Trabalho científico e capital em confronto
por Rui Namorado Rosa
[*]
Na cimeira de Lisboa de Março de 2000, a UE anunciou uma
estratégia que, baseada no conhecimento, tornaria a UE na mais
competitiva e dinâmica economia do mundo até ao ano 2010.
Dir-se-ia que se encenava uma competição transatlântica mas
não era assim. O que de facto se propunha era a agenda das
corporações transnacionais para uma nova, mas já velha,
ordem mundial. A Ciência e a Tecnologia e a qualificação
avançada da força de trabalho eram chamadas a sustentar essa
estratégia. O que todavia não era em nome nem do bem comum dos
trabalhadores europeus nem das nações do mundo. Era tão
só mais um e ousado passo em frente no cumprimento dos objectivos da
agenda do capital transnacional.
Mas esse era um passo em falso e a dura realidade é de facto
dramaticamente
preocupante. Na era da
revolução científica e técnica, os trabalhadores
científicos são já um estrato social proletarizado, e a
Educação e a Investigação são objectivos
sociais sacrificadas aos objectivos imediatos do capital. Esta é uma
contradição fundamental do sistema capitalista, que pela sua
dinâmica interna destrói e exaure os recursos intelectuais com os
quais construiu o seu presente império, e que lhe seriam agora
imprescindíveis para a sua própria reprodução.
CIÊNCIA E TECNOLOGIA NA AGENDA DO CAPITAL TRANSNACIONAL
As associações empresariais promovem activamente os seus
interesses na União Europeia. Mas enquanto na década de 1990 o
poder
de influência se localizava sobretudo nas associações nacionais
dos
estados membros, actualmente, as grandes corporações
transnacionais ganharam esse poder. Esta
transformação não é geralmente perceptível
mas deve ser evidenciada como um sintoma da globalização do
capital, mediante o acrescido poderio das corporações
transnacionais. Mesmo as associações empresariais de
âmbito europeu estão sendo ultrapassadas em influência
política por estas grandes multinacionais.
Desde a constituição da ERT Mesa Redonda de
Empresários Europeus em 1983, do comité europeu da
Câmara Americana de Comércio (AmCham) em 1985 e a
inauguração do Diálogo Transatlântico de
Negócios (TABD) em 1995, todas elas consistindo em parcerias directas de
corporações e não em federações de
associações nacionais, as novas organizações vieram
a exercer influência progressivamente maior em Bruxelas como activas
procuradoras das corporações que representam. As duas
últimas representam ou incluem também multinacionais sedeadas nos
EUA e testemunham a crescente inter-penetração do investimento de
capital através do Atlântico.
Este processo reflecte uma tendência mais geral em que autoridades
regulamentadoras supranacionais, como a Comissão Europeia, em
cooperação cada vez mais estreita com as
corporações transnacionais, actuam solidariamente no sentido de
debilitarem a acção regulamentadora dos governos nacionais e de
permitirem as corporações regulamentarem-se a si próprias.
Esta estratégia é veiculada por governantes, funcionários
e tecnocratas dos dois lados do Atlântico que procuram lavar o
cérebro da opinião pública com sua retórica
neoliberal, assumida ou sub-reptícia, categórica ou dissimulada,
construída sobre neologismos tais como: responsabilidade social
das empresas, sociedade civil e stakeholders, com
diálogo à mistura.
Contabilizemos os grupos de pressão que actuam junto da Comissão
Europeia. Existem cerca de 20 mil grupos de interesse, incluindo todas as
associações nacionais e as organizações europeias
de associação directa, que participam na vida política da
UE. Porém é claro que dois terços desses grupos
representam interesses do mundo do negócio. Contabilizemos de outro
modo: cerca de 10 mil agentes de interesses
(lobbyists)
trabalham em associações comerciais da UE a nível da
União e mais alguns milhares trabalham para
associações nacionais ou para corporações que
mantêm os seus próprios escritórios e agentes em Bruxelas.
A soma final ascende a cinco agentes de negócios por cada
funcionário da Comissão Europeia. Pelo contrário, se
contabilizarmos os agentes de interesses públicos, a
proporção é próxima de um para um.
