Como actuei no Parlamento Europeu

por Ilda Figueiredo [*]

Clique para aceder ao candidatos CDU nas eleições do dia 13 ao Parlamento Europeu. Durante os cinco anos do mandato, as questões dos direitos de quem trabalha estiveram no centro das nossas atenções, seja na Comissão de Emprego e Assuntos Sociais do Parlamento Europeu, de que fui membro, seja em toda a actividade normal, na estreita interdependência entre a actividade institucional e as reivindicações laborais, na defesa de uma Europa social, dos direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras, na defesa de emprego com direitos, de serviços públicos de qualidade, na diminuição do tempo de trabalho sem perda de salários, contra as privatizações, deslocalizações de multinacionais e flexibilidade laboral.

Através da elaboração de relatórios, propostas, intervenções, perguntas à Comissão e ao Conselho, procurámos dar visibilidade às questões, aos projectos e reivindicações que recolhemos em inúmeras visitas, reuniões e debates que promovemos, ou em iniciativas para que fomos convidados.

Denunciámos e lutámos contra o aprofundamento do neoliberalismo, particularmente visível na União Europeia após a Cimeira de Lisboa, em Março de 2000, durante a Presidência Portuguesa da União Europeia, quando se aprovou a chamada estratégia de Lisboa, era então Primeiro-Ministro o eng. António Guterres.

Fui relatora de alguns dos documentos aí prometidos, como o programa comunitário de luta contra a pobreza e a exclusão social, o relatório sobre os Planos nacionais de inclusão social e o acompanhamento da Agenda de Política Social. Mas cedo ficou claro que só avançava o que interessava à UNICE, ao grande patronato europeu, que não se cansa de elogiar a Estratégia de Lisboa e de exigir o seu mais rápido cumprimento, seja acelerando liberalizações/privatizações de sectores básicos como os correios, transportes, telecomunicações, serviços portuários, energia, criação do céu único e do mercado interno dos serviços, seja na aposta na chamada competitividade, na promoção do que consideram a cultura empresarial, na flexibilidade e precariedade do trabalho, na redução dos custos salariais e na moderação salarial.

Infelizmente, os trabalhadores portugueses conhecem bem a agenda neoliberal dos grupos económicos e financeiros de que o Governo Durão Barroso/Paulo Portas é um dos mais significativos executores, tendo o ministro Bagão Félix o papel mais cínico.

Em vez de suspender o Pacto de Estabilidade, para rever os critérios irracionais de convergência nominal e apostar numa política de desenvolvimento económico capaz de fazer frente à incerteza e instabilidade internacional, reafirmam a necessidade do seu cumprimento, embora alguns países o ignorem (caso da França, Alemanha e Itália), mas que outros utilizam para justificar uma política restritiva e classista, como Portugal.

Face ao agravamento do desemprego e da pobreza, insistimos na necessidade de um Pacto de Progresso Social e Emprego, para dar toda a prioridade aos critérios sociais, ao emprego com direitos, ao relançamento dos investimentos públicos, designadamente nas ferrovias, na saúde, ambiente, formação, educação e investigação científica, e a outras medidas de promoção do emprego e da inclusão social.

Não podemos aceitar que os responsáveis governamentais teimem em prosseguir uma política de indiferença perante o agravamento da situação económico-social, cega perante níveis elevados de desemprego, de pobreza e exclusão social e de crescimento das desigualdades sociais, surda aos protestos dos trabalhadores ameaçados pelas deslocalizações e reestruturações de empresas multinacionais, de que é exemplo recente a ex-Sorefame/Bombardier.

Não podemos aceitar que continue o apoio ao processo de liberalizações e privatizações, em numerosos sectores, com um preconceito claro contra o sector público, pondo em causa a existência de serviços públicos de qualidade e o emprego, que são essenciais para combater a pobreza, garantir a inclusão social e níveis elevados de qualidade de vida para toda a população, situação particularmente complexa com a adesão de dez novos países, desde o início deste mês de Maio.

