"A última guerra mundial. Os EUA começam e perdem", de Sergei Glazyev (2)

– O neoliberalismo face à nova ordem mundial

Sergei Glazyev.

   Conclui-se hoje o resumo de A última guerra mundial. Os EUA começam e perdem, livro de Sergei Glazyev escrito em 2016.
   A primeira parte encontra-se aqui.
   O caráter premonitório em relação aos acontecimentos atuais, a visão que o povo russo tem do mundo, mas também as contradições existentes na sociedade russa, justificam uma reflexão sobre o que nos diz, cujo título é todo um programa e uma convicção.
   Entre parêntesis o número das páginas a que se referem os textos.
   O texto completo está disponível aqui (em inglês) e aqui (em castelhano).
   Seleção e notas de DVC

1 - O neoliberalismo e o domínio imperialista

A exportação de capital, a fuga de cérebros dos antigos países socialistas e a colonização das suas economias facilitaram a reorganização estrutural das economias dos países centrais do sistema capitalista mundial. O resultado político dessa transformação foi a globalização liberal com o domínio dos EUA como emissor da principal moeda de reserva. O esgotamento do potencial de crescimento do modo tecnológico (e também do modo de produção) dominante causou uma crise global, uma depressão nos principais países, uma turbulência financeira acompanhada pela formação e estouro de bolhas financeiras, declínio da taxa de lucro e dos volumes das indústrias tradicionais. (42)

A ideologia liberal dominante nos círculos dominantes dos Estados Unidos e seus aliados da NATO não dá razões para que o Estado intervenha na economia além das necessidades de defesa. Assim, diante da necessidade de utilizar a procura estatal para estimular o crescimento, os principais meios empresariais têm recorrido à escalada das tensões político-militares como forma de aumentar as compras estatais em tecnologia avançada. É nesta perspetiva que Washington faz girar a roda da guerra na Ucrânia, como ferramenta para manter o seu domínio no mundo. (48)

O neoliberalismo significa a primazia dos interesses públicos sobre os privados (20) A justificativa ideológica é a doutrina do fundamentalismo de mercado, que sustenta que a intervenção estatal na economia é prejudicial, prescrevendo o desmantelamento das instituições reguladoras estatais, permitindo a livre circulação de capitais. Tudo isto está em unidade orgânica com os interesses do grande capital dos EUA. Em sua metodologia, esta ideologia assemelha-se a uma religião, em que o dinheiro toma o lugar de Deus e modelos matemáticos virtuais são usados como "símbolos de fé". Em resposta às críticas da comunidade científica a este sistema como irrealista, os seguidores desta religião complicam infinitamente esses modelos, procurando dar à sua doutrina uma qualidade científica. (168)

Em resposta às acusações de dogmatismo e escolástica por parte dos ocidentais, o pensamento económico soviético desenvolveu uma teoria do funcionamento ótimo da economia, usando as mesmas ferramentas matemáticas dos modelos de equilíbrio de mercado. Com a mesma precisão matemática demonstrava a possibilidade do planeamento económico ótimo levar exatamente à mesma alocação ótima de recursos que os modelos de equilíbrio de mercado. No entanto, esta abordagem, está tão distante das possibilidades reais do planeamento central quanto os modelos de equilíbrio de mercado estão do comportamento real das empresas. (168 )

Ao contrário das obras clássicas de A. Smith, que os fundamentalistas de mercado reverenciam como seu primeiro profeta, eles minimizam os fatores morais e justificam antecipadamente qualquer meio de obtenção de benefícios que não seja proibido por lei. Porém, as atividades proibidas estão constantemente sujeitas a erosão, até à legalização do negócio de drogas e pirâmides financeiras. (171)

A ideologia do fundamentalismo de mercado baseada no paradigma do equilíbrio económico é inadequada à realidade. As suas recomendações práticas são, na melhor das hipóteses, inúteis e geralmente prejudiciais. Uma teoria que não pode explicar as manifestações mais essenciais de seu objeto não pode mais ser considerada científica. (173)

A predominância do fundamentalismo de mercado na mentalidade da elite dominante russa é explicada, em primeiro lugar, pelos interesses económicos da oligarquia offshore, que constitui o grupo mais influente na economia russa. O problema é que nenhum dos grupos mencionados dessa elite expressa a necessidade de desenvolver as forças produtivas. A oligarquia tira da Rússia o dobro do dinheiro que devolve. A conta do capital retirado da Rússia chega a um milhão de milhões de dólares e cresce cem mil milhões por ano ao mesmo tempo que a evasão fiscal anual atinge valores idênticos. (172)