Ligações próximas entre o mundo universitário e o
mundo do negócio também se encontram na comunidade de agentes de
interesses em Bruxelas. As associações empresariais que actuam
em cooperação próxima com a Comissão Europeia fazem
bom uso de universitários cuja investigação é
financiada por corporações, ou que se movem de uma universidade
para uma administração, ou que são contratados como
consultores ou agentes de interesses de associações empresariais.
Alguns académicos estão satisfeitos com terem a sua consultoria
ou investigação financiadas à custa de interesses
empresariais, mas muitos são a tal obrigados por não obterem
fontes de financiamento alternativas. Em suma, a situação
descrita sugere que os universitários envolvidos nas referidas redes
informais universidade-empresa exercem de facto uma função chave
de articulação e de legitimação em nome do grande
capital.
O processo de globalização reforçou o poder das
corporações transnacionais quer sobre os governos quer sobre os
interesses sócio-económicos em geral e os sindicais em
particular. A influência dos grupos empresariais europeus e
transatlânticos está em evidente confronto e em franco conflito
com os interesses do mundo do trabalho e outros interesses sociais. E todavia
atingiram essa influência com o apoio dos governos nacionais, contra o
desejo ou mesmo o conhecimento dos respectivos cidadãos. Um bom
número de trabalhadores científicos, ou de livre vontade ou
contrariados, contribuíram e foram cúmplices nisso.
AS CORPORAÇÕES TRANSNACIONAIS CUIDAM DA SUA
REPUTAÇÃO
Agora que a responsabilidade social das empresas faz parte do
discurso oficial e se vai instituindo em ordem
económico-política, é necessário que elas velem
pela respectiva reputação empresarial.
Tradicionalmente, as organizações cívicas ocupam-se com
problemas do trabalho, de direitos cívicos, do ambiente ou das
actividades económicas e têm denunciado abusos cometidos por
diversas corporações, desse modo questionando a
reputação dessas empresas. Contudo, actualmente essas mesmas
empresas procuram ou tiram proveito de tais organizações para as
ajudarem a recompor as suas imagens. A gestão da
reputação tornou-se ultimamente num componente importante
do negócio; frequentemente trata-se de mera actividade de
relações públicas que pouco tem a ver com responsabilidade
social.
Reputação é um conceito que comporta confiança,
credibilidade, responsabilidade e transparência. Mas essencialmente
localiza-se no plano das percepções, tal como a imagem
pública, pois que a maioria das pessoas fora do círculo da
administração de uma empresa, incluindo os seus trabalhadores,
não tem acesso a informação certa e completa. As empresas
valorizam o seu capital de reputação. Empresas com
melhor reputação tendem a demonstrar melhor desempenho em termos
económicos, como seja na retribuição do capital accionista
ou no valor financeiro dos seus títulos.
No passado, as empresas adquiriam boa reputação perante a
comunidade mediante acções filantrópicas e publicidade
baseada em boas causas. Actualmente, tendem a demonstrar a sua
responsabilidade segundo vagos códigos de conduta que elas
mesmas negociaram com organizações internacionais, procuram ser
lisonjeadas por ONG, e formam coligações com
organizações acreditadas, nomeadamente de âmbito ambiental,
laboral ou de direitos humanos, para por essa via ganharem credibilidade. Uma
forma de manifestarem empenho pelos direitos humanos ou pelo ambiente, ainda
que estes não lhes mereçam a atenção bastante para
alterarem as suas práticas empresariais, é fazer donativos a
grupos
ambientalistas ou patrocinar projectos sociais.
James Harris, membro do
Sierra Club's National Public Affairs Advisory Committee
, exprime a ideia muito explicitamente (1992): «Para os grupos
ambientalistas, trabalhar com corporações assegura uma fonte de
financiamento e a oportunidade de influenciar o seu comportamento. Para as
corporações, os grupos ambientalistas oferecem a possibilidade de
veicular publicidade favorável e ganhar acesso aos seus filiados, que
tendem a ser mais instruídos e mais bem instalados que o público
em geral. Estes grupos também fornecem credibilidade que pode ser
particularmente valiosa
Em coligações políticas, os
grupos ambientalistas constituem uma guarnição substancial, com
as suas filiações numerosas e experiência em fazer
campanha».
Quer o clima esteja a alterar-se ou não, se as emissões de
dióxido de carbono são ou não a sua causa, é
incerto, mas o problema científico foi tomado como um assunto
político e tornou-se instrumental na conformação da
opinião pública e na reconfiguração das
políticas energéticas.
