As três guerras da Ucrânia: O confronto económico (3)

Daniel Vaz de Carvalho

Cartoon de Rakobuna.

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A guerra económica estrutura-se nas chamadas sanções. O poder imperial estende, ou pretende estender, ao mundo inteiro decisões tomadas nos seus órgãos políticos internos. Os vassalos obedecem ao soberano. No final da idade média, não foram as armas que anularam o poder imperial do papado foi o poder nascente dos banqueiros e as necessidades económicas dos reinos para se manterem.

Agora, o poder imperialista, evitando-se a guerra nuclear, será derrotado na esfera económica. A fragilidade do seu poder revela-se nos resultados das sanções com efeitos contrários aos pretendidos. Todas as decisões, individuais ou coletivas, têm consequências e uma das características do declínio de um sistema é precisamente as decisões tomadas terem efeitos contrários ao que na prática era pretendido e teoricamente era suposto. Ora, o sistema imperialista da "ordem liberal" não funciona na prática, a sua teoria está totalmente fora das realidades que enfrenta.

Os propagandistas, ignorando os efeitos das sanções sobre os países que as aplicam, agarram-se a narrativas triunfalistas sobre democracia e "a ordem liberal baseada em regras", que nos fazem lembrar o absurdo do "império de Minho a Timor" ou o "Angola é nossa", na realidade do poder monopolista face à pobreza generalizada, ausência de direitos sociais e políticos, mantida pelo sistema repressivo. De facto, como alertou Fidel Castro em 1992:   "A próxima guerra na Europa será entre a Rússia e o fascismo, exceto que o fascismo será chamado de democracia".

Nós, trabalhadores ou MPM Empresários, somos "do ocidente". Mas o ocidente a que pertencemos é o da oligarquia, o 1% que detém 43% da riqueza mundial. Brian Deese, conselheiro de Biden, esclarece-nos. Na CNN à pergunta: "Que responder às famílias que dizem não poder continuar a pagar 4,85 dólares o galão de gasolina durante meses se não anos?" Responde: "Isto é sobre o futuro do mundo liberal e temos que nos manter firmes". ( Intel Slava Z – Telegram em 1/7) Por outras palavras: que vocês se lixem, o império dos oligarcas tem que manter o seu poder. É para vosso bem que 1% detém 43% da riqueza do mundo...

Diz Andrei Martianov:   "Os patrões da NATO já perderam esta guerra há muito tempo, e tudo o que o Ocidente e seus fantoches nazis em Kiev estão a fazer é tentar prolongá-la o mais possível para obter o máximo de ucranianos mortos ou mutilados e destruir o máximo possível da Ucrânia para fazer a Rússia “pagar o preço mais alto” pela sua vitória no campo de batalha. Que paradoxo! Os “agressores” russos estão a esforçar-se ao máximo para salvar o maior número possível de ucranianos (mesmo ao custo das próprias vidas!) “defensores” e até “aliados” da Ucrânia querem transformá-la numa desolada paisagem lunar coberta de cadáveres".

Resta-lhes então a guerra económica, mas o ocidente também a perde, porque está confinado numa teoria económica totalmente falhada, fautora de crises, de predação das riquezas do resto do mundo e obscenas desigualdades. Não vamos aqui repetir o que tem sido trazido neste sítio pelos maiores economistas atuais como Michael Hudson, Prabhat Patnaik, Michael Roberts, entre outros.[1]

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Para submeter a Rússia à "ordem internacional baseada em regras" definidas pelos EUA, foi tomada a decisão de aplicar sanções à Rússia em 2014, quando a Crimeia em referendo decidiu unir-se à Rússia e não ficar submetida ao golpe de Estado em Kiev, de cariz nazifascista. Esta decisão frustrou os EUA de se instalarem na base de Sebastopol (que não pertencia à Ucrânia), esperando fazer o que tinham feito no Kosovo, expulsando a Sérvia.

O problema dos manipuladores é acabarem por acreditar na própria manipulação, ou seja, dissociarem-se do real. Aplicar sanções à Rússia, que não funcionaram com Cuba, Irão, Venezuela, RDPC, era no mínimo idiota. A Rússia faz parte da cadeia produtiva global, atuando decisivamente na economia global.

