O pico petrolífero e os mercados financeiros:
Previsão para 2008 (actualizada em 31/Julho)
por Gail o Actuário
Em Janeiro último, fiz uma
previsão financeira para 2008
. Nesta mensagem, actualizarei a minha análise, examinando o que
aconteceu até agora em 2008 e refinando a previsão do que
provavelmente virá a seguir.
A maior parte das previsões são feitas predominantemente com base
na suposição do crescimento infinito, mas a análise feita
em Janeiro e agora actualizada mantém a suposição
subjacente das limitações de recursos, tal como as que
acompanharão o advento do pico petrolífero. Sob
limitações de recursos, os devedores provavelmente
encontrarão dificuldades em pagar empréstimos bancários,
pois os recursos tornam-se cada vez mais escassos. Em resultado disso, as
taxas de incumprimento provavelmente continuarão a aumentar.
Uma das questões que considero importante na minha previsão
é o risco sistémico. Isto se relaciona com a interconexão
do sistema, e prediz que se uma parte falha, outras partes provavelmente
também falharão. Muitos outros
artigos
mencionam esta questão, mas raramente tratam de todas as suas
ramificações.
Também considero o impacto do
viés sistémico,
o qual é diferente do
risco sistémico.
O viés sistémico
está mais estreitamente relacionado com a questão do esgotamento
de recursos, e o facto de que o crescimento infinito em última
análise não é possível.
Prestamistas, e aqueles que fazem seguros contra incumprimentos de
empréstimos, assumem que o futuro será em grande medida como o
passado. Se há problemas com incumprimentos de empréstimos,
é feita a suposição de que incumprimentos mais elevados
provavelmente serão temporários. Os modelos baseados nesta
suposição são defeituosos, pois a escassez de recursos
provavelmente vai ascender o preço de todos os tipos de produtos
energéticos e alimentares, ano após ano. Isto tenderá a
provocar progressivamente mais incumprimentos de empréstimos, porque as
pessoas terão cada vez menos dinheiro disponível para
reembolsá-los, depois de comprarem as necessidades básicas.
Pode-se esperar esta situação de mais incumprimentos progressivos
quando o mundo está no pico petrolífero; ela também pode
ser esperada antes do pico petrolífero, se os preços da energia
aumentarem ao longo de um período extenso porque a quantidade de
petróleo disponível não é suficiente para atender
à procura a um preço mais baixo. Esta parece ser a
posição em que temos estado recentemente.
É possível prever que o fracasso dos mercados financeiros em
reconhecerem o risco crescente de incumprimentos devido ao esgotamento de
recursos resulte num sub-apreçamento consistente do risco.
Indivíduos e instituições que possuem produtos financeiros
baseados na dívida provavelmente estão a sofrer enormes perdas,
ano após ano, pois ocorrem cada vez mais incumprimentos. Companhias de
seguros que cobrem este risco provavelmente estão entre as primeiras a
terem problemas, uma vez que os seus resultados financeiros estão
estreitamente ligados ao apreçamento adequado da carga de risco
subjacente aos empréstimos. Finalmente, o grande número de
empréstimos que nunca será pago é provável que
provoque um crash no já instável sistema financeiro.
Antecedentes
A minha
previsão de Janeiro
apresentava uma explicação
mais pormenorizada do risco sistemático e do risco sistémico. Eu
explicava que quando nos aproximamos do pico petrolífero, eventos que os
modeladores financeiros gostariam de pensar serem independentes, tais como
incumprimentos de empréstimos, tornam-se muito menos independentes. Eu
também explicava porque, com viés sistemático e risco
sistémico a tornarem-se mais relevantes devido ao esgotamento de
recursos, o valor previsional de modelos financeiros tais como o Capital Asset
Pricing Model e o Black and Scholes Option Pricing Model provavelmente
declinará. Também acrescentei pormenores sobre as razões
das minhas previsões.
Previsão para 2008
Vamos primeiro olhar para a previsão que fiz no princípio do ano.
Aqui está uma revisão ponto por ponto:
1- Muitas seguradoras monoline de títulos serão degradadas em
2008, e algumas podem fracassar.
