A guerra das setas grandes

– Uma cartilha sobre a guerra de manobras

Scott Ritter [*]

Situação em 27/Março/2022.

1/ Guerra das Setas Grandes – uma cartilha. Para todos aqueles que coçam a cabeça em confusão, ou que limpam o pó dos seus uniformes para a parada da vitória ucraniana em Kiev, sobre as notícias da "mudança estratégica" da Rússia, talvez queiram tornar a familiarizar-se com conceitos militares básicos.

2/ A guerra de manobras é um bom tópico para começar. Compreenda que a Rússia iniciou a sua "operação militar especial" com um grave défice de efectivos – 200.000 atacantes para cerca de 600.000 defensores (ou mais). O clássico conflito de atrito nunca foi uma opção. A vitória russa exigia manobra.

3/ A guerra de manobras é mais psicológica do que física e concentra-se mais no nível operacional do que no nível táctico. A manobra é um movimento relacional – como desdobrar e mover as suas forças em relação ao seu oponente. As manobras russas na primeira fase da sua operação confirmam isto.

4/ Os russos precisavam de moldar o campo de batalha em seu proveito. Para tal, precisavam de controlar a forma como a Ucrânia empregava as suas forças numericamente superiores, distribuindo ao mesmo tempo o seu próprio poder de combate mais pequeno para melhor cumprir este objectivo.

5/ Estrategicamente, para facilitar a capacidade de manobra entre as frentes sul, central e norte, a Rússia precisava de assegurar uma ponte terrestre entre a Crimeia e a Rússia. A captura da cidade costeira de Mariupol era crítica para este esforço. A Rússia cumpriu esta tarefa.

6/ Enquanto esta complexa operação se desenrolava, a Rússia precisava impedir a Ucrânia de manobrar as suas forças numericamente superiores de uma maneira que perturbasse a operação de Mariupol. Isto implicava a utilização de várias operações estratégicas de apoio – fintas, operações de fixação e ataque profundo.

7/ O conceito de finta é simples – uma força militar ou é vista como a preparar-se para atacar um determinado local, ou realmente conduz um ataque, com o objectivo de enganar um adversário para que este comprometa recursos em resposta às acções percebidas ou reais.

8/ A utilização da finta desempenhou um papel importante na Tempestade do Deserto (Desert Storm), onde forças anfíbias da Marinha ameaçaram a costa do Kuwait, forçando o Iraque a defender-se contra um ataque que nunca aconteceu e onde a 1ª Divisão de Cavalaria realmente atacou Wadi Al Batin para cravar (pin down) a Guarda Republicana.

9/ Os russos fizeram uso extensivo da simulação na Ucrânia, com as forças anfíbias ao largo de Odessa a congelarem forças ucranianas ali e uma grande finta de ataque rumo a Kiev, obrigando a Ucrânia a reforçar as suas forças ali. A Ucrânia nunca foi capaz de reforçar as suas forças no leste.

10/ As operações de fixação também foram críticas. A Ucrânia havia reunido cerca de 60.000 -100.000 tropas no leste, em frente ao Donbass. A Rússia levou a cabo um vasto ataque de fixação destinado a manter estas forças totalmente empenhadas e incapazes de manobrar em relação a outras operações russas.

11/ Durante a Tempestade do Deserto, foi ordenado a duas Divisões de Fuzileiros Navais que executassem ataques de semelhantes de fixação contra as forças iraquianas instaladas ao longo da fronteira Kuwaiti-Saudita, amarrando um número significativo de homens e material que não podiam ser utilizados para contrariar o ataque principal dos EUA a oeste.

12/ O ataque russo de fixação cravou no leste a principal concentração de forças ucranianas e afastou-as de Mariupol, a qual foi investido e submetida. O apoio a operações fora da Crimeia contra Kherson expandiu a ponte terrestre russa. Esta fase está agora concluída.

13/ A Rússia também se empenhou numa campanha de ataque estratégico profundo concebida para perturbar e destruir a logística, o comando e controlo ucraniano, assim como o poder aéreo e o apoio a fogo de longo alcance. A Ucrânia está a ficar sem combustível e munições, não pode coordenar manobras e não tem Força Aérea significativa.

14/ A Rússia está a reinstalar algumas das suas principais unidades de onde estiveram envolvidas em operações de finta no norte de Kiev para onde podem apoiar a fase seguinte da operação, nomeadamente a libertação dos Donbass e a destruição da principal força ucraniana no leste.

15/ Isto é guerra de manobras clássica. A Rússia irá agora deter a Ucrânia no norte e no sul, enquanto as suas principais forças, reforçadas pelas unidades do norte, Fuzileiros Navais e forças libertadas pela captura de Mariupol, procuram envolver e destruir 60.000 soldados ucranianos no leste.

16/ Esta é a Guerra das Grandes Setas no seu melhor, algo que os americanos costumavam saber mas esqueceram-se nos desertos e montanhas do Afeganistão e Iraque. Também explica como 200.000 russos foram capazes de derrotar 600.000 ucranianos. Assim termina a cartilha sobre a guerra de manobras, ao estilo russo.

29/Março/2022

[*] Analista militar, ex-fuzileiro naval dos EUA que participou da operação Tempestade do Deserto, @RealScottRitter

O original encontra-se em twitter.com/RealScottRitter/status/1508813631311466496

Esta análise encontra-se em resistir.info

29/Mar/22