A Rússia é um líder na exportação de matérias-primas essenciais, como gás natural, níquel, trigo, petróleo, aço, carvão, potássio. Tem grandes reservas de antimónio (essencial para equipamentos militares). Grande parte das indústrias petroquímicas da UE dependem dos hidrocarbonetos russos para a produção de toda a gama de plásticos e materiais sintéticos, de fibras a borracha, lubrificantes, tintas com elevados requisitos, fertilizantes, pesticidas, detergentes, solventes e epóxis, etc.

Cotações do Brent.

Com a intenção de tirar a Rússia do mercado de petróleo e privá-la de rendimentos, a cotação do barril de petróleo Brent atingia desde fevereiro mais 20%. Mas a Rússia tornou-se o primeiro fornecedor de petróleo da China e o segundo da Índia, era o 5º. A Rússia e a China oferecem agora condições comerciais mais favoráveis aos outros países. Países importadores de trigo da Ucrânia, como no Médio Oriente, procuram fornecimentos da Rússia. A Índia fez um acordo com a Rússia para compra de fertilizantes e petróleo em rublos e rupias.

A Rússia adaptou-se às sanções, com um inteligente programa de substituição de importações em áreas-chave para sua soberania ligado a um desenvolvimento tecnológico autónomo, ficando em alguns aspetos mais forte economicamente. A saída de empresas estrangeiras da Rússia não tem afetado o seu tecido produtivo, esses nichos são ocupados por empresas nacionais, dada a sua capacidade tecnológica e poder de mercado quer interno quer à exportação.

Cerca de metade das reservas de ouro e divisas da Rússia estão capturadas no sistema financeiro do ocidente, devido ás sanções. Em consequência, muito simplesmente a Rússia não pagou o seu serviço de dívida ao sistema financeiro ocidental, contribuindo para agravar a crise nesses mercados financeiros.

Cartoon de Mango Press.

O falhanço da estratégia definida pelos EUA é evidente:   a CBS News verificava o rublo ser a moeda com melhor desempenho no mundo, tendo subido 40% em relação ao dólar de janeiro a finais de junho! Esta resiliência significa que a Rússia está parcialmente isolada das sanções económicas impostas pelas nações ocidentais. A Rússia tem obtido quase 20 mil milhões de dólares por mês com as exportações de energia e desde o final de março, muitos compradores estrangeiros cumpriram a exigência de pagar a energia em rublos, elevando o valor da moeda. No final de junho, o dólar caía para menos de 52 rublos.

O resto do mundo, ignora as sanções ocidentais, e continua em termos de vantagem mútua a fazer negócio com a Rússia. Segundo The Economist, em 2022 o excedente em comércio e fluxos financeiros, pode atingir 250 mil milhões de dólares (120 mil milhões em 2021). O jornal francês Les Echos relata que, apesar das sanções e avisos de um embargo abrangente à energia russa, os países da UE enviam cerca de 200 milhões por dia para a Gazprom. Isto não contando o com carvão, petróleo e outras matérias-primas.

Enquanto isso os preços da energia na UE e nos Estados Unidos dispararam para máximos e as receitas do gás e petróleo inundam os cofres de Moscovo como nunca antes. "A Rússia está vencendo a guerra económica", diz o Guardian, “Já se passaram três meses desde que o Ocidente lançou a sua guerra económica contra a Rússia, e não está a ir conforme planeado. Pelo contrário, as coisas vão muito mal mesmo.” "As sanções realmente aumentaram o preço das exportações russas, como petróleo e cereais, enriquecendo, em vez de empobrecer, Moscovo".

