O Parlamento Europeu e o interesse nacional
Uma das coisas de que mais se ouve falar a propósito do Parlamento
Europeu é o interesse nacional. Sobretudo quando há
eleições à porta. Não digo que não haja,
numa ou noutra área e numa ou noutra circunstância, esse tal
interesse nacional. Mas recuso um interesse nacional mítico, algo de
transcendente e consensual de que apenas se afastariam os perversos ou
pervertidos.
A questão começa logo por se levantar no que se refere à
forma como Portugal entrou para as Comunidades Europeias, agora União
Europeia. Foi invocando o santificado nome do interesse nacional
que, em pleno período contra-revolucionário, certas forças
políticas, partidárias e, sobretudo, económicas, tudo
fizeram para que estivéssemos com a Europa connosco. Esse
seria um contributo decisivo para impedir que forças perversas e
pervertidas prosseguissem o caminho então em curso.
E foi em nome do interesse nacional que o Bloco Central, formado pelos partidos
Socialista e Social-Democrata (um PS sem D e outro com D), negociaram a entrada
para essa Europa mas sem defenderem, minimamente que fosse,
os interesses nacionais ligados à actividade produtiva, à
agricultura, à pesca, à indústria, aos trabalhadores
nacionais.
Ao longo de mais de década e meia, sempre com o interesse nacional na
boca, os interesses de alguns (poucos) nacionais foram defendidos e protegidos,
enquanto os interesses de outros (muitos mais) nacionais foram atacados e
desprotegidos.
Pelo nosso lado, estaremos sempre com o interesse nacional, a partir da nossa
leitura da história e da contemporaneidade (que história
é), quando entendermos que há um interesse nacional posto em
causa.
Como exemplo, para ilustrar o interesse nacional e como ele foi defendido
consensualmente no Parlamento Europeu, muito se fala de Timor-Leste.
Argumenta-se que todos os deputados portugueses teriam puxado para o mesmo lado
e com idêntica determinação. Ora, nem sempre foi assim.
Na última sessão plenária desta legislatura em que houve
muita coisa para decidir (para deixar a casa um pouco mais arrumada
), na
discussão do orçamento para 2005 os dois deputados comunistas
portugueses propuseram uma alteração no sentido que esse
orçamento manifestasse
a intenção de continuar a apoiar a
reconstrução e desenvolvimento de Timor-Leste.
Com alguma surpresa (boa), 30% dos deputados votaram a favor da
proposta dos comunistas portugueses enquanto, com alguma surpresa (má),
dos outros deputados portugueses 14 votaram contra (7 do PS e 7 do PSD);
só 1 deputado do PS e 1 do PP votaram favoravelmente a proposta.
Interessante, não é?
Nessa maratona de fim de mandato houve outras surpresas, ilustrando bem as
reservas sobre o interesse nacional e a clara clivagem de entendimento sobre
ele e ilustrando também como às vezes se dizem umas coisas
num lado que contradizem as votações decisórias que se
tomam noutro.
Vejamos alguns exemplos. Em relação aos
serviços de interesse geral
corruptela que designa serviços públicos os
deputados comunistas portugueses entenderam representar os interesses que os
levaram ao Parlamento Europeu
(interesses de nacionais portugueses!)
votando contra o relatório proposto. Nisto foram acompanhados por
24% dos deputados do Parlamento, mas não pelos portugueses. A
única excepção foi um do PS, pois 7 deste partido, 9 do
PSD e 2 do PP votaram a favor do referido relatório. Quanto à
liberalização dos caminhos de ferro,
a posição dos comunistas portugueses foi, obviamente,
contra tal medida, acompanhados por 14% dos deputados votantes mas, entre estes
não estava nenhum português; 8 deputados do PS, 8 do PSD e 1 do PP
votaram a favor. No que respeitou à
cimeira de Lisboa
e ao parágrafo sobre o
Pacto de Estabilidade,
os deputados do PCP votaram contra este, juntamente com mais de 24% dos
deputados votantes mas, dos restantes portugueses, 8 do PSD, 5 do PS e 2
do PP votaram a favor, e só 1 do PS se absteve.
Em relação às
orientações económicas,
os dois deputados comunistas portugueses propuseram uma emenda que
suspenderia o malfadado
Pacto de Estabilidade
e o substituiria por um
Pacto de Progresso Social e Emprego,
em conformidade com
os objectivos de pleno emprego, de desenvolvimento económico
sustentado
e de coesão económica e social.
Pois em 14% dos votos favoráveis, não se contou nenhum
dos outros portugueses, uma vez que 3 deputados do PSD, 4 do PS e 1 do PP
votaram contra a proposta de emenda e, os restantes, não estavam
lá ou não votaram.
