A "guerra boa" é má
por John Pilger
|
|
"Para mim, confesso, países são peças sobre um
tabuleiro de xadrez no qual se trava um jogo pelo domínio do mundo".
Lord Curzon, vice-rei da Índia, ao falar acerca do Afeganistão,
1898
|
Sugeri a Marina que nos encontrássemos na segurança do Hotel
Intercontinental, onde se hospedavam os estrangeiros em Cabul, mas respondeu
que não. Ela estivera ali outrora e agentes do governo, suspeitando que
fosse da Rawa, prenderam-na. Encontrámo-nos ao invés disso numa
casa segura, a que se chegava contornando montes de destroços de bombas
naquilo outrora foram ruas, onde vivem pessoas como vítimas de um tremor
de terra ainda à espera de socorro.
Rawa é a Revolutionary Association of the Women of Afghanistan, a qual
desde 1977 alerta o mundo para o sofrimento das mulheres e meninas daquele
país. Não há nenhuma organização como esta
sobre a Terra. É o mais elevado exercício de feminismo, a
organização das mais valentes entre as valentes. Ano após
ano, agentes da Rawa viajam secretamente através do Afeganistão
para ensinar em escolas clandestinas para meninas, cuidar de mulheres isoladas
e brutalizadas, registar ultrajes com câmaras escondidas atrás de
burgas. Elas foram inimigas implacáveis do regime Taliban quando a
palavra Taliban era raramente ouvida no Ocidente, ou seja, quando a
administração Clinton estava a cortejar secretamente os
mulás a fim de que a companhia petrolífera Unocal pudesse
construir um oleoduto com início no Cáspio através do
Afeganistão.
Na verdade, o entendimento da Rawa das concepções e hipocrisia
dos governos ocidentais revela a verdade quanto à exclusão do
Afeganistão dos noticiários, agora reduzido ao drama dos soldados
britânicos cercados por um inimigo demoníaco numa "guerra
boa". Quando nos encontrámos, Marina estava com o véu a fim
de esconder a identidade. Marina é o nome de guerra. Disse ela:
"Nós, as mulheres do Afeganistão, só nos
tornámos uma causa no ocidente a seguir ao 11 de Setembro 2001, quando
subitamente o Taliban tornou-se o inimigo oficial da América. Sim, eles
perseguiram mulheres, mas eles não eram os únicos, e temos
ressentido o silêncio no ocidente acerca da natureza atroz dos senhores
da guerra apoiados pelo ocidente, que não são diferentes. Eles
violam e sequestram e aterrorizam, mas eles possuem posições no
governo de Karzai. De certa forma, estávamos mais seguras sob o regime
Taliban. Podia-se atravessar o Afeganistão por estrada e sentir-se
segura. Agora, pomos a vida nas suas mãos".
A razão alegada pelos Estados Unidos para invadir o Afeganistão,
em Outubro de 2001, era "destruir a infraestrutura da al-Qaeda, os
perpetradores do 11/Setembro". As mulheres do Rawa afirmam que isto
é falso. Numa rara declaração em 4 de Dezembro,
não noticiada na Grã-Bretanha, elas disseram: "Por
experiência, [descobrimos] que os EUA não queriam derrotar o
Taliban e a al-Qaeda, porque então não terão desculpas
para permanecer no Afeganistão e trabalhar pela realização
dos seus interesses económicos, políticos e estratégicos
na região".
A verdade acerca da "guerra boa" é encontrada na
evidência convincente de que a invasão de 2001, amplamente apoiada
no ocidente como uma resposta justificável aos ataques do 11 de
Setembro, foi realmente planeada dois meses antes do 11/Set e que o mais
premente problema para Washington não eram as ligações do
Taliban com Osama Bin Laden, mas a perspectiva de os mulás Taliban
perderem o controle do Afeganistão para facções mujahedin
menos confiáveis, conduzidas por senhores da guerra que haviam sido
financiados e armados pela CIA para combater por procuração a
guerra da América contra os ocupantes soviéticos na década
de 1980. Conhecidos como Aliança do Norte, este mujahedin foram em
grande parte uma criação de Washington, o qual acreditava que a
"carta jihad" podia ser usada para deitar abaixo a União
Soviética. O Taliban foi um produto disto e, durante os anos Clinton,
eles foram admirados pela sua "disciplina". Ou, como colocou o
Wall Street Journal,
"[os Taliban] são os actores mais capazes de alcançar a paz
no Afeganistão neste momento da história".