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Na sua fase de declínio os impérios custam mais do que rendem. Isto está refletido no endividamento dos EUA e ainda mais no crescimento desse endividamento. A dívida federal é de 30,56 milhões de milhões de dólares (129,7% do PIB). Pagando 780 mil milhões por ano, orçamento do Pentágono, levaria 40 anos a pagar a dívida – não incluindo juros. Porém de meados de 2018 até agora a divida federal aumentou 8,8 milhões de milhões, 2,2 milhões de milhões por ano! Considerando a dívida dos Estados e locais a dívida pública total atinge 143,6% do PIB. Muito grave é também a situação da generalidade das pessoas: a divida pessoal per capita é de 70 mil dólares, 41 milhões recebem apoio alimentar; o desemprego real está em 11 milhões, mas há 25,7 milhões de empregados a tempo parcial. ( us debt clock)

As consequências do aumento das taxas de juro e perdas dos salários reais, supostamente para controlar a inflação, na realidade para aumentar os lucros dos oligopólios, terão efeitos dramáticos para os países e para as pessoas.

O império das transnacionais está de facto doente e contagia os aliados. Claro que as pessoas condicionadas pelo medo e pela chantagem das sanções, não são tidas nem achadas nestas decisões. Mas as consequências económicas e financeiras vinham sendo sentidas muito antes de 24 de fevereiro, porque desde os anos 1990 que sanções e guerras da NATO se faziam sentir negativamente.

No seu discurso no Fórum Económico de S. Petersburgo Putin referiu-se à "inflação crescente nos mercados de produtos e matérias primas, que já se tornara rotina muito antes dos eventos do ano em curso. O mundo foi levado à situação em que está hoje, pouco a pouco, por muitos anos de políticas macroeconómicas irresponsáveis adotadas pelos países do G7, incluindo a emissão descontrolada e acumulação de dívidas sem cobertura. (...) Nos EUA a oferta de dinheiro cresceu 38%, 5,9 milhões de milhões de dólares, em dois anos. A massa monetária da UE também aumentou durante o mesmo período cerca de 20%, 2,5 milhões de milhões de euros". "Desde 2020 que os combustíveis e os fertilizantes aumentavam, estes mais de 70% de meados de 2021 a fevereiro de 2022".

Cartoon de Tina Toor.

Para manter a Ucrânia em guerra com a Rússia são necessários 5 a 6 mil milhões de dólares todos os meses, só em termos militares. Samantha Power, que preside à USAID, disse que a ajuda dos EUA não cobrirá todos os custos, "impressionantes" da Ucrânia e os prometidos 7,5 mil milhões de dólares, não serão suficientes, sabemos que será necessário ainda mais apoio orçamental direto daqui para frente." (Intel Slava Z – Telegram em 22/6)

A escalada nas tensões entre a Ucrânia e a Rússia pode ainda ter um impacto severo na produção de chips de computador. A Ucrânia produz 90% do néon semicondutor usado pelos EUA, bem como 35% de paládio – um metal raro. Quaisquer interrupções na produção, decorrentes da ação militar na região podem levar a um grave impacto na produção de semicondutores” ( CIPS em 15/2) Agora, na realidade da guerra, a indústria de neon da Ucrânia interrompeu a produção.

Para manter a "ordem liberal" várias cadeias de fornecimentos encontram-se em crise, sobretudo nos países que impuseram sanções à Rússia, em que a crise energética se aprofunda, implicando a estagnação económica e perda de competitividade. Por sua vez, os EUA não estão imunes à crise que desencadearam: a inflação sobe para 8,5%,com o Fed procurando controlá-la aumentando as taxas de juro. O mercado de ações está em baixa. Prevê-se um período de alto desemprego, alta inflação e baixo crescimento – estagflação. Mas a produção de dinheiro improdutivo e capital fictício não para: além do enorme orçamento militar (780 mil milhões de dólares), os EUA aprovaram um pacote de ajuda à Ucrânia de 40 mil milhões. Acrescem as verbas que a UE se dispõe a proporcionar para a "reconstrução" da Ucrânia 720 mil milhões de euros em subsídios e empréstimos (!?). Isto ao mesmo tempo que se entregam à febre da guerra com mais armas e planos de "reconquista"...

