A Índia não deveria errar no indicador de guerra mundial

M. K. Bhadrakumar [*]

Partição da Jugoslávia após a agressão da NATO.

A transição da mentalidade na política externa da Índia no período pós guerra fria de uma perspectiva internacional para uma perspectiva nacional, e depois a sua queda colossal para um pensamento provinciano ("mofussil"), é um fenómeno trágico. Um dos seus resultados tem sido a tendência para reduzir a política externa a um único tema – as relações da Índia com os Estados Unidos – o qual começou após o governo de Narasimha Rao.

Narasimha Rao foi o último primeiro-ministro indiano com uma mente erudita em assuntos internacionais que, naturalmente, beneficiou da pedagogia de Jawaharlal Nehru. Este tinha todos os motivos para ter uma perspectiva mundial enquanto navegava no Congresso durante o período complexo entre duas guerras mundiais, quando o país estava preso numa luta pela liberdade contra uma superpotência – a Grã-Bretanha Imperial – com um império sobre o qual o sol nunca se punha.

Foi assim que Nehru se associou intimamente à Revolução Bolchevique intelectualmente, emocionalmente, pessoalmente, para dela extrair grandes ensinamentos morais e sinais para uma Índia independente.

Tudo isso é história. Desde Rao, tem havido um declínio constante à medida que a elite governante indiana foi apanhada na "situação unipolar", graças à doutrinação dos lobistas da América. Assim, impôs-se a narrativa fatalista de que estamos destinados a viver num Novo Século Americano.

Mesmo depois de 1999 e da trágica vivissecção da Jugoslávia, incluindo o bárbaro bombardeamento da capital Belgrado pela NATO durante 78 dias sem um mandato da ONU, não ocorreu à nossa elite dirigente que uma maré de sangue teria afrouxado a ordem mundial e uma "besta-fera brutal, a sua hora chegou finalmente / Slouches towards Bethlehem to be born" – para tomar emprestadas as linhas arrepiantes do poema Second Coming do poeta irlandês WB Yeats.

A BESTA-FERA

Aquela besta-fera, com a forma de um corpo de leão e "um olhar vazio e impiedoso como o sol" passou desde então de devorar a carcaça da Jugoslávia para as carcaças do Afeganistão, Iraque, Geórgia, Líbia, Síria, Somália, et al, e chegou à Ucrânia em 2014.

Ela olha em direcção a leste para a vasta massa terrestre eurasiática luxuriante, onde existem muitas sociedades multi-étnicas e plurais como a Jugoslávia, grandes e pequenas, com contradições internas que as tornam vulneráveis ao desmembramento.

No entanto, a elite indiana está num sono pesado – não só a elite dirigente mas também os partidos da oposição – o do Congresso e os partidos comunistas, em particular, os quais são creditados terem algumas mentes educadas e bem informadas no nível da liderança. Eles pensam que o que se está a desenrolar na Eurásia é uma questão Rússia-Ucrânia !

Assim, o Primeiro-Ministro Narendra Modi faz um telefonema para Vladimir Putin na quinta-feira. Logicamente, ele deveria ter seguido com uma chamada telefónica para Joe Biden, ao invés de deixar a questão da Ucrânia ao ministro dos Negócios Estrangeiros S. Jaishankar para destrinçar com o seu amigo Antony Blinken.

Na verdade, Blinken e uma série de diplomatas ocidentais entraram prontamente em contacto com Jaishankar, encorajados pelo sinal errado que a chamada de Modi transmitiu. Até o ministro dos Negócios Estrangeiros da Ucrânia telefonou a Jaishankar!

E depois veio a fatídica reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas na sexta-feira, onde a Índia praticamente deu a entender que via os desenvolvimentos como uma matriz "Rússia-Ucrânia" – claramente colocado, como uma questão de soberania nacional e integridade territorial, guerra e paz.

Inspirado por esta tendência, Modi recebeu um telefonema do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky. Não é preciso muito engenho para perceber que Zelensky (que alegadamente fugiu de Kiev com a sua família), agiu com base na crença de que a posição da Índia é a favor do regateio.

Agora, é um segredo aberto que o ex-comediante sem experiência política a quem o destino catapultou para o poder na Ucrânia em 2019 (graças a um oligarca que viu potencial para o manipular), é na realidade um mero instrumento (cats-paw) da inteligência ocidental.

Assim, Washington decidiu trabalhar sobre Delhi, sentindo que está à mão uma oportunidade de confundir a liderança indiana com a narrativa americana – a Rússia violou a soberania da Ucrânia, deve terminar as suas operações militares e retirar-se, blá blá blá.

LUTA EXISTENCIAL

A Rússia não está em guerra com a Ucrânia, mas está presa numa luta existencial para evitar o destino da Jugoslávia. Ponto final. O espectro que assombra Putin é a adesão da Ucrânia à NATO, a qual tem sido orquestrada pelos americanos.

A seguir ao golpe de Estado patrocinado pela CIA na Ucrânia em 2014, emergiu na Ucrânia um cálculo de poder anti-russo. O homem de referência dos EUA para a Ucrânia na administração Obama não era outro senão o próprio Biden. Ele fez incontáveis viagens a Kiev durante 2014-2016 para afinar essa transição.

