Guerra e Paz na Ucrânia

Daniel Vaz de Carvalho

Batalhão Azov rende-se de modo incondicional.

1 - Os G7 "decidiram" o resultado na Ucrânia

O comunicado da reunião de 24 de março do G7, reforça a posição do grupo em não permitir que a Rússia tenha uma vitória militar. Bem, a Rússia tem a sua palavra a dizer sobre o assunto e na realidade essa vitória foi estrategicamente obtida no terreno e é disto mesmo que o G7 se queixa, atacando... Putin. A realidade tem de facto muita força.

Embora as cabeças do G7 estejam voltadas para há século e meio, aquando da Conferência de Berlim, o seu delírio não é totalmente imune à realidade. A "comunidade internacional" passou a ser tratada por "ocidente", do qual 80% da população do globo se afasta. Pode a propaganda afirmar que "os sete países mais industrializados do mundo decidiram, o facto é que não o são. Limitam-se a ser os países mais financeirizados, em riscos de ficarem submersos sob uma avalanche de capital fictício. Dos 192 países da ONU apenas 45 votaram por sanções contra a Rússia. Os que se abstiveram aproveitam para se distanciarem de Washington e do seu moribundo Consenso.

A fragilidade dos EUA. com uma dívida federal de 30 milhões de milhões de dólares (aumentou 10 milhões de milhões nos últimos 5 anos!), é percebida por terceiros países, bem como a incapacidade militar da NATO europeia.

Para além de todas as críticas, ao nível do insulto, ameaças, perseguição a cidadãos russos apenas por o serem, o comissário das relações exteriores da UE, Borrell, mostra que para além das palavras e dar dinheiro para os ucranianos prosseguirem uma guerra perdida, não fazem muito mais ao dizer que a UE quer ajudar a Ucrânia, mas não deseja uma guerra com a Rússia.

Claro que não. Um único míssil Sarmat (hipersónico Mach 20, capaz de transportar 10 a 15 mísseis nucleares, alcance 18 000 km) pode destruir um país como a Alemanha ou a França ou mesmo atacar os EUA sem poder ser intercetado. O armamento da NATO europeia e dos EUA não tem nada que se assemelhe, nem a este nem a vários outros como o Kinzhal, Avangard, Poseidon, Burevestnik. Scott Ritter, analista militar, ex-oficial dos marines com experiência de guerra e inspetor de armamento, afirma que para além da inferioridade técnica do armamento da NATO, particularmente a europeia, seria necessário um ano ou mais para mobilizar e treinar efetivos suficientes para uma guerra moderna com a Rússia.

Restam as sanções (além da propaganda). Porém os G7 estão a descobrir que em vez de destruírem a economia russa, a médio prazo as sanções destruirão a sua. Donde a necessidade de derrotar a Rússia no campo de batalha. A questão é como e quando. A Ucrânia pode prolongar o conflito por seis meses, no máximo um ano, mas a sua base de recursos não permite muito mais. O Ocidente precisaria então de gastar mais para expandir o teatro de operações e enviar exércitos contra a Rússia. Não é uma tarefa simples, mas com tempo suficiente poderia ser resolvida. É, contudo, necessário entender que subsistem requisitos de segurança e de sustentabilidade financeira muito mais elevados. Ou seja, todos os problemas das operações atuais terão que ser resolvidos com base das limitações de tempo, das forças disponíveis e na ausência de uma reserva pronta e treinada para continuar operações de alta intensidade para além do outono deste ano. [1]

Enfim, o que está presentemente no horizonte da Ucrânia é que graças à "opção europeia" do golpe de 2014, a Ucrânia deixará de existir como era, sendo desmembrada em vários Estados. A Polónia está preparada para anexar a parte ocidental sob o argumento de "reunificação histórica". A entrada de tropas polacas na Ucrânia teria sido discutida em março, na reunião da NATO na Alemanha. Com o arrastar da guerra na Ucrânia, são avançadas outras soluções colocando a Rússia sob pressão e tentando esgotar os seus meios.

