Crise cubana de mísseis 2.0 sobre a Ucrânia?

– É seguro assumir que qualquer utilização de armas nucleares poderia rapidamente levar a uma escalada de um conflito local ou regional para um conflito global.

Anatoly Antonov [*]

Obama, Bush, Clinton.

Como escreveu Henry Kissinger em 2014, “A demonização de Vladimir Putin não é uma política; é um álibi para a ausência de uma”.

Comecei a trabalhar o meu artigo por duas razões. Primeiro, porque este Outubro assinalará os sessenta anos da Crise Cubana de Mísseis quando a URSS e os Estados Unidos estiveram à beira de um conflito nuclear. Esta é uma ocasião para um olhar mais atento às lições de política externa que as duas grandes potências aprenderam a partir daquele tempo dramático. Acredito que qualquer americano verá comigo, olhos nos olhos, que não devemos permitir que a situação explosiva da década de 1960 se repita. É importante que não só a Rússia e os Estados Unidos, mas também outros estados nucleares, confirmaram numa declaração comum que uma guerra nuclear não pode ser vencidas e nunca deverá ser travada.

Em segundo lugar, estamos a testemunhar um surto de preocupação da comunidade internacional e de peritos estado-unidenses acerca da possibilidade de um conflito nuclear entre Moscovo e Washington. Esta questão tornou-se ainda mais aguda nos últimos dias quando altos responsáveis da administração dos EUA começaram a enviar-nos sinais diretos advertindo contra a utilização de armas nucleares na operação militar especial russa na Ucrânia. Além disso, ameaças contra nós começaram a ser ouvidas a partir do establishment oficial.

Simulação de guerra nuclear feita pela Universidade de Princeton.

A Universidade de Princeton fez mesmo previsões de que milhões de americanos e russos pereceriam no intercâmbio de ataques nucleares. Por vezes sente-se que estamos a retornar aos anos do McCarthyismo nesta questão. Dificilmente se pode esquecer o antigo secretário da Defesa dos EUA, James Forrestal, saltou da janela a gritar “os russos estão vindo”.

Nos media dos EUA abundam publicações de pseudo-peritos que são ignorantes de história e interpretam mal o atual estado de coisas. Eles erroneamente comparam a situação de hoje com a Crise Cubana dos Mísseis.

As declarações de certos políticos e dos media de que as relações EUA-russas estão a passar por uma crise sem precedente podem muito bem serem aceitas. Deixe-me recordá-lo que há apenas um par de anos atrás falámos acerca de uma etapa difícil no diálogo bilateral. Contudo, ninguém podia ter sequer imaginado que chegaria a um ponto tão perigoso. Tudo o que foi criado ao longo de muitos anos de trabalho árduo, incluindo laços políticos, económicos, culturais, científicos e educacionais, foi cancelado para o caixote de lixo da história.

Vemos uma imagem deplorável e deserta no controle de armas. Os tratados ABM e INF afundaram no esquecimento. O Tratado dos Céus Abertos (Open Skies Treaty) virtualmente cessou de existir. O Tratado New START está a aproximar-se do fim da sua duração e, como temos dito reiteradamente, não está plenamente implementado pelo lado americano. O NPT está a experimentar choques sérios. Ninguém pode antever o que acontecerá a seguir.

Tenho de recordar aos leitores que tudo isto é um resultado da política dos EUA. Deixem-me explicar meu ponto de vista. Washington retirou-se dos tratados a fim de ganhar vantagens de segurança, especialmente no confronto com a Rússia. Está numa busca constante de oportunidades para alcançar dominância militar global.

Ao longo das décadas anteriores, a máquina militar da NATO aproximou-se das fronteiras da Rússia em várias “ondas” – em que um poderoso punho impressionante foi erguido sobre a minha Pátria. Como deveríamos nós ter reagido? Nós advertimos nossos colegas que tais passos eram contraproducentes, aumentavam o risco de uma corrida às armas e de que não podíamos ignorar o agravamento de ameaças ao longo do perímetro das fronteiras russas, especialmente nossas fronteiras ocidentais. Recordo-me de longas horas de reuniões na sede da NATO onde tive de participar repetidamente em discussões sobre a nocividade da defesa global de mísseis, a importância de respeitar compromissos internacionais sobre estabilidade estratégica e o perigo de posicionar mísseis de curto e médio alcance na Europa. As exortações russas acabaram por ser em vão.

A última palha de rompeu as costas do camelo foi a tentativa da NATO de lançar a exploração militar-técnica da Ucrânia e cultivar em Kiev um regime desejoso de travar uma guerra sangrenta contra a Rússia.

