Fase qualitativamente nova das relações Rússia-EUA —
Apontamentos para uma análise.
por Lic. Rodolfo Humpierre Alvarez
[*]
Num trabalho recente
[**]
sobre a visita que Colin Powell fez a Moscovo em fins de Janeiro
último foram esboçadas algumas ideias acerca do que parece ser o
início de uma nova etapa nas relações Moscovo-Washington.
Dizíamos então que, segundo os comentários oficiais, nas
entrevistas que o secretário de Estado manteve com o presidente Putin e
altos funcionários do seu governo haviam sido analisados temas de
interesse mútuo "numa atmosfera franca e amistosa".
Entretanto, não pode deixar de chamar atenção o facto de
que em declarações à imprensa russa Powell expôs uma
série de "inquietações" que deixam claro aquilo
que parecem ter sido as verdadeiras mensagens que o seu chefe o encarregou de
transmitir a Moscovo.
O "Izvestia", por exemplo, escreveu: "O sistema
democrático da Rússia, do nosso ponto de vista, ainda tem que
encontrar o equilíbrio necessário entre o poder executivo, o
legislativo e o judicial... O poder político ainda não
está completamente ajustado à lei... Certos desenvolvimentos na
política interna e externa da Rússia nos últimos meses
obrigaram-nos a uma pausa... Aspectos chaves da sociedade civil meios
informativos livres e desenvolvimento dos partidos políticos, por
exemplo ainda não têm uma presença apoiada e
independente".
[1]
No mesmo artigo o "Izvestia" criticava a política russa na
Chechenia e o tratamento dado a repúblicas ex-soviéticas
vizinhas, em alusão clara à disputa com a Ucrânia acerca do
Mar de Azov, assim como a manutenção de tropas na Geórgia
e Moldávia.
VIRAGEM
Em definitivo, em contradição com os qualificativos de
"diálogo franco e amistoso", "relações
sólidas e previsíveis", "não ingerência
nos assuntos internos", etc, o que transpirou dos encontros de Powell com
os dirigentes russos marca uma verdadeira viragem na projecção da
administração Bush nas suas relações com a
Rússia.
Poder-se-ia pensar que Bush, durante os meses posteriores às
divergências surgidas pela oposição russa à
agressão ao Iraque, tenha tentado não criticar abertamente o
Kremlin, procurando não exacerbar os sentimentos anti-norteamericanos
subjacentes em certas partes das elites russas, os quais teriam podido
influenciar, nas eleições parlamentares de Dezembro
último, uma retomada das correntes opostas aos valores de
"democracia" e "economia de mercado liberal" à moda
ianque.
Por isso, torna-se compreensível que, ultrapassadas as
eleições com a vitória ainda que, segundo
Washington, fraudulenta, mas em seu favor das forças que apoiam a
linha confirmada por Putin de "consolidação da democracia e
da economia de mercado", de apego ao "valores ocidentais" e
à "associação estratégica" com os Estados
Unidos e o Ocidente em geral, o inquilino da Casa Branca tenha decidido que
chegou o momento de "por os pontos nos ís" e de deixar bem
claro a Putin e seus seguidores que o desenvolvimento de relações
mais estreitas e frutíferas (para a economia russa) terá que
passar necessariamente pela adequação das suas políticas e
condutas aos paradigmas que os norte-americanos consideram únicos,
inquestionáveis e de observância obrigatória para todos os
que queiram estar "com eles" e não desejem procurar o problema
de estar "contra eles".
A isto acrescenta-se que nos últimos tempos Bush vinha enfrentando
crescentes críticas no Congresso e de parte dos aspirantes a candidatos
democratas à presidência para aquilo que nos Estados Unidos se
qualifica agora de "tolerância injustificada perante a conduta
antidemocrática de Putin, seus abusos contra os oligarcas, a imprensa e
os chechenos". Às portas da campanha eleitoral para a
presidência, o chefe da Casa Branca tinha que se desfazer de algum modo
desse elementos negativo que estava a empanar sua imagem de homem
"duro" e intransigente.
Por outro lado, à Rússia pouco ou praticamente nada resta a
fazer. No espaço pós-soviético e no espaço centro
e leste-europeu que conforma as suas fronteiras ocidentais, no Cáucaso e
na Ásia Central, a presença militar, económica e
política dos EUA e da NATO já é um facto consumado, e de
nada valem as garantias dadas por Powell, quando no mundo já constitui
um axioma que os norte-americanos, por idiossincrasia, não costumam
abandonar posições que alguma vez tenham adquirido.
Ao mesmo tempo, a imbricação ideológica e política
com os Estados Unidos já foi tão longe que é
difícil imaginar o desenvolvimento económico e tecnológico
da Rússia e sua inserção na economia e na política
mundiais sem uma associação estável até onde
os interesses da segurança e sobrevivência nacional o permitam
com a única superpotência.
