Software na UE: A caixa de Pandora
Imagine que se dirige a uma papelaria para comprar um lápis. E que, como
seria de esperar, a sua escolha recai sobre aquele que é o lápis
mais vendido do mundo, que toda a gente usa e que se vê por toda a parte.
Chegado a casa ou ao escritório, abre a embalagem do lápis e fica
a saber que tem de entrar em contacto com o fabricante, e fornecer-lhe uns
quantos dados pessoais sob pena de o lápis deixar de escrever ao
fim de poucos dias.
Agora imagine que começa a descobrir que está impedido de afiar o
lápis, que está impedido de escrever com ele num caderno
fabricado pela concorrência, ou de apagar com borrachas da
concorrência; que está impedido de o emprestar a quem quer que
seja. Não querendo acreditar no que está a acontecer, chega
à conclusão de que afinal não comprou um lápis
o que fez foi adquirir o direito de o utilizar, em determinadas
condições (que evidentemente não conhecia).
Tudo isto é demasiado estranho. Mas, só para me fazer a vontade,
imagine ainda que o fabricante do lápis registou a patente e que agora
mais ninguém o pode produzir, nem sequer utilizar essa tecnologia para
outros produtos (compassos, por exemplo, ou lapiseiras).
E, para o delírio acabar em grande, imagine finalmente que, sem que
ninguém dê por isso, esse maldito lápis ainda se põe
a escrever sozinho, a copiar documentos seus e a assinar cheques!
PARECE MENTIRA MAS É VERDADE
Então vamos por partes.
Ninguém que tenha o mínimo de bom senso hesitará um
segundo em achar esta «história» absolutamente estranha e
inverosímil. Mas se em vez de «lápis» dissermos
«programa de computador» ou «sistema operativo», as coisas
começam assustadoramente a bater certo.
Claro que esta imagem está consideravelmente longe da realidade.
Primeiro, porque não é por usarmos «lápis»
diferentes que deixamos de poder ler o que nos escrevem (o que, convenhamos,
permite uma outra liberdade). Segundo, porque para o utilizador de certos
programas de computador, as restrições e proibições
no seu uso são muito (mas muito) mais draconianas, complexas e
abrangentes do que estas que eu «imaginei» com esta história
do lápis.
Basta que tenhamos em conta os famosos «acordos de licenciamento de
utilizador final» de alguns sistemas operativos ou
aplicações do chamado «'software' proprietário»
e encontraremos situações em que nos perguntamos quem é
afinal o proprietário do quê, ou de quem.
Depois há o registo de patentes. «Inventos» tão
prosaicos como o-cursor-que-muda-de-cor-quando-passa-por-uma-imagem (não
tem nada que saber, é só um «programa» com três
ou quatro linhas de comando) ou as banais paletas/menus que podemos sobrepor no
ecrã, entre tantos, tantos outros, correspondem a patentes registadas
que em alguns casos envolveram, nas barras dos tribunais norte-americanos,
processos judiciais de milhões de dólares.
Finalmente, quanto ao «lápis que escreve sem darmos por isso»,
parece mentira mas é verdade. Na esmagadora maioria dos casos, nenhum de
nós pode garantir o que está a acontecer no nosso computador
enquanto o utilizamos para escrever, para pesquisar na «web» ou para
aceder ao correio electrónico. Porque ninguém sabe que
operações algorítmicas, funções, sub-rotinas
e outras que tais são desencadeadas por um «software» cujo
código é formalmente conhecido apenas pelo fabricante, pela
Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos da América
e por mais algumas (poucas) entidades autorizadas.
É com estas linhas que se cose a maior parte dos utilizadores das
tecnologias da informação linhas que o império
tece, dominado como é por meia dúzia de gigantes monopolistas
quase sempre alimentados na base de uma estratégia de investimento em
publicidade e «marketing», muito superior ao do desenvolvimento,
produção e distribuição juntos.
Muito há para dizer sobre estes grupos económicos, mas por agora
direi apenas que uma boa parte do seu futuro - e principalmente do de
nós todos - está a ser decidido, discreta e paulatinamente, na
União Europeia.
«LÁ SE FAZEM, CÁ SE PAGAM»
Chama-se «patente comunitária» mas podia perfeitamente
chamar-se Caixa de Pandora. É matéria que está a ser
objecto de um processo de co-decisão entre a Comissão Europeia, o
Conselho e o Parlamento Europeu.
Para o que agora nos interessa, a guerra estalou com a proposta de directiva
apresentada pela Comissão Europeia (e defendida com unhas e dentes pelo
comissário Bolkestein) no sentido de consagrar a possibilidade de
registar patentes de «software». Ou seja, pondo em causa a
consideração, assumida em 1973 na Convenção de
Munique, basicamente no sentido de que o «software» não
é patenteável.
