Golpe de estádio

por César Príncipe [*]

Portugal dos Pequenitos. Procuram-se três evadidos das responsabilidades nacionais e locais. O alarme é do conjunto da Esquerda e de alguma Direita com independência opinativa. Os foragidos dão pelos nomes e apelidos de Durão Barroso, Santana Lopes e Jorge Sampaio. Escaparam-se, de acordo com os autos de denúncia, dos encargos oficiais: o primeiro, explicitamente derrotado nas Eleições Europeias, aproveitou uma janela semi-aberta no edifício em construção da UE e refugiou-se nos aposentos da Presidência, deixando António Vitorino especado à porta, com ar de descartado, à espera do carro-vassoura da UE ou do PS; o segundo, eleito por Lisboa para presidente da Câmara, sob o lema de Amar Lisboa e jurando manter-se fiel ao contrato nupcial, desapareceu de casa da amada, transferindo o enxoval para outro aconchego; o terceiro, apavorado com a iminência de um ménage à trois , entre ao alaridos e os murmúrios do poder e da oposição, sempre cerimonioso, agenciou cobertura aos transviados do Governo e da Municipalidade.

Este folhetim de alcova e abandono do lar desencadeia-se durante e após a epopeia do Euro e depois do presidente de todos os portugueses haver proclamado o Futebol como desígnio nacional . Tudo sucede com as bandeiras nacionais a tremular nas varandas e janelas, nas antenas dos automóveis e nas antenas hertzianas, nos diversos estendais do Espírito Nacional, entrando no jubileu as máscaras bicolores e a lingerie da Nova Mocidade Portuguesa Feminina, que, excitadíssima com o nariz do Figo e o peito do Ronaldo se enfaixou com as cores da Filosofia Portuguesa contra os canhões . A crise institucional (governamental, municipal e presidencial) ocorre, de facto, com os portugueses e as portuguesas ainda não refeitos da decepção do Euro e das nostalgias de um Portugal com Força. O Povo, a Burguesia e até o Clero foram, pois, chamados à liça pelos clarins da continuidade do Governo e da dissolução da Assembleia da República. No lento despertar do Esplendor na Relva , fomos, de imediato, remobilizados pelos pendões da última campanha-não os arreando, em face do Segundo Euro, o da Finalíssima Barroso/Santana/Sampaio. Mesmo que os sudários da Pátria descorem ou se esfiapem-cumpre-nos manter o pau erguido. Nesta hora perplexa, cuidemos do estado do pau e do pau do Estado. Eis a doutrina dos bandeirantes da Eurolândia ou da Portugalidade doméstica.

Em boa verdade, um pau de bandeira luso e aprumado pode muito bem superar o valor prático e simbólico de um pano de fabrico chinês. A bandeira empolgou os portugueses mas não desmoralizou os gregos. Qualquer economista de escol, liberal e pragmático, já terá concluído que melhor fora para Portugal que não tivéssemos eliminado a Espanha e a Inglaterra: se os espanhóis e os ingleses fossem obrigados a chegar à final-demorar-se-iam pelas esplanadas e por outros recintos, largando euros para a retoma. Mas com a obsessão do desígnio nacional , com a estratégia de lavar as dívidas dos estádios com banhos de multidão e de anestesiar os quebrantos da economia com espasmos patrióticos-desperdiçou-se um timing da psicologia de massas para desfechar um pontapé na crise. Com um pouco menos de êxtase milagroso nos pés e um pouco mais de realismo na cabeça, teríamos ganho em perder. Em perder mais cedo.

A NOVA TROIKA

Eis-nos, por consequência, crivados de dívidas e de mágoas, privados do Euro e sem primeiro-ministro eleito, este arrebatado no fragor e no fervor dos lances que mobilizavam, distraíam e traíam os portugueses e as portuguesas como já não se via desde Afonso Henriques, o Decepado, a Padeira de Aljubarrota. Ninguém nos garante que Durão Barroso, surpreendendo Portugal cativo da grama e dos écrans , não resolveu dar o salto para Bruxelas, abrigando-se de próximas eleições e do crescendo dos apupos populares. E para não vir a ser acusado de menosprezo das clientelas, diligenciou assegurar a sucessão, abrindo espaço para mais um fugitivo e instando o presidente de todos os portugueses a patrocinar a dupla evasão. Neste processo dinástico-rocambolesco, entre golpes de estádio e golpes de estado, revelaram-se três performances: Durão é um caso de fuga para a frente; Santana é um caso de fuga para o lado; Sampaio é um caso de fuga para trás. Estamos, pois, segundo a generalidade da Esquerda e a especialidade da Direita, confrontados com uma Nova Troika, envolvendo dois transgressores (violaram o pacto com o seu eleitorado e com a soberania republicana) e um trânsfuga (que se deixou, mais uma vez, aliciar pelo campo adverso. Teme-se, portanto, um ciclo antropológico protagonizado pelo Homo Fashion e pelo Homo Funchalensis.

