A estratégia de Óbidos
por Rui Namorado Rosa
A estratégia de Lisboa, anunciada pelo Conselho da Europa em
Março de 2000, definindo objectivos ambiciosos para 2010, dá
claros sinais de estar a falhar, quase quatro anos depois. «A mais
competitiva e dinâmica economia do mundo baseada no conhecimento, capaz
de crescimento económico sustentável, com mais e melhores postos
de trabalho e maior coesão social» é agora assim descrita
numa comunicação da Comissão Europeia, datada de Novembro
de 2003: «
Preocupantemente, todas essas fontes descrevem uma
situação na qual todos os países europeus estão a
fazer esforços para adaptarem os sistemas educativo e formativo para a
sociedade e economia baseadas no conhecimento, mas as reformas empreendidas
não estão à altura dos desafios e o seu presente ritmo
não permitirá que a União atinja os objectivos fixados
(
) A realidade da situação actual e a urgência da
acção necessária em educação e em
formação não podem ser ignoradas pelos Chefes de Estado e
de Governo no próximo Conselho Europeu, previsto para a Primavera de
2004».
A situação se é preocupante na União Europeia mais
preocupante é em Portugal. O nosso país combina uma das mais
baixas capitações do PIB, com das mais baixas taxas de
afectação do PIB a Investigação Científica e
Desenvolvimento Tecnológico (I&D) e das mais baixas taxas de
investigadores e tecnólogos na população activa.
Não obstante o mau desempenho global da UE, o progresso realizado por
Portugal desde a integração europeia, embora apoiado com fundos
estruturais, não dá sinais de convergência no seio da
União. Não em indicadores de investimento em I&D nem em recursos
humanos em Ciência e Tecnologia justamente os principais
ingredientes para a tal sociedade do conhecimento que seria o nosso
desígnio colectivo.
É neste cenário sombrio que educadores e investigadores
portugueses trabalham. Por isso aspiram a melhor futuro para o seu
país e sabem avaliar o sentido e o alcance de
proclamações oficiais.
Segundo declaração do Senhor Primeiro-Ministro, no final do
Conselho de Ministros de Óbidos em 17 de Janeiro de 2004, o Conselho de
Ministros aprovara mil milhões de euros para Ciência e
Inovação. O Comunicado oficial desse Conselho, então
publicado, é completamente omisso sobre tal matéria.
A notícia que correu era a do maior investimento de sempre no
domínio da Ciência e Inovação realizado em Portugal.
Até 2006 seriam canalizados para formação,
requalificação, ciência e investigação mais
de mil milhões de Euro (mais de 200 milhões de contos)
através do
Programa Operacional de Ciência e Inovação
Ciência 2010
e do
Programa Operacional para a Sociedade do Conhecimento Futuro 2010
.
Os investimentos a realizar teriam como áreas de
intervenção a inovação, a sociedade de
informação e do conhecimento, o desenvolvimento da ciência
e da formação no Ensino Superior e ainda a
modernização da Administração Pública,
através da formação dos seus recursos humanos,
criação de estágios de longa duração de
licenciados e doutorados. A par de investimento seriam concedidas, entre 2004 e
2006, 12000 bolsas de formação 7000 para
formação na Administração Pública e 5000
para mestrados, doutoramentos, pós-doutoramentos e a
inserção de mestres e doutores em Empresas. Para além
desta iniciativa, o Conselho de Ministros aprovara ainda o Mecenato
Científico, que teria em vista incentivar o financiamento privado na
investigação em troca de benefícios fiscais.
Esta medida inserir-se-ia na directiva comunitária que definiu o
objectivo de, em 2010, os países europeus investirem cerca de 3% do PIB
em investigação, sendo 2/3 da responsabilidade do sector privado
e 1/3 do sector público. Note-se que aquele indicador é 1,9% na
União Europeia e 0,8% em Portugal.
Esse anúncio do Primeiro-Ministro pretendia e conseguiu ser
surpreendente mas tem os seus antecedentes. A 5 de Janeiro de 2004, a ministra
da Ciência e do Ensino Superior anunciara que o programa operacional para
a Ciência, Tecnologia e Inovação POCTI, após
auditoria e laboriosa regularização, fora reforçado
através da reserva de eficiência mais 22
milhões e seria reforçado através da reserva de
programação mais 50 milhões
reforços estes que abrangeriam o triénio 2004 a 2006. Ainda
segundo o MCES, o Orçamento de Estado para a Ciência crescera
12.4% em 2004 em relação ao ano anterior, para se situar ao
nível de 239 milhões, sendo 63% esforço nacional e
37% esforço comunitário; pela primeira vez, as bolsas de estudo
para formação avançada seriam integralmente suportadas
pelo Orçamento de Estado.