Como observei na introdução, seguradoras que cobrem o risco do
incumprimento de dívida provavelmente estarão entre as primeiras
com resultados maus. Não surpreendentemente, tem havido muitas
deteriorações
(downgrades)
de companhias que cobrem este risco. Na continuação deste ano,
espero ver novas deteriorações e fracassos financeiros.
Também espero ver um efeito de propagação a outras
instituições financeiras (incluindo bancos, hedge funds, fundos
de pensão e companhias de seguros multi-line) porque elas terão
de assumir o risco que as seguradoras monoline estavam supostamente a segurar.
Pode-se esperar que parte do impacto das seguradoras fracassadas seja
súbito, quando bancos, seguradoras e outras instituições
falharem nos rácios regulamentares, e depararem-se elas próprias
com a necessidade de maior capital, ou necessidade de se desfazerem elas
próprias de certos títulos que não cumprem mais
padrões de investimento. Parte do impacto será mais gradual,
quando títulos anteriormente segurados entrarem em incumprimento, e a
falta de seguro afectar os possuidores dos títulos. O número de
incumprimento provavelmente será muito mais alto do que no passado,
porque títulos anteriormente "seguros", tais como
títulos municipais, serão afectados pelas quedas nos
preços das casas e o declínio das receitas fiscais.
Já houve várias deteriorações de seguradoras de
títulos, incluindo a MBIA Insurance Corporation, a
Ambac Assurance Corporation
e a
Financial Guaranty Insurance Corporation
. Dentre as seguradoras de hipotecas, a
PMI Mortgage Group
e a
MGIC
também tiveram as suas classificações reduzidas
Mike Stathis, no
Market Oracle
, indica que considera a Fannie Mae e o Freddie Mac como semelhantes a
seguradoras de títulos.
... grande parte da dívida vendida a instituições é
garantias pela Fannie e pelo Freddie, tornando-os semelhantes aos monolines
como o MBIA e o Ambac. Em conjunto, eles possuem US$1,4 milhão de
milhões retidos nas suas carteiras e eles garantiram mais de US$3
milhões de milhões do que poderia acabar por ser títulos
lixo. De modo que se pode pensar da Fannie e do Freddie como um híbrido
de seguradores de títulos como a MBIA e a AMBAC, juntament com a
Washington Mutual e a Countrywide.
A componente de garantia de seguro da Fannie e do Freddie tornam a
situação destas companhias muito pior do que se elas fossem
simplesmente possuidoras de títulos hipotecários.
2- Cada vez mais pessoas influentes nos mercados financeiros
começarão a reconhecer o pico petrolífero.
Quase toda a gente agora está consciente de que há alguma
espécie de problema com a oferta de petróleo, e que as suas
antigas suposições podem não se manter. A
Business Week,
por exemplo, recentemente publicou um
artigo
no qual questionava se a Arábia Saudita podia relançar a
produção para 12,5 milhões de barris por dia. Mesmo o
Economist
começa a mencionar o pico petrolífero, apresentando uma
entrevista com Matt Simmons
.
Neste momento, alguns líderes entendem o pico petrolífero, mas a
maioria está na "fase leve do pico petrolífero"
de que a oferta de petróleo é escassa em relação
à procura, e de que a situação não parece que
vá melhorar muito em breve. Mesmo com este limitado entendimento, os
prestamistas provavelmente ficarão mais cautelosos acerca da
concessão de crédito, uma vez que com a contínua alta de
preços os consumidores provavelmente terão menos dinheiro
disponível para o reembolso de dívidas. Se os prestamistas se
tornassem "astutos" quanto ao pico petrolífero, as
práticas de concessão de empréstimos provavelmente
tornar-se-iam ainda mais restritivas.
3- Empréstimos a longo prazo, incluindo aqueles para companhias de
energia, provavelmente ficarão menos disponíveis na medida em que
aumentar a consciência do pico petrolífero.
O Bank for International Settlements, no seu
relatório anual
, descreve os mercados financeiros mundiais como estando em
perturbação, com disponibilidade de crédito grandemente
reduzida.
