Como actuei no Parlamento Europeu
Durante os cinco anos do mandato, as questões dos direitos de quem
trabalha estiveram no centro das nossas atenções, seja na
Comissão de Emprego e Assuntos Sociais do Parlamento Europeu, de que fui
membro, seja em toda a actividade normal, na estreita interdependência
entre a actividade institucional e as reivindicações laborais, na
defesa de uma Europa social, dos direitos dos trabalhadores e das
trabalhadoras, na defesa de emprego com direitos, de serviços
públicos de qualidade, na diminuição do tempo de trabalho
sem perda de salários, contra as privatizações,
deslocalizações de multinacionais e flexibilidade laboral.
Através da elaboração de relatórios, propostas,
intervenções, perguntas à Comissão e ao Conselho,
procurámos dar visibilidade às questões, aos projectos e
reivindicações que recolhemos em inúmeras visitas,
reuniões e debates que promovemos, ou em iniciativas para que fomos
convidados.
Denunciámos e lutámos contra o aprofundamento do neoliberalismo,
particularmente visível na União Europeia após a Cimeira
de Lisboa, em Março de 2000, durante a Presidência Portuguesa da
União Europeia, quando se aprovou a chamada estratégia de Lisboa,
era então Primeiro-Ministro o eng. António Guterres.
Fui relatora de alguns dos documentos aí prometidos, como o programa
comunitário de luta contra a pobreza e a exclusão social, o
relatório sobre os Planos nacionais de inclusão social e o
acompanhamento da Agenda de Política Social. Mas cedo ficou claro que
só avançava o que interessava à UNICE, ao grande patronato
europeu, que não se cansa de elogiar a Estratégia de Lisboa e de
exigir o seu mais rápido cumprimento, seja acelerando
liberalizações/privatizações de sectores
básicos como os correios, transportes, telecomunicações,
serviços portuários, energia, criação do céu
único e do mercado interno dos serviços, seja na aposta na
chamada competitividade, na promoção do que consideram a cultura
empresarial, na flexibilidade e precariedade do trabalho, na
redução dos custos salariais e na moderação
salarial.
Infelizmente, os trabalhadores portugueses conhecem bem a agenda neoliberal dos
grupos económicos e financeiros de que o Governo Durão
Barroso/Paulo Portas é um dos mais significativos executores, tendo o
ministro Bagão Félix o papel mais cínico.
Em vez de suspender o Pacto de Estabilidade, para rever os critérios
irracionais de convergência nominal e apostar numa política de
desenvolvimento económico capaz de fazer frente à incerteza e
instabilidade internacional, reafirmam a necessidade do seu cumprimento, embora
alguns países o ignorem (caso da França, Alemanha e
Itália), mas que outros utilizam para justificar uma política
restritiva e classista, como Portugal.
Face ao agravamento do desemprego e da pobreza, insistimos na necessidade de um
Pacto de Progresso Social e Emprego, para dar toda a prioridade aos
critérios sociais, ao emprego com direitos, ao relançamento dos
investimentos públicos, designadamente nas ferrovias, na saúde,
ambiente, formação, educação e
investigação científica, e a outras medidas de
promoção do emprego e da inclusão social.
Não podemos aceitar que os responsáveis governamentais teimem em
prosseguir uma política de indiferença perante o agravamento da
situação económico-social, cega perante níveis
elevados de desemprego, de pobreza e exclusão social e de crescimento
das desigualdades sociais, surda aos protestos dos trabalhadores
ameaçados pelas deslocalizações e
reestruturações de empresas multinacionais, de que é
exemplo recente a ex-Sorefame/Bombardier.
Não podemos aceitar que continue o apoio ao processo de
liberalizações e privatizações, em numerosos
sectores, com um preconceito claro contra o sector público, pondo em
causa a existência de serviços públicos de qualidade e o
emprego, que são essenciais para combater a pobreza, garantir a
inclusão social e níveis elevados de qualidade de vida para toda
a população, situação particularmente complexa com
a adesão de dez novos países, desde o início deste
mês de Maio.
