O estranho caso da UE:  suicídio, assassinato ou eutanásia? (1)

 

Terá sido suicídio ou crime? - interroga o inspetor.   A dra. Nikki Alexander (protagonista na série Silent Witness) afirma que a vítima estava em estado terminal devido ao abuso de drogas, mas a sua morte foi induzida.   A análise revelou que estava viciada em neoliberalismo e atlantismo, de que não se conseguiu libertar.

Daniel Vaz de Carvalho

Vassalagem total da UE.

1 – UE, propaganda e distopia

Na UE o que salta à vista desde logo é a incompetência, a ineficácia dos seus dirigentes. Mas não só. Pelos media proliferam comentadores cuja nulidade é aflitiva, autênticos moinhos de palavras, repetem-se exaustivamente sobre os mesmos temas, incapazes de se debruçarem sobre as causas.

A UE entrou no campo da distopia, a utopia negativa, deixou de representar os interesses dos seus países, deixou-se arrastar pela arrogância belicista do que mais negativo veio do outro lado do Atlântico: os neocons, que forjaram uma “ameaça russa”, nova versão da “ameaça russa” do tempo da União Soviética. Neste contexto, a NATO quer que os países dediquem 2% do PIB para o orçamento militar. Mau vai quando o orçamento militar é maior que o da cultura, em Portugal 0,25% da despesa da Administração Central.

Que ameaça representava a Rússia quando nos finais de 2021, propôs um tratado de segurança coletiva aos países ocidentais, dada a expansão da NATO – ao contrário do acordado com Gorbatchov – e o intenso rearmamento da Ucrânia para prosseguir o conflito contra os independentistas antifascistas do Donbass e a Crimeia?

A proposta foi desprezada e a UE em vez de se encaminhar para formas de convivência, segurança mutua nos padrões da OSCE, desencadeou uma guerra de desinformação, de manipulação de emoções, de forma a que as causas do conflito sejam ignoradas.

A única maneira aceitável de definir o mundo é a estabelecida pelos EUA/ NATO. Nada mais deve ser considerado. A generalidade dos cidadãos vive num estado de profunda desinformação sem disso ter consciência, sendo incapaz de imaginar possibilidades diferentes num mundo multipolar. É o que podemos qualificar como distopia.

Independentemente das redes informáticas e das impressoras 3D, o mundo não pode ser dirigido por uma entidade que quer ditar leis a todos os países, a povos cujo discernimento, interesses e vontade deixam de contar. Um centro decide “o que é melhor para eles”, como em qualquer fascismo.

Com base no “atlantismo”, a UE deixa-se implicar na luta contra a China, assumindo que “as ambições e políticas coercivas da China desafiam os nossos interesses, segurança e valores.” Incapacitada de discernir, como em estado catatónico, a UE auto exclui-se do projeto económico e geopolítico mais ambicioso da História mundial. A sua exclusão do projeto Cinturão e Rota, que também atravessa a Rússia, custará caro, representa isolar-se do acesso a este megaprojeto e da Eurásia.

Em todas as agressões levadas a cabo pelos EUA/NATO, a UE, tem sido a grande perdedora. Diziam os antigos que “os néscios copiam os erros dos grandes”: a UE chegou a um ponto em que nada faz nem pensa sem autorização aos EUA, vendo o mundo dividido em democracias e autocracias, aliados e adversários, tal como Washington os define.