Durante vários anos, os bancos foram capazes de revender
empréstimos por eles iniciados a partes terceiras, utilizando
títulos estruturados. Cerca de um ano atrás, o mercado
estado-unidense para títulos estruturados, outros além daqueles
garantidos pela Fannie Mae, pelo Freddie Mace ou pela Ginnie Mae,
começaram a deteriorar-se, como ilustra a Figura 2.
Sem o mercado de títulos estruturados, os bancos tornaram-se muito mais
cautelosos quanto a empréstimos a longo prazo, tais como
empréstimos para o imobiliário comercial e hipotecas residenciais
que forem maiores do que aquelas de que tratam a Fannie Mae e o Freddie Mac.
Hipotecas residenciais mais pequenas têm continuado a estar razoavelmente
disponíveis, mas só porque agências governamentais
proporcionaram um mercado. Nos primeiros três meses de 2008, mas de dois
terços das novas hipotecas foi comprada pela Fannie Mae ou pelo Freddie
Mac, conforme o
New York Times
. Se a Ginnie Mae (que concede empréstimos FHA e para Veteranos) fosse
incluída, a percentagem seriam ainda mais elevada.
Olhando as companhias de energia que estão a ser afectadas pelas actuais
rupturas financeiras, tem havido
artigos
acerca de pequenas firmas
petrolíferas afectadas pelo colapso do SemGroup. O SemGroup pediu a
bancarrota depois de perder US$2,4 mil milhões no mercado
petrolífero de futuros. Através da sua subsidiária
SemCrude, ele um dia recolheu 541 mil barris de petróleo de mais de 2000
operadores independentes em Oklahoma, Kansas e Texas. Com o seu fracasso,
muitos destes produtores não foram pagos pelo óleo já
despachado. Alguns dos produtores mais remotos estão agora a ficar sem
um mercado para o seu petróleo.
Este exemplo mostra como problemas financeiros podem afectar companhias de
energia. Se bem que eu não tenha visto um exemplo de dívida a
longo prazo, a tendência para o crédito quase assegura que
haverá companhias de energia que serão incapazes de fazer os
investimentos desejados devido à indisponibilidade de dívida a
longo prazo.
4- Haverá provavelmente uma séria recessão em 2008,
que se aprofundará à medida que o ano avançar.
De acordo com o árbitro oficial da recessão, o National Bureau of
Economic Research (NBER), os EUA ainda não estão em
recessão. A razão porque eles não acreditam que os EUA
estejam em recessão em parte pode ser devida à
temporização. A revisão do NBER baseia-se em
várias medidas e algumas não estão disponíveis de
imediato. Além disso, segundo o presidente do Council of Economic
Advisors (CEA), o PIB real não está a declinar. Isto pode
reflectir uma medição errada da inflação.
A
análise do CEA
utiliza uma estimativa de inflação que
parece bastante baixa uma taxa anual de 2,4% no quarto trimestre de 2007
e de 2,7% no primeiro trimestre de 2008. Se a taxa de inflação
fosse mesmo um pouco mais elevada do que isto, o país tem estado numa
recessão por algum tempo. A razão porque a taxa de
inflação é importante neste cálculo é que o
produto interno bruto é estimado primeiro em dólares correntes, e
a seguir é aplicado um ajustamento inflacionário para calcular o
produto interno bruto "real". Se o ajustamento inflacionário
for demasiado baixo, isto tenderá a fazer com que o país
pareça não estar em recessão, quando realmente está.
Quer o NBER diga ou não que os Estados Unidos estão em
recessão, muitos economistas acreditam que ou já estão
numa recessão ou estarão em breve. Quando o
USA Today
inquiriu
52 economistas em Abril de 2008, descobriu que dois terços
sentiam que os EUA já estavam numa recessão, e 79% acreditavam
que era provável uma recessão pelo fim do ano.
Continuo a acreditar que já estamos numa recessão, e que a
recessão ficará pior à medida que o ano avance.
5- Pelo menos vários grandes bancos falharão.
Neste momento, o IndyMac fracassou, e
espera-se
que utilize até 15% dos
fundos do FDIC. O banco de investimento Bear Stearns entrou em dificuldades
financeiras e foi vendido ao JP Morgan Chase a um preço de saldo.
O
Wall Street Journal
relatou
que o FDIC está a aumentar pessoal para um
número acrescido de fracassos bancários. Estimativas do
número provável de fracassos bancários vão de
90
a
mais de 300
.