Global Climate Coalition
era um grupo empresarial que argumentava contra a eventualidade de as
emissões de carbono poderem estar a causar um aquecimento global do
nosso planeta. Não obstante serem membros dessa coligação
empresarial e serem notoriamente negligentes em matéria ambiental em
vários países em que operam, as grandes transnacionais
petrolíferas BP e Shell conseguem ganhar a reputação de
serem progressistas em matéria ambiental.
Um passo nesse sentido foi terem abandonado a dita Coligação,
antes da conferência de Quioto em 1997, e passado a admitir que o
aquecimento
global é matéria para preocupação. Terem
abandonado a Coligação ajudou a proteger as suas
reputações. Desde então muitas outras empresas a
abandonaram com iguais propósitos, de modo que esta
coligação teve de se reestruturar e transformou-se numa
coligação de associações empresariais em vez de
empresas individuais. Com este truque, as corporações continuam a
suportar a
Global Climate Coalition
através das suas associações, sem aparecerem abertamente
associadas com ela.
Por um lado, a BP e a Shell deixaram a Coligação, embrenharam-se
em actividades relativas a fontes renováveis de energia e exibem uma
imagem de grande empenho em tecnologias limpas, protecção
ambiental e prevenção de alteração
climática. Porém, por outro lado, mantêm-se activamente
comprometidas com a agenda do grande capital na criação de novas
e aliciantes oportunidades de negócio justamente baseadas
nas emissões de carbono. Sob a designação de
mecanismos de flexibilização, várias
oportunidades económicas e financeiras estão a ser promovidas
como necessárias para que os países mais industrializados atinjam
as metas de redução de emissões por eles mesmos acordadas
no Protocolo de Quioto. Estes mecanismos de flexibilização
têm em vista promover o investimento estrangeiro em economias em
transição (entenda-se no Leste da Europa) e em
países em desenvolvimento, com o apoio do Banco Mundial, e
ainda criar um novo mercado financeiro, baseado no comércio de
autorizações ou direitos de emissão, que serão
atribuídos às empresas. Estes títulos de emissão
serão instrumentos úteis para justificar a colecta
adicional de mais taxas sobre a energia aos consumidores e, bem assim, para
canalizar um fresco manancial financeiro para as perturbadas bolsas de valores
mobiliários.
Ao saírem do campo dos que negavam o aquecimento global, a BP e a Shell
ganharam espaço de manobra para se tornarem partes activas na
definição das políticas que conduzem, se não
à implementação do Protocolo de Quioto, certamente ao
negócio dos títulos de emissão na União Europeia,
uma posição que não poderiam sustentar se negassem a
ameaça do aquecimento global, e neste processo se vestiram de
verde também. Não lhes basta serem apenas duas
das quatro maiores transnacionais petrolíferas, cujo principal e
fabuloso negócio é o petróleo. Inteligentes como
são, descobriram que ainda mais proveito tiravam em assustar, por um
lado, e em colher as receitas do susto, por outro. Sempre a vender
petróleo.
PROPRIEDADE INTELECTUAL
OU APROPRIAÇÃO DO CONHECIMENTO
A finalidade do registo de patentes transformou-se por completo desde que pela
primeira vez foi concebido para o bem comum e como incentivo aos inventores.
Gradualmente tornou-se objecto de apropriação pelas empresas das
criações de inventores, investigadores e tecnólogos, como
mais
um valor patrimonial das corporações e um produto
comerciável. A propriedade intelectual que pode ser vendida ou cedida
sob licença a terceiros é património real ou potencial que
pode gerar receitas aliciantes. Em certos sectores industriais, como sejam
biotecnologia, produtos farmacêuticos ou telecomunicações,
o licenciamento de propriedade intelectual tornou-se numa
preocupação quotidiana.
Gabinetes de patentes abrem por todo o lado, a UE está a instalar um
Escritório Europeu de Patentes a nível da União e o
registo e o comércio de direitos de propriedade intelectual tornou-se em
negócio graúdo. O mais importante não é o
conteúdo, a sua originalidade e a sua viabilidade técnica e
comercial, não, o que importa sobretudo é possuir um
título de registo que possa ser objecto de negócio.