Os “comentadores” lá estão para defenderem tudo isto relativamente à Ucrânia de cuja vitória dizem dependerem os valores e a democracia na "Europa" (UE – NATO). Para provar o modelo de "democracia" que a UE e a NATO defendem em "unanimidade" (quem é que fazia chacota da unanimidade na RPDC?!) a clique de Kiev que emitiu selos com a efígie de Roman Szuchewycz comandante das forças ucranianas associadas aos nazis, responsáveis pelo massacre de até 100 000 polacos. (Intel Slava Z – Telegram 6/7)

Além de ter proibido todos os partidos da oposição e preso apoiantes, deixando intocáveis os neonazis, em 19 de Maio o governo Zelensky mandou destruir todas as obras em língua russa ou traduzidas da língua russa. “Trata-se de destruir no mínimo 100 milhões de livros que veiculam o “Mal”. Algumas obras serão conservadas em bibliotecas universitárias para serem estudadas por investigadores sobre a origem do “Mal”. Neste auto-da-fé incluem-se os clássicos da literatura russa, de Pushkin a Tolstoi, Dostoievski, etc. Sendo habitual inverter a origem dos factos, houve quem acusasse a Rússia de queimar livros ucranianos...

2 – A economia das sanções

As sanções são uma arma de guerra, ilegal, criminosa, de violação de direitos humanos sobre pessoas inocentes. O objetivo não anda longe de bombardear cidades sem instalações militares para provocar a revolta contra um governo que não se submeta aos interesses definidos pela NATO. O facto da generalidade da opinião pública aceitar esta situação de forma passiva e acrítica, mostra a que ponto a desinformação promove a perda de cidadania, o populismo e a extrema-direita.

Em 2021, com uma incompreensível pesporrência, falavam na “bomba atómica das sanções” contra a Rússia – que andavam a aplicar desde 2014. Não lhes passou pela cabeça os efeitos das radiações que essas bombas produzem… nem o facto da Rússia estar mais bem preparada para as enfrentar, enquanto a UE fragilizada pela economia da dívida e dos oligopólios – os “mercados”! – estava exposta económica e financeiramente. Era um desastre anunciado, mas a UE sente aquela atração pelo abismo de que falava Nietzsche.

E parece que o abismo atrai a UE. Num ano o euro perdeu 20% em relação ao dólar, continuando a cair, agravando a inflação, que se encaminha para os 10% na UE – sem os salários aumentarem, porque causariam inflação! De tal forma a UE se tornou disfuncional que aquela depreciação não se reflete nas exportações:   a Alemanha registou o primeiro défice comercial em 30 anos no valor de 1000 milhões de euros. Em maio, as exportações germânicas caíram 0,5% em cadeia e as importações cresceram 2,7%.

As sanções contra a Rússia e outros países aos quais a NATO impôs o direito de decidir o seu destino, foram para a UE um desastre económico, impedindo relações mutuamento vantajosas com países do Médio Oriente, África, Ásia, América Latina. Era evidente, que não resultavam, mas na sua cegueira olhavam para a Rússia como uma economia não maior que a Itália, fazendo coro com Biden quando este afirmou que a Rússia era um posto de combustível com armas nucleares. Ora a Rússia é talvez o país com maiores recursos naturais, além de elevadas capacidades tecnológicas demonstradas nos mais diversos campos. Não verem que era líder na exportação de matérias-primas essenciais, como gás natural, níquel, trigo, petróleo, aço, carvão, potássio, entra no campo do delírio.

A economia russa permanece estável, o rendimento das exportações de petróleo, gás e alimentos aumentaram, a taxa de câmbio do rublo está em alta. A Rússia tem tido soluções que praticamente anulam os efeitos das sanções, quer diversificando relações comerciais quer numa estratégia de substituição de importações apoiada nas suas capacidades tecnológicas, enquanto a UE está em sérias dificuldades e pior: sem soluções viáveis, dentro dos esquemas que defende.

