Se o sr. extraterrestre aparecesse neste país (como consta de um fado) verificaria que o maior problema, além do futebol, era um chamado caso TAP. Mas a TAP não seria um problema se não fosse inventado. Trata-se da “invenção” posta a funcionar pelo grande capital através dos seus delegados, a burocracia da UE, que quanto mais privatizações melhor. Por detrás disto não está nenhuma teoria, mas um conjunto de dogmas. Dogmas não formam uma teoria, formam crenças.
Daqui serem colocadas na gestão de topo pessoas “muito competentes”, do ponto de vista da oligarquia, cuja função é preparar empresas para serem privatizadas, vendidas o mais barato possível. Antes foram reduzidas de pessoal, salários e âmbito de atuação, para poderem ser apenas fonte de lucro sem problemas de conflitos sociais ou de concorrência. Quem se ocupa deste tráfico é bem pago e não está lá para outra coisa senão para enriquecer, já que a sua função fundamental é proporcionar à oligarquia mais riqueza, em ativos e lucros e eliminar concorrência.
Não há privatização que não tenha tido o seu historial de corrupção e/ou fraude. Da Sorefame, às PPP, EDP, Cimpor, PT, ANA, etc. A questão é que a burocracia da UE considera que países como Portugal não devem acalentar veleidades de ter empresas nacionais em sectores estratégicos. Os “europeístas” lobotomizados alinham e acham que faz parte da “solidariedade europeia”. Mas na sua “Europa” a única solidariedade é com a finança e – como a guerra na Ucrânia evidencia – com a geopolítica imperialista.
No mundo da burocracia de Bruxelas, cuja racionalidade só faz sentido dentro do seu quadro de dogmas e ilusões, está decido que a UE para “ser grande outra vez” (até nisto querem copiar os EUA) é necessário acelerar a concentração capitalista que, muito erradamente,acham favorecer a competitividade. Toda a economia clássica (não é preciso ir a Keynes, Marx ou Lenine) diz o contrário, embora seja à sua sombra que se promove a obscena riqueza dos oligarcas e seus séquito de cortesãos.
Claro que disto não se fala nos media: não têm por função difundir a verdade, mas tornar a verdade difusa. Quanto menos as pessoas veem da realidade melhor, basta umas réstias selecionadas para se dizer que há livre informação.
Mas há problemas bem reais como a produção na indústria transformadora (IT) e o défice da BC de bens. O índice médio de produção da IT (corrigido de calendário e sazonalidade) foi em 2022, 99,5. Isto é, a produção é inferior à de 2015 (base 100): em 7 anos totalmente estagnada! Contudo o volume de negócios aumentou cerca de 30%, refletindo uma inflação que se torna estrutural, dada a insuficiente produção.
O remédio que o sistema tem para isto, receitado de Bruxelas e Frankfurt, é como se sabe reduzir o salário real. O que mostra a incapacidade deste sistema poder melhorar as condições de vida da população.
Esta situação é gravíssima, a IT é essencial para o desenvolvimento de qualquer país, aumento da produtividade, melhoria das condições de vida, crescimento sustentado a médio e longo prazo. Em vez disso o país dedica o seu esforço e qualificações de licenciados, envolvidos na bolha de especulação imobiliária, ou remete-se ao turismo, uma atividade de baixa produtividade e precariedade. Isto além dos que emigram, devido aos baixos salários e condições de trabalho, um grave problema em que as despesas sociais ficaram a cargo do país a mais-valia gerada é recebida por outros. Mais uma “solidariedade europeia”...
Estas deficiências e insuficiências produtivas refletem-se no défice da BC de bens, 30,7 mil milhões de euros em 2022 (dados do Boletim Mensal de Estatística, emitido em março). Deste total, 20,5 correspondem ao défice com UE (27) e 10,3 extra UE (incluindo RU). O turismo ajuda a reduzir aquele défice que incluindo bens e serviços ficou em 2022 em cerca de 6 mil milhões de euros. Mas o turismo é uma atividade de muito reduzida dinamização económica e nada estruturalmente transformadora. Isto só é conseguido pela IT.
No défice da BC de bens, os produtos alimentares e da agricultura correspondem a 19,5%; combustíveis 37,2%; produtos químicos 22,6% metais comuns 8%; máquinas e equipamentos 23,2%; veículos e material de transporte 4,75%. A taxa de cobertura das importações é apenas 71,7%.
Temos assim que no sector agroalimentar o défice atinge cerca de 6 mil milhões de euros; combustíveis 11,4 mil milhões; produtos químicos 7 mil milhões; metais comuns 2,5 mil milhões; máquinas e aparelhos 7 mil milhões; veículos e material de transporte 1,4 mil milhões. As exportações onde há excedente são principalmente papel e pasta 2 mil milhões; calçado 1 mil milhões; minérios e metais 1,5 mil milhões (em grande parte apenas transformados para facilitar transporte) vestuário 500 milhões.
As prioridades seriam colmatar estes enormes buracos, substituindo importações ou reduzindo o consumo de combustíveis desenvolvendo a rede de transportes públicos e desligando-se da russofobia imperialista que encareceu combustíveis. Mas a “liberdade de informação” não vai tão longe. É altura de ser abordada esta temática.