Uma empresa que possua uma carteira de pelo menos 450 patentes e despenda em
Investigação e Desenvolvimento (I&D) pelo menos US$ 50
milhões por ano e há nos EUA e na UE várias
centenas de corporações que ultrapassam estas metas
detêm propriedade intelectual suficiente para dela fazer uma boa linha de
negócio por exemplo transaccionando 10% da carteira de patentes
para gerar outros 10% das suas receitas de operação, com reduzido
investimento de capital.
Depois de identificados os títulos comerciáveis e avaliado o seu
potencial valor, uma rede de parceiros ou agentes
(intellectual-property brokers, consolidators, business builders)
entra em acção e reúne esforços no sentido de
concretizar negócios de licenciamento de direitos e de troca de activos
com outras empresas. Os
brockers
baseiam-se na avaliação tecnológica para ajuizar quanto
um comprador estará provavelmente disposto a pagar por um título
e depois procuram identificar clientes. Os
consolidators
seleccionam e adquirem propriedade intelectual de várias origens e
reúnem-na em pacotes que possam ser utilizados no
lançamento de novas empresas ou então vendidos a clientes
estratégicos. Trata-se de um nicho de negócios, em crescimento
acelerado, ocupado por pequenas empresas cujo volume de receitas anuais atingiu
já o nível de US$ 100 mil milhões nos EUA.
Empresas de êxito adoptam programas de propriedade intelectual, a par da
I&D realizada intramuros e de fusões e aquisições de
activos. Explorar intensamente a propriedade intelectual é certamente
difícil e exige especialização científica em
profundidade e extensão, que a maioria das empresas não
dispõe internamente e poderá não ter meios para adquirir
no exterior. Esta é uma promissora oportunidade emergente para as
grandes corporações e as pequenas firmas especializadas
partilharem.
O negócio de direitos de propriedade intelectual é pois uma
matéria importante para as grandes corporações porque
adquiriu um peso significativo e crescente entre as várias fontes de
receita. Vejamos o que a ERT dizia, recordando que as suas opiniões
são ordens para a Comissão Europeia: «Os primeiros dos
maiores obstáculos no percurso que conduz da invenção
à inovação são a burocracia e os sistemas
administrativos que mostram completa insensibilidade para com as necessidades
da I&D, em particular no que toca a direitos de autor e ao tempo para a
exploração comercial. As patentes são dolorosamente
lentas de registar e imensamente caras em traduzir e manter. Uma grande
transnacional europeia, com mais de mil pedidos de patente por ano, estima que
só os custos anuais de tradução ascendem a 20-30
milhões. Um Mercado Comum na verdadeira acepção deve ter
uma patente europeia única e funcional». As grandes
corporações nunca estão satisfeitas com os seus ganhos e
as suas despesas são sempre supérfluas.
Mas é verdade que, em termos de desempenho tecnológico global,
durante a última década o peso relativo da Europa no pedido de
registo de patentes no Escritório Europeu de Patentes (EPO) e na
atribuição de patentes no Escritório Norte-americano de
Patentes e Marcas (USPTO) declinou. E essa situação é pior
no que toca a patentes em tecnologias de ponta. Mas o que estes factos
reflectem é, sobretudo, a circunstância que, globalmente, a UE
despende bastante menos em I&D (1,94% do PIB em 2000) do que os EUA (2,80%) e o
Japão (2,98%). Acresce que o lapso de investimento se tem
alargado e rapidamente desde meados da década de 1990, principalmente em
resultado da reduzida contribuição das empresas, que na Europa
representam pouco mais de metade das fontes de financiamento da I&D, em
contraste com mais de dois terços quer nos EUA quer no Japão.
Quer dizer: não só as grandes corporações nunca
estão satisfeitas com os seus ganhos, como encontram sempre em terceiros
as culpas para o seu menor desempenho.
E assim, a propósito de propriedade intelectual, constatamos como
trabalhadores científicos podem ganhar a sua vida a extrair maiores
rendimentos para os proprietários das corporações, a
partir da exploração dos resultados científicos e
técnicos que os seus colegas de ofício alcançaram algures.
Uma vez mais se constata como a propriedade privada coloca o homem em
confronto com o homem.
