Carta aberta ao primeiro-ministro de Portugal
(apresentada em 29/Março/2008 na concentração realizada no Largo
Camões, em Lisboa, em protesto contra a ocupação do
Iraque)
Senhor Primeiro-ministro:
Em 17 de Março de 2003, um dia depois da cimeira dos Açores, o
presidente George W. Bush anunciou o iminente ataque militar ao Iraque com a
seguinte declaração:
"À Nação do Iraque,
Informação recolhida por este e outros governos não deixa
dúvidas de que o regime iraquiano continua a possuir e esconder as mais
mortíferas armas (...). O regime tem um historial de rude
agressão no Médio Oriente. Tem (...) ajudado, treinado e
protegido terroristas, incluindo operacionais da Al Qaeda. O perigo é
claro: usando armas químicas, biológicas ou, um dia, nucleares
conseguidas com a ajuda do Iraque, os terroristas poderiam concretizar as suas
ambições assumidas de matar milhares ou centenas de milhar de
inocentes no nosso e noutros países (...). À medida que a nossa
coligação lhes retirar o poder, iremos distribuir a comida e os
medicamentos de que precisam. Iremos desmontar o aparato de terror e
ajudar-vos-emos a construir um novo Iraque que seja próspero e livre. No
Iraque livre não haverá mais guerras de agressão contra os
vossos vizinhos, não mais fábricas de venenos, não mais
execuções de dissidentes, não mais câmaras de
tortura e câmaras de violação. O tirano em breve
partirá. O dia da vossa libertação está perto".
Falar de liberdade e democracia no Iraque é um insulto à
inteligência.
Em cinco anos de ocupação, o Iraque conta mais de um
milhão de mortos e cinco milhões de exilados e deslocados. Muitos
mais morrerão enquanto persistir a ocupação, e em sua
consequência, vítimas da fome e da doença, da
contaminação radioactiva, das catástrofes ambientais e
humanitárias e do terrorismo de Estado e do promovido por
indivíduos ou grupos.
Durão Barroso, que como primeiro-ministro teve especiais
responsabilidades na campanha a favor da guerra, procurou limpar a face
declarando que se enganara. Paulo Portas, então ministro da Defesa, que
"tinha visto provas" da existência das armas de
destruição maciça, refugia-se no silêncio. Jorge
Sampaio, que enquanto Presidente da República aceitou o envolvimento
português, nada diz diante da catástrofe.
Portugal tem sido cúmplice activo na guerra que levou à
destruição de um país, ao sofrimento e morte de um povo
e ao agravamento da situação do Médio Oriente.
Na verdade, à destruição do Iraque somam-se a
destruição do Afeganistão, o genocídio do povo
palestiniano, o ataque ao Líbano, as ameaças ao Irão, o
escândalo dos "voos da CIA" e das prisões secretas
criadas pelos EUA à margem de qualquer lei. Todos estes factos fazem
parte de um mesmo plano de domínio do Médio Oriente. E a
justificação com que se cobre a chamada "guerra ao
terrorismo" tem sido desmontada pelos factos e repudiada em todo o
mundo por muitos milhões de pessoas.
Estas situações configuram violações do direito
internacional, crimes contra a Humanidade e crimes de guerra a que Portugal
não deve nem pode estar associado.
Senhor Primeiro-ministro,
Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa
humana (art. 1º da Constituição da República) e o
Estado subordina-se à Constituição (art. 3º).
Portugal rege-se nas relações internacionais pelos
princípios da independência nacional, do respeito dos direitos do
Homem, dos direitos dos povos, da igualdade entre os Estados, da
cooperação com todos os povos do Mundo para a
emancipação e progresso da humanidade (art. 7º, nº 1).
Portugal preconiza a abolição do imperialismo, do colonialismo e
de quaisquer outras formas de agressão (art. 7, nº2).
Não haverá povos livres e soberanos enquanto não se
respeitar a liberdade e a soberania de todos os povos. Nem se será digno
de respeito enquanto não se respeitar o direito internacional e os
direitos do Homem. Não haverá progresso e
emancipação enquanto houver povos escravizados e colonizados.
