Cumprindo a 'promessa inquebrantável'

por John Pilger

Foto de Paul Weinberg, Soweto, 1985. Na minha parede em Londres está uma fotografia que nunca me canso de olhar. Na verdade, sempre considerei estimulante contemplá-la. Pode-se mesmo dizer que ela ajuda a avançar. É a foto de uma mulher solitária de pé entre dois veículos blindados, os famosos 'hippos', quando eles avançavam dentro do Soweto. Seus braços estão levantados. Os punhos fechados. Seu corpo magro está tanto a chamar como a desafiar o inimigo. Foi em Maio de 1985 e o levantamento contra o apartheid havia começado.

Paul Weinberg , o excelente cronista do apartheid, tomou aquela fotografia. Descreveu-a encolhido numa vala junto à estrada por onde os hippos entraram no Soweto. O povo estava a ser alvejado com balas de borracha e balas reais. "Olhei em torno", disse ele, "e ali na vala junto a mim estava esta mulher semelhante a um pássaro, que subitamente puxou para fora uma garrafa de gim, tomou um trago, e então saltou para cima e marchou directamente para a fila de veículos em movimento. Foi uma das coisas mais corajosas que já vi".

A fotografia de Paul traz à mente uma das minhas citações favoritas. "A luta do povo contra o poder", escreveu Milan Kundera, "é a luta da memória contra o esquecimento". Momentos tais como o acto de bravura da mulher podem ser inesquecíveis pois eles simbolizam todos os grandes movimentos de resistência à opressão: na África do Sul, a Freedom Charter, Nelson Mandela no Processo Rivonia, o heroísmo de Steve Biko, a mulher que de algum modo conseguiu manter seus filhos vivos sobre encostas geladas em lugares como Dimbaza de onde haviam sido removidos e declarados supérfluos, e além disso os judeus que se levantaram contra os nazis no Gueto de Varsóvia e os palestinos que ainda outro dia deitaram abaixo as muralhas da sua prisão em Gaza.

ESQUECIMENTO ORGANIZADO

Inesquecível? Para alguns, sim. Mas há aqueles que preferem celebrar um sistema de esquecimento organizado: de liberdade sem peias para uns poucos e obediência para muitos; de socialismo para os ricos e capitalismo para os pobres. Eles preferem que o poder incontestável das pessoas comuns seja remetido para o que George Orwell denominou o buraco da memória. Poder-se-ia perguntar: como podemos nós esquecer quando vivemos na era da informação?

A resposta para isto é uma outra pergunta. Quem são o "nós"? Ao contrário de você e eu, a maior parte dos seres humanos nunca utilizou um computador e nunca possuiu um telefone. E aqueles de nós que são tecnologicamente abençoados muitas vezes confundem informação com media, e treino corporativo com conhecimento. Estas são provavelmente as mais poderosas ilusões dos nossos tempos. Nós temos mesmo um novo vocabulário, nos quais conceitos nobres foram corporativizados e dados significados enganosos, perversos e mesmo opostos.

"Democracia" é agora o mercado livre – um conceito ele próprio despojado de liberdade. "Reforma" é agora a negação de reforma. "Ciência económica" é o abandono da maior parte do esforço humano em favor do valor material. Modelos alternativos que se relacionam com as necessidades da maior parte da humanidade acabam no buraco da memória. E "governação" – palavra tão na moda nestes dias – significa um sistema económico aprovado em Washington, Bruxelas e Davos. "Política externa" é o serviço par a potência dominante. Conquista é "intervenção humanitária". Invasão é "construção de uma nação".

Todos os dias respiramos o bafo quente destas pseudo ideias com as suas pseudo verdades e os seus pseudo peritos. Eles estabelecem os limites do debate público no interior da maior parte das sociedades avançadas. Eles determinam quem são os bons rapazes e quem são os maus. Eles manipulam a nossa compaixão e a nossa raiva fazem muitos de nós sentirem que não há nada que possam fazer. Tome-se a "guerra ao terror". Isto é uma ideia inteiramente falsa que realmente significa uma guerra de terror. Seu objectivo é convencer pessoas no mundo rico de que todos nós devemos viver num estado de medo duradouro: aqueles muçulmanos fanáticos estão a ameaçar a nossa civilização.

De facto, a verdade é o oposto. A ameaça às nossas sociedades não vem da Al Qaeda mas do terrorismo dos Estados poderosos. Perguntem ao povo do Iraque, que cinco anos atrás viu a destruição física e social do seu país. O presidente Bush chama a isto "construção da nação". Perguntem ao povo do Afeganistão, que foi bombardeado outra vez para os braços do Taliban – isto é conhecido no Ocidente como "uma boa guerra". Ou ao povo de Gaza, a quem é negada água, alimentação, remédios e esperança pelos forças da assim chamada civilização. Esta lista é longa e a aritmética simples. O maior número de vítimas desta guerra não está entre ocidentais, mas sim muçulmanos: desde o Iraque até a Palestina, passando pelos campos de refugiados do Líbano e da Síria e por aí além.