O "momento da história" foi um memorando secreto de
entendimento que os mullahs assinaram com a administração Clinton
sobre o negócio do oleoduto. Contudo, no fim da década de 1990 a
Aliança do Norte apossara-se de porções cada vez mais
vastas de território controlado pelo Taliban. Em consequência,
Washington considerou que lhes faltava a "estabilidade" exigida a um
cliente tão importante. O pré-requisito do apoio americano era a
firmeza deste relacionamento de cliente, pouco lhes importando a aversão
do Taliban pelos direitos humanos. (Ao ser perguntado acerca disto, um
porta-voz do Departamento de Estado havia previsto que "o Taliban
desenvolver-se-á tal como os sauditas o fizeram", com uma economia
pró-americana, nenhuma democracia "montes de
legislação sharia", o que significava a
perseguição legalizada de mulheres. "Nós podemos
viver com isso", concluiu).
No princípio de 2001, convencido de que era a presença de Osama
Bin Laden que estava a azedar o seu relacionamento com Washington, o Taliban
tentou livrar-se dele. De acordo com um trato negociado pelos líderes
dos dois partidos islâmicos do Paquistão, Bin Laden deveria ser
mantido sob prisão domiciliar em Peshawar. Um tribunal de
clérigos ouviria então as provas contra ele e decidiria se o
julgaria ou o entregaria aos americanos. Tivesse ou não acontecido
isto, Pervez Musharraf, do Paquistão, vetou o plano. Segundo o
então ministro dos Negócios Estrangeiros do Paquistão,
Niaz Naik, um alto diplomata americano contou-lhe em 21 de Julho de 2001 que
fora decidido prescindir dos Taliban, "sob um tapete de bombas".
Aclamado como a primeira "vitória" na "guerra ao
terror", o ataque ao Afeganistão em Outubro de 2001 e o seu efeito
propagador provocou a morte de milhares de civis os quais, ainda mais mesmo do
que os iraquianos, permaneceram invisíveis aos olhos ocidentais. A
família de Gulam Rasul é típica. Foi às 07h45 de
21 de Outubro. O director de uma escola na cidade de Khair Khana, Rasul, havia
acabado de comer o pequeno-almoço com a sua família e havia
saído fora da casa para conversar com um vizinho. Dentro da casa
estavam a sua esposa, Shiekra, seus quatro filhos, entre os três e os 10
anos, seu irmão e sua esposa, sua irmã e seu marido. Ele olhou
para cima para ver um avião a manobrar no céu, então a sua
casa explodiu numa bola de fogo por trás dele. Nove pessoas morreram
neste ataque de F-16 americano que despejou uma bomba de 500 libras [227 kg].
O único sobrevivente foi o seu filho de nove anos, Ahmad Bilal. "A
maior parte das pessoas mortas nesta guerra não são Taliban;
elas são inocentes", disse-me Gulam Rasul. "Será que a
morte da minha família foi um erro? Não, não foi. Eles
voam os seus aviões e olham de cima para nós, o povo
afegão simples, que não tem aviões, e eles bombardeiam-nos
pelo nosso nascimento aqui, e com todo o desprezo".
Havia uma festa na aldeia de Niazi Qala, 100 km ao Sul de Cabul, para celebrar
o casamento do filho de um agricultor respeitado. Segundo todos os relatos foi
um evento admiravelmente ruidoso, com música e cantorias. O rugido do
avião começou quando toda a gente estava sonolenta, às
três da manhã. Segundo o relatório das
Nações Unidas, o bombardeamento perdurou por duas horas e matou
52 pessoas: 17 homens, dez mulheres e 25 crianças, muitas das quais
foram encontradas despedaçadas onde desesperadamente haviam procurado
refúgio, um reservatório de água seco. Tais carnificinas
não são incomuns, e nestes dias os mortos são descritos
como "Taliban", ou, se forem crianças, dizem ser
"parcialmente culpáveis por estarem num sítio utilizado por
militantes" segundo um porta-voz militar americano falando à
BBC.