Não é com terrorismo de Estado nem com guerras que se combate a
fome e a pobreza, que se luta pelo progresso e pelo desenvolvimento.
Senhor Primeiro-ministro,
Portugal continua a ser parceiro de crimes cometidos pelos interesses
imperialistas dos EUA. Não colhe o argumento de que o governo
português foi enganado, nem é justificação o
respeito por compromissos assumidos quando está em causa a
violação do direito internacional.
É necessário mudar de rumo e, no cumprimento do espírito e
da letra da nossa Constituição, é imperioso que o governo
se demarque daqueles actos e desenvolva todos os esforços
diplomáticos e políticos para acabar com os crimes citados e para
respeitar os países e povos agredidos.
Pela passagem do 5.º ano de ocupação e do início do
massacre dos iraquianos por tropas imperiais (regulares e mercenárias),
as organizações signatárias exigem do Governo
Português o cumprimento da Constituição da
República, o exercício de uma política internacional de
respeito pelos direitos humanos e pela soberania dos Estados.
Lisboa, 20 de Março de 2008
As organizações.
AA-P/C
Associação Amizade Portugal Cuba
APD
Associação Portuguesa de Deficientes
Associação Fronteiras
Associação para a Defesa dos Direitos e Liberdades
CEPAGRIM
Sindicato dos Trabalhadores das Industrias de Celulose, Papel,
Gráfica e Imprensa
CESP
Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Serviços e
Escritórios de Portugal
CGTP/IN
Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses
InterSindical Nacional
C-MAJ
Colectivo de Solidariedade com Múmia Abu-Jamal
Comissão de Trabalhadores da Portugal Telecom
Comissão de Trabalhadores do Sector Bancário
CPCCRD
Confederação Portuguesa das Colectividades de Cultura,
Recreio e Desporto
CPPC
Conselho Português para a Paz e Cooperação
CPQTC
Confederação Portuguesa dos Quadros Técnicos e
Científicos
ECOLOJOVEM "Os Verdes"
FAR
Frente Anti Racista
FECTRANS
Federação dos Sindicatos de Transportes e
Comunicações
FESAHT
Federação dos Sindicatos de Agricultura,
Alimentação, Bebidas, Hotelaria e Turismo de Portugal
FEVICCOM
Federação dos Sindicatos da Construção,
Cerâmica e Vidro
FP
Sindicato dos Trabalhadores da Função Publica do Sul e
Açores
ID
Associação Intervenção Democrática
INTERJOVEM/CGTP-IN
JCP
Juventude Comunista Portuguesa
JOC
Juventude Operária Católica
MDM
Movimento Democrático das Mulheres
MPPM
Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio
Oriente
MUSP
Movimento dos Utentes dos Serviços Públicos
OPUS GAY
Partido Ecologista "Os Verdes"
PCP
Partido Comunista Português
SIESI
Sindicato das Indústrias Eléctricas do Sul e Ilhas
Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Vidreira
Sindicato dos Trabalhadores dos Têxteis, Lanifícios,
Vestuário, Calçado e Curtumes do Sul
Sindicato Nacional do Sector Ferroviário
Sindicatos dos Trabalhadores Industrias de Cerâmica, Cimentos e Similares
do Sul e Regiões Autónomas
SINORQUIFA
Sindicato dos Trabalhadores da Química, Farmacêutica,
Petróleo e Gás do Norte
SINTAB
Sindicato dos Trabalhadores da Agricultura e das Industrias de
Alimentação, Bebidas e Tabacos de Portugal
SNTCT
Sindicato Nacional dos Trabalhadores dos Correios e
Telecomunicações
STAL
Sindicatos dos Trabalhadores da Administração Local
STEFFA's -
Sindicato dos Trabalhadores Civis das Forças Armadas, Estabelecimentos
Fabris e Empresas de Defesa
STML
Sindicato dos Trabalhadores do Município de Lisboa
Tribunal Iraque
União Sindicatos Torres Vedras
URAP
União dos Resistentes Antifascistas Portugueses
Esta carta aberta encontra-se em
http://resistir.info/
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