Dizem-nos constantemente que 11 de Setembro de 2001 foi o dia que mudou o mundo e – segundo John McCain – isso justifica uma guerra de 100 anos contra os inimigos percebidos da América. E mesmo assim, enquanto o mundo chorava as mortes de 3000 americanos inocentes, a ONU rotineiramente relativa que a taxa de mortalidade de crianças mortas devido aos efeitos da extrema pobreza não mudou. O número para 11 de Setembro de 2001 era mais de 36 mil crianças. É o número diário. Ele não mudou. Isto não é notícia.

DESCARTÁVEIS

A diferença entre as duas tragédias é que as pessoas que morreram nas Torres Gémeas em Nova York eram vítimas valiosas, e as milhares de crianças que morrem todos os dias são vítimas não valiosas. É assim que muitos de nós são programados para perceber o mundo. Ou assim esperam os programadores. Na era da informação, estas crianças são descartáveis. Na África do Sul, elas são os filhos dos desalojados e expulsos, crianças que carregam para casa a água de reservatórios contaminados. Não são as que vivem em propriedades fechadas com nomes como Tuscany. Elas não estão cobertas pelas teorias do GEAR [1] , do NEPAD [2] ou qualquer dos outros acrónimos de poder a que o jornalismo e a academia dão respeitabilidade.

Parece-me vital que os jovens de hoje adquiram o entendimento do modo como esta propaganda subliminal funciona nas sociedades modernas – sociedades liberais: sociedades com constituições orgulhosas e liberdade de discurso, como a África do Sul. Pois diz isto que libertação da pobreza – a essência da verdadeira democracia – é uma libertação demasiada.

Na África do Sul, os novos licenciados, parece-me, têm tanto uma obrigação especial como uma vantagem. A vantagem que dispõem é que o passado ainda está vividamente presente. Só no mês passado, o Instituto Nacional de Saúde Ocupacional revelou que nos últimos seis anos a silicose mortal havia duplicado entre os mineiros de ouro da África do Sul. Há enormes lucros nesta indústria. Muitos dos mineiros são abandonados e morrem quando chegam aos 40 e tais anos – com famílias demasiado pobres para arcar com um funeral.

Por que não há ainda qualquer prevenção adequada e compensação? E embora Desmond Tutu os tenha louvado, nenhum patrão de companhia em qualquer das indústrias sustentáculo do apartheid alguma vez pediu uma amnistia à Comissão de Verdade e Reconciliação. Actuaram assim confiantes em que ao mudarem na superfície as coisas permaneceriam as mesmas.

Para os jovens licenciados destes dias, há uma tentação de se colocarem à parte das condições que descrevi e do mundo de onde alguns vieram. Como membros de uma nova elite privilegiada, eles têm uma obrigação, acredito, de forjar a ligação vital entre o talento na vida diária e a sabedoria e flexibilidade das pessoas comuns. Isto lhes permitirá, seja qual for o caminho que vocês escolham, acabar a tarefa começada por Nelson Mandela e Steve Biko e a corajosa mulher na fotografia. Em poucas palavras, significa ficar ao lado dos seus compatriotas a fim de trazer a verdadeira liberdade à África do Sul.

Aqueles que conduziram a luta contra o apartheid racial muitas vezes dizem não. Eles divergem, causam perturbação, assumem riscos, colocam o povo em primeiro plano. E eles foram o melhor que o povo pôde alcançar. Acima de tudo, tinham uma imaginação social e política que o poder irresponsável sempre teme. E tinham coragem. É esta imaginação e coragem que abre o debate real com informação real e permite às pessoas comuns recuperar sua confiança para exigir seus direitos humanos e democráticos.

Oscar Wilde escreveu: "A desobediência, aos olhos de qualquer um que haja lido história, é virtude original do homem". Li outro dia que a polícia da África do Sul calculou que o número de protestos por todo o país duplicou em apenas dois anos, para mais de 10 mil por ano. Isto pode ser a mais elevada taxa de dissentimento no mundo. É algo de que se fica orgulhoso – assim como a Freedom Charter continua a ser algo de que se fica orgulhoso. Deixe-me recordar-lhe como ela começa: "Nós, o povo da África do Sul, declaramos que o nosso país pertence a todo e qualquer cidadão (everyone) ...". E que, como disse outrora Nelson Mandela, era a "promessa inquebrantável". Não será este o momento de manter o prometido?

[1] GEAR: Growth Employment and Redistribution
[2] NEPAD: New Partnership for Africa's Development


Versão editada do discurso de John Pilger, pronunciado em Março de 2008 na cerimónia de licenciatura da Rhodes University. Nessa ocasião Pilger foi agraciado com o título de doutor honoris causa. Clique aqui para ler o discurso de louvor ao homenageado.

O original encontra-se em http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=481


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
12/Abr/08