Ainda seria academicamente tolerável que o presidente da República, num lato conceito das faculdades constitucionais e da leitura dos indicadores políticos, houvesse convocado Santana Lopes em privado ou no âmbito da peregrinação a Belém e lhe ditasse uma minuta para o candidato levar ao seio da Coligação. Tal minuta estipularia que os signatários se esforçariam por formar um Governo de Crise, destinado a atender ao drama de mais de dois milhões de portugueses situados nos limiares da pobreza, a mais de duzentos mil portugueses condenados a fome diária, a cerca de quinhentos mil desempregados. Eis uma exemplaridade para uma séria problematização dos desígnios nacionais. Mas o presidente da República fez precisamente o contrário: exigiu ao candidato a chefe do Governo que prosseguisse a política de Durão com os desfavorecidos e de Molengão com os favorecidos. E agora? Quem sairá beneficiado ou rebeneficiado desta dança de cadeiras e deste manobrismo cortês?

Durão Barroso, ex-chefe do Governo, distanciou-se de um quadro governamental com uma maioria aritmética a funcionar desligada da opinião pública e solucionou o seu problema, tentando acobertar-se com o interesse nacional e o prestígio do convite, mas embarcando na fuga de cérebros, no clima do Euro, que proporcionou várias transacções de heróis da bola; Santana Lopes, chefe do Município, saltou do Poder Local para o Poder Central, contornando o Congresso partidário e a consulta nacional, logrando um jack-pot sem haver inaugurado o patético Casino do Parque Mayer, solucionando o seu problema de eterno derrotado nos Congressos; Jorge Sampaio desbaratou um brinde-pretexto do chefe de uma maioria eleitoralmente desqualificada, não interrompendo uma governação que desespera os trabalhadores e não dá esperança aos empresários. O presidente, que alguns declararam na posse da bomba atómica e que outros reduziram a uma boca de fogo de baixa intensidade, não ousou travar ou moderar um Governo ao serviço de meia dúzia de banqueiros e empreiteiros, que se tornaram os mais determinantes órgãos de soberania e a fonte programática do Executivo e nem agora ousou dizer: Alto, Aí! . Jorge Sampaio terá, para a Esquerda em geral e para a Direita menos orgânica e mais humanizada, cometido um erro de gestão e de casting , fosse por pânico (Mário Soares dixit ), fosse pelo deslize para as comodidades da pré-reforma. As promessas de pôr o Governo de Santana sob medidas de coacção, quase com obrigatoriedade de se apresentar na esquadra mais próxima todas as semanas como qualquer arguido mediático, o mal maior estará consumado e Sampaio ter-se-á comprometido como património de consenso democrático e referencial de resistência. Sampaio acabou por integrar o rol de fugitivos da responsabilidade, expondo-se como encenador do trespasse de poder, fazendo uma consulta a alguns sábios do regime (que, no fundo, não valorizou) mas recusando consultar o povo, onde repousa a legitimidade incontroversa. De pouco vale colocar uma pulseira electrónica aos membros do Executivo.

As populações é que terão de permanecer vigilantes e actuantes, pois a acção do presidente mostrou os seus limites e a sua andropausa conservadora. A condecoração de Carlucci foi apenas um dos sinais de um presidente em derrapagem situacionista, que não preza nem sopesa suficientemente as memórias de Abril e as lealdades do seu corpo eleitoral. Jorge Sampaio tornou-se um adaptacionista, disposto a engolir sapos ou a chamar nenúfares aos sapos que algumas entidades lhe ponham na mesa. A sua metodologia reactiva tem sido propensa ao convívio com os privilegiados e a inconter lágrimas com as peripécias futebolísticas. Entretanto, é preciso chorar e muito pelos deserdados da nossa terra e do planeta. Neste passo da nossa história, a democracia personalista e burocrática sobrepôs-se ao escrutínio directo e universal. E o Governo em gestação vai ser tentado, não apenas a cavar mais o drama dos excluídos, mas a demonstrar que tem uma ideia para Portugal. Neste sentido, não espantará que, entre as iniciativas de ponta, o Governo PPD/PSD/CDS/JSampaio esqueça o dia a dia de milhões de cidadãos, na senda do Governo PSD/CDS, investindo na transformação e modernização do Portugal Night e do Portugal in . De maneira que o povo, amortecido o sonho do Euro, voltará a ser bombardeado pelas tubas das Grandes Causas, com uma aposta na Condição Feminina. Não sejamos, desde já, injustos para com o Governo deste Verão Quente . Porventura algum assessor de multinacionais há-de refrear a impulsividade de nascença, recomendando racionalidade a quem arranca sem apoio popular e com um presidente de sentinela, que poderá ser obrigado a mostrar mesmo que intervém in nomine de um desígnio nacional. Aceitemos alguma estilística anarco-cativante. E que tal a restauração do Concurso da Mulher Ideal Portuguesa (nas modalidades Tia de Cascais, Virgem das Docas, Miss Silicone, Eva da Província, Filha da Diáspora)?

ALTERNATIVA DEMOCRÁTICA

Na tentativa de poupar o país a uma crispação prolongada, adiantaremos três medidas singulares e cautelares, que talvez pacifiquem eleitores e eleitos, cidadãos e agentes do sistema:

  1. Durão Barroso deverá ser amarrado a um compromisso que o prenda a Bruxelas ou Washington durante 30 anos ou deverá ser enviado com José Lamego em comissão de serviço para Bagdad para fundar o MRPP iraquiano, visto que se impõe radicalizar alguns segmentos estudantis e obreiros e promover arruaças contra os adeptos de Saddam e os opositores da ocupação, vociferando contra baasistas, binladenistas, independentistas e imperialistas e educando os esfomeados autóctones e os mercenários estrangeiros com as Citações de Durao;

  2. Santana Lopes deverá ser apeado de São Bento, através de contestação em sedes electivas e por meio de protestos sociais, usando-se, contudo, de benevolência humanitária, nomeando-o para presidir à Alta Autoridade para os Jogos de Fortuna e Azar e para Inspector-Geral dos Bons Costumes;

  3. Jorge Sampaio deverá resignar a Belém, forçando eleições antecipadas na Câmara de Lisboa, propondo-se preencher o vazio deixado pelo charme do maire em fuga. Com tal prova de coerência e de humildade, Sampaio atenuará os remorsos da Grande Evasão, retocando a imagem, empenhando-se na reabilitação do casco arquitectónico alfacinha e divisando (finalmente) a luz no fundo do Túnel do Marquês.

Se os fados não propiciarem este desfecho-só restará às entidades competentes reeditar o Euro para andarmos embalados e só nos moveremos para reafinar o Hino Nacional, repovoar os estádios, esgotar a cerveja, esfaquear dois ingleses e três espanhóis. Na contingência, não faltarão agitadores, alguns clamando de Escola em Escola, de Fábrica em Fábrica, de Bairro em Bairro, do Minho aos Algarves, dos Açores à Madeira:

Se encontrares, em qualquer parte, alguém parecido com um presidente da República, não confundas a imagem. É membro do Governo. Reage e age em conformidade: se for na Rua, evita cruzar-te com o ex-Supremo Magistrado da Nação, também sendo de assobiar Fora o Árbitro ou mandá-lo para a Torre do Tombo ou para Canas de Senhorim; se for na Televisão, muda rapidamente de canal, nem que seja para levares com o peeling da Lili (é só um instante); se for na Rádio, muda rapidamente de estação, nem que seja para a IURD (é só um instante); se for na Imprensa escrita, muda rapidamente de página, nem que entornes o café ou tenhas de enfrentar a light eratura de Margarida Rebelo Pinto.

Os líderes do levantamento revolucionário não terão pejo em verberar um Governo de Salvação Pessoal, de alguns empresários europtimistas e de alguns experts da democracia controlada, megafonando que o Governo da Coligação PPD/PSD/CDS/JSampaio resultou de um cozinhado à moda de Belém, um prato forte de carne barrosã e couve-de-Bruxelas, com o repasto aliviado e abrilhantado por violinos de Chopin. Assim, o ágape da Nova Troika introduziria, na Mesa do Orçamento, um produto etnográfico, uma incorporação cosmopolita e uma nota sensível, como seria de esperar de um ex-presidente de todos os portugueses, melómano confesso.

Desde o dia 9 do corrente, pelo crepúsculo, que, para os que votaram em Jorge Sampaio e para os que desejavam votar para um Novo Governo, o ex-garante do regular funcionamento das instituições democráticas, depois de felicitar um fugitivo, trespassou o cargo vacante para outro fugitivo, chancelando uma intentona a assinalar nas efemérides como Golpe de Estádio, tendo em conta o seu enquadramento e o seu carácter paisano, além da urdidura e do suspense da Sociedade do Espectáculo, inscrita na genética do Novo Governo da Nação. De resto, os processos sediciosos parecem haver trocado de papéis: nos torneios futebolísticos, empregaram-se as mais severas e sofisticadas medidas de segurança (implicando mesmo a NATO e os AWACS), enquanto que, no terreno político, apenas se recorreu a jogos de salão e a redes telefónicas, utilizando a algazarra do Euro como chapéu de retiradas e de actos de posse.

Já quanto a haver recaído sobre Durão Barroso o privilégio da sétima escolha entre grandes e pequenos, candidatos do Eixo Franco-Alemão e do Eixo Anglo-Americano, evoca-se um episódio da I República: tinha o general Gomes da Costa, ajaezado no seu cavalo branco, derrubado, em 1926, o regime de 1910 e foi mister formar Governo. Quando os mentores do golpe se interrogaram sobre quem figuraria como ministro dos Negócios Estrangeiros, o general não hesitou em traçar um retrato- robot: teria de ser um golpista ou simpatizante do Movimento, pelo menos com a patente de coronel, ser conhecido por se apresentar irrepreensivelmente (isto é, com as botas engraxadas) e saber falar francês. Decorridos 78 anos, parece que o recrutamento apenas é condicionado por mais um requisito: saber falar inglês.

Portugal continua a ser dos Pequenitos.

[*] Escritor, jornalista.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

16/Jul/04