E se falássemos de socialismo? (1)
por Daniel Vaz de Carvalho
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A clareza sobre os objetivos e problemas do socialismo é da maior
importância na nossa época (...) considero a discussão
livre e sem entraves destes problemas como um serviço público
importante.
Einstein,
Porquê o Socialismo?
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1 Porquê
O sistema capitalista evidencia o seu declínio, as pessoas vivem na
insegurança perante o futuro, sem esperança de uma vida melhor,
sem acreditarem nem nos políticos nem nas políticas do sistema. O
aumento da taxa de lucro (objetivo central do sistema) baseia-se na
especulação, na criação de capital fictício.
Mas evidencia também a sua barbárie pelas agressões
militares, criminosas sanções, ingerências, violência
contra os próprios cidadãos, deriva neofascista em muitos
países.
O tema não pode deixar de estar na ordem do dia sob pena das
críticas ao neoliberalismo e à política de direita
não irem além de uma espécie de neokeynesianismo
pró-oligárquico e não uma alternativa anticapitalista.
Vivemos sob um capitalismo senil, em crise permanente e um imperialismo
decadente que espalha pelo mundo misérias, obscurantismo, morte e
ruínas. Porém, apesar destas circunstâncias, o socialismo
parece geralmente muito longínquo. Donde, a necessária abordagem
sobre o que é e o que foi onde existiu e exista.
A potência dominante, os EUA, arroga-se um poder sobre os outros Estados
idêntico ao do papado medieval, com suas excomunhões,
interdições, cruzadas. Afinal que divindade lhes terá
concedido o direito de atacar todos os que "põem em causa a
liderança dos EUA"? Em capitalismo essa divindade tem um nome:
"dinheiro".
Uma minoria de 1% detém 50% da riqueza mundial, controla a economia, as
finanças, a opinião pública, o poder político,
segundo os seus interesses, num regime que apesar da fachada
democrática, não passa de um indisfarçável
totalitarismo.
Nos EUA, em dois meses (meados de março a meados de maio) os
ultramilionários aumentaram a sua riqueza em 434 mil milhões de
dólares, de acordo com a CNBC.
[1]
Por todos os continentes, o imperialismo não reconhece limites à
imposição do poder dos seus interesses: repressão de
movimentos populares, neofascismo, sanções, agressão
militar, fomento de terrorismos sob a capa de "lutadores pela
democracia". América Latina e Médio Oriente são os
mais flagrantes exemplos deste drama.
Porém, a situação tornou mais difíceis as
ambições do imperialismo. Nem a Rússia nem a China
estão dispostas a submeterem-se. A extraordinária expansão
económica da China representa uma ameaça ao domínio global
do imperialismo americano. Ao nível da insanidade, as persistentes
provocações, que incluem já a tentativa dos EUA de criar
uma "coligação" contra a China e a difusão da
"russofobia", o mundo está em vias de encaminhar-se para uma
inimaginável catástrofe.
[2]
Na UE, a aplicação de sanções a Estados membros
não é um sinal da eficácia e justeza das suas
orientações, mas do fracasso das suas políticas; os povos
estão sujeitos a um poder supranacional, gerido por burocratas ao
serviço da finança. Emitem declarações
críticas e ameaças acerca do que os Estados podem ou não
fazer, interferindo em decisões aprovadas nos Parlamentos ou em
referendos (França, Irlanda, Grécia), negados noutros Estados,
como Portugal.
A social-democracia tenta salvar o capitalismo a todo o custo. As suas
cedências são inúteis, mesmo contraproducentes.
O problema com o grande capital, é que age como adolescentes mal
comportados, mas sempre recompensados apesar dos seus atos. O grande capital
não tem emenda, torna-se cada vez mais exigente. Assim que a sua rotina
de aumentar os lucros conduz à crise, logo se volta para o Estado,
fazendo exigências para que possa prosseguir os seus esquemas, pelas
mesmas razões que antes o queriam e querem fora da
economia real.
Os mesmos que aplaudiam a troika, a austeridade e exorcizavam o Estado
"vade retro Estado" disse-se à medida que aumentava o
desemprego, a pobreza e nas escolas havia crianças com fome, alardeavam
que "está a ser feito, o que tinha de ser feito". Agora acham
que o Estado tem de ser mais interventivo
mas apenas para manter
intocáveis os interesses oligárquicos, mascarados de "a
economia".