Os militares britânicos desempenharam um papel importante nesta
violência, tendo subido os bombardeamentos a partir de grande altitude em
30 por cento desde que, em Maio de 2006, eles tomaram o comando das
forças da NATO no Afeganistão. Isto traduziu-se em mais de 6200
afegãos mortos no ano passado. Em Dezembro, a notícia de um
evento falso foi a "queda" de uma "fortaleza Taliban", Musa
Qala, no sul do Afeganistão. Permitiu-se às forças
governamentais fantoches "libertar" o entulho deixado pelos B-52s
americanos.
O que justifica tudo isto? Várias fábulas tem sido propaladas
"construir democracia" é uma. "A guerra às
drogas" é a mais perversa. Quando os americanos invadiram o
Afeganistão em 2001 tiveram um êxito impressionante. Deram um fim
abrupto a uma proibição histórica de
produção de ópio que o regime Taliban havia
alcançado. Um oficial das Nações Unidas descreveu-me a
proibição como "um milagre moderno". O milagre foi
rapidamente cancelado. Como prémio por apoiar a "democracia"
de Karzai, em 2002 os americanos permitiram aos senhores da guerra da
Aliança do Norte replantarem toda a cultura de ópio do
país. Hoje, 90 por cento do comércio mundial de ópio tem
origem no Afeganistão. Em 2005, um relatório do governo
britânico estimava que 35 mil crianças neste país estavam a
utilizar heroína. Enquanto o contribuinte britânico paga por uma
super-base de 1000 milhões de libras na Província Helmand e a
segunda maior embaixada britânica no mundo, em Cabul, internamente
são gastos tostões na reabilitação de drogas.
Tony Blair disse outrora de forma notável: "Para com o povo
afegão, assumimos este compromisso. Não iremos embora ...
[Ofereceremos] alguma saída da pobreza que é a sua
existência miserável". Pensei nisso quando num cinema
destruído via crianças a brincarem. Elas eram analfabetas e por
isso não podiam ler um poster advertindo que bombas de estilhaço
não explodidas estavam nos escombros.
"Depois de cinco anos de empenhamento", relatou James Fergusson no
London Independent
de 16 de Dezembro, "o Departamento para o Desenvolvimento Internacional
[britânico] gastou apenas £390 milhões [522
milhões] em projectos no Afeganistão". Excepcionalmente,
Fergusson teve reuniões com Talibans que estavam a combater os
britânicos. "Eles permaneciam amáveis e corteses todo o
tempo", escreveu ele de uma visita em Fevereiro. "Isto é a
beleza da
malmastia,
a tradição pashtun de hospitalidade para com estrangeiros.
Desde que venha desarmado, mesmo um inimigo mortal pode confiar numa
recepção afável. A oportunidade de diálogo que a
malmastia
proporciona é única.
Esta "oportunidade de diálogo" é um grito distante da
proposta de rendição incondicional feita pelo governo de Gordon
Brown. O que Brown e os seus conselheiros do Foreign Office não
entenderam é que a vitória táctica no Afeganistão,
alcançada com bombas, tornou-se um desastre estratégico no sul da
Ásia. Exacerbado pelo assassínio de Benazir Bhutto, a actual
tempestade no Paquistão tem as suas raízes contemporâneas
numa guerra tramada por Washington no Afeganistão vizinho que alienou os
pashtuns que habitam grande parte da longa área de fronteira entre os
dois países. Isto também é verdadeiro para a maior parte
dos paquistaneses, os quais, segundo inquéritos de opinião,
querem que o seu governo negocie uma paz regional, ao invés de
desempenhar um papel pré-escrito numa reapresentação do
Grande Jogo de Lord Curzon.
09/Novembro/2008
O original encontra-se em
http://www.johnpilger.com/page.asp?partid=470
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|