A política económica é função dos interesses económicos. Mais concretamente, dos interesses dos agentes económicos com influência política, que necessariamente não coincidem com o interesse público. A história está repleta de exemplos do comportamento de elites empresariais dos países em desenvolvimento, que asseguram políticas que satisfazem os interesses do capital estrangeiro e não o desenvolvimento das forças produtivas dos seus países. A oligarquia russa, surgida da onda de privatizações da propriedade estatal, organizou um golpe em 1993 para preservar o regime de Yeltsin. E, como proteção contra mudanças de regime, transferiu parte significativa de seus negócios para o exterior, retirando os seus direitos e obrigações de propriedade da jurisdição russa, tornando-se assim dependente de países estrangeiros. (242)

Politicamente a chamada "meta" da inflação não significa nada mais do que entregar o controlo do sistema monetário e financeiro nacional a forças externas (nomeadamente Reserva Federal dos EUA, Banco de Inglaterra, BCE e Banco do Japão), no interesse de transnacionais e bancos estrangeiros, grupos empresariais oligárquicos offshore. Nestas condições o Banco Central credencia os especuladores, dá-lhes o controle sobre o câmbio, o mercado monetário e financeiro entra em turbulência, toda a atividade económica externa é desorganizada e a reprodução das empresas que dependem dele é perturbado. Isso foi exatamente o que aconteceu na economia russa. (246)

2 - A Nova Ordem Mundial

Capa do livro de Sergei Glazyev.

Na ordem económica da globalização liberal, nenhum país está imune à agressão dos EUA. O crescente fosso entre os países pobres e os países ricos, que ameaça o desenvolvimento e a própria existência da humanidade, é reproduzido e sustentado pela apropriação de uma série de funções de intercâmbio económico internacional pelas instituições nacionais dos EUA e seus aliados, que agem de acordo com seus interesses particulares. (183)

Ao contrário da UE, que impôs uma associação desigual à Ucrânia por meio de coerção direta e interferência brutal nos assuntos internos, a União Económica Euroasiática baseia-se nos princípios de benefício mútuo e igualdade das partes. (5) Assim a agressão dos EUA visa minar o processo de integração eurasiática, para o qual a participação da Ucrânia é essencial. (65)

A primazia dos interesses públicos sobre os privados expressa-se na estrutura institucional de regulação económica característica da nova ordem económica mundial. Em primeiro lugar, o controlo estatal sobre os principais parâmetros da reprodução do capital por meio de planeamento, empréstimos, subsídios, regulação de preços e das condições básicas dos mecanismos da atividade empresarial. Ao mesmo tempo, o Estado não ordena tanto, mas atua como moderador, formando mecanismos de associação e interação social entre os principais grupos sociais. Os funcionários não tentam direcionar os empresários, mas sim organizar as comunidades empresariais, científica e tecnológica para trabalharem em conjunto em torno de objetivos comuns de desenvolvimento e elaborar métodos para sua realização. (134)

Seguindo a China, a Rússia interrompeu a acumulação de dívida dos EUA. Este processo inevitavelmente irá transformar-se numa avalanche no futuro próximo, levando à destruição do sistema financeiro dos EUA e de toda a atual a ordem económica mundial baseada nele. Não há dúvida de que a oligarquia no poder nos Estados Unidos tentará deter o crescimento do novo centro de desenvolvimento económico mundial. Porém, a China sente-se forte o suficiente para não aceitar a discriminação e a política independente de Putin exclui a possibilidade da Rússia ser usada, como fizeram os EUA na década de 1990. (140)

Consequentemente, a ideologia da cooperação internacional também está mudando: o paradigma da globalização liberal no interesse do capital privado dos principais países capitalistas está a ser substituído pelo paradigma do desenvolvimento sustentável no interesse de toda a humanidade. (135)

Ao criar um "caos controlado" organizando conflitos armados em zonas de interesse, os EUA primeiro provocam esses países para conflitos e depois organizam coligações contra eles, a fim de consolidar a sua liderança e legitimar os resultados do conflito. Ao fazerem isso, os Estados Unidos ganham uma vantagem competitiva injusta excluindo países que não controlam do comércio internacional e criando uma oportunidade para aliviar o peso da sua dívida pública ao congelar os ativos em dólares dos perdedores (52)

