A absoluta impunidade quanto à explosão dos gasodutos Nord Stream levanta um panorama aterrador da ilegalidade e da barbárie no mundo de hoje.
Os Estados Unidos e os seus cúmplices da NATO promovem de modo imprudente e insensível uma guerra na Ucrânia contra a Rússia, a qual já sacrificou cerca de meio milhão de soldados ucranianos e coloca o mundo em risco de uma conflagração nuclear. A insanidade criminosa decorre da falta de qualquer responsabilidade legal por parte dos Estados Unidos, que grotescamente se declara guardião da “ordem baseada em regras”.
Esta semana decorreu um ano desde que foi cometido um crime ultrajante contra a paz internacional e, no entanto, os governos e os media ocidentais atuam como os proverbiais macacos que incrivelmente se recusam a ver, ouvir ou falar de qualquer mal.
Os profundos desafios morais e filosóficos são dignos de exploração num romance épico tal como o clássico Crime e castigo de Dostoiévski.
Mas não se trata de ficção. Trata-se de factos frios da vida real.
De longe, a explicação mais crível para a destruição dos gasodutos Nord Stream é apresentada pela reportagem investigativa do veterano jornalista americano Seymour Hersh.
Muitos outros observadores independentes concordam com o relato de Hersh de que os gasodutos sob o Mar Báltico foram explodidos por uma operação militar secreta dos EUA em conluio com outras forças da NATO.
Segundo Hersh, a sabotagem foi ordenada pelo presidente Joe Biden e seus principais assessores da Casa Branca.
A infraestrutura destinada a transportar gás natural da Rússia para a Alemanha pertencia a essas duas nações, bem como a várias outras empresas europeias. Custou pelo menos US$20 mil milhões construí-la, ao longo de uma década. Em 26 de setembro de 2022, as tubagens foram tornadas inoperantes devido a uma série de explosões subaquáticas.
Em Fevereiro de 2022 Biden havia ameaçado explicitamente eliminar as tubagens de gás durante uma conferência de imprensa na Casa Branca acompanhada pelo chanceler alemão Olaf Scholz. A motivação para os americanos era cortar a Europa e em particular a Alemanha do combustível russo, o qual seria substituído por exportações muito mais caras de gás natural liquefeito estado-unidense. Excelente para os negócios americanos, absolutamente prejudicial para a Europa, como testemunham agora as economias europeias atingidas pela recessão.
O motivo e os meios para a execução do crime foram descritos minuciosamente por Hersh e outros.
No entanto, num ato audacioso de negacionismo coletivo, os governos e os media ocidentais recusam-se a investigar este crime monumental. Relatórios oficiais sobre o incidente efetuados pela Dinamarca, Alemanha e Suécia foram suprimidos sem que fossem publicadas conclusões sobre a identidade do perpetrador do crime.
Os estados europeus recusaram à Rússia permissão para participar numa investigação criminal conjunta.
Esta semana, mais uma vez, Moscovo apelou ao Conselho de Segurança das Nações Unidas a que emitisse uma condenação da sabotagem e a que lançasse uma investigação imparcial desta violação extraordinária do direito internacional. Os apelos anteriores da Rússia ao Conselho de Segurança foram rejeitados pelas potências ocidentais.
Ridiculamente, os media ocidentais fingiram um agnosticismo acerca das “explosões misteriosas”. Tais media entregaram-se credulamente à flagrante desinformação diversionista. Inicialmente alegaram, por exemplo, que a Rússia executara auto-sabotagem e, posteriormente, afirmaram que a operação militar refinada e altamente complexa fora façanha de “militantes pró-ucranianos” a trabalharem num iate. Há uma razão proeminente para o silêncio ocidental. Destina-se a evitar o proverbial elefante na sala de que foi um crime terrorista cometido pelos Estados Unidos sob as ordens do seu presidente. Reconhecer este facto provocaria, evidentemente, um descrédito fatal aos Estados Unidos. Seria visto mais do que nunca como um Estado terrorista patife que presume estar acima da lei.
