Levantem essa bandeira...!

por Marina

Tabaré, o novo presidente. E a alegria, a esperança, as recordações acotovelavam-se: Temos Presidente.

Esse “temos” é verdade depois de quase dois séculos, o nosso povo, esse dorido, responsável e solidário povo, chegou à primeira meta que devíamos conquistar para transformar profundamente o país. Como dissemos em cada momento, em cada mão a mão, em cada esquina, chegou a hora de arregaçarmos as mangas para, organizados e mobilizados, começar a concretizar o programa do governo.

Um jornalista estrangeiro perguntava-nos, poucos minutos antes da vitória, se estávamos conscientes que “ganhar era fácil”, o difícil era governar para as maiorias... Nunca nada foi fácil para o nosso povo. Tivemos que construir, passo a passo, as ferramentas da mudança. Demos à luz a unidade sindical e a Frente Ampla e quiseram fazer-nos desaparecer da face da nossa terra com o Golpe de Estado. Fácil, com os nossos estudantes assassinados durante a pachecada ? Fácil com os nossos milhares de presos, mortos e desaparecidos? Fácil, perante as novelas políticas, como aquelas com que alguns nos tentaram mudar o rumo?

Ontem, hoje e sempre, tecemos a unidade com paciência, seguros da estratégia eleita, com os princípios em volta dos quais devia crescer e estender-se o rio de esperança que se foi espraiando por todo o país.

Ontem, hoje e sempre, soubemos e trabalhámos para que a conquista do governo fosse obra da luta, da participação, do fortalecimento permanente e incansável, do entrelaçado de cada reivindicação, de cada êxito, de cada trabalho social e solidário.

Nesse mar de bandeiras, onde predominava o vermelho, o azul e o branco da primeira lição da Pátria artiguista, estavam os primeiros corajosos que foram capazes de dar o passo, abandonar os chamados Partidos Tradicionais, para se unirem aos antigos Partidos da esquerda e avançar no processo de construir um projecto de país antagónico ao das classes dominantes.         Estavam os despojados da Zona Oriental, os do Êxodo. Estavam os primeiros sindicalistas que forjaram um único sindicato por cada grémio e depois a Central, única, sim, no Uruguai, única no quadro latino-americano. Estavam os nossos jovens comunistas assassinados e outros jovens, mortos ou desaparecidos e, enquanto perante os nossos olhos cantavam e dançavam crianças, jovens, adultos e velhos, quisemos ver também a Júlia, o Arismendi, o Henrique, o Paco, o Alfredo, o German, o Héctor Rodriguez, o José Pedro Cardoso, o Juan Pablo Terra, a Zelmar, a “Doutora” Alba, a Cuesta e o Duarte, o gen. Baliñas, o Montañés, o Zufriategui, o Crottogini, o gen. Seregni...

Estavam presentes milhares e milhares dos que deram tudo para tornar realidade esta primeira conquista, que ontem, quando parecia uma utopia, chamavam à unidade, à solidariedade e à luta todo o povo uruguaio.

Estavam presentes os que hoje, no meio da fome, do sacrifício, do frio, da falta de tecto, saúde, educação, trabalho, militaram duramente para chegar com a sua palavra a cada vizinho, a cada amigo, a cada familiar, respondendo às interrogações pessoais, intransferíveis. Os que em cada comité de base debateram, organizaram, saíram à rua a conquistar o triunfo. Os que estão presentes em qualquer lugar onde haja uma injustiça. Os que inventaram, criaram, realizaram as mais diversas e originais formas de comunicação e propaganda nos lugares mais recônditos do país..

Estavam os que vieram, com milhares de sacrifícios desde longínquas terras, comemorar a vitória, e aqueles, que de muito longe, fizeram contas à vida e preferiram enviar o dinheiro das suas passagens, muito caras, para que, de mais perto, conseguissem chegar mais pessoas, pelo mesmo dinheiro.

Neste quadro, um abraço muito especial aos nossos companheiros da 1001, aos nossos amigos que somaram esforços connosco, e que vimos firmes, sem desmaios, a conseguir que a nossa história última fosse para o povo também um lugar de entrada e participação até ao objectivo traçado.

Queremos, sem sectarismo algum, mas com a emoção e o orgulho que nos embarga, ressaltar, abraçar, saudar os nossos e nossas camaradas que, heroicamente, a plenos pulmões e cheios de entusiasmo, estiveram em todos os bairros, povoados, cidades, num esforço conjunto inolvidável. Com consciência do que estava em jogo, com responsabilidade de comunistas, deixando de lado tudo o que não fosse aproximá-los do povo uruguaio. Honra e glória aos nossos camaradas que demonstraram a sua essência, a sua convicção, e a sua entrega, como ontem, como sempre.

Dos países do continente, desde os mais recônditos lugares, nos chegam saudações de partidos irmãos. Não conhecem os detalhes, mas todos realçam, sem assomo de qualquer dúvida, o contributo do nosso partido ao cumprimento do objectivo desta etapa.

Agora, a governar, com e para o povo. Esperam-nos horas de intenso labor, não é simples o que temos pela frente. Mas... com que força, com que alegria, com que paixão nos preparamos para mudar o país. Esse outro Uruguai, o outro projecto, o de avanço, defesa e aprofundamento da democracia para uma Democracia Avançada. Todos somos necessários porque tal como repetimos em tantos momentos: com o povo tudo, sem o povo, nada.

Levantem essas bandeiras, as que nos entregaram os de ontem, as que hoje drapejaram ao longe, para que todos as vejam, as que continuaram erguidas, majestosas, construindo o governo, enfunadas pelos ventos do povo que continuarão soprando, como sempre.

Tradução de JPG.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

06/Nov/04