Queremos uma outra Europa de direitos sociais e igualdade, de solidariedade e desenvolvimento, que respeite, dinamize e aprofunde a democracia, que se preocupe com as condições de vida e de trabalho, com o desenvolvimento e a coesão económica e social, o relançamento dos investimentos públicos e sociais, como temos defendido e nos propomos continuar a defender.

É urgente rever as políticas económicas e monetárias, parar as liberalizações, tomar medidas eficazes para travar as deslocalizações das multinacionais e reconhecer o direito de veto suspensivo às organizações de trabalhadores.

O que se impõe é dignificar quem trabalha, colocar o bem-estar e o progresso social no centro das decisões políticas comunitárias.

A esmagadora maioria dos cidadãos da União Europeia, cerca de 90% segundo o Eurostat, considera que a luta contra o desemprego e contra a pobreza e exclusão social devem ser prioridades da acção política da União Europeia. Pela nossa parte damos-lhe toda a prioridade.

Impõe-se, pois, a insistência na necessidade de alterar políticas de forma a considerar a política social como factor produtivo na formulação das políticas. É preciso que a Agenda de Política Social dê particular atenção aos custos da não existência de uma política social de qualidade, que também tenha em conta os problemas dos imigrantes, pessoas com deficiência e outros grupos desfavorecidos que continuam a confrontar-se com obstáculos significativos no mercado de trabalho.

Os dados mais recentes sobre o rendimento revelam que 15% da população, ou seja, cerca de 65 milhões de pessoas, se encontra em risco de pobreza, vivendo abaixo de um limiar definido em 60% do rendimento mediano nacional.

Em Portugal, a taxa de pobreza atinge mais de 21%, o que exige um reforço das políticas de emprego com direitos e melhor segurança social.

Sabe-se como a segurança social é fundamental para reduzir o risco de pobreza. Sem transferências sociais, o risco de pobreza teria sido de 24% na União Europeia (se excluirmos as pensões da definição das transferências sociais) ou 40% (incluindo pensões). É, pois, com particular preocupação que lutamos contra as tentativas de desvalorização da segurança e acção social, defendemos uma segurança social pública e universal.

Insistimos na prioridade à resolução dos graves problemas de desemprego e de pobreza, incluindo de pobreza persistente, nas políticas comunitárias, designadamente na política de concorrência, na revisão intercalar da PAC, dos fundos estruturais e do Pacto de Estabilidade.

Defendemos a integração da dimensão social na política de concorrência, designadamente no âmbito das decisões da Comissão sobre fusões de empresas, factores relacionados com o emprego, as relações industriais e o desenvolvimento regional.

Defendemos a criação de mecanismos de intervenção eficaz na área das deslocalizações de empresas, designadamente das que receberam apoios comunitários e nacionais, visando quer a protecção do emprego e outros direitos dos trabalhadores quer impedir o estrangulamento do desenvolvimento das zonas e sectores em que estão inseridas.

Defendemos o direito de veto suspensivo nos casos em que as reestruturações, fusões, concentrações e deslocalizações não tenham em conta os direitos dos trabalhadores, o alargamento do âmbito da Directiva sobre informação e consulta dos trabalhadores e a sua aplicação na administração pública

Defendemos a adopção de um plano de acção tendo em vista a prevenção eficaz das lesões músculo-esqueléticas no local de trabalho.

Insistimos na necessidade de aproveitar a revisão intercalar dos programas 2000-2006 dos fundos estruturais, para coordenar os programas dos fundos estruturais, designadamente do Fundo Social Europeu, e os objectivos contidos nos Planos Nacionais de Inclusão

Criticámos e opusemo-nos à possibilidade, deixada em aberto na proposta de directiva sobre trabalho temporário, de novas derrogações, a serem acordadas entre parceiros, tal como rejeitámos a pretensão de consagrar o papel activo das agências de trabalho temporário, por contribuírem para uma maior flexibilidade do trabalho e, assim, para o aumentar da precariedade do emprego.

