militar e formando blocos militares. Os EUA aderem à mentalidade da Guerra Fria e ao modelo de confronto de campo, colocado a segurança de um “pequeno grupo” acima da segurança e da estabilidade da região, pondo em risco a segurança de todos os países.

Refira-se também a nota acerca da Convenção sobre Armas Biológicas:   deve ser totalmente cumprida, continuamente fortalecida e institucionalizada com um protocolo juridicamente vinculativo que contenha um mecanismo de verificação eficaz, mostrando-se profundamente preocupados com a politização da Organização para a Proibição de Armas Químicas.

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O documento não se limita a uma declaração de princípios:   ao identificar os seus adversários expõe a forma de combater as suas intenções. Trata-se não apenas de explicar o mundo, mas de o transformar no sentido exposto, uma transformação baseada nos princípios da multipolaridade, partindo da cooperação económica para o aprofundamento das relações diplomáticas e geopolíticas.

Em primeiro lugar, é dado destaque ao aperfeiçoamento da colaboração entre os BRICS e ao fortalecimento da sua cooperação nas áreas de comércio, economia digital e saúde pública. A desdolarização é neste contexto intensificada, "através do diálogo" promovendo as moedas dos diversos países na realização do seu comércio, "ferramentas de pagamento e plataformas para operações comerciais entre os países do BRICS."

É significativa a intenção de continuar a fortalecer a "cooperação estratégica e em vários campos com os países e organizações relevantes na América Latina e no Caribe, incluindo, a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC), o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), a Aliança do Pacífico (AP), a Comunidade Andina (CAN), a Aliança Bolivariana para as Américas (ALBA), o Sistema de Integração Centro-Americana (SICA), a Comunidade do Caribe (CARICOM) e outras organizações regionais, bem como organizações internacionais designadamente as Nações Unidas, o Grupo dos Vinte (G20) e o BRICS."

Ou seja, é desenhada uma integração económica que o ocidente diria "iliberal", convergindo para um padrão comum de relações que põem em causa o sistema de hegemonia unipolar do ocidente e o dólar como arma política. Com este objetivo, é afirmado que a Rússia e a China "fortalecerão a coordenação".

Como dissemos, partindo destes pressupostos avança-se para uma nova configuração da liderança mundial:   "aumentar a representação dos países do “Sul Global” no sistema de governação económica global. A Rússia e a China, dão as boas-vindas à União Africana como membro do Grupo dos Vinte (G20) e estão prontos para trabalhar de forma construtiva em benefício dos mercados emergentes e dos países em desenvolvimento."

O documento ao estipular a geopolítica do mundo multipolar pós-hegemonia ocidental, define claramente aquilo a que a Rússia e a China defendem e aquilo a que se opõem: defendem a manutenção da paz e da estabilidade no Médio Oriente e opõem-se à interferência nos assuntos internos dos Estados regionais. Apoiam uma solução abrangente, justa e duradoura para a questão da Palestina com base no direito internacional universalmente reconhecido, tendo a solução de dois Estados como elemento fundamental, com o estabelecimento de um Estado da Palestina independente nas fronteiras de 1967, com Jerusalém Oriental como sua capital, vivendo em paz e segurança ao lado de Israel.

Afirmam cooperar ativamente para consolidar a segurança na região do Golfo e promover a confiança mútua e o desenvolvimento sustentável entre os países da região. Apoiam a soberania, a independência, a unidade e a integridade territorial dos Estados da Síria e da Líbia e promovem um processo de solução política liderado pelos seus povos.

Relativamente ao Afeganistão, propõem-se fortalecer a cooperação, promover a sua independência e neutralidade, como país unido e pacífico, livre de terrorismo e narcóticos, em harmonia com os seus vizinhos. Apoiam o papel positivo desempenhado nas reuniões dos ministros das Relações Exteriores dos países vizinhos do Afeganistão, as consultas do Modelo de Moscovo sobre o Afeganistão, o Mecanismo Quadrilateral China-Rússia-Paquistão-Irão, a Organização de Cooperação de Xangai e outras plataformas regionais, na solução política da questão afegã.