ÉTICA E RESPONSABILIDADE SOCIAL
Abunda a invocação de direitos sobre o
conhecimento
na agora denominada Nova Economia do Conhecimento.
Médicos afirmam possuir procedimentos médicos que
anteriormente eram partilhados entre colegas. Companhias de software afirmam o
monopólio sobre blocos constituintes de códigos de
programação. Companhias farmacêuticas reclamam direitos
exclusivos sobre produtos químicos extraídos de plantas, insectos
e microorganismos. A cartografia do genoma humano realizado através do
human genome project
, uma parte do código já cartografado, é propriedade
privada.
Estes desenvolvimentos comprovam que não há qualquer
propósito social e cívico na dita Economia do
Conhecimento que
regule a difusão de informação e o acesso ao conhecimento
e às suas aplicações, pelo contrário. O objectivo
tornou-se puro lucro a cada vez mais breve prazo a favor dos detentores do
capital.
Afirmações de propriedade privada sobre largos territórios
do conhecimento ou mera informação proliferam agora
porque em todos os domínios de alta tecnologia na medicina, na
biotecnologia, nas indústrias agro-alimentar, de
informação e de software os activos das
corporações em conhecimento sobem em preço em
comparação com activos e recursos mais tradicionais.
Testemunhamos uma transição profunda para uma nova era em que
activos baseados em conhecimento parecem desempenhar um papel de
estímulo ao crescimento económico. Porém esse
papel é parte real e parte virtual, e como tal está sujeito ao
jogo especulativo, principalmente quando, como agora, o capital
económico produtivo é comandado pelo mercado de capital
financeiro a Nova Economia.
A agressividade da actual corrida em direcção ao patenteamento
sem fronteiras evidencia-se superlativamente na alienação pelo
melhor preço de activos anteriormente pertencentes ao domínio
público. Por esta via se alienam instituições
públicas e património comum a favor da expansão da
propriedade privada em até agora domínios públicos. Esta
erosão dos direitos comuns ameaça sobretudo os países em
desenvolvimento, onde reside a maior parcela tanto de população
como de recursos naturais. E ameaça também o próprio
edifício da democracia tal como hoje existe, o exercício de
direitos políticos e a equidade no acesso a bens económicos.
Com a revolução científica e técnica em curso, a
relação entre as garantias e os direitos democráticos
conquistados e a formação social e o modo de
produção capitalista é crescentemente
contraditória.
A era da informação aparece à cabeça
das notícias na comunicação social e das discussões
em círculos académicos. Porém, por detrás desta
maciça transformação tecnológica em recursos de
informação e em computadores e telecomunicações,
uma revolução mais poderosa e subtil vai avançando em
Biotecnologia e em Nanociência, que em breve poderão alterar o
modo como encaramos a vida, nós próprios e a nossa
relação com a natureza e a humanidade.
Todavia, as patentes oferecem à indústria enormes incentivos para
explorar as aplicações tecnológicas até limites
morais e para além deles, e tão de pressa quanto possível.
Mas a favor de quem revertem os potenciais benefícios? Quem
colherá as receitas geradas pela reprodução do capital?
Que papel activo será comandado pelos trabalhadores científicos
que fazem as descobertas, desenvolvem as tecnologias e contribuem para decidir
as respectivas aplicações?
Proclamações de propriedade e secretismo no trabalho de
desenvolvimento tecnológico, ambos inibem a franca discussão das
matérias científicas e, a médio prazo, são
ameaças que erodem o curso do progresso científico geral.
Trabalhadores científicos quer publicando as suas pesquisas quer
proibidos de o fazer por força de contrato, são expropriados dos
frutos do seu trabalho, de um modo ou do outro. E estão condicionados ou são
inibidos de partilhar com os demais cidadãos as informações, os conhecimentos e
as perplexidades sobre questões pertinentes e novas em relação às quais o poder
político conluiado com o capital toma decisões da maior importância social,
económica, política e moral.
A VIGILÂNCIA CÍVICA FACE AO PODER EMPRESARIAL E SEUS
CÚMPLICES
A Organização Mundial do Comércio (OMC - WTO) tem sido
instrumental na promoção do comércio mundial de produtos e
ultimamente de serviços também. Promove a
exploração sem limite de recursos laborais e naturais e o
alargamento dos mercados de consumo, por toda a parte, e assim desbrava o
caminho ao crescimento rápido das corporações
transnacionais.