Se gerir é (também) prever, a incapacidade de prever as consequências das suas decisões está a ser a característica dominante dos dirigentes dos EUA/NATO: “Houve grandes golpes imprevistos na economia que estimularam o aumento dos preços da energia e dos alimentos e também criaram problemas nas cadeias de fornecimentos, o que teve um efeito negativo na nossa economia. Naquela época eu não percebi isso totalmente, mas admito agora”, disse na CNN, a secretária do Tesouro, Jeannette Yellen, comentando anteriores declarações de que a inflação era um “risco baixo”. (Intel Slava Z – Telegram em 2/6)

Segundo Michael Hudson:   "A economia russa permanece estável, os que aplicam sanções estão em sérias dificuldades. Os países ocidentais não estão a agir no seu interesse, ao contrário do que é suposto na teoria económica". "Problemas vão refletir-se na Balança de Pagamentos num momento em que as taxa de juro são aumentadas pelos EUA e UE, levando a uma série incumprimentos aos credores ocidentais e a uma crise da dívida global em grande escala". "Isso impõe a esses países uma escolha: ou ficar sem energia e alimentos para pagar aos credores estrangeiros – colocando os interesses financeiros internacionais acima de sua sobrevivência económica interna – ou deixar de pagar as suas dívidas." Ou seja: os países ocidentais criaram o dilema de negociar com a Rússia ou suportar uma série de crises devido às sanções.

Além da extração de matérias-primas, que explora noutros países, o mundo ocidental depende de “dinheiro falso” para sobreviver. Vive de impressoras a imprimirem notas, criando dívidas impagáveis e inflação sistémica. No entanto, chegou a um ponto em que não poderá mais pagar os juros dessas dívidas. O mundo real não vive da especulação em "derivados" e "futuros", mas de matérias-primas, alimentos, fertilizantes para cultivá-los, petróleo e gás para energia industrial e doméstica. Há várias décadas que o mundo ocidental vive numa bolha, esta bolha está a estourar, talvez já neste inverno, se não antes. São de esperar protestos generalizados em todo o mundo ocidental e contra o mundo ocidental. (Mike Whitney)

Concluindo (por agora)

A autoproclamada "comunidade internacional" está a descobrir que há mais mundo para além da NATO... Terceiros países aproveitam os atuais confrontos económicos para se distanciarem da hegemonia financeira ocidental, aproveitando a alternativa à globalização neoliberal modelada pela China e pela Rússia, com Estados soberanos dirigindo a sua economia. Um novo sistema no qual o dólar é substituído por moedas nacionais apoiadas por formas de liquidação financeira independentes do ocidente e com acordos bilaterais de comércio, estando em curso a preparação pela Rússia ( Serguey Glaziev) de uma nova moeda global baseada em matérias-primas e num cabaz de moedas soberanas, a ser usada por parceiros comerciais na Ásia e África.

Em resumo, as sanções económicas à Rússia expandiram a zona não-dólar e forçaram a criação de um novo sistema monetário. A parcela de liquidações em moedas nacionais na União Económica Euroasiática já atingiu 75%. A "Grande Eurásia" torna-se assim um centro que interessa a muitos outros países. (Intel Slava Z – Telegram em 26/5)

A tentativa fracassada de Washington de manter a hegemonia global enfraquecendo a Rússia, não sendo explicável por "estupidez", tem origem na desorientação pelo declínio do seu poder vendo a realidade através da nuvem da sua propaganda, ou como se diz: estão obnuliados...

"A guerra na Ucrânia marca o fim do século americano. O desastre da Ucrânia é o culminar de 30 anos de intervenções sangrentas que levaram os EUA a um ponto de inflexão em que a riqueza da nação está prestes a dar uma dramática viragem para o pior. À medida que a zona do dólar encolher, os padrões de vida sofrerão uma derrocada, o desemprego aumentará e a economia entrará numa espiral descendente. Washington subestimou muito a sua vulnerabilidade a um golpe geopolítico catastrófico que está prestes a levar o Novo Século Americano a um fim rápido e excruciante. (Mike Whitney)

06/Julho/2022

[1] Ver por exemplo: A doença degenerativa da economia: o neoclassicismo

A primeira e segunda parte desta série encontra-se em
  • resistir.info/v_carvalho/tres_guerras_militar_1.html
  • resistir.info/v_carvalho/tres_guerras_politica_2.html
  • Este artigo encontra-se em resistir.info

    07/Jul/22