A SEC
declarou
recentemente: "Existe agora uma ameaça substancial
de flutuações súbitas e excessivas de preços de
títulos em geral" que poderiam afectar a ordem dos mercados.
Devido a este risco, a actividade de
short sale
[1]
está a ser restringida a uma lista de 19 grandes
instituições financeiras. Esta lista inclui muitos bancos
extremamente grandes, incluindo o Bank of America, Citigroup e Deutsche Bank.
Algumas pessoas devem acreditar que há um risco de estas
instituições fracassarem, se o preço das suas
acções cair rapidamente e os investidores quiserem vender
(to short)
suas acções.
6- O montante de dívida disponível para os consumidores
provavelmente declinará.
Segundo um
artigo
de 06/Maio/2008 do
Wall Street Journal:
O inquérito do Federal Reserve junto a responsáveis dos bancos
pelos empréstimos, uma das medidas mais observadas das práticas
prestamistas, revelou que o esmagamento do crédito está a
aprofundar-se. A proporção de bancos internos a endurecerem os
seus padrões estava na ou quase alturas históricas para quase
todas as categorias de empréstimos, incluindo cartões de
crédito e empréstimos a estudantes.
Segundo aquele artigo, 55% dos bancos que participaram no programa federal de
empréstimos a estudantes estão a planear reduzir seus
empréstimos no fim de 2008. Os bancos estão a aumentar as
exigências de pontuação creditícia e a reduzir os
limites disponíveis nas dívidas dos cartões de
crédito. O inquérito mostrou que 70% dos bancos aumentou os
padrões para linhas de crédito habitacional nos três meses
anteriores.
7- A Fannie Mae e o Freddie Mac podem precisar de assistência do governo.
Os problemas financeiros da Fannie Mae e do Freddie Mac tem estado nos
noticiários ultimamente. Foi aprovada
legislação
que estabeleceria um novo regulador, e proporcionaria um plano de resgate
temporário.
8- Uma nova classe de casas aquelas que "nunca serão
vendidas" emergirá.
O
Wall Street Journal
refere-se a um
excesso de casas não vendidas
, devido a um enfraquecimento do mercado habitacional. Cada vez mais casas
estão a ser arrestadas, pois os proprietários descobrem que as
mesmas não são mais comportáveis, e o valor de mercado das
casas é menor do que o montante hipotecado.
As casas arrestadas muitas vezes ficam vagas por longos períodos de
tempo. Por vezes elas são
vandalizadas
e saqueadas da sua tubagem de cobre e sucata de metal. Cleveland agora tem
uma
subvenção
que permitirá renovar 50 casas arrestadas e demolir outras 100.
9- Os políticos continuarão a fazer tentativas de ajudar
proprietários de casas e talvez outros tipos de tomadores de
empréstimos.
A legislação federal sob o título
American Housing Rescue and Foreclosure Prevention Act of 2008
estagnou no Congresso dos EUA durante
meses, e foi finalmente aprovada na semana passada, quando os problemas da
Fannie Mae e do Freddie Mac tornaram-se evidentes, e a assistência a eles
foi acrescentada à legislação. Antes disso, cerca de 20
estados
lançaram intervenções
nos arrestos ou iniciativas de prevenção.
10- O montante da dívida estruturada (esfatiada e reordenada
aleatoriamente) emitida é provável que caia para perto de zero.
O montante da nova dívida estruturada vendida nos últimos
trimestres, outra além da garantida pela Fannie Mae, Freddie Mac e
Ginnie Mae, declinou em mais de 90%. Ver Figura 2 (gráfico acima).
Os títulos estruturados continuam a ser utilizados para
habitação, mas quase inteiramente com dívida garantida por
agência. Nos últimos dias foi feita uma proposta para os bancos
oferecem títulos com cobertura como uma opção adicional
para hipotecas subscritas. Com títulos com cobertura, os investidores
teriam recurso aos balanços dos bancos, além dos activos
subjacentes. Não é claro que isto venha a ser muito utilizado,
devido às actuais restrições do FDIC à sua
utilização, de modo a não esgotar activos que apoiam os
depositantes comuns.