Claro que a ameaça de armas nucleares persiste, mas para os que se habituaram a ser os "senhores do mundo" tudo é possível.

2 - A guerra

Situação em 16/Maio/2022.

Sobre a guerra entre a Rússia e a Ucrânia pouco há a dizer. Nas duas primeiras semanas a Ucrânia perdeu em meios de combate a capacidade de realizar operações ofensivas significativas e ainda menos estratégicas, refugiando-se em centros populacionais, quando muito realizando alguns arriscados contra-ataques. O que existe atualmente é uma guerra entre a Rússia e a NATO, utilizando o potencial humano da Ucrânia estimado em 600 mil efetivos, incluindo guarda nacional, forças de segurança e reservas.

Em função disto a estratégia russa alterou-se, em relação ao que era previsto mesmo por competentes analistas. O cerco geral ao Donbass (o chamado caldeirão) não se formou, dado o potencial militar criado à Ucrânia através de mercenários, serviços de inteligência, comandos e novo armamento, o que obrigaria a Rússia a pelo menos triplicar os seus efetivos no terreno para responder com eficácia a ataques pela retaguarda. Assim o que se verifica atualmente por parte da Rússia é o avanço para oeste a partir de posições seguras que vão sendo tomadas no Donbass.

Esse avanço tem sido constante, à medida que efetivos ucranianos são eliminados. Quanto ao equipamento "generosamente" oferecido pela NATO, para no fundo manter o simulacro de poder que Zelenski detém, vai sendo sistematicamente destruído ou apreendido (desconhecemos em que percentagem) embora a NATO prossiga as entregas.

Porém, despejar armas e esperar que a Ucrânia vença um adversário bem organizado e equipado é uma estratégia incoerente destinada a provocar vítimas e prisioneiros. A Rússia tem superioridade aérea sobre o país, atingindo alvos até a fronteira da Polónia. Fábricas de munições, concentrações tropas e de material NATO, postos de comando, centros ferroviários e pontes têm sido sistematicamente atacados e destruídos.

Os limites da estratégia da NATO, sem intervenção direta, são bem reduzidos, dado que (não considerando o potencial nuclear) além do armamento hipersónico e termobárico, a Rússia é com os EUA o único país que detém um desenvolvido sistema ISR que permite a partir do espaço, por meio de sensores electro-ópticos e infravermelhos detetar objetivos no solo, transmitindo informações com as coordenadas dos alvos, para vigilância e orientação dos meios de ataque.

Equipamentos e efetivos militares têm sido concentrados em áreas residenciais, a partir dos quais realizam ataques provocando a réplica russa. Estes civis, tornados escudos humanos, servem depois para a propaganda do ocidente diariamente chorar as vítimas.

A incapacidade dos movimentos ofensivos por parte da Ucrânia comandada pela NATO, ficou bem demonstrada no assalto à Ilha das Cobras ao largo da região de Odessa. Organizado por militares do Reino Unido, foi lançado um ataque com meios navais e helicópteros à ilha, aparentemente com poucos defensores. O resultado foi a perda de pelo menos 10 helicópteros, 4 caças, 1 corveta, 3 unidades de desembarque e mais de 60 militares. Mais recentemente um contra-ataque na região de Zaporozhye, foi também uma aventura falhada com perda de material e efetivos. (intelslava)

Apesar da reposição de meios militares pela NATO, os meios navais, aéreos, artilharia, carros blindados da Ucrânia estão quase que perdidos. A questão é se a NATO pode continuar a fornecer armamento mais rápido do que está a ser destruído.