Que soluções tem a UE, quando a economia da Alemanha baseada na energia barata da Rússia, está num beco sem saída. O Nord Stream 2, que a NATO desde 2020 contrariava, não funciona. O Nord Stream 1, precisa de peças para manutenção de equipamentos ocidentais que as sanções impedem entregar. Pela terceira vez em pouco mais de um século, a Alemanha rende-se sem condições…

Ignorando as leis da economia real, para salvar a finança, o BCE imprimiu milhões de milhões de euros que mais tarde ou mais cedo teriam de se confrontar com a realidade produtiva. O que a realidade mostrou foi uma economia estagnada e que o BCE nem sequer é capaz de controlar o que é (estupidamente, mas para agradar à finança) o seu objetivo central: a inflação. Perante a queda do euro e do aumento inflação o BCE decidiu aumentar os juros em 0,5%, que não irão ficar por aqui. Medida inútil baseada nos "mecanismos de equilíbrio do mercado" – que nunca funcionaram – e que agravarão o endividamento dos Estados, empresas e cidadãos, encaminhando-se para a recessão, que já atinge os EUA.

Que os esquemas da UE não funcionavam, iludindo-se a opinião pública com transitórios crescimentos conjunturais, adiando o inevitável, mascarando-o com outras crises, era evidente há muito. Entre 2000 e 2019, o crescimento da anual da UE foi de 1,4%; na Zona Euro 1,2%, com a Alemanha nos 1,26% e países como Portugal (0,7%), Itália (0,2%) Grécia (0%) sem capacidade de crescimento e afogados em dívidas. Tudo isto tendo como pano de fundo os critérios da UE de limites do défice orçamental e do endividamento, cujo principal objetivo é, acima das necessidades sociais dos países, garantir o dinheiro para a finança, à qual o BCE dava de barato através da “facilidade transitória de liquidez” - “quantitative easing” - para depois os juros aos Estados serem os do “mercado”! E os governos aceitam isto… O resultado está à vista.

Aquelas entidades da UE supranacionais, suprademocráticas – meras burocracias – a quem foi concedido o poder de fiscalizar os Orçamentos de Estado, emitir pareceres e ameaçar sanções, exibem a sua inutilidade, tão evidente quanto a sua arrogância.

Prolongar os conflitos com a Rússia, tem como consequência mais visível continuar a devastação da economia da UE: não apenas as importações de matérias essenciais e estratégicas da Rússia cessam ou reduzem-se significativamente, como as exportações deixam de se realizar. Com o comércio internacional deteriorado pelo abuso de sanções e pela guerra, a UE é obrigada a procurar outros fornecedores, agora com custos muito maiores.

3 – A UE em queda livre

A paz na Ucrânia é tão necessária para a UE como o ar que se respira. Mas defender a paz torna-se escândalo nos media. Na Ucrânia é-se preso, por aqui é-se ostracizado nos media.

Seria altura dos "comentadores" se questionarem sobre que confiança poderão ter terceiros países quanto ao euro e à economia da UE, mas na UE exibe-se uma confrangedora incapacidade de discernir sobre acontecimentos e de alterar comportamentos e procedimentos.

Num estado de completa alienação, nada mais sensato foi encontrado que aplicar um 7º pacote de sanções (!) com o embargo à compra de ouro à Rússia. Não entendem que ter ouro é ter valor, imprimir notas nada significa se não tiverem correspondência em bens, sendo muito relevante o ouro.

Cerca de 60 “diretivas” europeias são todos os anos imperativamente transpostas para o direito interno de cada estado-membro da UE. Na maioria dos casos, não há debate algum. Depois, há mais de 10 000 "decisões" europeias, onde "especialistas" da CE emitem "recomendações" aos governos, segundo os cânones neoliberais, sobre suas despesas, suas receitas e "reformas" (saúde, educação, pensões) que devem ser obedecidas. As eleições perdem o sentido. Os governos são meros executores, a "democracia”, os “valores da UE”, meras cortinas de fumo. O verdadeiro governo é exercido por um bando de burocratas, agindo de maneira opaca.[1]

O BCE está organizado para os Estados subordinarem a sua soberania aos credores assegurando a perpétua obtenção de rendas financeiras, através da austeridade, o programa económico e social organizado segundo os interesses das oligarquias, proporcionando mão de obra sem reivindicações, alinhada no processo de "globalização" imperialista.

