Uma reacção em cadeia caótica

Nikolai Patrushev [*]
entrevistado por Vitaly Tseplyaev

Nikolai Patrushev.

As cimeiras de organizações nas quais a Rússia desempenha um papel significativo, tais como a SCO, CSTO e BRICS, foram concluídas recentemente. Tradicionalmente, a segurança internacional é um tópico importante na sua agenda. O secretário do Conselho de Segurança da Federação Russa, Nikolai Patrushev, falou mais pormenorizadamente sobre este assunto numa entrevista à AIF.

Vitaly Tseplyaev, AIF: – Nikolai Platonovich, as abreviações BRICS, SCO e CSTO não significam muito para a maior parte dos leitores. Poderia dizer qual é a contribuição real destas estruturas? Contribuem elas para a manutenção da paz e da estabilidade?

Nikolai Patrushev: – O papel destas organizações no mundo moderno está a crescer. Isto é uma tendência objectiva. Os BRICS, por exemplo, representam mais de 40% da população mundial, 25% do PIB global e 22% do comércio global. Com base na paridade do poder de compra, por exemplo, os BRICS já ultrapassaram o Grupo dos Sete em termos de produto interno bruto: 33% contra 30%.

Fazer amigos contra alguém não é o nosso princípio.
— Nikolai Patrushev

Dentro da estrutura do SCO, BRICS e CSTO, são tomados passos práticos para fortalecer a estabilidade global, a segurança regional e laços comerciais e económicos. Cooperamos de forma contínua na luta contra o terrorismo, o crime transnacional, a produção e distribuição de drogas, a migração ilegal, a pirataria, e a utilização das tecnologias da informação e comunicação para fins criminosos. E, no contexto da pandemia em curso, estamos a prestar atenção à luta conjunta contra a propagação de infecções.

Não listarei todas as áreas nas quais os nossos países trabalham em conjunto. O importante é que estas acções são para o benefício de todos os povos. Fazer amigos contra alguém não é o nosso princípio.

— Nas cimeiras, foi dada atenção especial aos mais recentes desenvolvimentos no Afeganistão. Tem o sentimento de que ao retirar-se deste país os americanos simplesmente transferiram responsabilidades para a Rússia e seus parceiros regionais?

— Na verdade, a retirada irresponsável das tropas americanas levou ao facto de que os estados da região têm de enfrentar problemas crescentes que os ocidentais não só não resolveram como também agravaram. Nestas condições, os países da SCO e do CSTO tornaram-se os principais garantes da estabilidade na Ásia Central. De facto, o Afeganistão tornou-se um teste ácido, confirmando mais uma vez que Washington não tem amigos no mundo, mas apenas os seus próprios interesses egoístas. Depois de gastar milhões de milhões (trillions) de dólares em operações militares, os Estados Unidos e seus aliados deixam por toda a parte o caos e a destruição no seu rastro. Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria, agora a Ucrânia e anteriormente a Jugoslávia, dúzias de estados asiáticos, africanos e latino-americanos são todos eles exemplos da estratégia destrutiva americana de dominância mundial.

Para Washington, não há amigos no mundo, apenas os seus próprios interesses egoístas. Depois de gastarem milhões de milhões de dólares em operações militares, os Estados Unidos e seus aliados deixam por toda a parte o caos e a destruição no seu rastro.

Onde Washington não pode atingir seus objectivos através de intervenção militar, intervém agressivamente nos assuntos internos de Estados soberanos. Washington está a tentar isolar países indesejáveis do mundo exterior, cortá-los mesmo do abastecimento de meios de sobrevivência básicos. Veja a Venezuela ou, por exemplo, Cuba, onde a situação escalou neste Verão. Aviões transportando alimentos, remédios e equipamento médico voaram de Moscovo para Havana quase de imediato. A partir de Washington houve apelos aos cubanos para tomarem as ruas e derrubarem o governo legítimo. Isto é democracia American-style.

Mas em cada uma das suas acções seguintes, Washington cinicamente chama a Rússia, a China, o Irão e numerosos outros estados de países "maus", violadores da ordem, revanchistas, actores mal-intencionados.

— Aparentemente, segundo legisladores americanos, só os Estados Unidos podem ser um país "bom".

— São os Estados Unidos os principais instigadores da desordem no mundo. Além disso, cada sucessivo experimento geopolítico de Washington não afecta apenas um único estado e seu povo, mas desencadeia também uma reação em cadeia que desestabiliza regiões inteiras, incluindo o próprio Ocidente.