As alterações entretanto produzidas na proposta de directiva
permitem clarificar o contributo técnico para que os inventos que
implicam «software» possam ser patenteáveis. Mas esta
directiva aprovada em primeira leitura admite, por exemplo, a patenteabilidade
de um algoritmo «na condição de esse método ser
utilizado para solucionar um problema técnico», mantendo a ideia de
que o «carácter técnico» pode configurar «um
invento patenteável» e realçando a suposta
«importância da protecção por patente». O que na
prática significa manter a abertura às patentes de
«software».
Foi esta preocupação que levou os deputados do PCP, a par de
outros membros do Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia no
Parlamento Europeu, a apresentar uma moção de
rejeição daquela proposta de directiva. Porque o caso é
demasiado grave para nos contentarmos com «males menores»...
Entretanto, e na sequência da votação de 24/9/2003 no
Parlamento Europeu, o Conselho de Ministros da União Europeia mandou
elaborar um «livro branco» para que a matéria seja reexaminada
pelo Parlamento, onde se defende designadamente que algoritmos
matemáticos e métodos de gestão atribuídos pelo
Gabinete Europeu de Patentes sejam (contra a letra e o espírito da
legislação em vigor) automaticamente invenções
patenteáveis; que o uso de protocolos patenteados e de formatos de
ficheiros para fins de interoperabilidade sejam ilegais, assim como a
publicação em linguagem formal num servidor da Internet da
descrição de uma ideia patenteada; etc. Propostas que testemunham
bem a força dos grandes interesses económicos e as grandes
pressões exercidas sobre os órgãos da União
Europeia.
UM NEGÓCIO DENTRO DO NEGÓCIO
A prazo, o perigo real que se coloca é o de as patentes sobre
«software» se revelarem não um incentivo à
inovação e ao desenvolvimento mas um verdadeiro obstáculo
à produção e comercialização de programas,
para todas as micro, pequenas e médias empresas que não têm
milhares de patentes registadas - o que suscita o problema da submissão
da «indústria» da produção técnica
às lógicas da «indústria» do registo e
comercialização de patentes.
A título de exemplo, refira-se o caso da empresa líder mundial de
patentes nesta área -- a IBM --, que entre 1993 e 2002 adquiriu 22 mil
patentes, das quais veio a extrair cerca de dez mil milhões de
dólares em receitas de licenciamento (em larga medida, através de
contencioso judicial).
A própria Comissão Federal do Comércio dos EUA, assim como
a Academia das Ciências daquele país, já em 2003 exprimiram
fundadas preocupações quanto à exagerada
proliferação de patentes, registando assumidamente um
constrangimento ao desenvolvimento de forças produtivas daí
decorrente - que neste caso ameaça vir a instalar-se também na
Europa, criando uma situação insustentável para a grande
maioria das empresas deste sector.
No limite, como diz um camarada meu, corremos o risco de ver a escrita de
programas como a construção de um «puzzle», em que cada
peça está sujeita a pelo menos uma patente registada. E assim
chegamos ao ponto em que o desenvolvimento e a produção de uma
solução ou programa informático se torna um simples
pormenor de todo o processo, quando comparado com a «via-sacra»
jurídica e administrativa a percorrer até se descobrir que o
produto desenvolvido não tem «lá no meio» nenhuma
patente já registada por algum gigante do sector...
E o que se coloca às empresas coloca-se ainda com mais acuidade ao campo
do ensino e da investigação. Pois se já hoje os estudantes
do ensino superior público pagam propinas para que as universidades e
politécnicos paguem a conta da luz e da água, imagine-se o que
seria ter estas instituições confrontadas com a factura dos
pagamentos de patentes!
CONSENSO NACIONAL?!
É neste contexto que significativas movimentações se
desenvolvem, em Portugal, na Europa e no Mundo, dando voz comum a um protesto e
corpo a um combate contra a criação destas patentes. Mais de 300
mil cidadãos já assinaram uma petição contra estas
intenções da União Europeia. Iniciativas simbólicas
de protesto foram e estão a ser organizadas por cidades de toda a Europa.
Mas, a este propósito, e apesar das vozes que se levantam nesse combate,
o que verificamos afinal é que a falta de seriedade com que o Governo
tem conduzido os processos de discussão pública sobre esta
matéria é mais digna do anedotário nacional do que
propriamente de quaisquer conceitos de participação e democracia.
Chegaram inclusivamente testemunhos segundo os quais o Instituto Nacional da
Propriedade Industrial terá transmitido em sede comunitária um
suposto «consenso nacional» absolutamente espantoso, a favor das
patentes de «software» - sendo dado como certo que nenhum
cidadão português detém nenhuma das cerca de 30 mil
patentes de «software» atribuídas pelo Gabinete Europeu de
Patentes, pelo menos até ao ano passado!
Ora, esse «consenso» a favor das patentes de «software»
terá sido alcançado através de uma consulta conduzida pelo
INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) em 2001 e que consistiu no
envio de um ofício a 19 directores de empresas, afirmando uma
posição de defesa das patentes de «software», tendo
sido recebidas três respostas - as quais manifestavam apoio à
posição do instituto!