Em Fevereiro de 2003, o movimento europeu contestatário do Acordo Geral
sobre Comércio de Serviços (AGCS - GATS) conquistou uma
vitória quando o comissário europeu responsável pelo
comércio, Pascal Lamy, anunciou que a Comissão Europeia
não faria mais concessões às regras de mercado
liberalizado do AGCS nos sectores da saúde e da educação e
que nenhum compromisso seria assumido em serviços áudio-visuais
em futuras negociações. Essa declaração, feita nas
vésperas de uma manifestação de milhares de activistas e
sindicalistas em Bruxelas, foi claramente táctica. A propósito da
declaração, a CE encontrou oportunidade e forma para divulgar as
suas intenções quanto ao prosseguimento da abertura da UE
à competição internacional, nos âmbitos postal,
ambiente, telecomunicações, distribuição (retalho),
transportes e serviços financeiros
A mais recente (Setembro de 2003) conferência ministerial da OMC em
Cancun demonstrou a profunda divisão que existe entre países
industrializados do centro do império capitalista e as grandes economias
emergentes na sua periferia. Este é um caminho sem regresso, pois que a
presente potência hegemónica do sistema político mundial
entrou em fase de declínio e a correlação de forças
está a mudar a nível mundial. Porém, as
corporações transcontinentais mantêm-se ainda no
sólido comando da sua crescente influência. Imperialismo
não é sinónimo da capitalismo unipolar, mas sim uma fase
de desenvolvimento do sistema político capitalista.
Assim é que o AGCS e a OMC não são elas a fonte dos males
que
ameaçam com as privatizações e as
liberalizações, elas são tão só instrumentos
nas mãos dos interesses económicos e políticos por
detrás da ofensiva neo-liberal que atingiu a Europa há uns vinte
anos atrás e que agora procuram lançar os seus ataques em maior
profundidade. A enorme concentração de poder e de meios nas
mãos das administrações das corporações
transnacionais, conluiadas com governos e organismos internacionais, é
que é a real força motora com que nos confrontamos. Elas
estão a ganhar rápido controlo sobre uma parcela cada vez maior
da economia mundial. Corporações cada vez mais gigantescas
emergem de uma vaga de fusões e aquisições em todos os
continentes. A que se somam as privatizações, sobre as quais as
transnacionais vão tomando o controlo de parte, em rápido
crescimento, dos serviços públicos básicos e demais
serviços, por todo o mundo.
Na Europa, as corporações transnacionais actuam em íntima
cumplicidade com a própria Comissão Europeia. Considerando as
políticas da UE em matéria de integração de
mercados, legislação para a flexibilização laboral,
desregulamentação e privatização de serviços
públicos, constata-se o ágil prosseguimento da agenda do capital
transnacional na Europa, não obstante as referidas vicissitudes das
negociações da OMC e do AGCS.
Escute-se o discurso da ERT sobre Educação: «É
necessária uma reforma profunda dos sistemas educativos na Europa.
(
) As universidades já não têm o monopólio de
difusão do conhecimento. Não podemos deixar toda a iniciativa nas
mãos do sector público. A oferta de educação
é uma oportunidade de mercado e como tal deve ser tratada. Há
hoje muitos mais agentes do ensino superior em jogo. As empresas também
têm um papel a desempenhar. Um grande número de empresas gere os
seus próprios programas segundo padrões a nível de
graduação ou até nível superior, algumas em
parceria com universidades, outras por si sós. As
qualificações assim obtidas deverão ser reconhecidas
através da Europa». Escutamos e entendemos melhor como, desviando
a verdade e misturando mentiras, o processo de Bolonha pode servir os ditos
interesses empresariais.
E o discurso da ERT a propósito da I&D diz: «Os programas
públicos deverão ser utilizados como trampolins para as
iniciativas privadas. O Plano de Acção para a
Inovação e o Quinto Programa Quadro Europeus são ambos
concebidos para estimularem o espírito empreendedor na Europa. O
Programa Quadro deve ir para além do desenvolvimento da competitividade
de um ciclo interno de fabricantes e dos seus parceiros tradicionais em
mercados específicos». Para que se saiba que todo o capital
é uma mesma entidade, e que qualquer distinção entre
capital nacional e estrangeiro é meramente transitória e
secundária.