A crise, seja a sanitária seja a do próprio capital, é
aproveitada para reforçar o poder do grande capital, impondo a sua
agenda de "reformas estruturais", a supressão de direitos
laborais e prestações sociais. Toda a riqueza tem de estar ainda
mais concentrada nas mãos da oligarquia, que já demonstrou
não a saber gerir, nem técnica nem honestamente.
O capitalismo não se guia pala "solidariedade" ou pela
"dignidade do ser humano". No capitalismo e na sua "economia de
mercado" tudo se avalia pelo lucro e pelo dinheiro que se dispõe.
O capitalismo tornou-se incompatível com o desenvolvimento
económico e social, com a própria democracia.
Quando Marx escreveu
O Capital
tinha em mente que só se pode transformar o que previamente se
compreendeu. As aspirações e vontade de mudanças que as
pessoas expressam perde eficácia ou mesmo deixa de fazer sentido se
não entendem as causas do seu descontentamento,
insatisfação, injustiças. Por isso há que falar do
socialismo.
2 Os críticos e as críticas ao socialismo
Andre Vltcheck referia-se ao anticomunismo como uma religião
fundamentalista. Quando as coisas tomam este rumo, difícil se torna que
a luz da razão prevaleça. Temores, ódios irracionais
baseados em calúnias, passam a dominar o imaginário das pessoas,
afastadas do esclarecimento e de uma cultura humanista.
A ideologia anti-socialista, vai da social-democracia à extrema-direita,
mascarando tanto as falhas teóricas como as práticas do
capitalismo, visando, em última análise, assegurar o
domínio da oligarquia.
Podemos distinguir nas críticas feitas ao socialismo os que se
apresentam como anti-capitalistas e os que defendem o capitalismo como "o
fim da história". Para estes o "comunismo" (leia-se
socialismo ou processos de transição para o socialismo)
representaria uma inominável tragédia para povos submetidos
à servidão por inomináveis burocracias,
responsáveis por 100 milhões de mortes.
A burocracia é um problema que se coloca em todas as formas de
organização, mas o capitalismo é péssimo exemplo.
As grandes empresas capitalistas, em particular as transnacionais, são
monstros burocráticos e repressivos, expressão dos direitos
absolutos do grande capital, com o poder político ao seu serviço,
em conflito permanente com os povos. Basta ver a luta que desenvolvem contra a
melhoria das leis laborais, os sindicatos e a sua unidade. Sobrevivem
graças à proteção do imperialismo.
Quanto aos 100 milhões de mortes do "comunismo" são uma
ignominiosa fábula. Houve de facto 100 milhões de mortes, mas
são imputáveis ao capitalismo, pelo fascismo, colonialismo e
imperialismo. O comunismo salvou infinitamente mais vidas que sacrificou.
Esquecem-se de lembrar a imensa contribuição dos comunistas para
a emancipação humana e a luta anticolonial.
[3]
Lembremos os dez milhões de ameríndios exterminados pela
democracia americana, dez milhões de congoleses assassinados pelos
belgas;
Churchill, ordenando a requisição das reservas de cereais levando
à morte três milhões de bengalis em 1943;
dois milhões de argelinos, indochineses e malgaxes massacrados pela
França entre 1945 e 1962. Dois milhões de coreanos, três
milhões de vietnamitas e quatro milhões de habitantes do sudeste
da Ásia.
Na Indonésia, a repressão organizada pela CIA em 1965 deixou 700
mil mortos. Na América Latina inenarráveis crimes das ditaduras,
no Médio Oriente a agressão imperialista e os massacres dos
terroristas seus aliados. Nenhum livro de história do ocidente menciona
estes factos. E isto, não falando nas vítimas diretas de
operações militares ou paramilitares.
[3]
Eis também as "virtudes" dos tais "anos de ouro" em
que a social-democracia se alberga.