Os países são dirigidos por nulidades como Macron, sem maioria, Scholz, Draghi que teve de se demitir, tal como no RU Boris Johnson. Se gerir é principalmente prever, a competência dos líderes da UE fica bem demostrada ao esperarem a queda de Putin... pelas sanções. Entretanto as manifestações de descontentamento popular contra o aumento dos bens essenciais, e também contra a NATO, aumentam, sendo silenciadas nos media.

Um exemplo do voluntarismo que disfarça a incapacidade e descontrolo na UE, a ausência de planos capazes de resolver os problemas, é a recente "decisão" de von der Leyen para que que os consumos de gás na UE sejam reduzidos de 15% na tentativa de prescindir do gás russo.

Em estrita obediência aos neocons de Washington, a UE para defender os corruptos e os neonazis no poder em Kiev, mergulhada numa gravíssima crise económica, comprou o encargo de sustentar os quase 7 milhões de ucranianos imigrados e manter o governo de Kiev a funcionar. Com o mesmo ar patético com que que anunciam sanções à Rússia, a CE aprovou em maio 9 mil milhões de euros de euros de ajuda à Ucrânia, para assistência humanitária, e reforço da defesa do país. Procedendo-se para já ao envio de mais de mil milhões de euros.

A UE conseguiu o brilhante feito de se isolar económica e politicamente de grande parte dos Estados na sua periferia na Bacia mediterrânica, no Leste e em África onde a pobreza e endividamento não permitem um desenvolvimento sustentável mutuamente vantajoso com a UE. São países que agora vêm uma oportunidade de fugir ao império das transnacionais. Sentem-se mais perto dos problemas da Rússia que dos do ocidente. Formam-se alternativas ao bloco ocidental, com a Rússia e a China a liderarem, aos quais se juntam Índia, Cazaquistão, Irão, Indonésia, países da África do Egito à África do Sul, Venezuela, Argentina, etc., países que têm matérias-primas, muitos deles também indústrias e querem emergir do neocolonialismo.

O ridiculo das políticas da UE e das sanções expressa-se nestes números: em maio a Rússia deixou de pagar dívidas a credores do "ocidente" no valor de 1,5 mil milhões de dólares. Mais significativo é o facto de em maio a Rússia receber o equivalente a 833 milhões de euros por dia pelas exportações de petróleo e gás para a Europa do ocidente, contra 663 milhões um ano antes. Note-se as sanções da UE muito agradam às empresas energéticas dos EUA, que lucram como dificilmente poderiam esperar...

Não existe uma “política de defesa” europeia. A UE está morta, sem verdadeiros líderes e sem orientação, totalmente no controlo dos neocons dos EUA. Alinhando com aquelas figuras de absoluta falta de utilidade, apoiadas pelos EUA, como Guaido, o gang dos "amigos da Síria", ou Tikhanovskaia da Bielorrússia, contra Maduro, Lukashenko e Assad, todos estes indo muito bem, obrigado! (Andrei Martyanov).

A única hipótese para os países da UE é acabarem com as estúpidas sanções e estabelecerem uma colaboração mutuamente vantajosa – à margem dos interesses das transnacionais – com ao que se designa bloco Euroasiático, Caso contrário, resta-lhe permanecer como apêndice transatlântico dos EUA. Porque estes têm capacidade de sobreviver entre vissicistudes graças às suas matérias primas e poder militar.

A negação da realidade, a incapacidade de entender as causas e sobretudo aprender com os erros, são sintomas do declínio político, económico e social da UE. Resta-lhe a propaganda e o autoconvencimento dos seus “valores”, que se perdem na sua “democracia” oligárquica e no alinhamento imperialista.

(continua)

28/Julho/2022

[1] Behind the Tin Curtain: BRICS+ vs NATO/G7

Este artigo encontra-se em resistir.info

31/Jul/22