A retórica da “guerra total” trai a hostilidade sistemática da NATO em relação à Rússia

O conflito e o sofrimento na Ucrânia são lamentáveis. Mas ainda mais lamentável e deplorável é o modo como as potências da NATO criaram o conflito.

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O ministro das Finanças francês Bruno Le Maire revelou mais do que pretendia quando declarou esta semana que os Estados ocidentais estavam a travar uma "guerra total" contra a economia russa. O facto de ter rapidamente procurado retirar as suas palavras como sendo inadequadas mostra que aquele alto funcionário do governo francês percebeu a gravidade do que estava a revelar sobre a resposta das potências da NATO à intervenção militar da Rússia na Ucrânia.

Passaram-se duas semanas desde que o Presidente Vladimir Putin ordenou a entrada dos militares russos na Ucrânia no que Moscovo afirma ser uma "operação especial", primariamente para defender a população russófona da Ucrânia. As repúblicas auto-declaradas do Donbass – Donetsk e Lugansk, agora oficialmente reconhecidas como Estados independentes pela Rússia – estavam a ser alvo de um ataque militar intensificado por parte das forças apoiadas pela NATO do regime de Kiev. O antigo primeiro-ministro ucraniano Nikolay Azarov afirmou esta semana que a intervenção da Rússia impediu uma ofensiva da NATO-Kiev que teria resultado em milhares de mortes.

Deve também notar-se, num contexto importante, que os repetidos apelos de Moscovo a um tratado de segurança com as potências da NATO relativamente à futura exclusão da Ucrânia da aliança foram redonda e arrogantemente repudiados. O país vizinho representava uma ameaça existencial à segurança da Rússia que nenhuma potência ocidental toleraria nas suas fronteiras nem de forma remota.

Em qualquer caso, a resposta dos Estados Unidos e dos seus aliados europeus da NATO à intervenção da Rússia foi a de negar vagamente que Moscovo tivesse qualquer causa razoável. De facto, os meios de comunicação social ocidentais montaram uma campanha maciça de difamação da Rússia como "um agressor sem qualquer provocação".

Ao invés de reconhecer qualquer das preocupações de segurança de longa data da Rússia relativamente à expansão da NATO e, em particular, ao papel da Ucrânia na projecção de uma ameaça à segurança nacional russa, os Estados ocidentais duplicaram a sua agenda de hostilidade sistemática. A situação extremamente perigosa corre o risco de deslizar para uma guerra directa – uma Terceira Guerra Mundial – entre a Rússia e as potências da NATO, o que inevitavelmente conduziria à aniquilação nuclear, como o ministro dos Negócios Estrangeiros russo Sergey Lavrov alertou esta semana.

A resposta concertada de Washington e de outras capitais ocidentais à imposição de um bloqueio económico à Rússia durante a crise da Ucrânia é um sinal da agenda estratégica a executar. Uma agenda, há que dizê-lo, que é criminosa e uma violação da Carta das Nações Unidas. Os líderes americanos, britânicos, franceses e outros da NATO têm saboreado a perspectiva do colapso da economia russa. (O mesmo tipo de terrorismo económico patrocinado pelo Estado que Cuba, Irão, Venezuela, Coreia do Norte e outros têm de suportar por não se vergarem às exigências ocidentais).

Para além desta guerra económica, as potências da NATO continuam a acumular armas e empreiteiros militares privados na Ucrânia para combater o que se está a tornar uma guerra por procuração (proxy war) contra a Rússia. Só no último ano, estima-se que a administração Biden tenha atribuído mil milhões de dólares em ajuda militar norte-americana à Ucrânia. A Grã-Bretanha também tem estado a despejar armas na Ucrânia e agora a Alemanha esta semana – rompendo um tabu de décadas – juntou-se a outros membros da NATO para fornecer armas.

O secretário-geral da NATO Jens Stoltenberg afirma que a aliança não é parte no conflito. Mas esta afirmação é uma mentira descarada. A NATO tem armado o regime de Kiev desde o golpe de Estado apoiado pela CIA em 2014, que levou ao poder uma cabala neonazi. As forças especiais dos países da NATO têm treinado batalhões ultra-nacionalistas com insígnias Waffen SS na utilização de armas para atacar a população de etnia russa no Donbass, que se recusou a reconhecer o regime de Kiev.