Denunciámos a situação dos trabalhadores sazonais , especialmente daqueles que se deslocam para outros países da UE e defendemos a existência de legislação específica para estes casos (o que existe é a directiva sobre destacamento), uma maior fiscalização nos países de acolhimento e uma melhor informação, a partir do país de origem, sobre os direitos destes trabalhadores.

Interviemos sobre o reforço das normas de saúde e segurança dos trabalhadores nos casos de: trabalho em altura; contaminação pelo amianto; trabalho nas indústrias extractivas e dos que sofrem de tendinites. Defendemos a formação dos membros das Comissão de Higiene e Segurança e o reforço das suas competências.

Rejeitámos a proposta da Comissão sobre os regimes complementares de reforma, na linha das decisões da Cimeira de Lisboa que visam a criação do mercado interno nesta matéria. Defendemos políticas económicas expansionistas que contribuam para a criação de emprego, que melhorem a situação da situação social através do aumento da base contributiva do regime público e da taxação mais forte dos sectores financeiros e capital intensivos.

Em ligação estreita com os trabalhadores, contribuímos para a rejeição da directiva sobre a liberalização dos serviços portuários e a defesa de áreas fundamentais dos trabalhadores dos serviços de tráfico aéreo, no âmbito da tentativa de criação do céu único. Mas temos pela frente novas e perigosas tentativas, como a proposta de directiva sobre a criação do mercado interno nos serviços e a proposta da dita constituição europeia que tenta constitucionalizar o neoliberalismo, secundarizando o social e os direitos de quem trabalha.
Por isso, é tempo de uma Europa de solidariedade para a igualdade,

Uma Europa que tenha como prioridade a criação de emprego justamente remunerado e com direitos, caminho essencial para o combate à pobreza e à exclusão social; que promova a diminuição do tempo de trabalho sem redução de salário e a contínua melhoria das condições de vida dos trabalhadores; que harmonize por cima as condições sociais e institucionalize o princípio da não regressão social; que promova a intervenção em igualdade e a igualdade de oportunidades de mulheres e homens, o que exige a concretização dos direitos das mulheres em todas as áreas da sociedade.

Uma Europa que respeite e desenvolva os direitos das crianças e dos jovens, dos idosos e reformados, a quem devem ser asseguradas dignas pensões e reformas, promova os direitos das pessoas portadoras de deficiências, combata as discriminações e respeite os direitos das minorias.

Uma Europa que promova a melhoria da qualidade dos sistemas públicos de protecção social, saúde e educação, e dos serviços públicos em geral, através do reforço da intervenção pública, acompanhada e participada pelos utentes, como forma de garantir efectivamente os direitos sociais e o bem-estar das populações.

Por isso, é tempo de uma Europa de coesão para o desenvolvimento sustentado

Uma Europa que incremente o desenvolvimento duradouro e sustentado, alicerçado na promoção do emprego, da formação, dos salários e dos serviços sociais públicos, num efectivo apoio às micro, pequenas e médias empresas, à agricultura familiar e à pesca artesanal; o que implica pôr em causa o Pacto de Estabilidade, o poder e as orientações monetaristas do Banco Central Europeu, estabelecer uma taxa comum sobre os movimentos de capitais e exigir o aumento do orçamento comunitário.

Uma Europa que privilegie as actividades produtivas e não as especulativas, que recuse os dogmas da «sacrossanta economia de mercado», pare as privatizações, e ponha em acção medidas para travar as deslocalizações e para eliminar os paraísos fiscais). (offshores)

Uma Europa que promova a defesa do ambiente e dos equilíbrios naturais; que aplique políticas que ataquem efectivamente as causas profundas da poluição; que assegure a garantia do princípio da precaução e da segurança alimentar e marítima; que rejeite a mercantilização de todas as esferas da vida e a privatização dos recursos naturais, como as sementes e a água.
Uma Europa que dignifique quem trabalha!

[*] Economista, deputada do PCP no Parlamento Europeu e novamente candidata nas eleições de 13 de Junho de 2004. Clique em candidatos CDU para ver a lista completa dos candidatos desta coligação nas eleições ao PE.

Este relatório encontra-se em http://resistir.info .

05/Jun/04