Após o fiasco americano no Afeganistão estão a formar-se condições para uma nova crise migratória, ainda mais severa do que a de 2015. Então, a partir dos países do Médio Oriente e África do Norte destruídos pelos americanos e europeus, tantos refugiados foram despejados no Mar Mediterrâneo que ninguém ainda pôde contá-los.

Acredito que os Estados Unidos e os seus aliados arcam com a responsabilidade pela destruição das economias de estados soberanos, pelo agravamento de problemas inter-étnicos e políticos e pela activação do terrorismo, extremismo e outras ameaças. Isto inclui providenciar compensação que excede significativamente os muitos milhões de milhões de dólares que eles gastaram ao minarem a estabilidade por todo o mundo.

— A crise afegã tornou-se uma ocasião para o G7 reconhecer o papel da Rússia e da China na resolução de problemas globais e regionais. Pensa que os Sete Grandes podem outra vez tornarem-se os "Oito", ou mesmo os "Nove"?

— Os países do G7, com a sua proposta de envolver a China e a Rússia na resolução de questões de segurança na Ásia Central, confirmou o facto de que esta associação é apenas um clube de discussão. Além disso, as discussões ali são conduzidas sob o estrito controle de Washington.

O formato que especificou já não é relevante hoje. A Rússia participa apenas naquelas estruturas e clubes internacionais em que problemas reais são resolvidos e em que o princípio da igualdade prevalece, em que padrões e regras de comportamento estrangeiras não são impostas a ninguém.

— Não há muito, o presidente Biden, ao falar acerca da retirada de tropas do Afeganistão, disse que a era do poder de reestruturação de estados soberanos está a acabar.

— Deixe-me recordá-lo que quase todo presidente americano tem feito tais declarações ao longo dos últimos cem anos. Talvez conheça a expressão "a guerra que acabará com todas as guerras"? Sim, esta formulação pertence a Woodrow Wilson. Ele utilizou-a para persuadir seus concidadãos a apoiar a sua decisão de os Estados Unidos juntarem-se à Primeira Guerra Mundial. E depois disso, os americanos começaram mais guerras do que qualquer outro país. Outra revelação ruidosa da Casa Branca – apenas palavras proferidas mais por desespero. As autoridades dos Estados Unidos e dos países ocidentais em geral estão conscientes de que sua capacidade de influenciar a situação global e manter a sua hegemonia está a diminuir a cada ano. Os problemas internos no Ocidente estão a acumular-se rapidamente e já estão próximos da massa crítica. Isso ficou especialmente evidente nos Estados Unidos no ano passado, quando o Capitólio foi invadido e protestos raciais inspirados a partir de dentro transformaram-se em verdadeiras batalhas de rua.

Por estas razões, é cada vez mais difícil para os americanos e seus aliados ditarem a sua vontade ao mundo. Mas isto não significa que eles abandonarão tal estratégia imperial.
— Nikolai Patrushev

Mas isto não significa que eles abandonarão tal estratégia imperial. Ao invés disso, suas acções tornar-se-ão mais agressivas e imprevisíveis a fim de desviar a atenção das suas sociedades de perturbações internas a expensas de aventuras externas. É assim que todos os impérios em derrocada actuam, desde a antiga Roma até à Grã-Bretanha.

— Mas a Grã-Bretanha moderna nunca se cansa de demonstrar a sua própria exclusividade e ambições imperiais, incluindo criticar fortemente a Rússia e exigir que ela mude de linha no cenário mundial.

— Depois de abandonar a União Europeia, Londres começou a implementar o projecto "Global Britain" como uma vingança. Contudo, antes de tentar restaurar a antiga grandeza imperial, os britânicos deveriam tratar dos problemas internos. Um número significativo de pessoas na Escócia, Gales e Irlanda do Norte ainda não se considera britânica. Os ingleses afastaram os escoceses para as montanhas durante séculos, os galeses foram utilizados como mão-de-obra barata e os irlandeses foram levados para as colónias para trabalharem como escravos. Estes povos têm sido tratados com muito desrespeito ao longo dos séculos, tal como os africanos e asiáticos conquistados pela Inglaterra.

Assinatura do Acordo de Munique.