As baixas ucranianas estão a ser substituídas por uma terceira vaga de recrutamento [2]. Há relatos de efetivos que são enviados para a frente sem o necessário treino militar e queixas de abandono dos comandos que perante as dificuldades abandonam as formações no terreno [3]. As forças armadas ucranianas continuam a sofrer pesadas baixas além da rendição de várias unidades. Estão a ser enviados reservistas para posições bastante perigosas, após completarem um curto treino. Aqueles que nos media apoiam o prosseguimento da guerra e caluniam os que pedem a paz deviam ir com eles, para saberem do que falam. O comandante da 36ª brigada ucraniana de marines reconhecia que a situação é extremamente crítica e não é possível resolver por meios militares. (intelslava)

Independentemente de alguns contra-ataques pelas forças mais aguerridas da Ucrânia, que apenas podem atrasar o avanço russo, este processa-se com segurança sendo relevante o reduzido número de efetivos postos no terreno e a preocupação de não atingir nas cidades apenas objetivos militares onde foram alojados. A semelhança com o comportamento de tropas nazis na fase final da 2ª guerra mundial é evidente, incluindo quanto à propaganda.

A região de Kherson, sobre o Mar Negro e ligada à Crimeia, está em poder russo e começará a usar o rublo como moeda própria. É também relevante a captura de Popasnya, a cerca de 100 km a W de Luansk, tal como Izyum (cerca de 160 km a N de Lugansk) ou Zaporozyhye entre outras localidades.

Segundo noticiado, a NATO concebe atualmente a organização de um ataque de forças ucranianas (apoiadas por mercenários) diretamente ao território russo. Se pensam que a Rússia vai recuar desenganem-se. Olhe-se o passado da Rússia e pense-se também na feliz despreocupação com que o Verão de 1939 foi vivido no que são hoje países da NATO.

3 - A paz

Tanque enviado para a Ucrânia.

Pela UE e NATO ressoa a propaganda de guerra. Os que apelam à paz são marginalizados, satirizados de forma soez, caluniados. Russos, passam à categoria de subhumanos, intocáveis, mesmo que queiram ajudar pessoas afins. A guerra é levada à categoria de princípio moral... tal como no fascismo. Viva la Guerra! Gritavam os fascistas italianos. Viva la Muerte! Os fascistas espanhóis. Sieg Heil! Viva a vitória, os nazis alemães.

Escrevia António Filipe (PCP): Apelidar de putinistas aqueles que acham que a NATO não é uma pomba da paz e que alertam para os perigos de envolver a Europa numa guerra contra a Rússia que pode ter consequências devastadoras é de uma insensatez quase suicida. Achar que a guerra não é solução não é apoiar nenhum invasor. Achar que os dirigentes europeus, em vez de alimentar a ilusão de uma vitória militar impossível, com custos humanos inimagináveis, e de se envolverem (nos envolver) numa guerra com consequências económicas e sociais imprevisíveis, quando se deveriam empenhar em encontrar uma solução que permita conciliar as pretensões de segurança de russos e ucranianos, não é apoiar nenhum invasor. (Apela-se) ao fornecimento de armas para que possamos assistir da bancada a um combate sem tréguas até ao fim do último ucraniano.

O Conselho de Segurança da ONU adota por unanimidade as posições próximas do PCP sobre o conflito... O texto do "Conselho de Segurança, que não usa termos como invasão, manifesta "profunda preocupação com a manutenção da paz e da segurança na Ucrânia." Os 15 membros recordam "que todos os Estados-membros devem estar comprometidos, em virtude da Carta das Nações Unidas, com a obrigação de solucionar suas diferenças internacionais por meios pacíficos".

Jeremy Corbyn (ex-líder do Partido Trabalhista do RU) afirma no Asia Times: Agora, vamos falar de paz. Quase 10% da população da Ucrânia está no exílio, sofrendo traumas, perdas e medo. Numa conferência em Madrid, organizada pelo partido de esquerda Podemos da Espanha, após um diálogo iniciado pela esquerda Progressista Internacional, cada um dos 17 oradores condenou a guerra e a ocupação e pediu um cessar-fogo e um futuro de paz para o povo da Ucrânia e da Rússia.

Mesmo posições tão moderadas são ignoradas pelos grandes media, quando não combatidas. Em que ficamos srs. "comentadores", mais o clã da direita, que não se incomodam que uma diplomata ucraniana escandalosamente tente ingerir na política interna do país, defendendo princípios fascistas para ilegalizar o PCP?