O que se passa na Europa fica aí retratado nas palavras da influente
ERT. Passando das palavras aos actos, o Espaço Europeu da
Educação e o Espaço Europeu da Investigação
vão-se tornando nesses projectos do grande capital. Estão ou
não estão, com sucessos ou reveses, na agenda da OMC e do AGCS;
seja como for, não obstante essas vicissitudes, conseguem progredir
segundo a direcção fixada. Porque esses projectos são
parte da agenda do grande capital transnacional e este trabalha com a
íntima cumplicidade da Comissão Europeia e a
condescendência ou a traição dos governos europeus.
A INSUSTENTABILIDADE DAS POLÍTICAS EDUCATIVA
E DE INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA
O utilitarismo das presentes políticas de Educação e de
Investigação Científica serve directamente os interesses
do capital e contraria o bem social dos povos europeus. Essas políticas
não só alimentam os lucros das corporações a
expensas dos padrões de vida das nações. Elas, mais cedo
do que mais tarde, não são sustentáveis e conduzem a um
colapso económico e social. Pode soar apocalíptico mas
poderá tornar-se realidade.
No que respeita à Educação, o desempenho dos sistemas
educativos está em degradação há décadas, em
consequência dessa política utilitarista e da
redução de recursos públicos a ela afectados. Nos EUA,
porque o sistema educativo é incapaz de formar os necessários
licenciados, a maior parte da força de trabalho afectada à I&D
vem do estrangeiro, incluindo a maioria dos estudantes europeus de doutoramento
que, após obter o seu grau académico, permanece nesse
país. Na Europa observa-se um curso semelhante de políticas e de
acontecimentos. A gravidade da situação só é
atenuada (também) pelo recurso à emigração,
incluindo a importação de cérebros oriundos de
países populosos da Ásia e da América Latina. A
existência de diversas universidades de grande qualidade nos EUA e na UE
não altera o essencial desta questão, pois que o real problema
está a montante, nos ensinos básico e secundário,
também estes tornados incapazes de formar, em qualidade e quantidade, os
jovens necessários para o preenchimento das melhores escolas a
nível superior.
No que respeita à Investigação Científica e
Desenvolvimento Experimental (I&D), o esforço de
investigação na UE está focalizado em I&D aplicada num
reduzido número de domínios, ditados pelas prioridades dos grupos
de interesse empresariais, deixando de fora a investigação
básica em geral e outras áreas de I&D aplicada, uma
tendência que não é compensada ou reequilibrada pelas
políticas nacionais, que seguem o mesmo figurino quase por toda a parte.
A agravar esse quadro, o financiamento da I&D na Europa e nos EUA não
tem acompanhado o crescimento do número de trabalhadores
científicos, de forma que muitos jovens investigadores não
conseguem encontrar trabalho permanente em I&D, não se candidatam a
projectos por não terem base institucional que suporte tais candidaturas
e vão abandonando a profissão, que anteriormente era encarada
numa perspectiva de carreira para a vida. A taxa de desemprego entre
trabalhadores científicos doutorados está actualmente entre as
mais elevadas nos próprios EUA; de 1981 a 1994 essa taxa triplicou, de 1
para 3%, o que pode parecer pouco mas é muito significativo; e
são os investigadores mais jovens que são mais atingidos por esse
desemprego. Há uma geração atrás, as
colocações em pós-doutoramento eram breves períodos
de experiência que virtualmente garantiam um posto de trabalho permanente
numa faculdade. Agora, pelo contrário, muitos jovens investigadores
passam de pós-doutoramento em pós-doutoramento, como trabalhador
migrante na economia de alta tecnologia contemporânea. Os discursos
oficiais a favor da flexibilização do trabalho e, em particular,
da mobilidade dos estudantes e dos investigadores, não iluminam um novo
caminho de futuro; pelo contrário, procuram justificar ou iludir a triste
e grave realidade.
A UE forma um maior número de licenciados e doutorados em ciências
e tecnologias que os EUA, mas não tem um melhor desempenho por isso.