A política anti-russa de Londres também tem uma longa história. Desde o fim do século XIX, a Grã-Bretanha tem tentado incitar o Japão contra a Rússia, provocando a guerra de 1904-1905, em consequência da qual nosso país foi forçado a fazer significativas concessões territoriais. Eles tentaram repetir isto com a Alemanha nazi, preparando o acordo de Munique.

Hoje, a Grã-Bretanha quer construir o seu império sob a nova bandeira da "global Britain" utilizando os velhos métodos. Isto é uma razão para pensar acerca tanto da própria Inglaterra como dos países e povos que outrora experimentaram a opressão colonial britânica.

— Mencionou o Japão. Também este país deveria considerar as lições da história?

"Certamente. Em Agosto de 1945, a União Soviética, tendo derrotado o Exército Kwantung com a velocidade de um raio, recuperou tudo o que militaristas japoneses tentaram arrebatar do nosso país. Agora, alguns políticos em Tóquio estão a tentar revolver o passado e apresentar algumas velhas contas à Rússia, continuam a seguir cegamente instruções americanas e voluntariamente envolvem-se em esquemas anti-chineses e anti-russos com formatos Indo-Pacífico.

— Quer dizer a associação QUAD, a qual inclui os Estados Unidos, Índia, Austrália e Japão?

— Estamos a falar realmente acerca de um novo bloco militar-político com um pronunciado carácter pró-americano. De facto, o QUAD é um protótipo do equivalente asiático da NATO. Washington tentará atrair outros países para esta organização, sobretudo para conduzir políticas anti-chinesas e anti-russas.

Há poucos dias, outro bloco militar foi formado na região – o AUKUS estado-unidense, britânico e australiano, o qual persegue os mesmos objectivos. É característico que com a sua criação os americanos também esmagaram os seus parceiros franceses, obtendo um acordo lucrativo para construir submarinos nucleares para Canberra. Aparentemente, a solidariedade atlântica também tem um preço. Penso que muitas pessoas em Paris agora recordam a história dos Mistrals.

A fim de implementar outra aposta da Casa Branca para fortalecer o controle sobre uma região hoje tão promissora como a da Ásia-Pacífico, toda a arquitetura de segurança na Ásia está a ser comprometida e estão a ser criados pré-requisitos para minar a autoridade da ASEAN e de outras associações regionais.

— Hoje, em princípio, o interesse de todo o mundo está a mudar dos países ocidentais para a região Ásia-Pacífico, onde vive metade da população mundial e uma parte significativa de sua economia está concentrada. Trata-se de um processo objetivo ou resultado de erros de cálculo europeus?

A Ásia hoje está a adquirir a mesma significância geopolítica e económica para o mundo todo que a Europa possuiu outrora.
— Nikolai Patrushev

– Isto em grande medida é facilitado pelos próprios europeus, pois permitiram que o chamado projeto europeu delegasse uma parte significativa da soberania de seus Estados a Bruxelas. E quem domina o baile nas autoridades da UE? Não representantes de nações europeias, mas burocratas ao serviço dos interesses de corporações multinacionais.

Tentando declarar suas ambições na política internacional, a União Europeia só se desacredita a si própria. O relatório sobre as relações da UE com a Rússia adoptado na semana passada confirma isto. Ao continuar sua política anti-russa, o Parlamento Europeu declarou sua prontidão para o não reconhecimento dos resultados antes mesmo das eleições da Duma do Estado.

Hoje, cada vez mais países entendem que da União Europeia dificilmente se pode esperar algo mais do que fazer palestras sobre direitos humanos e instilar valores pseudo-liberais.

Ao mesmo tempo, alguns Estados europeus têm um bom histórico de política externa, incluindo uma enorme experiência de construção da diplomacia em todas as regiões do mundo, a qual tem mais de cem anos. Refira-me principalmente à Alemanha, França e Itália. Esperamos que estas Potências finalmente se livrem da influência externa e retornem às suas políticas pragmáticas e independentes de outrora.

— Mas será que Washington permitirá que estes países se retirem das associações sob o seu controle?

— Os Estados Unidos não estão interessados em estados europeus independentes, assim já estão a tentar criar formatos locais que sejam benéficos para eles mesmo no interior da União Europeia. Exemplo: a " Iniciativa Três Mares", a qual consolida os países da Europa do Leste. Ela é apresentada como uma integração de formato construtivo, mas na realidade estamos a falar acerca de uma nova associação anti-russa de estados. De facto, isto é um ressuscitar da ideia de criar um assim chamado "cordão sanitário" de um século atrás ao longo da fronteira ocidental do nosso país.

