Ser ou não ser
Ovelha Dolly da Macdonaldinformação
por César Príncipe
A expressão shakespereana também assenta na pele dos
jornalistas e do jornalismo:
ser ou não ser / to be or not to be / that is the question.
[1]
A frase instalou-se no léxico quotidiano e, na esfera das
opções e confrontações profissionais, éticas
e deontológicas, este dito (erudito e popularizado) assoma como um
alarme e um dilema no frenesim dos noticiadores/opinoticiadores. Desde logo,
porque toda a notícia carrega os gérmenes do comprometimento
pessoal e da contaminação discursiva. Desde logo, porque, mesmo
que por um instante, não haverá um comunicador social que
não vacile ou se sobressalte, tantos são os reptos dos fluxos
informativos e deformativos, tais são as solicitações para
saudar os vencedores ou até genuflectir à sua passagem. Mas este
acosso (sufocador ou sedutor), por mais imperativo ou
light
,
não é um visitante estranho na história da
Informação. Se atentarmos, os novos desafios (da
Comunicação Social, da Liberdade de Imprensa, da Sociedade da
Informação e do Espectáculo, da Globalização
Tecno-ideológica) são os de hoje e os de sempre:
preparação cultural e consciência social para responder
à velocidade e à voracidade das mensagens. Não é
fácil, como nunca foi, deter uma estrutura crítica e manter uma
postura cívica num meio de cerco informativo, com centros de comando e
condicionamento a derramar as suas retóricas nas agências
internacionais e nacionais, pelos tempos de satélite, comprados e
direccionados pelas fontes do Poder económico, político, militar,
cultural, desportivo, religioso. Não é cómodo fechar as
torneiras
off-record
de escândalos de segunda grandeza (que servem magnos branqueamentos e
abafamentos). Não é moder
Net
desdenhar das mnemónicas dos papagaios-
fashion
, de todos os estimuladores cardíacos do rotativismo e da
bipolarização, do
vira o disco e toca o mesmo
. Não é pragmático desconfiar das bufadelas dos
serviços de Inteligência Estratégica. Não é
educado manifestar enjoo com o
fast-food
informativo das assessorias de Imprensa e dos gabinetes de
Relações Públicas.
Actualmente (mais do que nunca), exceptuando os órgãos
assumidamente doutrinários, que filtram os fluxos informativos,
redefinindo-os conforme os seus padrões, as agendas dos
multimédia são mais feitas e desfeitas por iniciativas externas
do que por lógicas internas.
O complexo mediático é ainda tele-influenciado pela
interactividade do próprio complexo, percutor e repercutor do e no
conjunto dos grandes, médios e pequenos intervenientes do Poder. Um
jornalista está igualmente enquadrado pelo perfil gestionário e
pela chamada
cultura de empresa
, pelos critérios editoriais (a gestão subjectiva da
objectividade), pelo estatuto remuneratório e pelos suportes de classe,
bem como pela maior ou menor destreza e inteireza no lidar com o tropel de
acontecimentos-notícia e de notícias-acontecimento. E os riscos
de policiação e de auto-recriminação não
foram riscados do mapa, apesar de notáveis conquistas em séculos
remotos e decénios próximos. Haverá perene necessidade de
vigiar quem nos vigia. Na mais próxima ditadura portuguesa (1926-1974),
por exemplo, a censura exerceu-se sobretudo através dos aparelhos de
Estado, no período democrático (1974-2004), a Censura exerce-se
sobretudo através dos aparelhos da Economia.
E sucede que a economia
não brinca em serviço: quem dá o pão
(logicamente)
dá a criação
. E sucede que os
donos da bola
(da economia globalizadora) e os
donos do bolo
(da economia sectorial e empresarial) também controlam o poder
político e os mecanismos de legitimação. Neste sentido,
ecoa como
música celestial
a convicção de um teórico do Direito, de gálica
estirpe:
A propriedade é o direito de usufruir e dispor das coisas da maneira
mais absoluta, desde que dela não se faça um uso proibido pelas
leis ou pelos regulamentos
. (Vallançon, 1985)
[1]
.