Quase duas semanas mais tarde, em Óbidos, o Primeiro-Ministro dava o
POCTI como terminado e anunciava uma transmutação geral quer do
POCTI quer do POSI (PO para a Sociedade da Informação, até
então sob a tutela da própria Presidência do Conselho de
Ministros).
Conferindo os dados disponíveis, conclui-se que a opção do
Governo foi reformular os dois PO Ciência, Tecnologia e
Inovação mais Sociedade da Informação, que tinham
identidades e tutelas ministeriais distintas, em dois novos PO, nomeadamente
Ciência e Inovação
mais
Sociedade do Conhecimento
, apresentados agora conjuntamente sob o chapéu de
Iniciativa Estratégica - Conhecimento e Inovação
, no âmbito do MCES. O anúncio desta iniciativa
estratégica no termo de uma sessão extraordinária do
Conselho de Ministros em Óbidos (17 de Janeiro) e de novo aquando
da inauguração do Conselho Superior de Ciência, Tecnologia
e Inovação, com pompa e circunstância, a 3 de Fevereiro
evidencia a importância mediática que se pretendeu atingir.
Para esse efeito convinha também um número imponente e redondo.
Assim, aos fundos já atribuídos aos dois PO pré-existentes
foram adicionados outros fundos. Um é óbvio, é a parte do
PRODEP referente ao Ensino Superior que, com a reestruturação
ministerial do governo PSD-PP, que cindiu o Ministério da
Educação, fez transitar parte desse PO para a alçada do
novo MCES. Outro, mais ínvio, é parte do PO Emprego,
Formação e Desenvolvimento Social (POEFDS). As
adições mais substanciais dizem respeito à
afectação aos novos PO de reservas de eficiência e de
reservas de programação (estas pendentes de
autorização da Comissão Europeia) previstas como medidas
de reprogramação intercalar do III Quadro Comunitário de
Apoio (2000-2006). Assim foi atingido e pôde ser anunciado um montante
redondo e sonante: mil milhões de Euro.
Esta
Iniciativa Estratégica - Conhecimento e Inovação
tem um outro antecedente três anos mais velho. Com efeito, em Junho de
2001, o então Governo PS lançou para consulta pública o
Programa Integrado de Apoio à Inovação
, elaborado por uma comissão interministerial liderada por Maria
João Rodrigues, com idênticos pontos de partida e de chegada
a estratégia de Lisboa de Março de 2000 e o horizonte
temporal por ela fixada, 2010 e objectivos e conteúdos
comparáveis. As diferenças, substanciais, estão no
método aberto de elaboração da iniciativa anterior e na
confrangedora falta de qualidade e clareza dos documentos em que a actual
iniciativa é exposta.
Para que a apressada iniciativa venha a ganhar forma e respeitabilidade, o
Primeiro-Ministro convocou o Conselho Superior de Ciência, Tecnologia e
Inovação para o dia 3 de Fevereiro de 2004, onde esteve presente
ele próprio, bem como as ministras das Finanças e da
Ciência e do Ensino Superior, para que aí fossem debatidas as
linhas-gerais da nova iniciativa estratégica. Na mesma
ocasião, a MCES anunciou que o Governo apresentará, até
Março próximo, um "programa detalhado" sobre os dois
programas operacionais da
Sociedade do Conhecimento
e da
Ciência e Inovação
. O Conselho Superior de Ciência, Tecnologia e Inovação,
com esse ou outro nome, foi criado em 1982 mas apenas funcionou entre 1986 e
1996, e foi convocado nesta emergência após um interregno de 8
anos. É um órgão consultivo, actualmente liderado pelo
neurocirurgião João Lobo Antunes e tem como vice-presidentes
João Caraça, da Fundação Calouste Gulbenkian, e
Fernando Ramôa Ribeiro, da Fundação para a Ciência e
Tecnologia.
Se tomando literalmente o que afirma a própria
Iniciativa Estratégica
, esta define as seguintes áreas prioritárias de
intervenção:
A Inovação
- traduzida no apoio a projectos de I&D especializados em sectores
estratégicos, visando transferir tecnologia para o sector empresarial, e
em projectos de arranque rápido de grande impacto na
captação de riqueza e na promoção da produtividade
e da competitividade;
A Sociedade da Informação e do Conhecimento
- investindo prioritariamente na formação avançada nas
áreas das tecnologias de informação, no desenvolvimento de
serviços, aplicações e conteúdos seguros, e nas
acções mobilizadoras de qualificações e de
introdução de novas tecnologias nas áreas da Cultura, da
Educação, da Defesa, da Segurança e da Saúde;
A Modernização da Administração Pública
- apostando na formação e qualificação dos seus
recursos humanos, na criação de estágios de longa
duração de licenciados e doutorados, nos investimentos em
acções no domínio da administração em rede,
por forma a obter uma administração moderna, responsável e
célere a servir o cidadão;
O Desenvolvimento da Ciência e da Formação no Ensino
Superior
- intensificando o investimento na área da saúde e a
formação avançada de investigadores e docentes, apoiando a
sua inserção nas empresas e nas instituições de
I&D, criando novos apoios ao estágio de alunos nas empresas e promovendo
a criação de infra-estruturas cientificas e do ensino
superior».