As sanções impostas pelos Estados Unidos, que no Iraque levaram
à morte 500 mil crianças entre 1991 e 2003, ilustram uma
antologia de horror. São vítimas imoladas no altar da
"democracia liberal" e dos seus "direitos humanos", para o
capital transnacional se impor, não esquecendo os milhões que
anualmente morrem pela fome e más condições
sanitárias.
Há mais de meio século que os povos ditos "em
desenvolvimento", permanecem subdesenvolvidos, vítimas da
exploração, pobreza, fome e guerras. O racismo está
subjacente em qualquer país capitalista, constituindo uma arma para
dividir e controlar o proletariado. O racismo existe na América Latina,
nos EUA, desenvolve-se na UE, é praticado por Israel.
Para muitos "bem intencionados", a URSS teria de ser um
paraíso sem defeitos, sem erros, isto num mundo que agia para a sua
destruição. É pena que os critérios de
avaliação que aplicam ao socialismo não sejam aplicados ao
capitalismo e aos crimes cometidos ou apoiados pelas democracias ocidentais.
Nas teses publicadas no
Pravda,
de 24-31 de Outubro de 1997, são citados "factos há muito
constatados": o número dos condenados entre 1921-1954 foi de cerca
de 3,8 milhões (a grande maioria dos presos era de delito comum), o
número das sentenças de morte de cerca de 643 mil.
[4]
Isto num país que sofreu duas guerras de extermínio,
constantemente ameaçado do exterior, sujeito a sabotagem organizada.
Nos EUA há 2,3 milhões de pessoas presas e mais 4,3
milhões em liberdade condicional. De longe o líder mundial em
colocar o seu povo na cadeia. Acresce que 999 pessoas foram mortas pela
polícia em 2019. (
Fatal Force 2019, Washington Post
)
Que país existia quando Estaline se tornou o dirigente máximo da
recém criada URSS? Um país destruído pela
intervenção imperialista dita "Guerra Civil". Em
1921, afirmava Lenine no X Congresso do PC(b) da Rússia: "Um
partido que está rodeado de inimigos poderosíssimos e
fortíssimos que agrupam todo o mundo capitalista".
A URSS enfrentava uma luta de vida ou de morte e não em sentido
figurado, para os seus próprios cidadãos como ficou provado nos
massacres da "Guerra Civil" e da 2ª Guerra Mundial. As
transformações socialistas permitiram, num curto espaço de
tempo a construção de um estado multinacional, sem racismo, sem
desemprego, sem pobreza, sem crises e cujo patriotismo e apego ficou
demonstrado na 2ª Guerra Mundial e mesmo nas sondagens realizadas aquando
da sua liquidação. A URSS tornou-se uma superpotência
mundial e inspiração para muitos povos. O seu povo tinha um alto
nível de vida, de educação e qualificação.
Na mais recente sondagem, 70% dos russos consideram que Estaline desempenhou um
papel positivo.
[5]
Certos críticos falam como se não houvesse imperialismo, nem
oligopólios transnacionais. Dizem não querer o capitalismo, mas
recusam ainda mais o "estalinismo" ou "comunismo", como se
estas hipóteses, cuja formulação inventam, estivessem na
ordem do dia. Colocam no mesmo patamar crítico as sanções
dos EUA (evitando o termo imperialismo), o "castrismo", o
"chavismo", etc. Fazem lembrar uma senhora do PS, que não
apoiava a guerra contra o Iraque, mas acreditava que havia "armas de
destruição maciça". Uma boa forma de ser
"progressista" justificando
a fortiori
as agressões imperialistas. E assim aconteceu com o desmembramento da
Jugoslávia e agressões à Servia, Líbia,
Síria, Iémen, Afeganistão, etc.
Não faltam teóricos a apontarem os erros das práticas
socialistas: os preços não refletiam o valor do trabalho usado na
produção; a ausência de juro provocava desperdício
de capitais; não foi estabelecido um equilíbrio entre a
agricultura e a indústria, entre a produção de bens de
equipamento e bens de consumo.
Não vamos aqui desenvolver a falácia que é usar exemplos
do capitalismo para defender "mecanismos de preços" pelo
mercado ou a questão do juro como indicador de eficiência! A
"eficiência capitalista" é conseguida à custa do
desemprego, dos apoios do Estado, da esfera monopolista, da economia de casino
financeira, da exploração, em particular dos povos dependentes. O
descalabro a que aquelas "melhorias" conduziram ficou evidente com
Gorbatchov e Ieltsin.