Dada a crescente agressão dos EUA/NATO é de esperar que as sanções económicas contra a Rússia se intensifiquem, o que exige o fortalecimento do sistema de segurança económica do país o mais rápido possível, com a implementação de um sistema de planeamento estratégico. A aplicação da política de substituição de importações deve ser realizada no âmbito de uma estratégia global de desenvolvimento económico através do sistema de planeamento estratégico, destinado a garantir o uso sistemático dos recursos governamentais disponíveis para a modernização industrial com base num novo paradigma tecnológico. A metodologia de planeamento estratégico inclui um sistema de previsões de longo, médio e curto prazo, a escolha de prioridades de desenvolvimento económico, meios e métodos para sua aplicação, incluindo uma visão de longo prazo, programas e planos de médio prazo, instituições para organizar as atividades pertinentes, sistemas de acompanhamento e definição de responsabilidade para se atingirem os objetivos estabelecidos. Deverá ser criado um Comité Estatal de Planeamento Estratégico (263)

3 - O Consenso de Pequim

A era da hegemonia dos EUA está a terminar. O sistema de instituições, que tinham impulsionado o ciclo de acumulação americano, não garante mais o desenvolvimento progressivo das forças produtivas. Desenvolve-se um novo ciclo de acumulação – asiático – implicando uma mudança do centro institucional, produtivo, financeiro e tecnológico do desenvolvimento económico mundial. A experiência chinesa é atualmente o centro da criação de uma nova ordem mundial. (129)

A China constrói pacientemente o seu socialismo de mercado, passo a passo, melhorando constantemente o sistema de administração estatal, selecionando apenas as instituições que trabalham para o desenvolvimento da economia e o bem-estar da sociedade. Ao mesmo tempo que preservam as "conquistas do socialismo", os comunistas chineses incorporam no sistema de administração pública reguladores das relações de mercado, complementando as formas de propriedade pública com as privadas e coletivas, para que a economia seja mais eficiente. (131)

Os líderes comunistas da China continuam a construir o socialismo evitando chavões ideológicos. Preferem formular metas em termos de bem-estar da população, a fim de alcançar um padrão de vida líder mundial e evitar desigualdades sociais excessivas, mantendo uma distribuição equilibrada do rendimento nacional baseada no trabalho e direcionando a regulação económica para atividades produtivas e investimentos de longo prazo no desenvolvimento das forças produtivas. (19) A China é já o maior exportador mundial de produtos de alta tecnologia. (52)

Como contrapeso ao Consenso de Washington, fala-se no Consenso de Pequim, muito mais atraente para os países em desenvolvimento, onde vive a maior parte da humanidade. Baseia-se nos princípios de não discriminação, respeito mútuo pela soberania e interesses nacionais dos Estados cooperantes, orientando-os não ao serviço do capital internacional, mas ao bem-estar dos seus povos. Também pode criar um novo regime para a proteção dos direitos de propriedade intelectual e transferência de tecnologia, novas regras para o comércio internacional de energia e recursos. (131)

O Consenso de Pequim é uma ameaça direta ao domínio e à reversão do ciclo de acumulação de capital dos EUA. A principal contradição do momento histórico atual é que a acumulação de capital se dá no centro do sistema americano e nos países desenvolvidos, enquanto o potencial de consumo se concentra nos países asiáticos e demais países em desenvolvimento. Assim, bolhas financeiras crescem nos países desenvolvidos, enquanto nos países em desenvolvimento o financiamento é insuficiente para desenvolver as suas necessidades de consumo. (137)

No êxtase da sua "vitória" sobre o socialismo eles não perceberam que, ao contrário do Consenso de Washington, o Consenso de Pequim surgiu como um modelo de gestão eficaz do desenvolvimento económico sob a liderança do maior partido comunista da o mundo. Por isso a ajustam as noções das suas teses, justificando os resultados negativos pelas circunstâncias ou mesmo a inadequação do povo às noções ideológicas dos condutores. (176)

4 - Evitar a guerra

A transição para uma nova ordem económica, exige uma coligação internacional anti-guerra desenvolvendo um programa positivo para a arquitetura financeira e económica global com base nos princípios de benefício mútuo, justiça e respeito pela soberania nacional. Deve apresentar um programa para superar a crise mundial, eliminando as suas causas e criando condições estáveis para o funcionamento do mercado financeiro mundial e o intercâmbio internacional em bases mutuamente benéficas, o desenvolvimento da cooperação do comércio internacional, em particular de bens e de tecnologia. (162-164)

A guerra só pode ser evitada com o fim do domínio dos EUA na Europa e no mundo. Isto exige minar os fundamentos económicos, informacionais, políticos e ideológicos de sua influência. O poder dos EUA baseia-se numa pirâmide de dívida financeira que há muito é insustentável. Para que entre em colapso, os principais credores dos Estados Unidos só precisam despejar no mercado os seus dólares e títulos do tesouro acumulados. Essas perdas serão para a Rússia, Europa e a China muito menores do que outra guerra mundial desencadeada pelos geopolíticos dos EUA. Em segundo lugar, quanto mais cedo um país sair da pirâmide financeira dos EUA, menores serão suas perdas. O colapso da pirâmide financeira do dólar acabará por oferecer uma oportunidade para reformar o sistema financeiro global com base na justiça e no benefício mútuo. (187)