— Das tais associações recém criadas, nos últimos dias um certo número de países deu atenção especial à chamada " Plataforma da Crimeia".

— A "Plataforma da Criméia" foi criada por Washington para parecer se importar com os interesses da Ucrânia. Seus objetivos declarados estão condenados ao fracasso. Os planos para violar a integridade territorial da Rússia permanecerão nos gabinetes em que foram concebidos. Brincar com as ambições territoriais irrealistas da Ucrânia é imprudente e perigoso. A Plataforma da Criméia tornou-se uma reunião de representantes de países que apoiam o governo oficial em Kiev, o qual alimenta nacionalistas, estimula radicais e declara abertamente sua prontidão para operações militares em grande escala contra a Rússia.

A visita de Zelensky a Washington mostrou a cara real daqueles que supostamente se importam com o bem-estar da Ucrânia. Os acordos alcançados só beneficiarão os negócios americanos, que mais uma vez poderão lucrar com projetos ucranianos sem concorrência. Isto não é senão colonialismo velado. A população da Ucrânia é activamente apresentada a esta política anti-nacional como sendo um movimento rumo ao chamado Ocidente progressista. E há muitos que acreditam nessa propaganda.

– Americanos e europeus afirmam que protegem direitos humanos…

— O que são direitos humanos? Liberdade, protecção da vida e da saúde, igualdade perante a lei e os tribunais, dignidade pessoal e muito mais. O ocidente preocupa-se com direitos humanos, mas de facto viola-os em massa. Os próprios laboratórios biológicos criados por Washington por todo o mundo representam uma ameaça à saúde de dezenas de milhões de pessoas, violando portanto os seus direitos humanos. A dissidência é perseguida nos próprios Estados Unidos, muitas pessoas são privadas da oportunidade de receberem cuidados médicos normais e representantes de todas as raças e nacionalidades estão longe de poderem contar com decisões justas de juízes e da polícia.

O mesmo está a acontecer na Europa. Nos Estados Bálticos, por exemplo, está a ser implementada uma política real de apartheid contra a população de língua russa. Pessoas têm estado a viver sem cidadania durante anos, ou seja, virtualmente fora do campo legal e a sua utilização da língua russa é considerada uma ofensa. Na Ucrânia, as autoridades aprovam leis discriminatórias sobre a língua russa e sobre povos indígenas, mas nem os Estados Unidos nem a Europa querem perceber ou condenar isto directamente.

Sob os slogans hipócritas da luta pela igualdade no Ocidente, organiza-se a discriminação flagrante contra cidadãos que aderem aos valores tradicionais. O que vale é apenas um enfraquecimento sistemático das relações normais de gênero, quando pai e mãe são renomeados pais número um e dois, eles querem dar às crianças o direito de escolher seu próprio gênero e em alguns casos chegam a legalizar casamentos com animais.

É improvável que países com tradições ricas e centenárias queiram ter algo em comum com tais valores. A imposição de normas estranhas à sociedade dividirá ainda mais o mundo sobre o princípio do "amigo — inimigo", tornar-se-á uma razão para provocar hostilidade entre estados e levará à polarização da sociedade nos países onde tentarão impor artificialmente tais estereótipos.

— Que espécie de agenda a Rússia apresenta ao mundo moderno a este respeito?

— Nosso país defende a expansão da cooperação multilateral igualitária, o desenvolvimento de instituições internacionais universais e o trabalho em conjunto para reduzir as tensões globais e fortalecer a segurança internacional.

Se o Ocidente cria associações de Estados para resolver problemas de curto prazo, conter países que não gosta e suprimir seus próprios aliados, então a Rússia e nossos parceiros no SCO, BRICS, EEU, CSTO e CIS não têm uma agenda sombria. Nossos países compartilham uma contribuição comum para garantir a segurança nacional e a estabilidade global, o reconhecimento da primazia do direito internacional e o papel coordenador da ONU, a rejeição da interferência nos assuntos internos de Estados independentes, a prontidão para defender seus interesses nacionais de forma intransigente e tratar a soberania de outros países com compreensão.

21/Setembro/2021

O original encontra-se aqui e a versão em inglês em thesaker.is/...

[*] Secretário do Conselho de Segurança da Federação Russa

Este artigo encontra-se em resistir.info

23/Set/21