As relações bilaterais, evidentemente, estão agora a
atravessar uma etapa de dissensões, as quais, apesar de haver
razões para pensar que em alguns temas pontuais são
tácticas, por conseguinte passageiras, têm, entretanto, um
profundo sentido estratégico.
A realidade é que, ainda que existam importantes coincidências
entre ambos os governos sobre temas globais (exemplo: a luta antiterrorista, a
não proliferação de armas nucleares, e outros), é
impossível não perceber a presença de discrepâncias
sensíveis que têm a ver com assuntos de interesse
específico para a Rússia, e em relação aos quais
Moscovo tem de enfrentar pressões dos líderes norte-americanos.
No campo das relações económicas bilaterais, por exemplo,
chama a atenção que as administrações
norte-americanas e a de Bush em particular não tenham
podido conseguir que o Congresso derrogue a cavernícola "emenda
Jackson-Vanick", que estabelece um regime discriminatório para a
Rússia, imposto nos tempos de Brejnev em represália às
restrições à emigração dos judeus
soviéticos. Nestes momentos, pelo contrário, a Casa Branca
está a analisar uma solicitação de um grupo de
empresários norte-americanos que consiste na suspensão de todas
as facilidades concedidas às exportações russas para esse
mercado.
Um grupo de congressistas pediu há pouco ao presidente Bush que tomasse
medidas de represália contra a Rússia, entre elas a sua
expulsão do G-8 pela "violação dos direitos humanos
na Chechenia", pelos atropelos contra a "livre empresa", a
"liberdade de imprensa" e outros pecados.
Em Dezembro de 2002 os presidentes Putin e Bush acordaram promover um
"diálogo energético" que, um ano depois, não
passou da mera selecção de dois possíveis objectivos de
colaboração: um oleoduto até Murmansk e um terminal para
o embarque de gás natural liquefeito, ambos destinado às
exportações de hidrocarbonetos para os Estados Unidos. Segundo
fontes próximas ao Kremlin, não há nem um assomo de
interesse pelo investimento nesses projectos: pelo visto, os norte-americanos
estão à espera de que se normalize a situação no
Iraque, onde os seus monopólios esperam grandes oportunidades de
investimento no sector petroleiro.
Por outro lado, a Casa Branca tem pressionado a Rússia a que adira ao
programa lançado por Bush em Maio de 2003, destinado a combater o
"tráfico ilegal de armas de extermínio maciço".
Entretanto, em Moscovo não se ocultam preocupações de que
essa "iniciativa" possa entrar em contradição com
normas do direito internacional e com as leis e interesses nacionais da
Rússia.
PIRATARIA
Ao que parece, um dos componentes dessa "iniciativa" que mais
suspeitas desperta em Moscovo é a proclamação do direito
de interceptar e revistar navios e aviões de qualquer bandeira que
Washington suspeite envolvidos na transferência ilegal de tais armas. Em
termos jurídicos, tais acções unilaterais sem um mandato
expresso de um organismo internacional, e sobretudo se se aplicam a naves de
países com os quais não se está em situação
de guerra, caem dentro da categoria de "pirataria".
A isto acrescente-se que a "iniciativa" do mandatário
norte-americano traz implícitas, também, ingerências na
relações bilaterais da Rússia com países como o
Irão e a Coreia Democrática, em esferas vinculadas com a
utilização pacífica da energia nuclear.
A Rússia, por sua vez, insiste na sua exigência de que os EUA
consigam que os seus aliados da NATO que ainda não o fizeram ratifiquem
o Tratado sobre Forças Armadas Convencionais na Europa, assim como a que
adiram ao mesmo as repúblicas bálticas após o seu ingresso
na Aliança Atlântica.
O Kremlin não cessa de confirmar o seu desacordo com a expansão
da NATO até as suas fronteiras, apesar de ter aceito colaborar com esta
em alguma media. Também reiterou a Washington suas queixas de
não cumprir as promessas de que a expansão do bloco
norte-atlântico para o Leste europeu não traria consigo a
criação de novas bases militares nos novos países membros,
o que está a ocorrer na Polónia, Bulgária e Roménia
e, inclusive, nos próprios países bálticos. A isto
somam-se os planos de aumentar a presença militar norte-americana no
Cáucaso e na Ásia Central.
Moscovo começou a dar sinais do que parece constituir uma resposta aos
apetites geoestratégicos ianques. As manobras missilísticas que
acabam de realizar-se em várias zonas da Rússia, com o ensaio do
lançamento de novos mísseis balísticos de alcance
intercontinental, são consideradas como as maiores já realizadas
nesse país nos últimos vinte anos.