Os interesses imperialistas de Washington de dominar a Europa e de deslocar a Rússia como fornecedor de energia são a razão central para a guerra na Ucrânia. Esta agenda egoísta e criminosa torna-se evidente se o ato terrorista Nord Stream for reconhecido e devidamente compreendido. O público ocidental ficaria em pé de guerra quanto à falsa propaganda acerca da guerra na Ucrânia e a suposta “defesa da democracia”.
Não só isso, mas os Estados europeus e da NATO seriam vistos como os cúmplices criminosos e os vassalos patéticos que são. Os Estados Unidos sabotam infraestruturas civis europeias e as economias dos seus supostos aliados – e ainda assim estes aliados não pronunciam nem uma palavra de protesto. Na verdade, eles têm participado voluntária e mansamente na sua auto-mutilação.
O chanceler alemão Olaf Scholz e outros líderes europeus deveriam ser processados por cumplicidade no terrorismo internacional e traição contra os seus interesses nacionais.
Ironicamente, esta semana, Joe Biden, enquanto estava no Arizona, ousou dizer aos eleitores americanos que eles enfrentam uma escolha drástica nas eleições presidenciais do próximo ano. Biden disse que a escolha seria entre os cidadãos norte-americanos “apoiarem a democracia” sob a sua liderança contínua ou “elegerem o extremismo” com Donald Trump ou algum outro candidato republicano.
O que poderia ser mais extremo do que Biden a ordenar às suas agências militares que explodissem gasodutos propriedade da Rússia e de outros Estados europeus?
O facto de Biden e os Estados Unidos terem sido autorizados a escapar impunes da indignação do terrorismo Nord Stream é a razão pela qual ao longo do ano passado Washington e os seus acólitos da NATO escalaram continuamente a guerra por procuração na Ucrânia contra a Rússia.
A espantosa impunidade permitida aos EUA e aos seus cúmplices da NATO relativamente ao incidente do Nord Stream é coerente com a forma como estas mesmas potências imperialistas escaparam impunes de assassinatos em massa e das guerras criminosas que travaram durante décadas sem quaisquer processos. O establishment dos EUA e as suas agências clandestinas são um sindicato criminoso que também sofre de ilusões de virtude.
A impunidade gera mais criminalidade. Os Estados Unidos e os seus parceiros ocidentais raramente, ou nunca, foram responsabilizados pelos seus crimes históricos contra o resto do mundo. Quando um ato de terrorismo tão transparente e descarado é perpetrado como na sabotagem do Nord Stream e é ignorado, então o mundo mudou para uma situação ainda mais perigosa onde os crimes não têm punição e crimes ainda maiores e mais nefastos podem ser cometidos.
Os EUA e os seus capangas da NATO, em particular a Grã-Bretanha, estão a armar um regime nazi em Kiev com tanques, bombas de fragmentação, munições de urânio empobrecido e mísseis de longo alcance para atacar a Rússia. A impunidade que os americanos e os seus parceiros acreditam ter adquirido é chocante e odiosa. Não há contenção.
Durante anos, o eixo da NATO tem armado e treinado batalhões nazis na Ucrânia para cinicamente levar uma guerra imperialista às portas da Rússia. A escandalosa adulação do Canadá a um criminoso de guerra nazi no seu parlamento na semana passada é um sinal dos tempos depravados em que vivemos. Mas chegámos a esta degeneração porque, como ilustra o incidente do Nord Stream, as potências ocidentais, primariamente o poder executivo americano, sentem que não só estão acima da lei como também que têm o direito de esmagá-la para atingir qualquer objetivo que considerem desejável.
Quando aqueles que proclamam defender a lei infringem a lei, então não existe lei. Esse é o mundo assustadoramente bárbaro em que vivemos hoje.
Biden advertiu esta semana acerca do fascismo que se aproxima dos Estados Unidos na forma de rivais políticos internos. A realidade é que o fascismo, a ilegalidade imperialista e a barbárie já estão bem instalados nesta Casa Branca.