Queremos uma outra Europa de
direitos sociais e igualdade, de solidariedade e desenvolvimento, que respeite,
dinamize e aprofunde a democracia, que se preocupe com as
condições de vida e de trabalho, com o desenvolvimento e a
coesão económica e social, o relançamento dos
investimentos públicos e sociais, como temos defendido e nos propomos
continuar a defender.
É urgente rever as
políticas económicas e monetárias, parar as
liberalizações, tomar medidas eficazes para travar as
deslocalizações das multinacionais e reconhecer o direito de veto
suspensivo às organizações de trabalhadores.
O que se impõe é dignificar quem trabalha, colocar o bem-estar e
o progresso social no centro das decisões políticas
comunitárias.
A esmagadora maioria dos
cidadãos da União Europeia, cerca de 90% segundo o Eurostat,
considera que a luta contra o desemprego e contra a pobreza e exclusão
social devem ser prioridades da acção política da
União Europeia. Pela nossa parte damos-lhe toda a prioridade.
Impõe-se, pois, a insistência na necessidade de alterar
políticas de forma a considerar a política social como factor
produtivo na formulação das políticas. É preciso
que a Agenda de Política Social dê particular
atenção aos custos da não existência de uma
política social de qualidade, que também tenha em conta os
problemas dos imigrantes, pessoas com deficiência e outros grupos
desfavorecidos que continuam a confrontar-se com obstáculos
significativos no mercado de trabalho.
Os dados mais recentes sobre o
rendimento revelam que 15% da população, ou seja, cerca de 65
milhões de pessoas, se encontra em risco de pobreza, vivendo abaixo de
um limiar definido em 60% do rendimento mediano nacional.
Em Portugal, a taxa de pobreza atinge mais de 21%, o que exige um
reforço das políticas de emprego com direitos e melhor
segurança social.
Sabe-se como a segurança social é fundamental para reduzir o
risco de pobreza. Sem transferências sociais, o risco de pobreza teria
sido de 24% na União Europeia (se excluirmos as pensões da
definição das transferências sociais) ou 40% (incluindo
pensões). É, pois, com particular preocupação que
lutamos contra as tentativas de desvalorização da
segurança e acção social, defendemos uma segurança
social pública e universal.
Insistimos na prioridade à resolução dos graves problemas
de desemprego e de pobreza, incluindo de pobreza persistente, nas
políticas comunitárias, designadamente na política de
concorrência, na revisão intercalar da PAC, dos fundos estruturais
e do Pacto de Estabilidade.
Defendemos a
integração da dimensão social na política de
concorrência, designadamente no âmbito das decisões da
Comissão sobre fusões de empresas, factores relacionados com o
emprego, as relações industriais e o desenvolvimento regional.
Defendemos a
criação de mecanismos de intervenção eficaz na
área das deslocalizações de empresas, designadamente das
que receberam apoios comunitários e nacionais, visando quer a
protecção do emprego e outros direitos dos trabalhadores quer
impedir o estrangulamento do desenvolvimento das zonas e sectores em que
estão inseridas.
Defendemos o direito de veto
suspensivo nos casos em que as reestruturações, fusões,
concentrações e deslocalizações não tenham
em conta os direitos dos trabalhadores, o alargamento do âmbito da
Directiva sobre informação e consulta dos trabalhadores e a sua
aplicação na administração pública
Defendemos a
adopção de um plano de acção tendo em vista a
prevenção eficaz das lesões
músculo-esqueléticas no local de trabalho.
Insistimos na necessidade de aproveitar a revisão intercalar dos
programas 2000-2006 dos fundos estruturais, para coordenar os programas dos
fundos estruturais, designadamente do Fundo Social Europeu, e os objectivos
contidos nos Planos Nacionais de Inclusão
Criticámos e opusemo-nos à possibilidade, deixada em aberto na
proposta de directiva sobre trabalho temporário, de novas
derrogações, a serem acordadas entre parceiros, tal como
rejeitámos a pretensão de consagrar o papel activo das
agências de trabalho temporário, por contribuírem para uma
maior flexibilidade do trabalho e, assim, para o aumentar da precariedade do
emprego.