Segundo os dirigentes russos, o míssil balístico RS-12M,
conhecido como "Tópol-M", com um raio de acção
de 10 mil km, é o mais perfeito do mundo e não pode ser detectado
por nenhum dos radares com que conta o exército norte-americano. O
ministro da Defesa russo, Serguei Ivanov, declarou recentemente à
imprensa que "...o novo complexo missilístico 'Topol-M' deixa sem
efeito qualquer tentativa de pressionar a Rússia". Nestas manobras
também foi lançado o novo míssil "Molnia",
portador do satélite espião "Oko", destinado a detectar
o lançamento de mísseis balísticos a partir do
território de qualquer possível adversário.
Apesar de, segundo relatos da imprensa, durante estes exercícios terem
ocorrido duas falhas no lançamento dos foguetes, de qualquer forma a sua
envergadura deixou bem clara a decisão do Kremlin de reafirmar e
fortalecer a condição de potência nuclear do país.
Finalmente, chama a atenção o facto de que nos últimos
meses o presidente Putin converteu-se no alvo de uma virulenta campanha contra
si por parte da quase totalidade dos meios de imprensa norte-americanos e de
outras potências ocidentais.
Os mais importantes diários, revistas e portais electrónicos do
Ocidente repetem diariamente o alarme de que o "temido império
russo" tenha despertado, deitando por terra as esperanças de que o
gigante euroasiático nunca mais voltaria a constituir uma ameaça
para a "democracia ocidental".
Na realidade, o que está a ocorrer provavelmente é que o Kremlin
pode ter definido a sua posição em relação aos
Estados Unidos. Tendo em conta que os norte-americanos só respeitam os
sócios fortes, a Rússia vê-se obrigada a conservar e
aperfeiçoar aqueles componentes do poderio nacional que a possam tornar
comparável aos EUA. Neste caso, o principal componente é o
potencial missilístico nuclear. Se a Rússia se atasse à
NATO perderia a independência estratégica, ficando totalmente
subordinada aos interesses estadunidenses. Ao mesmo tempo, tão pouco
lhe convém uma confrontação com os Estados Unidos.
Portanto, a opção que lhe resta para as relações
com esse país e esta possivelmente é a escolhida por Putin
é combinar uma associação limitada com uma
rivalidade à escala local.
De resto, as relações darão saltos de melhoria cada vez
que os Estados Unidos precisem. No momento, aparentemente não existem
problemas graves na coligação antiterrorista, nem nos quase
inexistentes intercâmbios económicos bilaterais que ameacem as
relações entre ambos.
A MODO DE EPÍLOGO
Ainda que não seja imprescindível, parece-nos entretanto que
seria interessante e útil para o leitor saber o que escreveu em data
muito recente Zbignew Brzezinski, personagem que não precisa de
apresentação, acerca das relações dos Estados
Unidos com a Rússia:
"Eu diria que o que deveríamos procurar na Rússia sem
rodeios é a promoção da democracia e a
transparência, e não o tipo de ajuda táctica
específica, mas nem sempre útil, que se obtém ao
preço de comprometer até o nosso próprio conceito do que
é uma democracia. Preocupam-me os apoios incondicionais a um governo de
ex-agentes da KGB, como se se tratasse de uma democracia madura. (...) se a
Rússia deve ser parte dessa zona de paz ampliada (refere-se à
zona euroatlântica), não pode trazer consigo sua bagagem imperial
nem uma política genocida contra os chechenos, não pode matar
jornalistas e não pode reprimir os meios de informação.
"Creio que deveríamos ser sensíveis a esses factos,
inclusive se prendem oligarcas com os quais alguns dos nossos
concidadãos têm interesses compartilhados. Isso não deve
contar com a nossa aprovação. Deve ser condenado, mas
seguramente há razões mais profundas para assinalar que a
Rússia deve mover-se em direcção à democracia...
Temos que nos esforçar por atrair a Rússia, enquanto ao mesmo
tempo somos muito claros naquilo que ainda desqualifica a Rússia como
membro genuíno da comunidade dos Estados democráticos e
respeitosos da lei".
[2]
NOTAS
[**] Ver
El gelido mensaje de Colin Powell al Kremlin
.
1- Página digital de "The Moscow Times", 27/Fev/2004.
2- Tomado de: Zbigniew Brzezinski. "La seguridad de EE.UU. en un mundo
unipolar". Artigo publicado na revista espanhola "Política
Exterior", Nº 97, Janeiro-Fevereiro de 2004. (Versión
electrónica distribuida por CPI-Minrex).
[*]
Do
Centro de Estudios Europeos
, de Havana.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
.
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