Quanto à
responsabilidade social do Estado,
os deputados do PCP propuseram uma alteração no sentido
de que o
objectivo da consolidação orçamental
não pusesse em causa
a promoção do investimento público, a
promoção de serviços públicos de qualidade e as
responsabilidades sociais do Estado, nomeadamente ao nível das
prestações sociais, da saúde e da
educação.
A proposta de alteração teve 19% de votos
favoráveis, mas nenhum deles foi dos demais deputados portugueses
os 3 do PSD, os 5 do PS e único do PP.
Sobre
liberalizações e privatizações,
o sentido de interesse nacional (dos nacionais) levou os dois deputados
comunistas portugueses a propor uma alteração que reiterava a sua
firme oposição a esse processo. Esta proposta teve 16% de votos
favoráveis mas, para estes, não contou nenhum daqueles mesmos
deputados portugueses. O mesmo aconteceu com uma proposta de
alteração sobre
precarização do trabalho
avançada pelos dois deputados do PCP, que teve o apoio de 17% dos
deputados que participaram na votação.
O CASO BOMBARDIER/SOREFAME
Uma outra alteração proposta pelos deputados comunistas
portugueses foi relativa a
deslocalizações, encerramentos de empresas,
com uma referência explícita ao caso Bombardier. Esta
proposta de alteração teve 19% de votos favoráveis, neles
se incluindo um deputado PP. Mas, com alguma surpresa, os restantes deputados
portugueses que participaram na votação (3 do PSD e 5 do PS)
votaram contra. Contra o que eles e os seus partidos têm afirmado em
várias oportunidades!
No que respeita às
perspectivas financeiras 2007-2013,
também os dois deputados comunistas apresentaram propostas de
alteração. Uma delas, sobre o
aumento orçamental,
considerava
manifestamente insuficiente
a proposta constante na comunicação apresentada pela
Comissão Europeia
para fazer face às necessidades de coesão de uma
União
Europeia, para mais alargada, que implicariam um aumento do limite dos recursos
próprios.
A nossa proposta apenas recolheu 9% de votos favoráveis, entre
os quais o de um deputado do PS, mas com os restantes deputados portugueses
votantes 7 do PS e 7 do PSD a votarem contra, em gritante
contradição com afirmações que os seus partidos
vêm fazendo.
Outra proposta de alteração apresentada pelos dois comunistas
portugueses foi sobre os
objectivos do orçamento,
neles incluindo
a melhoria das condições de vida das
populações, a
promoção da coesão económica e social, o
crescimento económico sustentado e do emprego, o desenvolvimento das
relações externas de cooperação e desenvolvimento
com os países menos desenvolvidos, em particular com os países
ACP,
a qual teve o apoio de 20% dos deputados do Parlamento, neles se
contando um deputado do PP, mas com os 9 deputados do PS e os 8 do PSD
presentes à votação a votarem contra.
Por último, os deputados comunistas portugueses propuseram uma
alteração solicitando à Comissão
a criação de programas de modernização e apoio
específico aos Estados-membros mais afectados em virtude do
alargamento,
como aconteceu com a Grécia aquando da adesão de Portugal
e Espanha. E se não é de estranhar que a votação
tenha sido escassamente favorável, pouco mais de 9% do total dos
votantes, já espanta que apenas um deputado do PS e um do PP tenham
votado a favor, enquanto 8 deputados do PSD e 8 do PS votaram contra! O que
também ajuda a explicar o baixo apoio a esta proposta
quando nem
essoutros deputados portugueses defenderam tal proposta junto dos grupos
políticos em que estão encaixados!
Este apanhado de votações nominais na última semana de
plenário do Parlamento Europeu ajuda a avaliar as posições
dos outros deputados portugueses, como eles estarão condicionados pelos
respectivos grupos (e partidos europeus) PPE e PSE a que pertencem, como votam
de maneira pouco coerente com o que é afirmado noutros lugares e
circunstâncias, sobretudo em campanha, embora alguns, talvez mais
atentos, escapem, aqui e ali, a essas malhas que o império(alismo) tece.
Ao mesmo tempo, este resumo serve para avaliar a importância que teria
uma mais larga participação de deputados comunistas portugueses.
Ela viria reforçar as propostas e as posições que
têm tomado no Parlamento Europeu em representação e na
defesa de interesses nacionais (de nacionais, de trabalhadores, das
populações).
A 13 de Junho não te esqueças disto! Tem a ver com a defesa dos
teus interesses e, por isso, do
nosso
interesse nacional.
08/Jun/2004
[*]
Economista, candidato ao PE na lista da CDU.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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