Denunciámos a situação dos
trabalhadores sazonais
, especialmente daqueles que se deslocam para outros países da UE e
defendemos a existência de legislação específica
para estes casos (o que existe é a directiva sobre destacamento), uma
maior fiscalização nos países de acolhimento e uma melhor
informação, a partir do país de origem, sobre os direitos
destes trabalhadores.
Interviemos sobre o reforço das normas de saúde e
segurança dos trabalhadores nos casos de: trabalho em altura;
contaminação pelo amianto; trabalho nas indústrias
extractivas e dos que sofrem de tendinites. Defendemos a formação
dos membros das Comissão de Higiene e Segurança e o
reforço das suas competências.
Rejeitámos a proposta da Comissão sobre os regimes complementares
de reforma, na linha das decisões da Cimeira de Lisboa que visam a
criação do mercado interno nesta matéria. Defendemos
políticas económicas expansionistas que contribuam para a
criação de emprego, que melhorem a situação da
situação social através do aumento da base contributiva do
regime público e da taxação mais forte dos sectores
financeiros e capital intensivos.
Em ligação estreita com os trabalhadores, contribuímos
para a rejeição da directiva sobre a liberalização
dos serviços portuários e a defesa de áreas fundamentais
dos trabalhadores dos serviços de tráfico aéreo, no
âmbito da tentativa de criação do céu único.
Mas temos pela frente novas e perigosas tentativas, como a proposta de
directiva sobre a criação do mercado interno nos serviços
e a proposta da dita constituição europeia que tenta
constitucionalizar o neoliberalismo, secundarizando o social e os direitos de
quem trabalha.
Por isso,
é tempo de uma Europa de solidariedade para a igualdade,
Uma Europa que tenha como prioridade a criação de emprego
justamente remunerado e com direitos, caminho essencial para o combate à
pobreza e à exclusão social; que promova a
diminuição do tempo de trabalho sem redução de
salário e a contínua melhoria das condições de vida
dos trabalhadores; que harmonize por cima as condições sociais e
institucionalize o princípio da não regressão social; que
promova a intervenção em igualdade e a igualdade de oportunidades
de mulheres e homens, o que exige a concretização dos direitos
das mulheres em todas as áreas da sociedade.
Uma Europa que respeite e desenvolva os direitos das crianças e dos
jovens, dos idosos e reformados, a quem devem ser asseguradas dignas
pensões e reformas, promova os direitos das pessoas portadoras de
deficiências, combata as discriminações e respeite os
direitos das minorias.
Uma Europa que promova a melhoria da qualidade dos sistemas públicos de
protecção social, saúde e educação, e dos
serviços públicos em geral, através do reforço da
intervenção pública, acompanhada e participada pelos
utentes, como forma de garantir efectivamente os direitos sociais e o bem-estar
das populações.
Por isso, é tempo de uma Europa de coesão para o desenvolvimento
sustentado
Uma Europa que incremente o desenvolvimento duradouro e sustentado,
alicerçado na promoção do emprego, da
formação, dos salários e dos serviços sociais
públicos, num efectivo apoio às micro, pequenas e médias
empresas, à agricultura familiar e à pesca artesanal; o que
implica pôr em causa o Pacto de Estabilidade, o poder e as
orientações monetaristas do Banco Central Europeu, estabelecer
uma taxa comum sobre os movimentos de capitais e exigir o aumento do
orçamento comunitário.
Uma Europa que privilegie as actividades produtivas e não as
especulativas, que recuse os dogmas da «sacrossanta economia de
mercado», pare as privatizações, e ponha em
acção medidas para travar as deslocalizações e para
eliminar os paraísos fiscais).
(offshores)
Uma Europa que promova a defesa do ambiente e dos equilíbrios naturais;
que aplique políticas que ataquem efectivamente as causas profundas da
poluição; que assegure a garantia do princípio da
precaução e da segurança alimentar e marítima; que
rejeite a mercantilização de todas as esferas da vida e a
privatização dos recursos naturais, como as sementes e a
água.
Uma Europa que dignifique quem trabalha!
[*]
Economista, deputada do PCP no Parlamento Europeu e novamente candidata
nas eleições de 13 de Junho de 2004. Clique em
candidatos CDU
para ver a lista completa dos candidatos desta coligação nas eleições ao PE.
Este relatório encontra-se em
http://resistir.info
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