[6]
Para denegrir o socialismo, acusa-se de não ter sido mais que
capitalismo de Estado. Como disse Lenine (X Congresso do PC(b)) "é
o capitalismo que existe sob um regime capitalista quando o poder de Estado se
substitui a si próprio a estas empresas. Todas as noções
de capitalismo de Estado se referem ao poder burguês na sociedade
capitalista. No socialismo quando falamos de Estado falamos de nós
próprios, do proletariado".
[7]
Outros concebem um socialismo de "solidariedade", cooperativo,
união de "boas vontades", sem antagonismos, ao qual todos os
povos acabariam por se converter. O imperialismo milagrosamente seria
substituído pela "solidariedade internacional", no
desenvolvimento, segurança coletiva, luta contra a fome, etc. A
solidariedade aparece para estes "anti-capitalistas", como substituto
da organização unitária do proletariado e da luta de
classes (de que a oligarquia não prescinde...). Trata-se de
"substituir a dialética marxista por um idealismo subjetivo"
(Lenine). O imperialismo agradece...
Os avanços sociais no mundo desenvolvido nunca foram o resultado da
generosidade do capital, mas de duras lutas lideradas pelos comunistas. A sua
influência nos sindicatos, mas também o prestígio da
União Soviética e os avanços obtidos pelos países
socialistas, contribuíram para o progresso social nos outros
países. Parece que isto dói ao puritanismo de certos
críticos.
O chamado esquerdismo, assume um radicalismo de fachada que os defensores da
política de direita usam em seu proveito, muitas vezes como seu
próprio disfarce para impedir políticas progressistas. Em
Portugal, como noutros países, o voluntarismo e a irresponsabilidade
"esquerdista" era envolvido numa retórica inflamada,
colaborando na destruição do processo revolucionário, com
provocações, calúnias e excessos
pseudo-revolucionários, alienando parte da população,
facilitando o caminho aos golpes da direita.
[8]
Um relatório da OCDE em dezembro de 1975, afirmava: "Portugal goza,
inesperadamente, de boa saúde económica, em
comparação com outros países da OCDE". A
experiência portuguesa mostrava-se bem melhor, perante a crise
capitalista, mas isso era insuportável para a direita aliada ao PS, ou
vice-versa. Compare-se com a destruição das estruturas produtivas
provocada pelas políticas de direita, o endividamento, a austeridade.
A questão é como superar o capitalismo do desemprego, do
neocolonialismo, do imperialismo, da pobreza e obscenas desigualdades, das
crises, do crime organizado pelo Estado (fascismos, mercenários) ou por
privados (máfias). E para além de tudo isto da guerra.
Comprovadamente, um outro capitalismo não oligárquico, não
é possível. Este sistema atingiu os seus limites e tornou-se
essencialmente destrutivo para a humanidade. Mas não cairá sem o
impulso das lutas de massas, organizadas, progressistas e unitárias. Por
isso vale a pena falar de socialismo.
17/Agosto/2020
[1]
It's Official: Pompeo Has Declared Cold War With China
, Daniel Larisson,
[2]
China's Vision in a Post-COVID World
, Peter Koenig
[3]
La foutaise anticommuniste des "100 millions de morts"
, Bruno Guigue
[4]
A Verdade sobre Stáline
, Viktor Kochemiako, pág. 12.
NA: Refira-se que pessoalmente somos contra a pena de morte.
[5]
https://www.rt.com/op-ed/493667-rehabilitating-stalin-msm-russia
[6]
Notas de Dmitri Rogozin, um embaixador russo junto à NATO (1)
, e
Notas de Dmitri Rogozin, um embaixador russo junto à NATO (2)
[7]
No XI Congresso Lenine, referiu-se ao "capitalismo de Estado" no
contexto da NEP, visando a construção do socialismo, em que o
poder do Estado pertencia ao proletariado organizado.
[8]
Veja-se:
As verdades e as mentiras na Revolução portuguesa
, Álvaro Cunhal, Ed. Avante
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