Porque a UE emprega menos investigadores (5,4 por 1000 de
população activa, contra 8,7 nos EUA e 9,7 no Japão) e
afecta um menor financiamento às actividades de I&D (1,94% do PIB,
contra 2,80 nos EUA e 2,98 no Japão), isto é, valoriza menos os
seus recursos intelectuais em Ciência e Tecnologia. A declaração da
cimeira de Lisboa, de Março de 2000, reconhecia esse sério desequilíbrio
e
afirmava querer rectificá-lo. Passados já alguns anos constatamos,
porém, que
as políticas europeias não caminham de facto nesse sentido. Não porque a
Comissão Europeia e o capital transnacional estejam em desacordo de fundo, mas
porque o poder capitalista não domina as contradições do sistema de produção
económica em que se sustenta.
A mobilidade de trabalhadores científicos na Europa é sobretudo
interna: cerca de 35% de alunos estrangeiros em estudos superiores e 50% de
empregados estrangeiros em C&T são oriundos de outros Estados Membros.
Regista-se porém uma significativa importação de
cérebros através da emigração, e o presente
alargamento a Leste tem aí uma das suas mais fortes
razões motoras. Mas verifica-se também uma
exportação, em que a maioria de trabalhadores em C&T que decidem
emigrar são atraídos por melhor oferta de oportunidades nos EUA.
A fracção de estudantes europeus que obtêm o respectivo
doutoramento nos EUA e prefere permanecer lá, subiu de 50% para 75% no
decurso da década de 1990.
Em suma, a condição de trabalhador científico na Europa
tem-se deteriorado progressivamente durante os últimos trinta anos,
aliás tal como no outro lado do Atlântico: prolongamento do tempo
necessário
até atingir uma colocação estável, se é que
alcançada, e decrescimento do nível de remuneração
em termos relativos, se não mesmo absolutos. Hoje, a maioria dos jovens
recém doutorados trabalha em regime de trabalho tipicamente
flexível, remunerados por bolsas destituídos de regalias e
segurança social, à
semelhança da maioria dos trabalhadores não qualificados. Em
consequência, o número de jovens que procura a C&T como um
percurso de estudos e a I&D como uma perspectiva de carreira, está em
dramático declínio.
Paradoxalmente, na era da revolução científica e
técnica, os trabalhadores científicos são um estrato
social proletarizado - à parte os poucos que escolhem ou são
escolhidos para venderem o seu trabalho como agentes dos interesses ou
promotores da reputação de grandes empresas e suas
coligações. Este paradoxo é também uma
contradição fundamental do sistema capitalista, que pela sua
dinâmica interna destrói e exaure os recursos intelectuais que
seriam imprescindíveis para a sua própria
reprodução.
2 de Janeiro de 2004.
[*]
Versão em português de uma comunicação apresentada
pelo autor no Fórum Social Europeu, em Paris, a 14 de Novembro de 2003.
Alguma Bibliografia:
http://www.xs4all.nl/~ceo/observer12/greenwood.html
Corporate Europe Observer - Issue 12, Academia: a partner for advancing the
corporate Agenda? Justin Greenwood:
Inside the EU Business Associations
and
The Effectiveness of EU Business Associations
.
http://www.uow.edu.au/arts/sts/sbeder/Reputation.html
Environmentalists Help Manage Corporate Reputations, Sharon Beder
http://www.sopheon.com/inknowvations_200212.asp#i1
Intellectual Property: Partnering for Profit, Jeffrey J. Elton, Baiju R. Shah,
and John N. Voyzey
The McKinsey Quarterly, 2002 Number 4 Technology
http://www.ert.be/pdf/report.pdf
ERT - Job creation and competitiveness through innovation, November 1998
http://www.geocities.com/timothyshoup/biotechnology.html
Biotechnology & Bioethics: Owning the Future Seth Shulman; The Biotech
Century Jeremy Rifkin
http://www.wdm.org.uk/campaign/GATS.htm
World Development Movement
http://www.aswahl.net/ENGELSK/021220privatisation_tncs_and_democracy.html
Privatisation, TNCs and Democracy, Asbjørn Wahl
http://europa.eu.int/
EU research performance: substantial progress but important challenges need to
be addressed
http://www.interesting-people.org/
The Washington Post, "American Science: Losing Its Cutting Edge."
"Scientific Ranks Outpace Funds: Imbalance May Put Nation's Technological
Primary at Risk", December 25, 1994.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
.
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