Como será do consenso mínimo, este
desde que
não encontra guarida nas práticas das goverNações
e das adminisTraições, não passando, na conjuntura
neo-liberal e do primado competitivo, de uma presunção de
inocência do sistema: as leis e os regulamentos são redigidos e
jurisprudenciados conforme os interesses dos proprietários de muitos
meios e as mentes dos seus ideólogos. O poder legislativo e executivo
tornou-se numa extensão do poder económico
(concentracionário e beduíno). E, por outra parte, consta das
crónicas: nenhum regime é imaculado e isento. Nenhum regime
garante a Liberdade se não a defendermos, se não a cultivarmos.
Haverá sempre quem esteja interessado no ruído e no
silêncio, na revelação e na ocultação, nas
versões de conveniência, nas campanhas-relâmpago ou nas
cruzadas de longo alcance, umas de aparente moralização, outras
de patente manutenção do
statu quo
. E para personificar os interesses das estruturas e das conjunturas, jamais
faltarão
veneraDores e obriGados
do e ao
pão nosso de cada dia
, sendo os públicos igualmente brindados com certas e desconcertantes
piruetas e venetas de
opinion makers.
Certo: os multimédia não se regulam por espírito
filantrópico ou místico, mas pelas regras da audiência e da
concorrência, pelos entendidos e subentendidos da publicidade, pelos
pressupostos do modelo político e, em secundária instância,
pelos propósitos e impulsos dos operacionais da
Informação, uns frequentadores dos
health-clubs
PatroNET & PatroNATO, outros emparedados ou auto-lomitados pela
subserviência e pela sobrevivência. É do domínio da
arqueologia imaginativa proclamar que os jornalistas são o
Quarto Poder
. Para tais teses ou
clichés
filosofantes, existiria um Governo Mediático, uma espécie de
Demediacracia/Governo da Opinião Publicada/Pública ou um Governo
de Não-Eleitos/Mediaditadura, uma instância que determinaria,
não apenas os Círculos de Leitores/Telespectadores/Radiouvintes,
mas os Círculos de Eleitores. Há quem persista em confundir
jornalistas com Imprensa, comunicadores com Comunicação Social,
empregados com Empresas, incorrendo num aparatoso equívoco (por
ingenuidade conceptual ou tramóia despistante). Os operadores de
informações e debitadores de opiniões/opinoticiadores
não passam de assalariados, com a carga e a canga advenientes desse
estatuto. Estão sujeitos a pressões de conteúdo e de
estilo, de relógio e de
espaço vital
. Salvaguardando algumas estrelas do situacionismo ou um ou outro tolerado
anti-sistema, devidamente relativizados, os comunicadores são mais
consequência do que causa, mais accionados do que agentes, mormente no
que toca a matérias de fundo, a assuntos da Ordem Nacional e da Ordem
Mundial.
Talvez o epíteto de
Quarto Poder
fosse mais consentâneo assumido, nalguns casos e nalgumas caras, como
Quarto do Poder ou Poder do Quarto, tal o nível das intimidades. Os
órgãos de Imprensa (audio-visual e escrita) transbordam de
paradigmas deste jornalismo de telemanipulação, de
mcdonaldinformação, de pratos feitos, mesmo que reaquecidos nos
microondas das Redacções. O jornalismo de massas (e até os
supostos média de referência embarcaram na
tabloidização e na fotocopiação) jaz nos
tentáculos das indústrias do
pensamento único
, das campanhas institucionais, das caixas de ressonância craniana do
sistema. Assiste-se à apoteose nacional e internacional da ideologia da
cassette
, de um repetitividade multireflexa, travestida de esparrelas graciosas, de
tiques feéricos, de toques dramáticos. E com a competente
didáctica anglo-saxónica:
Quando o Iraque invadiu território do Kuwait, a 2 de Agosto de 1990,
poucos americanos sabiam alguma coisa sobre este país; e o que sabiam
não consolou muito quem iria organizar uma contra-ofensiva. Frank
Manciewcz, da Hilland Knowlton Public Affairs Worldwide, que ajudou a orientar
a campanha de relações públicas que deu origem ao apoio
americano à acção militar, descreveu a
situação como um «vazio», no qual a firma disseminou a
informação para modelar a opinião pública
.(Manheim, 1991/Traquina, 2000)
[2]
.