A guerra económica e militar por procuração é simultânea com a esmagadora campanha de propaganda dos media por toda a Europa e América do Norte para demonizar e criminalizar a Rússia. Os políticos norte-americanos apelam abertamente ao assassinato do Presidente russo Putin, enquanto os parlamentares britânicos exigem a deportação de todos os cidadãos russos. As figuras culturais e desportivas russas estão a ser proibidas. Num frenesim de russofobia, até eventos internacionais como exposições de gatos estão a ser alvo de proibições. Este último exemplo é quase risível, mas ilustra o esforço total em curso para demonizar e isolar a Rússia.

O passo lógico seguinte é nefando: fazer da guerra à Rússia e ao seu povo uma "causa justa" por parte das potências ocidentais.

Neste clima geopolítico histérico, é vital manter uma análise histórica da razão pela qual o actual conflito existe.

Durante anos, tem sido abertamente defendido pelos planeadores imperiais nos EUA e pelos seus representantes da NATO rotular a Rússia (e a China) como um inimigo que impede a dominância global liderada pelos americanos. A Rand Corp, por exemplo, apregoou descaradamente a mudança de regime em Moscovo.

A orgia de guerras que Washington e os seus aliados europeus travaram nas últimas três décadas desde o colapso da União Soviética foi toda impulsionada por uma agenda de afirmação de hegemonia e de redução de qualquer oposição da Rússia, China e outros. A expansão implacável e ameaçadora da NATO para leste, até às fronteiras da Rússia, é parte integrante disso, tal como o golpe de Estado na Ucrânia em 2014.

Estamos onde estamos devido a esta hostilidade estratégica liderada pelos EUA em relação à Rússia.

Não se trata apenas da intervenção da Rússia na Ucrânia. Os meios de comunicação ocidentais pretendem apresentar isto como a alegada agressão de Moscovo contra a Europa, embora Putin tenha reiterado esta semana pela enésima vez que a Rússia não tem más intenções em relação à Europa. Os sabichões ocidentais pontificam sobre o suposto revanchismo de Putin para restaurar a União Soviética. São impostas sanções supostamente para demonstrar a defesa ocidental dos "valores democráticos" – quando os EUA e a Europa utilizam todos os instrumentos disponíveis para censurar e impedir os media russos de darem uma visão alternativa.

A retórica da "Guerra Total" não é um deslize ou uma infeliz má utilização de palavras. A repetida vontade e preferência expressa de confrontar a Rússia – inclusive de matar a sua liderança – mostra que existe uma dinâmica estratégica e de longo prazo, para o que se está a desenrolar. Se Washington e os seus parceiros da NATO estivessem genuinamente interessados em relações pacíficas, não teriam repudiado as propostas de segurança de Moscovo apresentadas em Dezembro. Eles não estariam a armar o regime de Kiev. Para essa finalidade, é perturbador que as potências da NATO pareçam estar a impedir as discussões actualmente em curso entre a Rússia e a Ucrânia destinadas a encontrar uma solução pacífica para o seu conflito.

Mais sinistramente, talvez a última vez que a frase "Guerra Total" foi ouvida articulada em público em relação à Rússia tenha saído da boca do nazi Joseph Goebbels da Alemanha.

O conflito e o sofrimento na Ucrânia são lamentáveis. Mas o que é ainda mais lamentável e deplorável é o modo como as potências da NATO criaram o conflito. E mais, agora as elites ocidentais e os seus media maleáveis estão a forjar um casus belli contra a Rússia sob o cínico disfarce dae preocupação com a Ucrânia, a democracia, o direito internacional e a paz.

04/Março/2022

O original encontra-se em www.strategic-culture.org/news/2022/03/04/total-war-rhetoric-betrays-systematic-nato-hostility-towards-russia/

Este editorial encontra-se em resistir.info

06/Mar/22