Há um escândalo ainda a fermentar na política dos EUA, de que Biden usou a sua influência para assegurar na Ucrânia alguns negócios altamente lucrativos para o seu filho. De qualquer modo, aqui há um elemento pessoal para Biden – pode-se dizer que ele é uma espécie de "interessado" (“stakeholder”).

A Ucrânia sofre de uma corrupção desenfreada. Em termos simples, alguém deveria ter avisado devidamente o primeiro-ministro de que ele não deveria entrar num território que os anjos temem pisar.

A questão central hoje não é "invasão russa". Putin afirmou inequivocamente que a Rússia não pretende ocupar a Ucrânia e que o seu objectivo é duplo: "desmilitarizar" e "desnazificar" a Ucrânia.

A primeira significa desmantelar a infraestrutura militar que a NATO instalou em solo ucraniano mesmo à porta da Rússia. O aparelho de defesa da Ucrânia, incluindo os seus centros de comando, já se encontra ligado ao sistema da NATO.

Putin advertiu repetidamente que, se os EUA instalassem mísseis na Ucrânia, Moscovo ficaria a 5 minutos de distância de ataque. É "como uma faca na nossa garganta", disse ele na quinta-feira.

Quanto à "desnazificação", os serviços secretos norte-americanos e europeus estão a utilizar forças nacionalistas hardcore na Ucrânia com tendências neonazis, cuja ascendência remonta à Segunda Guerra Mundial quando os seus antepassados actuaram como colaboradores de Hitler durante a invasão nazi da União Soviética.

Têm contas a ajustar com todos os russos, pois após a derrota da Alemanha nazi, Josef Estaline tinha-os castigado severamente por sedição. Sem surpresa, estas forças foram integradas como a vanguarda da ofensiva da NATO contra a Rússia. O espião chefe alemão visitou pessoalmente Kiev para dar o toque final à confrontação por vir e teve de ser evacuado numa operação especial a partir de Berlim!

Em circunstância alguma a Rússia irá desistir enquanto os objectivos gémeos não forem alcançados – desmantelar os sistemas de armas ofensivas instalados pela NATO na Ucrânia e, em segundo lugar, dispersar as forças neonazis que actuam como instrumentos dos EUA.

O próprio Zelensky é um mero homem de fachada. Ele é profundamente impopular, não tem base política e correm rumores de que é um toxicodependente e uma personalidade instável. Ele não constitui um interlocutor digno para Modi discutir a guerra e a paz.

Francamente, a Índia não tem qualquer papel a desempenhar. Isto é um confronto entre os EUA e a NATO, por um lado, e a Rússia, por outro. Dito isto, o resultado desta luta titânica na Europa Central irá remodelar a ordem mundial e afectar a Índia profundamente.

CAPACIDADE TERMONUCLEAR

A derrota da Rússia só pode levar ao seu desmembramento, como a Jugoslávia, e à consequente hegemonia dos EUA. Por conseguinte, a Rússia lançará tudo nesta luta. Não hesitará sequer em usar a sua capacidade termonuclear para se defender, se necessário.

Os EUA estão a montar uma "armadilha de urso" para a Rússia utilizando as forças neonazis. Calcula que se as forças russas ficarem atoladas, abrem-se as portas para uma intervenção da NATO – 175 mil soldados da NATO já estão posicionados nas fronteiras da Rússia, com poder de fogo maciço e formações navais e aéreas a cercarem a Rússia por todos os lados.

Uma intervenção da NATO será equivalente a uma guerra EUA-Rússia – ou seja, uma guerra mundial com armas nucleares. Na quinta-feira, Putin preveniu Biden explicitamente para recuar. Mas Biden indicou então que a NATO continuará a despejar armas dentro da Ucrânia.

Ele revelou ontem que 250 milhões de dólares em armas e munições, binóculos noturnos, etc. (para forças neo-nazis travarem uma guerra de guerrilha) estão a caminho da Ucrânia. Biden jogou a luva para Putin.

A partir deste ponto, as coisas podem tomar as direcções mais perigosas, a menos que Biden permita que o diálogo entre Moscovo e Kiev prossiga, de acordo com a oferta de Putin. Biden parece, no entanto, inclinado a minar o diálogo ao mesmo tempo que o prega.

Zelensky, que primeiro aceitou a oferta de Putin para uma reunião, recuou depois por ordem da América e a ofensiva russa está a ser retomada.

O establishment da política externa da Índia não carece de capacidade de antecipar os desenvolvimentos, ao invés de se tornar um sonâmbulo dentro deles. O que parece ausente aqui é uma liderança política com empenho em encarar os desenvolvimentos unicamente através do prisma da Índia.

Há necessidade crítica de proteger o nosso país contra as consequências (fallouts) e preservar interesses fundamentais, especialmente as relações com a Rússia, tendo em conta os enormes interesses da Índia numa ordem mundial multipolar. Infelizmente, as observações improvisadas dos nossos RPs da ONU na sexta-feira foram uma grande decepção. A Índia coaxou como um sapo no poço.

Leia a profunda declaração chinesa no Conselho de Segurança da ONU para extrair inspiração. Os interesses da China no resultado não são menores que os da Índia.

27/Fevereiro/2022

Ver também:

[*] Indiano, embaixador (na reforma), analista político.

O original encontra-se em www.indianpunchline.com/india-shouldnt-miss-world-war-pointer/

Este artigo encontra-se em resistir.info

28/Fev/22