Veja-se em aditamento a este programa alimentar de
macdonaldinformação: que significado conferir à
integração de repórteres em porta-aviões, brigadas
de helicópteros e tanques, na suposta linha da frente, na
ficção da guerra em directo; efectivamente, que significado
extrair da integração nas Redacções de militares,
com os peitos ajaezados de medalhas, a fingir de comentadores abalizados e
neutrais? E que lição reter do resgate de Jessica Lynch, a
jovem-soldado cativa dos iraquianos, alegadamente arrebatada de um hospital por
tropas norte-americanas? Afinal, segundo a BBC, tudo foi montado pelos
cineastas do Pentágono, pois até uns dias antes os iraquianos se
esforçaram por entregar a Jessica num
check-point
, havendo sido escorraçados a tiro pelos camaradas da heroína.
Mas o Pentágono fez o filme, vendeu-o à Sociedade Global da
Informação e ainda fabricou, para consumo patriótico, um
DVD, elevando Jessica aos altares, qual vidente acamada, qual mártir da
fé
[3]
.
A instrumentalização/manipulação é
um dado omnipresente no espectro mediático: hábeis e sofisticados
laboratórios de factos, verdades e versões trabalham a soldo de
desígnios imperiais, regionais, nacionais, grupais, individuais. A
passividade redactorial ou o colaboracionismo activo facilitam a
expansão das
marés negras
em forma de manchetes e
heads
. Os jornalistas e demais elementos da Informação deveriam
vacinar-se, desde os bancos escolares aos períodos de estágio,
sempre que tocam em matérias infectadas. E quase todo o material
recepcionado foi preconcebido para provocar efeitos epidemiológicos e
endémicos. Os convites às propagações virais chovem
de todas as repartições do poder. E a notícia (pela
palavra, pela imagem, pelo som) também é uma
manifestação de poder. O saber ou o não-saber, bem como os
modos e os tempos desse saber ou não-saber, revelam-se factores de
disputa entre múltiplos poderes (explícitos e encobertos). O
risco de nos tornarmos infecto-contagiosos é iminente. Os focos de
Informação difundem-se em cadeia, retransmitindo-se de corpo em
corpo, de equipamento em equipamento, e apropriando-se das nossas
condições e convicções. Ora com faces patibulares,
ora com ridentes faces.
Em suma, o que se afigura prescritível (sanitariamente) é
dosear a abertura ao mundo com espírito preventivo, o que
reclamará cada vez mais atenção e menos
veneração, mais cultura e menos
show
, mais civismo e menos cinismo. Porque, de outra maneira, não passaremos
de combatentes desarmados perante os fogos cruzados da História;
não ultrapassaremos as réplicas
in vitro computer
, como as ovelhas Dolly
[5]
nas mãos dos manipuladores, aliás, reputados cientistas.
________
1. Sentença de Hamlet, na tragédia com o mesmo nome, de William
Shakespeare (1564- c.1613).
2. Vallançon, François,
Domaine et Proprieté,
Universidade de Paris II, 1985.
3.Manheim, Jarol/1991, citado Traquina, Nelson,
O Poder do Jornalismo
, Minerva, Coimbra, 2000.
4.Kantfner, John,
BBC
, 15/05/2003.
5.
Dolly
, a ovelha clonada pela equipa de Wilmut (Escócia), em 1996. Os
manipuladores genéticos utilizaram uma célula mamária e um
ovócito anucleado de duas ovelhas, logrando uma biocópia.
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