Mas se examinarmos os objectivos desta iniciativa
estratégica e as aplicações de fundos propostas,
concluiremos que esta iniciativa não será realmente
estratégica, no sentido de que não promoverá
transformações estruturantes. É certo que os documentos
oficiais são ainda toscos, mas as opções políticas
estão aí expressas, e não será o corpo de
cientistas e outras individualidades que compõe o Conselho Superior que
ditará outro curso para a política governamental.
Algumas descrições a apreciações genéricas
permitem entender o significado e alcance da
Iniciativa Estratégica - Conhecimento e Inovação.
Os principais caminhos apontados são o investimento em meios de
telecomunicações, informáticos e telemáticos
com ênfase justificativa na Educação, Saúde,
Cultura, Defesa e Segurança em ligação com a
Administração Pública e com as Empresas e a
atribuição de bolsas para formação e
qualificação de recursos humanos naturalmente em
ligação com as referidas áreas e sectores. Tomado pelo seu
valor facial, o que se propõe servirá provavelmente bons
propósitos, mas que deveriam ser atingidos através das
políticas sectoriais ou transversais com financiamentos correntes. Na
realidade trata-se, por um lado, de investir em equipamentos e outros meios
próprios da indústria e dos serviços existente, a fim de
modernizar meios ou métodos tornados obsoletos, e não de investir
em capacidade nacional de criar, investigar, inovar. Por outro lado, trata-se
de remunerar por bolsas trabalho qualificado, sem vínculo de
estabilidade na Administração Pública ou como
subsídio prestado às Empresas pelo Estado, atenuando mas
prolongando no essencial a presente crise de emprego científico, a
caminho da institucionalização do trabalho flexibilizado.
Procurando mais de perto identificar o rumo preconizado para a
Investigação Científica e o Desenvolvimento Experimental,
verificamos que o que se anuncia é a redução
drástica dos já exíguos recursos próprios para
investigação livre a fim de canalizar todo o esforço para
a investigação orientada e apenas em algumas poucas
direcções fixadas por opções empresariais ou
governamentais (se as houver) ou mais provavelmente europeias (projectos de
Arranque Rápido Quick Start). Concluiremos
então que o rumo preconizado é um empobrecimento da diversidade
de linhas de actividade científica existente (ou por abrir).
Do ponto de vista do sistema científico e técnico nacional,
podemos antecipar um possível progresso das infra-estruturas
informáticas em sentido geral. Mas, pelo contrário, um expressivo
empobrecimento das infra-estruturas e dos equipamentos e até da
disponibilidade de recursos humanos na larga maioria das áreas de
trabalho específicas. Não que isto corresponda a qualquer
desígnio de desenvolvimento da base de conhecimento necessária ao
progresso geral do nosso país, não. O que a iniciativa
estratégica propõe é uma transposição
automática e empobrecida do que são as actuais
orientações políticas da União Europeia [vejam-se,
por exemplo, as Comunicações COM(2003) 436 e COM(2003) 685]
comandada pelos interesses económicos de grupos empresariais de
que a maioria dos cidadãos portugueses nem conhece o nome e talvez
não suspeite a existência. Foram esses interesses do capital
transnacional que desenharam o VI Programa Quadro de I&D da UE, um programa que
focaliza o esforço de I&D europeu em algumas áreas marcadamente
utilitaristas, remetendo muitas outras áreas aplicadas e sobretudo a
investigação básica para o limbo das curiosidades
científicas. Essa grave distorção que ameaça
a sustentabilidade e a liberdade de criação científica
foi denunciada por um grupo de conselheiros de ministros da
Ciência europeus, que também propôs a
constituição de uma agência para a
investigação básica com uma dotação
equivalente a metade do Programa Quadro.
Para quem trabalha nos laboratórios do estado ou nas
unidades de investigação ou em
laboratórios associados ou em centros
tecnológicos por esse país, vivendo recorrentes
reestruturações institucionais bem como recorrentes
reformulações de critérios e de métodos de
financiamento, sabe como têm sido penosos os avanços conseguidos e
como é incerto o futuro desse progresso.
A estratégia de Óbidos soa como grito de comando e
alento dirigido a um exército meio desconjuntado. Mas o futuro dessa
estratégia não é brilhante. Pretender transpor
acriticamente algumas grandes orientações gerais da UE para a
realidade do nosso país não é sensato. E quando é a
própria estratégia de Lisboa que está errada,
e já dá evidentes sinais que vai falhar, então certamente
não é sábio.
9 de Fevereiro de 2004.
Este artigo encontra-se em
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