Na NATO, enquanto fingem chorar as vítimas na Ucrânia, fornecem-lhe cada vez mais armas e mais modernas, mais letais e organizam novos combates. Falar em negociações para pôr fim ao conflito é considerado apoiar a invasão. Na reunião da NATO na base de Ramstein, os EUA insistem que "a Ucrânia necessita da nossa ajuda agora e continuará a necessitar quando a guerra acabar." É isto que é repetido, usando um país exausto, desmoralizado, lutando até ao último ucraniano para enfraquecer a Rússia. A NATO prolonga esta agonia. Escreve Robin Wright no New Yorker que a guerra da Ucrânia é uma guerra dos EUA por interposto país.

O Congresso dos EUA aprovou uma dotação de 40 mil milhões de dólares para assistência adicional à Ucrânia. Isto enquanto o nível de vida da população continua a baixar e parte da "ajuda" irá (como no Afeganistão) alimentar a corrupção. Em armas - além do que vai gastar em ajuda aos milhões de refugiados – UE tem até agora estabelecidos 1200 milhões de euros.

A adesão da Finlândia e da Suécia eleva os perigos de guerra na Europa a um nível dificilmente concebível. A adesão da Finlândia à NATO , afirma o governo russo, é uma "violação das obrigações jurídicas internacionais finlandesas", "principalmente o Tratado de Paz de Paris de 1947". Este tratado "prevê a obrigação das partes de não estabelecerem alianças ou participarem em coligações dirigidas contra uma delas". É também violado um tratado de 1992, que estabeleceu que a Finlândia e a Rússia "não utilizarão ou permitirão a utilização do seu território para a agressão armada contra a outra parte".

A política de não-alinhamento militar da Finlândia e da Suécia, permitiu a estabilidade no norte da Europa, garantiu um nível de segurança para ambos os Estados e permitiu a cooperação entre os países, com o fator militar "reduzido a zero". Tudo isto tende a acabar.

Outros focos de conflito podem desencadear-se na Transnitria, pequeno país apoiado pela Rússia entre a Moldava e a Ucrânia. Seria mais uma frente de combate para a Rússia e mais miséria e mortes. A logística da operação obriga à Rússia a ter sob controlo a região de Odessa, segundo os estrategas da NATO, aliviando a frente Leste.

Kherson asteia a bandeira vermelha.

E a guerra continua. Por toda a Ucrânia soam as sirenes de ataques aéreos exceto, até agora, na região de Kerson controlada pela Rússia e nas Repúblicas do Donbass. Entretanto nas regiões libertadas (é o termo) da arbitrariedade dos nazis de Kiev, a reconstrução inicia-se, como em Mariupol, Volnovakha e Luhansk, entre outras localidades. (intelslava em 8/5). Com as tropas russas, por iniciativa das populações reaparecem bandeiras vermelhas e monumentos a Lenine que tinham sido derrubados em 2014. "Esta não é uma guerra entre ucranianos e russos, mas sobre fascistas e antifascistas".

Zelinsky diz que só haverá paz quando a integridade territorial for reposta. Não tem dinheiro nem para manter o país quanto mais para fazer uma guerra, não tem armas, já perdeu praticamente metade do pessoal mais capaz, os corpos mais aguerridos nazis têm sido sistematicamente destroçados.

Para a Rússia a paz só será possível com a eliminação do atual regime de Kiev, controlado pela NATO. Portanto a paz só será feita quando Zelinsky for substituído em Kiev ou Putin abandonar o Kremlin, para outro Yeltsin. O que estará mais próximo de acontecer?

[1] thesaker.is/the-value-of-russias-contract-army-in-modern-warfare-rostislav-ishchenko/
[2] t.me/s/intelslava (em 3 de maio)
[3] Sitrep: Operation Z, The Vineyard of the Saker (relatório 17)

18/Maio/2022

Ver também:
  • E o que diria Olof Palme?. de Manuel Loff
  • A autonomia energética da União Europeia e as histórias da Carochinha, de Carlos Matos Gomes
  • O Ocidente coletivo redescobre a lei do bumerangue, de Lyudmila Chertkova
  • Este artigo encontra-se em resistir.info

    19/Abr/22