Hoje o nosso país é acusado de todos os pecados. Eles afirmam que desencadeámos um conflito armado na Europa. Tenho de perguntar: o que fizeram os Estados Unidos para assegurar a implementação dos acordos de Minsk? Por que Washington se manteve silenciosa durante oito anos e não repreendeu Kiev quando ucranianos e russos eram mortos no Donbass?! Como pôde ignorar a terrível tragédia em Odessa quando várias dúzias de pessoas foram queimadas vivas?! Onde estavam as instituições humanitárias internacionais?! Por que a administração que dá prioridade a direitos humanos permitiu tais crimes?! Temos repetidamente feito estas perguntas a políticos americanos. Nada além de belos slogans foi a resposta. A Ucrânia continuou a ser contraposta contra a Rússia.

Hoje é óbvio que os Estados Unidos estão diretamente envolvidos nas ações militares do regime de Kiev. Washington está abertamente a intensificar a oferta de armas leais à Ucrânia e a proporcionar-lhe inteligência. Eles planeiam em conjunto operações militares contra as Forças Armadas Russas. Ucranianos estão a ser treinados no uso de equipamento militar da NATO num combate.

Sinto como se a Rússia estivesse a ser testada para ver quanto tempo permanecerá paciente e abster-se-á de responder a ações ataques flagrantemente antagónicos. De facto, Washington está a empurrar a situação rumo a uma confrontação direta das principais potências nucleares repletas de consequências imprevisíveis.

Responsáveis dos EUA continuam a escalar a situação, intimidando os americanos e o público internacional com falsas “ameaças nucleares” russas. Tal retórica distorce as declarações da liderança russa.

Gostaria de enfatizar que não houve mudança nas condições em que o nosso país usaria armas nucleares. A este respeito, continuamos estritamente a aderir à Doutrina Militar de 2014 e aos Princípios Básicos da Política de Estado sobre Dissuasão Nuclear, de 2020. Moscovo nunca mencionou uma interpretação expansiva destes documentos, os quais podem ser encontrados no domínio público.

Não estamos a ameaçar ninguém. Mas confirmamos que, como disse em 21 de Setembro o Presidente Vladimir Putin, a Rússia está pronta a defender a sua soberania, integridade territorial e o nosso povo com todos os sistemas de armas que temos. O que é que há de agressivo nesta declaração? O que é inaceitável? Os Estados Unidos não fariam o mesmo se confrontados com uma ameaça existencial?

Gostaria de acrescentar que certos políticos americanos estão sob uma ilusão se pensam que nossa prontidão para defender o nosso território não se aplica à Crimeia ou a territórios que possam tornar-se parte da Rússia na base de uma livre expressão da vontade popular.

Gostaria de advertir planeadores militares americanos acerca da falácia das suas suposições de que é possível um conflito militar limitado. Eles aparentemente esperam que os Estados Unidos seriam capazes de encobrir-se atrás do oceano se um tal conflito acontecesse na Europa com armas nucleares britânicas e francesas. Gostaria de enfatizar que isto é um “experimento” extremamente perigoso. É seguro assumir que qualquer utilização de armas nucleares poderia rapidamente levar a uma escalada de um conflito local ou regional para um conflito global.

Quero acreditar que, apesar de todas as dificuldades, nós e os americanos ainda não nos aproximámos de um patamar perigoso de queda no abismo do conflito nuclear. É importante travar o que nos ameaça.

Hoje é difícil prever quão longe Washington está pronta para ir no exacerbar das relações com a Rússia. Será que os círculos dirigentes dos EUA serão capazes de abandonar seus planos destinados a desgastar o nosso país com a perspetiva do seu desmembramento?

A recente cimeira da Organização de Cooperação de Shangai e a semana de alto nível da 77ª Assembleia Geral da ONU provaram que uma considerável parte do planeta não está satisfeita com a ordem mundial que foi criada após o colapso da União Soviética. Estamos a testemunhar a maioria da comunidade global a tentar descobrir caminhos para estabelecer um sistema equitativo de relações internacionais, o qual não teria estados de primeira nem de segundo escalão. Nós apoiamos firmemente uma tal ordem mundial, baseada no direito internacional, na Carta da ONU e no princípio da indivisibilidade da segurança.

28/Setembro/2022

Ver também:
  • Unpacking the Ukraine ‘Game Change’; Is a Major Conflict Inevitable?, Alastair Crooke
  • [*] Embaixador da Rússia nos Estados Unidos.

    O original encontra-se em nationalinterest.org/feature/cuban-missile-crisis-20-over-ukraine-205077

    Este artigo encontra-se em resistir.info

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