Em África também a Rússia e a China têm substituído a presença ocidental, aparecendo como uma oportunidade para um número crescente de países se libertarem da tutela neocolonial. O documento refere-se à "manutenção de uma atmosfera sólida e saudável para a cooperação internacional em África, continuando a fortalecer a colaboração, contribuindo para apoiar os países africanos na solução dos seus problemas africanos de uma maneira africana."

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A multipolaridade é progressista? A pergunta desvia-nos do essencial. A multipolaridade não é ideológica e isto faz a sua força, provavelmente no futuro a sua fraqueza. Porém, é sem dúvida um progresso civilizacional:   não é anti-comunista, recusa a superioridade ou excecionalidade de uma nação ou de uma cultura em relação a outras, defende o respeito pela soberania de cada país, constituindo o interesse e o respeito mútuos a base das relações internacionais.

Se estes pressupostos tivessem sido respeitados, as tragédias para impor o mundo unipolar não teriam ocorrido, como na Coreia, no Vietname, ou os massacres na Indonésia, nem as guerras pós 2002 – alegadamente para combater o terrorismo – nem os dramas das "revoluções coloridas". Salvador Allende poderia ter prosseguido a sua experiência de socialismo, a social-democracia venezuelana poderia prosseguir sem interferências e a sabotagem das sanções, etc. A África poderia não ter sofrido com os Mobutus, a América Latina os crimes dos Pinochets, Vilelas e quejandos, todos apoiados pelo hegemónico. Na Europa não teria sido promovido o fascismo desde os anos 1960 com a Gládio e o assassinato físico ou político/mediático de líderes progressistas.

Ter o mundo sem estas ameaças, intrínsecas do mundo neocolonial e unipolar, é um efetivo avanço civilizacional. Contudo, no essencial a questão da multipolaridade vai passando ao lado de movimentos e partidos que se assumem de esquerda. Limitam a sua intervenção à agenda dos media e a uma relativa "irreverência".

O mundo está a mudar, mas aparentemente certas forças assumidas como progressistas acham que não se deve falar nisso porque as "pessoas" não entenderiam. Na Universidade Popular de Paris, ensinava-se marxismo aos operários que, como disse George Politzer, sabiam mais de filosofia que na Sorbona – o que aprendiam estava certo...

Se os EUA – e por acréscimo os seus aliados/vassalos – se consideram excecionais e que o direito internacional não se lhes aplica, em que posição fica a multipolaridade? Seria ingenuidade pensar que tudo se vai desenrolar pelos gabinetes e chancelarias. Não é por acaso que, perdida a guerra na Ucrânia, políticos e comentadores no ocidente falem numa guerra dentro cinco a oito anos contra a Rússia, pretendendo preparar-se para o efeito.

Grant Shapps, ministro da Defesa do RU, diz que a Rússia está aparentemente mais poderosa do que nunca e que uma aliança entre Moscovo e Pequim representaria uma “ameaça direta ao nosso modo de vida” (Geopolítica ao vivo, Telegram, 22/05). Mas será que as pessoas devem morrer na defesa de um "modo de vida" em que o 1% mais rico possui quase 50% da riqueza mundial e os 50% mais pobres possuem menos de 1%?

As partes em confronto irão prosseguir o embate em que em cada momento contam as forças e fragilidades de cada um: económicas, militares, geopolíticas. Em todos estes campos o ocidente tem demonstrado fragilidades insuperáveis dentro da via atual.

[1] Zelensky que, de acordo com a Constituição ucraniana, desde o passado dia 20 usurpa o poder como presidente, recusando-se a realizar eleições, passa nos media como símbolo da "democracia" que temos de defender.
[2] A visão que a China tem do seu passado mais ou menos recente, pode ser vista em: https://www.youtube.com/watch?v=tU1Ooouk9c0 , 100 anos PCC

24/Maio/2024

Ver também:
  • Declaração conjunta da República Popular da China e da Federação Russa sobre o aprofundamento da parceria estratégica colaborativa abrangente na nova era por ocasião do 75º aniversário do estabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países
  • Este artigo encontra-se em resistir.info

    26/Mai/24