A Terra move-se. Nos países ocidentais, nem tudo é inacção acerca da guerra na Ucrânia. Apesar do peso esmagador da propaganda difundida pelos adeptos da guerra-até-ao-fim, e da censura às fontes de informação e às posições divergentes, há quem se mexa para contrariar a maré dominante. Duas iniciativas de alcance internacional merecem notícia: uma teve lugar em Paris em outubro do ano passado, replicada depois em Londres, Belgrado, Caracas e Gwangju (Coreia do Sul); outra é uma conferência internacional a realizar em Roma em outubro próximo.
Em ambos os casos, é expressa a condenação da Nato como instrumento do imperialismo norte-americano para promover a guerra à custa dos sacrifícios dos ucranianos e dos europeus. E é ressaltado o perigo real de alastramento do actual conflito, se não forem travados os manejos das potências ocidentais, com óbvias consequências para todo o mundo.
A importância desta posição não está apenas no facto de combater o discurso dos meios políticos dominantes, mas sobretudo, no que à esquerda diz respeito, no facto de pôr em xeque as correntes que adoptaram uma atitude de meias-tintas a respeito do conflito — de que, por exemplo, a palavra de ordem “Nem Nato, nem Putin” é expressão.
Este último posicionamento — sob o pretexto, teórica e politicamente falso, de que estamos perante uma disputa entre forças imperialistas que “não diz respeito” aos trabalhadores e na qual os trabalhadores “não têm que tomar posição” — submete-se na prática à política dominante, tendo como resultado paralisar a resposta que deve ser dada aos fautores da guerra por aqueles que mais são atingidos por ela: os trabalhadores e os povos, sejam das metrópoles imperialistas, sejam dos países dependentes. É um posicionamento de natureza centrista inibidor de uma acção popular radical contra a guerra.
A verdade é que estamos perante uma corrida para a guerra por parte das potências imperialistas agregadas na tríade EUA-UE-Japão, na tentativa de manterem o domínio sobre o resto do mundo de que desfrutaram de há 80 anos para cá. Essa corrida é impulsionada pela crise senil que atinge o sistema capitalista-imperialista por inteiro e que se manifesta, concretamente, pela quebra do poderio norte-americano, arrastando os parceiros da tríade, e pela emergênca de outras potências capitalistas que defendem os seus interesses nacionais, políticos e económicos. Colocar uns e outros no mesmo pé, é um erro político fatal que arreda a esquerda de desempenhar papel determinante no curso dos acontecimentos, por a colocar fora do movimento concreto – realmente, e não idealmente, existente – de combate ao imperialismo.
Só inserida nesse movimento real pode a esquerda ambicionar levantar as suas bandeiras próprias e assim ter influência no rumo dos acontecimentos.
A conferência realizada em Paris (Plataforma Mundial Anti-imperialista) aprovou uma declaração em que, nomeadamente, se realça a palavra de ordem “Derrota da aliança imperialista liderada pela Nato!”, e em que se enquadra o conflito da Ucrânia, bem como as ameaças de outros conflitos, na tendência do imperialismo para a guerra.
A iniciativa prevista para Roma (Conferência Internacional para Travar a Terceira Guerra Mundial), reclama, entre outras coisas, a dissolução da Nato e a constituição de uma Ucrânia democrática e neutral.
Transcrevemos a seguir o texto da Plataforma aprovada em Paris e também um resumo da apresentação feita pelos promotores da conferência a realizar em Roma.
DISSOLUÇÃO DA NATO! NENHUMA COOPERAÇÃO COM A GUERRA IMPERIALISTA!
Plataforma Anti-imperialista Mundial – Paris, outubro 2022
A seguinte declaração foi feita em Paris na sexta-feira, 14 de Outubro de 2022, quando comunistas e anti-imperialistas se reuniram para lançar a Plataforma Anti-imperialista Mundial.
A declaração resume a abordagem comum da Plataforma em relação à corrida imperialista para a guerra, propondo a necessária clarificação sobre as causas profundas e a natureza da guerra, ao mesmo tempo que indica o que os socialistas e anti-imperialistas acreditam que deveria ser a nossa abordagem em relação ao movimento crescente que se opõe aos efeitos da crise e da guerra sobre os trabalhadores em todo o mundo.
Encontramo-nos num momento de grave perigo para os trabalhadores e os povos oprimidos em todo o mundo, no qual o ímpeto imperialista para a guerra está a empurrar-nos para uma terceira guerra mundial e uma conflagração nuclear.
Mesmo que a agressão da Nato na Ucrânia esteja a falhar, tanto militar como economicamente, o desespero dos EUA para salvar a sua posição hegemónica no mundo significa que não podem recuar, mas, em vez disso, estão à procura de formas de expandir e prolongar a guerra. Levando em conta a experiência, parece que os imperialistas ainda esperam poder encontrar uma forma de acabar com toda a resistência ao seu domínio e sair vitoriosos.
Como resultado, enfrentamos a perspectiva de a guerra na Ucrânia se espalhar para os países vizinhos da Europa e da Ásia Central – e também a eclosão de hostilidades em vários outros teatros mais a leste. As recentes provocações dos EUA em Taiwan, juntamente com o aumento incessante das tensões com a RPDC [Coreia do Norte] e a China em todas as frentes, deixam isso muito claro.
Neste momento de importância histórica, nós, os partidos abaixo assinados, concordamos que os seguintes pontos essenciais devem ser tornados claros às massas do mundo e devem orientar o nosso trabalho anti-guerra e anti-imperialista:
CONSTRUIR UMA FRENTE UNIDA ANTI-IMPERIALISTA
Conferência internacional para impedir a terceira guerra mundial – Roma 27-28 outubro 2023
Os promotores convidam indivíduos, organizações e defensores da paz de todo o mundo a apoiar e participar numa conferência internacional de paz para travar a terceira guerra mundial.
Ao reunir indivíduos e organizações anti-imperialistas de todo o mundo, a conferência procura formar uma frente unida contra o militarismo e o imperialismo norte-americano/europeu, com o objectivo de construir um mundo multipolar baseado no respeito por todos os povos e nacionalidades.
As organizações promotoras reconhecem o papel activo que a classe trabalhadora internacional deve desempenhar no desmantelamento da Nato, o cão de fila do imperialismo norte-americano/europeu, como uma pré-condição para alcançar uma paz duradoura.
Lista de exigências: