Elementos para uma contextualização das novas dinâmicas no
Ensino Superior: trabalho, classes, instrumentos de produção e
Estado
Resumo
Este artigo vai procurar desenvolver um conjunto de coordenadas e de eixos
teóricos que, à luz da matriz conceptual marxista, nos permitam
aclarar melhor o papel do Ensino Superior nas sociedades capitalistas mais
avançadas. Partindo do pressuposto da hierarquização das
instâncias sociais e da autonomia relativa de cada uma delas, o objectivo
deste ensaio foi perceber até que ponto a instituição
universitária, subordinada ao campo económico, contribui para a
sustentação do sistema moderno produtor de mercadorias, quer a
nível da transformação do conhecimento científico,
produzido nas academias, em capital, quer a nível da
reprodução da máquina estatal burguesa. Só numa
visão global e articulada entre os vários campos podemos perceber
como se processa a subsunção real e não meramente
formal e material do trabalho ao capital.
BREVES NOTAS SOBRE O MODO DE PRODUÇÃO CAPITALISTA
As formações sociais modernas, constituídas numa primeira
fase nos séculos XV-XVI, têm como pressuposto uma
relação social fundamental: a relação social do
trabalho assalariado.
Esta relação articula-se sobre duas fundações
inseparáveis entre si, a divisão do trabalho e a existência
da propriedade privada (aqui burguesa). Com a Revolução
Industrial, a fábrica suplanta a manufactura enquanto forma
(pre)dominante de produção de mercadorias. Ora, a
especialização daí decorrente levou à perda de
controlo, por parte do operariado, dos instrumentos de produção,
derivando para uma consequente ausência de poder sobre o produto final
realizado. Dentro do conjunto da divisão das tarefas produtivas
(concepção, execução, gestão,
supervisão...) entre os membros da sociedade, deu-se uma divisão
em classes suportada, grosso modo, na posse, ou não, dos meios de
produção que constituem a propriedade privada
edifícios, equipamentos, saberes, aplicações
técnicas.
A dominância do campo económico, ao obedecer ao cumprimento mais
eficaz e rentável possível da fórmula D-M-D',
vai obrigar a que as restantes esferas da actividade social sejam subordinadas
à acumulação de capital.
É a partir deste postulado que temos de analisar o Ensino Superior (ES).
O vínculo de ligação entre a luta pelo socialismo e a
crítica da actual configuração do ES, passa muito para
além de lutar por um maior acesso ao mercado de vagas das
instituições universitárias. Esse é o ponto de
vista que Rosa Luxemburgo considera dos «sábios burgueses que
colocam no primeiro plano de suas considerações históricas
a troca, a distribuição ou o consumo» (Luxemburgo citada por
Benoit, 2004, p.46), em vez de, como Marx afirmava, «buscar o segredo mais
profundo, o fundamento oculto do edifício social» (Marx, 1990,
p.97) nas relações entre os proprietários de meios de
produção e os produtores directos. Desta forma, só faz
sentido perceber o funcionamento do ES, a partir da organização
do processo de trabalho, das ligações que estabelece e da
moldagem que vem sofrendo em ordem a permitir a lucratividade do capital.
O capital, sendo o modo de controlo do «metabolismo social caracterizado
pela submissão do trabalho vivo ao trabalho morto», quer dizer, do
domínio da máquina que por sua vez tem de admitir o
incremento, em paralelo, da técnica e da ciência sobre o
trabalho humano, implica a «situação fetichizada na qual o
produto é o proprietário do produtor» (Meszaros, 1995,
p.610), um quadro societal em que o trabalho abstracto, enquanto gasto de
músculos, nervos e energia humana, é condição
necessária para a produção de valor. Aliás, este
tipo de trabalho ganhou historicamente o seu lugar central devido a uma
conjunção de vários componentes: a crescente
dimensão técnica e científica; a sua imaterialidade,
quando produz serviços
[1]
; o grau de complexidade a si associado, porque requer muitas
qualificações; a exigência de muitas
interacções, fruto do seu carácter cooperativo;
intelectual porque depende especialmente da capacidade de raciocínio
à produção de uma unidade de um valor de uso.
Na automação, vista por vários autores como a
superação do paradigma fordista/taylorista, o processo produtivo
é alvo da aplicação da tecnologia a níveis cada vez
mais intensivos, rebaixando o trabalhador a actor indirecto, a apêndice
das máquinas, no sistema de produção. O tempo de trabalho
passa a ser medido não só do ponto de vista quantitativo (tempo
socialmente necessário), mas também do ponto de vista
qualitativo, ou seja, que instrumentos, teóricos e práticos,
é o trabalhador capaz de mobilizar na produção de uma
mercadoria. A produção capitalista incorpora as actividades
subjectivas criadoras de cultura, sejam elas, escolares, de
investigação, tecnicizantes ou outras. Só assim consegue
adequar a nova base tecnológica (elevação crescente do
capital constante na criação mercantil de valor) à sua
base económica (relação de exploração da
força de trabalho).
O NEGÓCIO DA PRIVATIZAÇÃO DO ENSINO SUPERIOR
Esta submissão dos campos de produção simbólicos
aos imperativos do lucro, não deixa de fora o meio universitário.
Bem pelo contrário. A famosa Declaração de Bolonha,
subscrita em 19 de Junho de 1999 por ministros da Educação de 29
países, aponta, precisamente, para o estabelecimento de uma
«área europeia de Ensino Superior que requer o constante apoio,
supervisão
e
adaptação
às contínuas mudanças envolventes» (Bolonha, 1999)
[itálicos e tradução da nossa autoria]. Por isso
consideramos que quando se fala do regime de autonomia das universidades,
pensamos que se propugna uma visão unilateral da questão.
Concretizando, à importância aí dada à
independência da instituição universitária face ao
poder dos executivos governamentais, haveria que acrescentar a luta contra a
dependência cada vez maior das actividades académicas,
nomeadamente de ensino e pesquisa, às necessidades de
valorização do capital sentidas pelas empresas privadas.
Não é por acaso que o ES se tornou um negócio
apetecível. A título de ilustração, veja-se o peso
crescente do ensino superior privado em Portugal. Se em 1992, este sector
abarcava pouco mais de um quarto dos estudantes universitários e
politécnicos, no virar da década, a quota estendia-se até
aos 40%, conforme se pode observar no quadro seguinte:
Quadro 1 - Diplomados no ensino superior público e privado
|
Anos
|
Público e privado
|
Ensino Público
|
Ensino Privado
|
|
1991/92
|
22 549 (100,0%)
|
16 190 (71,8%)
|
6 359 (28,2%)
|
|
1994/95
|
36 410 (100,0%)
|
22 720 (62,4%)
|
13 690 (37,6%)
|
|
1999/00
|
54 255 (100,0%)
|
32 401 (59,7%)
|
21 854 (40,3%)
|
Fonte: DAPP/ME Estatísticas da Educação (In INE,
2003, p.79)
Em consonância com isto importa dizer que, em termos absolutos, o
crescimento de alunos no ES privado foi cerca de 340%, ao mesmo tempo que o
número total de diplomados aumentou 240%.
A importância da privatização do ES acabou por chegar ao
ponto de constituir uma das mais fortes investidas a favor do desmantelamento
do Estado Social. A ruptura desta forma capitalista de Estado tem de ser
enquadrada à luz de uma dupla perspectiva que inclui tanto as derrotas
da classe operária nas últimas décadas contra o
avanço da burguesia, como da reestruturação do
capitalismo, face à crescente incapacidade de obter valor a partir do
aparelho produtivo da grande fábrica fordista e o recrudescimento da
actividade financeira, com as bolhas de títulos a funcionarem de
almofada (capital fictício) nesta fase de baixa lucratividade da
capacidade instalada. O maior fomentador desta espiral bolsista só
poderia ser assegurada pelo Estado rentista ao transformar o seu
vasto património (serviços públicos, empresas, capital) em
títulos para assegurar a gula do capital financeiro, através da
dívida pública.
Por outro lado, o condicionamento do ES ao capital é ainda mais
asfixiante no que diz respeito à formação de
mão-de-obra qualificada e semi-qualificada, ao controlo dos saberes,
à concepção de novos produtos, à
reprodução e permanente reestruturação da estrutura
dos lugares de classe. São estes pontos que vamos abordar de seguida.
INSTANTÂNEO EPISTEMOLÓGICO EM TORNO DO PAPEL DAS CIÊNCIAS
NAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS
A universidade reivindica, por trás de um discurso vago e pouco
objectivo, uma série de princípios que denomina de
excelência. Esta definição, que supostamente
estaria associada a uma elevação dos padrões de qualidade
do ensino ministrado, oculta propósitos ligados à
competição intra e inter-universidades, paralelamente ao
acantonamento e centralização das competências
técnicas e teóricas mais avançadas.
Deste ângulo de análise há que procurar entender a
concorrência no mercado das instituições do ES. A
competição universitária é fomentada em grande
escala através da propalada superioridade das ciências naturais
sobre as ciências sociais e humanas
[2]
, com reflexo nos apoios financeiros e logísticos à
formação de unidades de investigação fundamentais.
Para além do condimento ideológico que impregna as mentes de
muita gente da comunidade científica, que procura direccionar a
conceptualização de ciência para a busca da objectividade
mais pura, para o estabelecimento de leis universais e absolutas corroboradas
por exames experimentais em laboratório
[3]
, há que procurar avaliar os diferentes papéis que os respectivos
grupos de ciências desempenham no sistema produtivo. Quer dizer,
há que perceber, estamos em crer, a substância da
aplicação de ciências como a Física (não
esquecendo o suporte lógico-processual dado pela Matemática), a
Química, a Biologia, têm no desenvolvimento das forças
produtivas. Esmiuçando melhor, para o capital o contributo de qualquer
uma destas ciências, com uma geometria variável de acordo com a
época histórica de acumulação de capital
[4]
, para a sua valorização é substancialmente superior ao
que a História, a Sociologia ou a Ciência Política,
só para mencionar estas três, podem oferecer para a constante
adequação da
téchne
aos mecanismos (cada vez mais) insidiosos de extorsão de mais-valia.
Até porque as ciências do homem não possuem ramos de
aplicação técnica em grau comparável com o que
sucede na Física ou na Biologia, tanto do ponto de vista quantitativo
como qualitativo: compare-se o atraso, em níveis de desenvolvimento, da
Sociologia do Trabalho ou da Psicologia Ocupacional, com os inúmeros
campos de especialização da Engenharia (química,
industrial, civil, electrotécnica) e da Medicina (histologia,
neurologia, genética humana, etc.).
TRABALHO INTELECTUAL, TRABALHO NÃO-MANUAL E FORÇA DE TRABALHO
Voltando agora a nossa atenção para a natureza da
ligação entre o ES e a economia capitalista, convém
recordar que Marx há mais de cem anos percebeu a importância da
coercitividade da escola para o desenvolvimento da indústria inglesa,
quando a páginas tantas adverte que «o seu êxito [do
desenvolvimento da produção pela instauração do que
então se chamava de cláusulas de instrução da lei
fabril] demonstrou pela primeira vez a possibilidade de ensino e
ginástica com trabalho manual e portanto também de trabalho
manual com ensino e ginástica» (Marx, 1992, p.551). Este
carácter indissolúvel entre a aprendizagem escolar e o
desenvolvimento das aptidões
(skills)
dos trabalhadores industriais acentuou-se nos dias que correm, com a
incorporação intensiva de conhecimentos científicos no
decurso do tempo de trabalho produtivo, isto é, produtor de mais-valia.
Todavia, o trabalho assente na «aplicação tecnológica
da ciência» (Marx citado por Neto, 2002, p.79) não é
uma actividade global homogénea. Pelo contrário, se a uma grande
massa de trabalhadores a apendicização em
relação à máquina é maior tarefas de
execução uma camada mais restrita, coadjuvada por um
pequeno destacamento de profissionais técnicos, detém as tarefas
de concepção de mercadorias. Cumpre-se aqui uma clara
desigualdade na fixação de qualificações e saberes,
ocorrendo um fenómeno de polarização entre os assalariados
correlativa, de um lado, da heterogeneidade do proletariado, de outro lado,
trata-se de um desmentido das teorias burguesas que propugnam pelo aumento
absoluto dos níveis de educação no operariado, o que visto
de uma óptica
relacional
e
relativa
é falso (Braverman, 1974). No nosso entender é exactamente aqui
que o ES desempenha um papel fundamental na reprodução desta
divisão do trabalho manual-intelectual. Em resultado desta
diferenciação profissional no campo assalariado, fruto das
diferentes componentes técnicas associadas às tarefas produtivas,
vai ocorrer uma divisão dentro da classe assalariada. Este
fenómeno de estratificação no seio das classes
trabalhadoras não é nada de novo na história do
capitalismo. Contudo, o nó de constituição de novas
fracções de classe passa pela aquisição de
competências académico-científicas. O ES vai, desse modo,
funcionar como o espaço de aprendizagem dessas competências. Mas
antes de aprofundar o lugar específico do ES no incremento da
divisão social do trabalho é preferível apresentar uma
tipologia do tipo de trabalho mais qualificado.
Para isso, socorremo-nos do pensador marxista brasileiro Décio Saes, em
que este aposta numa linha de demarcação entre o trabalho
não-manual «isto é, uma actividade mental de carácter
reiterativo e não-inovador» e o trabalho intelectual, «uma
actividade mental com carácter inovador e criador» (Saes, 2004,
p.75). Esta proposta de análise vai de encontro ao que temos vindo a
defender: a criação de uma fracção de classe
assalariada com elevados volumes de capital científico e técnico
que, por conseguinte vai usufruir de melhores rendimentos e com relativo
prestígio social; no reverso da medalha, temos a afirmação
de uma fracção de classe, com uma formação
académica semi-qualificada, com baixos rendimentos e menor
prestígio social. O ES tem desenvolvido uma acção
fundamental nesta demarcação social. Basta atentar no Processo de
Bolonha, quando este fala da adopção de um sistema de
graduação superior constituído por dois ciclos. O
primeiro, correspondente à obtenção de uma licenciatura,
«deve ser relevante para o mercado de trabalho europeu como um
nível adequado de qualificação», ao passo que o
segundo, coincide com os estudos de pós-graduação. Estes
estudos de segundo ciclo vão começar a ser vendidos em
pacotes bastante dispendiosos e por isso motivadores de uma maior
seriação no meio universitário e na
reprodução de desigualdades na estrutura social, incluem «os
graus de mestrado e doutoramento existentes em muitos países
europeus» (Bolonha, 1999) [tradução do inglês da nossa
autoria]. Não se pode, portanto, separar a concentração de
diplomas avançados e conhecimentos altamente qualificados do tipo de
trabalho presente no processo produtivo.
As duas fracções de classe que apontamos anteriormente devem ser
distinguidas tanto entre si, como do operariado industrial tradicional,
típico do modelo fordista de produção. O operário
industrial que se encontrava nas grandes fábricas não
desapareceu. O seu peso relativo continua a ser bastante forte na
própria União Europeia, com 22%
[5]
da população activa, enquanto no nosso país há
ainda 33% de operários (Costa, 2004, p.3). A força do operariado
clássico mantém-se, sobretudo, em regiões recentemente
industrializadas, como as
maquiladoras
no México ou a implantação de fábricas de
automóveis de empresas alemãs no Leste Europeu, corolário
das deslocalizações de unidades produtivas em que o preço
da força de trabalho é mais baixo e aonde a capacidade de luta da
classe operária é ainda embrionária ou detida pelas
burocracias operárias dos sindicatos amarelos. No plano das
relações de produção este tipo de assalariados
notabiliza-se pela baixa massa de conhecimentos especializados aplicados na
actividade produtiva, com uma componente superior de trabalho manual sobre o
trabalho intelectual num sentido mais geral, ao contrário das outras
duas fracções de classe acima referidas, que a continuada
apendicização do operário face à maquinaria
contribui ainda mais para a retirada progressiva do
logos
necessário para operar com os bens de capital fixo.
Por outro lado, importa perceber até que ponto as diferentes
qualificações académicas contribuem para marcar uma linha
divisória entre trabalho
não-manual
e trabalho
intelectual
. A exponencial massificação de licenciaturas no espaço
europeu, bem como a progressiva desclassificação dos
conteúdos ministrados neste grau de ensino, permitiram a
vinculação deste tipo de qualificação ao trabalho
não-manual
. Esta forma de trabalho engloba todo o tipo de actividades profissionais com
uma maior componente intelectual do que manual, mas com ritmos repetitivos e de
mera supervisão. Neste tipo de empregos podemos encontrar, tomando como
exemplo, os técnicos informáticos
[6]
, saídos directamente das faculdades de engenharia e de ciência de
computadores deste país, para exercer funções de
gestão de programas em empresas, de ramos fora da área da
informática como, por exemplo, a introdução de
informação em bases de dados que utilizam estes
profissionais e estes instrumentos de forma a coordenar de modo mais eficiente
as suas actividades. Ou ainda, para invocar um cenário cada vez mais
comum entre os jovens portugueses, o emprego de recém licenciados em
funções profissionais desqualificadas (exemplo mais flagrante: os
caixas de supermercado), com vínculo precário e sem
qualquer tipo de ligação com o curso do ES que tiraram. Portanto,
trata-se aqui, na maioria das vezes, de um trabalho não-produtivo,
não produtor directo de mais-valia mas de melhoramento das
condições de captação de mais-valia (sector
comercial) ou de procura de realização mais eficiente e
rápida, de forma indirecta, da produção de mercadorias
(serviços de contabilidade, e administrativo-burocráticos de uma
unidade industrial).
Vamos agora passar à análise da categoria social dos
trabalhadores
intelectuais
. Procuramos agrupar os grupos de indivíduos em torno de categorias,
como o tipo de trabalho efectuado (relações sociais de
produção), suas componentes intelectual ou manual e qual a
substância que se encontra naquela (concepção ou
supervisão) que nos permitam avaliar com maior rigor o ES e suas
funções de formação de determinadas camadas
sociais, com diferentes funcionalidades numa formação social
capitalista e, por isso, diversificadas padronizações de modos de
vida. Na classificação desta fracção um problema se
coloca: qual o seu posicionamento de classe, isto é, estamos perante
proletários intelectuais ou, como Lenine dizia, especialistas burgueses?
Devemos reconhecer que uma classificação sociológica mais
refinada exigiria mais elementos de avaliação e dados
estatísticos mais fiáveis. Em contrapartida a esta
problemática, defendemos a importância de distinguir estes
trabalhadores, uma vez que não são proprietários de meios
de trabalho e de vida, dos gestores e administradores do sistema.
Aqui trata-se do conceito de gestão, contraposto ao conceito de
concepção. Por gestão, se denomina o conjunto de
práticas que compreendem o controlo e o poder do processo produtivo.
Isto tanto diz respeito à condução de medidas de vencer a
concorrência como à planificação da
administração do processo produtivo no seu todo (qualidade e
quantidade de factores produtivos a serem empregues: número de
trabalhadores, tipo de trabalhadores a serem contratados manuais,
não-manuais
e
intelectuais
, que tecnologias devem ser utilizadas, capital necessário para realizar
um determinado investimento). Simplificando, é uma tarefa de
administração, não produtora de
surplus value
, desempenhada por quadros tecnocratas, altamente qualificados (para gerir
negócios), funcionando como homens de mão do
capitalista privado. Escusado será dizer que esta fracção
de classe de gestores, dadas as características apontadas anteriormente,
não poderá fazer parte de uma frente revolucionária. A
categoria teórica de concepção tem mais a ver com o
desenvolvimento de um determinado produto, seja ele o
design
de uma peça de mobiliário ou a produção de
conteúdos novos e criativos para um qualquer programa de
software
para ser aplicado na manufactura de um
chip
de computador. Estes trabalhadores não controlam o processo de
produção de mercadorias apesar de serem portadores de
conhecimentos técnicos muito elevados daquele. Por outras palavras, o
controlo dos saberes não é detido por estes trabalhadores, mas
pela camada de gestores, tendo a noção que são estes que
ditam as orientações e formulários de acção
e funcionamento do processo de trabalho. Apesar disso, os operários
intelectuais
são muito provavelmente os trabalhadores que mais contribuem para a
incorporação de valor nas mercadorias em sectores
tecnológicos de ponta como as novas tecnologias da
informação, as nanotecnologias ou a genética.
Após esta conceptualização, importa afirmar o
carácter proletário destes trabalhadores, como importantes
elementos a serem incorporados no movimento revolucionário, em
aliança com a classe operária tradicional. Podemos até
avançar com a seguinte tese: no centro do sistema mundial capitalista, o
operariado industrial e estes proletários intelectuais constituem a base
de constituição do proletariado em classe para si, mais do que os
trabalhadores improdutivos, responsáveis pela supervisão e
comércio de produtos. Por outras palavras, é, em primeiro lugar,
fundamental reunir os produtores de valor
[7]
para, posteriormente, se consolidarem alianças com sectores
improdutivos, como sejam os trabalhadores do comércio ou os assalariados
de trabalho
não-manual.
Com o intuito de clarificar o que temos vindo a expor, apresenta-se a seguinte
grelha de classificação. Esta tabela procura integrar e articular
variáveis como o grau de escolaridade com a tipificação de
trabalho protagonizado, correspondendo assim a uma maior
explanação das fracções de classe que temos vindo a
abordar. Chamamos ainda à atenção para os perigos que uma
visão redutora e simplista da grelha pode provocar, sob pena de
distorcer a linha de raciocínio proposta.
|
*
Sobre isto há que afinar o nosso entendimento da
colocação da ciência no espaço social mais vasto.
Assim, a ciência em si mesma, produzida na sua maior fatia em contexto
universitário, é produtora indirecta de valor, pois os
conhecimentos teóricos quando são transformados em capital
é que vão ser passíveis de se tornarem instrumentos de
produção de valor, quer dizer, quando a ciência se
concretiza em técnica, manuseada pelo operariado é que, de forma
directa, vai permitir a produção de valor.
|
Neste cenário constata-se que o ES tem uma função
importantíssima na polarização social que a
automação impõe, na medida em que a
desigual incorporação
de credenciais académicas (e teórico-técnicas) no seio da
classe trabalhadora vai, em primeiro lugar, promover uma clivagem dentro do
operariado moderno no que a tarefas de trabalho diz respeito e, em segundo
lugar, por consequência da anterior, desunir e fragmentar a unidade
necessária do proletariado para superar o modo de produção
capitalista.
REVOLUCIONAMENTO DOS INSTRUMENTOS DE PRODUÇÃO
Com a estagnação da esfera produtiva, expressa na queda das taxas
de crescimento económico, a única solução que o
capitalista tem para ultrapassar a crise de sobreprodução
é a conquista dos mercados das empresas rivais. No sector
automóvel, os construtores estão a investir na
instalação de complexos industriais nos países dos
concorrentes de maneira a penetrar nos espaços comerciais com menor
implantação (RUPE, 2003). Este é um caso
sintomático da questão levantada por Marx acerca da
actuação da burguesia em situações de crise.
À pergunta «como supera a burguesia as crises», Karl Marx
responde «por um lado, pela destruição forçada de uma
massa de forças produtivas; por outro lado, pela conquista de novos
mercados e pela exploração mais profunda de mercados velhos»
(Marx, 1982, p.112). Aplicando esta tese ao que acontece na indústria
automóvel, constata-se que, como já vimos, não só
se procura derrotar a concorrência, como também existe uma demanda
de destruição. Segundo o mesmo artigo da publicação
marxista indiana
Research Unit for Political Economy
, verifica-se que, no Japão, por volta de 1998, os fabricantes de
automóveis estão literalmente a funcionar a meio
gás a 50%.
Pode-se perguntar o que é que isto tem a ver com o ES. Diremos que, no
mínimo, vem de encontro com o ponto referente à procura de novos
mercados. Ora, pode-se perceber a conquista de novos mercados, ao procurarmos
interligar o papel do investimento em capital constante e com a necessidade de
criação de valor e sustentar taxas de lucro apreciáveis. O
ES vai ocupar um espaço, que consideramos cada vez mais alargado, no
bombear de bens de capital para o processo de produção de
mercadorias.
A universidade é, nas palavras de Wallerstein, «não
só o maior instrumento de reprodução de conhecimento, como
é o principal local da sua produção» (Wallerstein,
1999). São estes conhecimentos, vistos tanto numa perspectiva de
alocação de procedimentos técnicos e protótipos de
futuras unidades para venda no mercado invenções
como numa óptica duma base constituída por
proposições com elevado nível de objectividade,
concisão e sistematização, tendentes a se articularem
imbricadamente, o que vai permitir que o capital fixo ao ser introduzido na
produção de mais-valia, assuma foros não só
quantitativos (como as propaladas taxas de investimento ou a
formação bruta de capital fixo), como qualitativas, de forma a
«aumentar a utilização e a produtividade do trabalho a fim
de intensificar as formas de extracção do sobretrabalho em tempo
cada vez mais reduzido» (Antunes, 2003, p.119), isto é, com a
profusão de mecanismos de exploração cada vez mais
insidiosos e disfarçados.
Por exemplo, o
contributo
que a sociologia deu ao capital ao aperfeiçoar os modelos de
organização do trabalho assentes na moderna cultura de
empresa e na
lean production
, ou o desenvolvimento de programas informáticos pela Universidade de
Aveiro, por sua vez transferidos para o mercado pela Sapo (empresa pertencente
ao grupo económico de telecomunicações Portugal Telecom)
para serem usados no seu portal, em acessos à internet, mais não
são do que a completa subordinação da
instituição universitária produtora de saberes aos eixos
de actuação do capital. No fundo, a universidade acaba por ser um
importante mecanismo na criação e aperfeiçoamento de novos
bens, ao mesmo tempo que assegura a viabilidade de todo o sistema de
captação de valor.
Todavia, a universidade tem-se desenvolvido cada vez mais em
associação com o tecido empresarial. Esta intersticialidade entre
os dois campos permite que, por um lado, o desfasamento de tempo entre a
invenção de um qualquer objecto ou bem e a inovação
sua posterior transformação em produto e
colocação no mercado seja cada vez menor e, por outro
lado, a vitória de um grupo económico sobre os demais
concorrentes esteja, à partida, assegurado pelo controlo dos
instrumentos necessários (neste caso, a tecnologia vinda da
investigação universitária, em
strictu sensu
) à redução de custos de produção e de
rentabilização da força de trabalho em mão.
Os
clusters,
ou parques tecnológicos, que acabamos de descrever são uma
realidade, há já algum tempo, bem cimentada no centro do sistema
mundial capitalista, sobretudo nos EUA e no Japão
[8]
. Daí que a União Europeia proponha que «a
independência e autonomia das universidades assegure que o ES e os
sistemas de investigação se adaptem continuamente às
necessidades [do capital] em mudança, à procura da
sociedade» (Bolonha, 1999). Não é por acaso que o MIT
(Massachusetts Institute of Technology), a título de exemplo, é
um dos principais centros de investigação mundiais em
áreas como a engenharia aeroespacial (parceria com a NASA e com a
Boeing), as nanotecnologias associadas à indústria
farmacêutica (...) ou as telecomunicações (WorldCom) e a
informática (Intel); áreas de ponta em que os elevados
níveis de produtividade têm colmatado a escassez de
valorização noutros sectores mais tradicionais: indústria
automóvel, indústria química, etc.
Também aqui se verifica um desvio na rota insaciável de lucro,
expressa pelo fordismo/taylorismo. Ao passo que neste paradigma
técnico-produtivo, o mercado de bens de consumo corrente tinha uma
posição predominante, e aonde a ciência, ainda que em menor
grau de aplicabilidade tecnológica, era manuseada com o
primer
propósito de inovar (nos) produtos, no mundo do «toyotismo e da
acumulação flexível» (Antunes, 1999, p.47) trata-se
de se investir cada vez mais no mercado dos bens de equipamento. Isto acontece,
exactamente, porque estes bens são dotados de um maior volume de valor
incorporado em si mesmos, com o objectivo de satisfazer as crescentes
necessidades das empresas capitalistas em maquinaria, quer dizer, improvisando
uma maior inovação nos processos de produção face
à dos produtos
[9]
.
Portanto, vê-se aqui a crescente incorporação anexa
[10]
da ciência produzida na universidade e institutos superiores ao processo
produtivo, o que confirma o papel fulcral que, em estado de
subjugação ao valor de troca e, por conseguinte,
menorização das potencialidades de desenvolvimento intelectual da
humanidade, o ES adquiriu nesta fase de socialização do capital a
instâncias não económicas das formações
sociais contemporâneas.
ESCOLA E ESTADO
[11]
Chegados a este ponto, importa situar o ES, enquanto subsistema da
instituição escolar, no contexto superestrutural mais global. Ou
o que é o mesmo que considerar a escola como instância regional do
Estado (Poulantzas, 1971).
A posição da escola na estrutura estatal, ainda que dotada de uma
autonomia relativa e de funções específicas, implica o
estudo arguto das reciprocidades entre a instância escolar e o aparelho
central do Estado burguês.
Escola em relação ao Estado
A escola acaba por funcionar como um potente instrumento de
reprodução simbólica da ideologia do Estado moderno
a ideologia do povo-nação, condensada no conceito de cidadania. O
discurso escolar oficial da «formação da civilidade e do
ensino para a cidadania» (Ministério da Educação,
2004, p.1), mais não é do que a difusão ideológica
da «participação integral do indivíduo na comunidade
política» (Marshall, 1967), corporizada nos diferentes direitos
(civis, políticos e sociais) que asseguram uma igualdade a todos os
membros de uma qualquer sociedade. A mistificação da categoria de
cidadania, ao pressupor uma equalização formal entre os
indivíduos na esfera do mercado, o trabalhador vende a sua
força de trabalho que o capitalista compra, em circunstâncias mais
ou menos idênticas a um contrato entre iguais omite a real
relação entre os indivíduos, não como seres
atomizados e indiferenciados com o mesmo controlo e posterior acesso a um
conjunto de bens e recursos sociais, mas como homens e mulheres agregando-se em
determinados grupos que partilham um dado lugar nas relações de
produção e respectivas condições de
existência. Daí ressalta, portanto, uma oposição
completa entre determinados agrupamentos sociais a que se convencionou chamar
classes sociais.
Por conseguinte desde a máxima ensinada às crianças
do ensino primário de que todas as profissões são
necessárias e têm o seu papel de complementaridade à
boa maneira smithiana da virtude da divisão do trabalho
[12]
, até ao instilar de questões universais que
têm que ver «com problemáticas actuais que se pode admitir
respeitarem a toda a humanidade» (Cortesão, 2001, p.385), que
projectam uma imagem da justiça social, da solidariedade, da
participação política, da cidadania ambiental,
propagadoras de uma visão optimista de regulação e
equilíbrio do sistema sem pôr minimamente em causa o regime do
salariado nem o papel do Estado e de variados organismos internacionais como a
OMC, o FMI ou o G7, para a continuação do cortejo de
exploração e dominação do modo de
produção capitalista a escola agrupa o que
poderíamos denominar de
legitimidade ideológica funcional
, na medida em que os universos de significação
simbólico-ideológicos veiculados pela escola permitem a
manutenção do funcionamento do Estado e da ordem social vigente.
Mas a escola não é um mero auxiliar ideológico do Estado.
Ela vai permitir a formação do corpo profissional que assegura
essa função ideológica, como os professores, denotando-se
uma certa
capacidade auto-reguladora
da estrutura escolar ao conseguir forjar os elementos humanos capazes de
reproduzir a roupagem ideológica que reveste os alicerces do aparelho
estrutural.
Estado em relação à escola
Há ainda que perceber que a escola depende, em grande medida, do
aparelho executivo do Estado de forma a satisfazer os requisitos enunciados no
subponto anterior.
Ora, é o Estado que vai assegurar o financiamento e a
solicitação de meios materiais e infra-estruturais para regular a
actividade escolar.
Por outro lado, o Estado recobre a escola através do recurso à
legalidade instituída, para o funcionamento do campo escolar, o que
permite que a escola tenha credibilidade perante a sociedade, credibilidade
assente na lei. Ou seja, a escola só funciona se tiver como base uma
legitimidade ideológica judicial
. Isso é o que permitiu, por exemplo, à escola republicana
nascida na Revolução Francesa afirmar-se, face à
decadência e empedernimento da maquina estatal do Antigo Regime.
É, por isso, que o sociólogo francês Pierre Bourdieu vai
assinalar que «não é, pois, por acaso, que um sistema
escolar que resolveu modelar os
habitus
[matriz cognitiva e simbólica que orienta a acção social,
derivada da posição dos agentes sociais no espaço das
relações sociais de produção económica e
cultural] das classes populares, se organiza em torno da
inculcação de uma relação com a linguagem (com a
abolição das línguas regionais), de uma
relação com o corpo (disciplinas de higiene e consumo) e de uma
relação com o tempo (cálculo, poupança)»
(Bourdieu, 1998, p.86). Ou seja, face aos costumes instituídos, ao longo
de séculos, nas massas camponesas de França, o novo Estado teria
(tem) de assegurar antecipadamente a sua legitimidade para que a escola pudesse
(possa) acelerar a sua penetração na chamada sociedade civil.
De igual modo podemos constatar que o Estado fornece as normas institucionais
de regulação da actividade escolar de acordo com as demandas do
mercado (da força) de trabalho no que concerne, nomeadamente, às
saídas profissionais, vagas de acesso e regras de acesso, cumprindo,
também aqui, o seu papel de enquadramento da dinâmica do mercado
verifica-se, assim uma relação intrínseca e
necessária entre Estado e mercado, bem ao arrepio dos dogmas
neoclássicos sobre um suposto mercado livre.
________
Notas
1- O serviço pode ser definido como o trabalho enquanto é
consumido como actividade. Um bem será o resultado do trabalho consumido
indirectamente, por meio da mediação de coisas.
2- Nas ciências sociais detentoras de uma superior aplicabilidade nas
actividades laborais, caso da Economia ou da Sociologia, encontramos uma
tendência que atesta a perniciosa lógica do capital: a
formação de licenciados, na melhor das hipóteses, para
serem gestores semi-qualificados ao serviço do melhoramento das
condições de produção de mais-valia. Este
melhoramento reflecte a perda do estímulo à criatividade e ao
pensamento crítico, em detrimento de uma estandardização
embrutecedora. O que mais não é do que a conversão de
centenas de jovens em autómatos acríticos para gerirem recursos
humanos e encontrarem formas de, segundo o jargão académico na
moda, rentabilizar e racionalizar o desempenho dos colaboradores da empresa.
Por outras palavras, trata-se de ajudar os capitalistas a encontrarem melhores
formas de explorar a força de trabalho à sua
disposição.
3- Para além da diferente metodologia utilizada pelas ciências
sociais não se pode estudar as alterações no mapa
das localizações de classe da sociedade portuguesa num
laboratório, recorrendo ao bisturi ou a reagentes químicos
há que perceber que as sociedades contêm o paradoxo de incluir o
investigador no próprio objecto de estudo, com o que tudo isso influi no
processo de produção de conhecimentos científicos.
Consideramos que, em virtude da ascensão do modo de
produção capitalista, as ciências moles (como
os neo-positivistas gostam de tratar depreciativamente o pensamento social)
fundamentam muita da sua riqueza ao nível da sua bagagem conceptual,
quando propõem linhas de desvendamento e intervenção nos
processos de mudança social. Um exemplo claro disso mesmo é o
marxismo.
4- Não é nenhum acaso o facto de a tecnologia de ponta no
século XIX ter origem na Física newtoniana (hoje essa primazia
é ocupada pelas ciências aplicadas como a Informática ou as
Biotecnologias), o que, na altura, lhe garantiu o topo da escala de
hierarquização das ciências. O seu modelo experimental foi
rigidamente seguido pela Psicologia, pelos behavioristas até hoje, ou
pela Sociologia de Durkheim com notórios reflexos na posterior
fundação da Primeira Escola de Chicago mãe do
Darwinismo Social, do Funcionalismo e do Estruturo-Funcionalismo, correntes da
sociologia estadunidense, correctamente apelidadas por Althusser de ideologias
teóricas.
5- O número de operários industriais, com larga margem de
certeza, deve ser superior visto que nesta noção de
operário não entram trabalhadores dos transportes,
responsáveis pela alocação de matérias-primas e
força de trabalho até ao local de produção,
portanto, tarefa produtiva.
6- Utilizamos a Informática a título de exemplo de forma a
demonstrar a importância que o desenvolvimento tecnológico teve na
reconfiguração das posições de classe nas
sociedades capitalistas avançadas.
7-
Dizemos isto porque o nó central que suporta a produção
de mais-valia nos países do centro da economia-mundo capitalista,
concentra-se precisamente na classe operária tradicional (fordista) e
neste operariado intelectual. É este proletariado expandido que
um certo oportunismo teórico denomina de nova pequena-burguesia ou pelo
qualificativo, muito em voga por quem desconhece a teoria do valor-trabalho de
Marx, de classes médias que pode provocar
sérios danos no sistema capitalista, ao passo que os empregados (ver
quadro 2), por estarem posicionados na esfera da circulação de
mais-valia, não podem atacar pela raiz o núcleo fundador e
fecundador da sociedade da mercadoria.
8- Para melhor compreender estas dinâmicas o artigo «Ensino
Superior: a reforma ditada pela União Europeia» de Rui Namorado
Rosa pode ser de considerável auxílio. Pensamos, ainda,
importante enquadrar o Processo de Bolonha no objectivo que a UE propôs
na Estratégia de Lisboa de tornar o espaço comunitário na
mais pujante economia, nas áreas do conhecimento e da
informação, até ao ano 2010.
9- Uma simples, mas estimulante explicação deste fenómeno
pode ser encontrada em Samir Amin (2003)
A revolução tecnológica no centro das
contradições do capitalismo senil,
PO nº91, p.26 ou em Francisco José Teixeira (2000)
O capital e as suas formas de produção de mercadorias
, Crítica Marxista, nº10, p.73.
10- Dizemos anexa, conforme o que avançamos na construção
da categoria «produção de mais-valia» no quadro 2,
porque a universidade não intervém directamente na
produção de mercadorias. Aliás, a ciência é
em si mesma
trabalho não produtivo, uma vez que é a
«aplicação tecnológica da ciência» (Marx,
Grundrisse) que vai inculcar no processo de produção esses
conhecimentos científicos, funcionando como uma mediação
indirecta entre o campo científico e o campo da produção
de valor.
11- Neste ponto do artigo vamos analisar a relação da escola com
o Estado e não propriamente do ES, visto este pertencer ao campo
escolar, sendo aqui indiferente falar de escola no seu todo ou de sistema
universitário.
12- «Um homem tira o aço, outro estende-o, outro corta-o»
(Smith citado por Samuelson, 2003, p.30).
Bibliografia
AMIN, Samir (2003) - A revolução tecnológica no centro das
contradições do capitalismo senil,
Política Operária
nº91; p.26-28
ANTUNES, Ricardo (2003)
Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do
trabalho.
São Paulo: Cortez Editora e Editora da Unicamp
BENOIT, Hector (2004) O programa de transição de Trotsky e
a América. In
Crítica Marxista
nº18; p.37-64
BOLONHA, Declaração de (1999)
BOURDIEU, Pierre (1998)
O que falar quer dizer: a economia das trocas simbólicas.
Lisboa: Difel
BRAVERMAN, Harry (1974)
Labor and monopoly capital.
New York: Monthly Review Press
CORTESÃO, Luiza; STOER, Stephen R. (2001) Cartografando a
transnacionalização do campo educativo: o caso português.
In SANTOS, Boaventura Sousa, org.
Globalização: fatalidade ou utopia?.
Porto: Edições Afrontamento.
COSTA, António Firmino da; MAURATTI, Rosário; MARTINS, Susana
(2004) Classes sociais numa perspectiva comparada. In
V Congresso da Associação Portuguesa de Sociologia
www.aps.pt
INE (2003) -
Portugal Social.
Lisboa: INE. p.67-90, 113-135, 221-243
MARSHALL, T.H. (1967)
Cidadania, classe social e status.
Rio de Janeiro: Zahar
MARX, Karl e ENGELS, Friedrich (1982) Manifesto do Partido Comunista. In
Obras escolhidas de Marx e Engels: Volume 1.
Moscovo-Lisboa: Edições Progresso, Edições Avante.
p.95-136
MARX, Karl (1990)
O Capital: crítica da economia política, livro primeiro: tomo I.
Moscovo, Lisboa: Edições Progresso, Edições Avante
MARX, Karl (1992)
O Capital: crítica da economia política, livro primeiro: tomo II.
Lisboa: Edições Avante
MESZAROS, Istvan (1995)
Beyond Capital.
London: Merlin Press
MINISTERIO DA EDUCAÇAO (2004)
Protocolo de cooperação entre o Ministério da
Educação e a Ordem dos Advogados para o dia da cidadania nas
escolas secundárias.
[Em linha]. [Consult. 2 Out. 2004]. Disponível em:
http://www.min-edu.pt/Scripts/ASP/novidades_det.asp?newsID=246
NETO, Benedito Rodrigues de Moraes (2002) Século XX e teoria
marxista do processo de trabalho. In
Crítica Marxista
nº15; p. 71-84
POULANTZAS, Nicos (1971)
Poder político e classes sociais.
Porto: Portucalense Editora
ROSA, Rui Namorado (2003) -
Ensino Superior: a reforma ditada pela União Europeia.
[Em linha]. [Consult. 6 Out. 2004]. Disponível em:
http://www.resistir.info/rui/educacao_ameacada_5.html
RUPE (2003)
Home front in shambles
[Em linha]. [Consult. 28 Set. 2004]. Disponível em:
http://www.rupe-india.org/34/homefront.html
SAES, Décio (2004) Educação e socialismo. In
Crítica Marxista
nº18; p.73-83
SAMUELSON, Paul; NORDHAUS, William (2003)
Economia
. 16ªed. Lisboa: McGraw Hill
TEIXEIRA, Francisco José (2000) O capital e as suas formas de
produção de mercadorias,
Crítica Marxista
nº10; p.67-93
[*]
Estudante de Sociologia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
.
|