Os grandes media apenas divulgam o ponto de vista dos interesses da elite dominante e apoiam as suas políticas. Tudo o que os EUA fazem no mundo é apresentado como bom e tudo o que se opõe à política externa dos Estados Unidos é apresentado como mau. É desenhada uma imagem deliberadamente distorcida do mundo, na qual os crimes cometidos pelo governo dos EUA contra nações inteiras são retratados como façanhas em benefício dessas nações, e o inimigo é culpado pelo assassinato em massa de seus cidadãos. A interpretação dos acontecimentos permite as autoridades dos EUA manipularem a opinião publica e levar a cabo arbitrariedades globais: criar conflitos, cometer crimes, nomear e castigar culpados, declarar os ganhadores e perdedores de eleições. Ao moldarem a opinião pública, os media têm uma influência decisiva nas eleições e também manipulam o comportamento dos políticos. (188)

A criação de um sistema monetário soberano é dificultado por dogmas arraigados no pensamento das autoridades monetárias. Eles acreditam firmemente que o sistema que criaram está de acordo com os melhores padrões mundiais e que qualquer revisão seria, de acordo com sua lógica monetarista, um retorno ao passado. Na realidade, essas regras foram estabelecidas pelas instituições financeiras internacionais sediadas em Washington, não com vistas ao progresso, mas por conveniência da expansão global do capital norte-americano, continuamente alimentado pelo Fed através da emissão da moeda. (175)

Em teoria três cenários são possíveis para a evolução mundial: o otimista, o catastrófico e o inercial: (46)

No cenário otimista mudaria drasticamente a arquitetura do sistema financeiro mundial, que se tornará multimoeda, bem como a composição e o peso relativo dos principais países. As instituições estatais de planeamento estratégico e regulação dos fluxos financeiros serão consideravelmente fortalecidas, inclusive à escala global. Uma estratégia de desenvolvimento sustentável substituirá a doutrina da globalização liberal.

No cenário catastrófico dá-se o colapso do sistema financeiro centrado nos EUA, com a formação de sistemas monetários e financeiros regionais relativamente auto-suficientes, destruição da maior parte do capital internacional, uma forte queda do nível de vida nos países mais ricos, uma recessão profunda e o estabelecimento de barreiras protecionistas entre as regiões.

O cenário inercial, combina elementos dos cenários otimista e catastrófico, pode ser catastrófico para alguns países e regiões e otimista para outros ao mesmo tempo. É acompanhado de caos crescente e destruição de várias instituições, tanto no centro como na periferia da economia mundial. Se algumas instituições do atual sistema financeiro mundial forem preservadas, novos centros de crescimento económico surgirão nos países que conseguirem superar os demais na formação de um novo padrão tecnológico e "atravessar" uma nova onda de crescimento económico.

A globalização liberal minou a capacidade dos Estados influenciarem a distribuição do rendimento nacional. As transnacionais transferem para o exterior de forma incontrolável recursos que antes eram controlados pelos Estados, forçados a reduzir a proteção social dos cidadãos para se manterem atrativos para os investidores. Como resultado da apropriação do rendimento gerado na economia mundial pelas oligarquias, o nível de vida cai na maioria das economias abertas. (181)

Para superar estas tendências destrutivas, é necessário mudar toda a arquitetura das relações financeiras e económicas internacionais, impondo restrições à circulação do capital e bloqueando oportunidades de evasão de responsabilidades. A limitação da capacidade do capital evadir-se das responsabilidades sociais inclui a eliminação de zonas offshore e o reconhecimento do direito dos Estados-nação de regular os movimentos transfronteiriços de capital. (181)

Os princípios do neoliberalismo conduzem em última instância, ao direito do mais forte, em que a oligarquia norte-americana se apoia tentando governar todo o planeta como lhe aprouver. A única maneira de limitar esta arbitrariedade é na base de um sistema superior de valores. (179)

03/Maio/2022

Ver também:
  • O novo sistema monetário e financeiro mundial, entrevista de Sergei Glazyev
  • Sanções e Soberania, de Sergey Glazyev
  • Sergey Glazyev: For those who still don’t understand, 04/Maio/2022
  • Este artigo encontra-se em resistir.info

    05/Mai/22