Se é isto que o Governo considera consenso nacional, se é isto
que o Governo considera um processo sério de discussão
pública, estamos esclarecidos. O que nos falta saber é se este
processo fica mesmo por aqui ou se, pelo contrário, o Governo tomou
alguma medida para que esta discussão seja digna desse nome. Foi nesse
sentido que o PCP apresentou a semana passada, na Assembleia da
República, um requerimento ao Governo, confrontando-o com esta
situação, pedindo-lhe explicações e perguntando se
já foi - ou vai ser - reaberto o processo de consulta pública
sobre esta matéria.
E A SEGUIR REGISTAM A PATENTE DO ALFABETO?
Entretanto, apesar de este «episódio» do INPI ser um
preocupante indicador, a verdade é que subsiste a questão de
fundo: afinal, que intervenção tem feito o Governo em sede de
Conselho Europeu? Ninguém sabe!
A população portuguesa, os utilizadores das tecnologias
(organizados ou não em movimentos), as comunidades de
investigação e ensino, a própria Assembleia da
República (!), todo o país está sem saber o que tem sido a
posição oficial do Estado Português nesta matéria
porque o Governo nada diz.
Este assunto é demasiado importante para estar a ser decidido desta
maneira. Porque está em causa desde logo o desenvolvimento
científico e as suas dinâmicas. Afinal, pela própria
importância que as tecnologias assumem na economia actual, não
é muito difícil perceber que o «software», tal como o
lápis (lembra-se?) não é só uma mercadoria -
é cada vez mais um instrumento de trabalho. É um meio de
produção. E, por isso, não pode ficar nas mãos de
três ou quatro gigantes...
Mas há um outro aspecto central para equacionarmos.
Mesmo por uma questão de princípio muito mais importante
do que à primeira vista possa parecer , a verdade é que o
conceito de que o conhecimento é um bem universal (e como tal deve estar
livre para o usufruto de toda a humanidade) não é
compatível com o do registo de patentes sobre áreas do
conhecimento. Tal como não estamos assim tão longe, nesta
lógica dominante, de ver resultados da genética passíveis
de patentes - isto é, da patenteabilidade da própria vida.
A questão central que está em causa neste processo, e nesta
proposta de directiva, prende-se com a consideração que
é urgente recusar de que o saber humano, a descoberta
científica, o invento de uma nova solução ao nível
da programação informática, sejam domínios tratados
como mercadoria, patenteáveis e comercializados numa lógica de
mercantilização da vida do ser humano.
Por isso, o PCP entregou, também na semana passada, novas iniciativas
parlamentares na Assembleia da República, designadamente propondo a
recomendação formal ao Governo de que este assuma em sede de
Conselho Europeu uma posição clara de recusa face à
perspectiva de consagração das patentes de «software»,
em defesa do desenvolvimento, rejeitando e combatendo a
mercantilização do saber.
DUAS FACES DA MESMA MOEDA
Por outro lado, estas iniciativas do PCP incluem propostas concretas para o
desenvolvimento do «software» livre em Portugal. Porque falta tomar
medidas em relação ao que já hoje está
disponível e vai sendo desenvolvido em matéria de
«software» livre o tal que na prática contraria em
absoluto esta lógica imperialista dominante.
Para nós, está em causa nesta discussão o problema da
liberdade de escolha uma liberdade que é afirmada na
legislação que existe, mas que não é exercida.
Não pretendemos impor soluções, quaisquer que sejam, mas
é preciso impedir a sistematização das más
soluções, que é o que tem acontecido até hoje.
Não vale a pena (aliás, será contraproducente)
avançar por decreto para sistemas indiscriminados que careçam de
sustentação. Mas é indispensável que se avance em
projectos concretos e que se crie as condições técnicas
para que, nos planos educativo, científico, cultural, económico,
se abra caminho à introdução desta alternativa.
Cada vez se vai tornando mais evidente que, desde que em igualdade de
circunstâncias, desde que sem discriminações, o
«software» livre tem demonstrado melhores respostas do que muitos
exemplos do «software» proprietário.
O que é preciso é tomar medidas para que o país
exerça e cultive essa liberdade, essa exigência, esse rigor na
escolha de soluções no caminho de um desenvolvimento integrado e
sustentável.
No fundo, trata-se de duas faces da mesma moeda. As discussões que hoje
vão fervilhando sobre o «software» livre e sobre as patentes
de «software» apontam afinal para uma mesma
constatação: a de que esta lógica dominante do
máximo lucro e dos interesses económicos acaba, ela
própria, por constituir um obstáculo (eu diria, «o»
obstáculo) ao verdadeiro desenvolvimento humano. A história, que
é feita destas contradições e antagonismos, vai
prosseguindo. E a luta continua. Aí é que não há
volta a dar...
31/Mai/04
[*]
Deputado à Assembleia da República, PCP, eleito por Setúbal
O original encontra-se em
http://online.expresso.pt/opiniao_int/artigo.asp?id=24744666
Ver também
Por uma Europa sem patentes de software
, com declaração de voto da eurodeputada Ilda Figueiredo.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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