11- Além dos bancos, muitos outros actores nos mercados financeiros
provavelmente irão encontrar-se em dificuldades financeiras em 2008.
Uma das grandes questões que qualquer organização
possuidora de títulos financeiros enfrenta é como avaliar
correctamente aqueles títulos. Isto é uma questão
sobretudo para títulos estruturados. Em 28 de Julho, a Merrill Lynch
vendeu US$30,6 mil milhões
de obrigações de dívida
colaterizadas (CDOs) por apenas 22 por cento do seu valor facial. Agora que
esta venda foi efectuada, outras organizações terão um
valor real para assinalar títulos semelhantes, e isto é
provável que resulte em muitas outras reduções do valor
contabilístico.
Segundo o artigo da Timesonline citado acima, a Egan Jones Ratings Company
(EJRC) acredita que a Fannie Mae e o Freddie Mac serão forçados a
reduções conjuntas de US$100 mil milhões, devido a esta
nova avaliação. No total, para todas as
instituições financeiras, Sean Egan da EJRC acredita que as
reduções contabilísticas relacionadas com esta nova
avaliação podem totalizar US$400 mil milhões.
Antes da venda da Merrill Lynch, o American International Group, uma grande
seguradora, estava nos
noticiários
devido às suas grandes perdas
de investimentos, relacionadas com a avaliação de títulos.
O preço da sua acção caiu 64%, e sua
classificações foram degradadas.
12- O valor do dólar cairá em relação a algumas
divisas, levando a que o preço relativo do preço aumente.
O valor do dólar tem continuado a cair em relação a um
conjunto de divisas ponderadas, ao passo que o Euro e o Yen estão mais
elevados.
13- O mercado de acções provavelmente declinará durante o
ano de 2008.
A tendência geral do mercado de acções tem estado baixa. O
Dow Jones industrial médio baixou 13% desde o princípio do ano;
o índice S&P 500 baixou 14% desde o princípio do ano. Ambos os
índices recentemente baixaram mais de 20% em relação
às suas alturas em 2007, colocando-os dentro do "território
da baixa"
("bear territory").
14- Os preços para alimentos e produtos energéticos provavelmente
ascenderão em 2008. Os preços podem declinar para casas, bens
não essenciais e serviços.
O preço do petróleo bruto West Texas Intermediate (WTI) subiu 45%
desde o princípio do ano. O preço da gasolina subiu 35% desde do
princípio do ano. Dados recente do Índice de Preços no
Consumidor mostram subidas nos preços das mercearias de 6,1% em
relação a um ano atrás. Os preços alimentares em
todo o mundo têm estado a
aumentar rapidamente
, e muitos dos países mais pobres estão preocupados quanto
à segurança alimentar.
15- Há um risco de que algum tipo de descontinuidade fará as
condições financeiras darem subitamente uma reviravolta para o
pior.
No meu artigo anterior escrevi:
Será que as "rodas vão soltar-se da economia"?
Realmente não sei.
Naquela altura fiz umas poucas considerações que poderiam impedir
uma ruptura séria em 2008. Elas incluíam a força
subjacente da economia, a capacidade dos reguladores para mudarem regras, o
facto de o Congresso estar provavelmente a avançar com algum plano de
salvação proposto, e o facto de grande parte do problema é
um problema de balanço, o qual pode ser possível esconder por
algum tempo mais.
Desde Janeiro, os acontecimentos que transpiraram tenderam a tornar-me mais
pessimista.
Uma das questões que vejo é que o Congresso não
está inclinado a fazer muito, e o que ele faz parece actuar na
direcção do aumento do défice. O Congresso parece
desejoso de aprovar legislação que distribuirá mais
dólares às pessoas (como na legislação de
estímulo e na legislação da habitação), ou a
elevar a quantia da concessão de empréstimos às pessoas
(como no novo teto de US$625 mil nos empréstimos da Fannie e do
Freddie). Ele não parece estar desejoso de elevar impostos em
dólares em paralelo com todos os novos compromissos. Pode-se esperar
que os gastos mais elevados a par da falta de vontade de aumentar impostos
torne mais difícil financiar a dívida do governo, e provavelmente
conduzirá a um aumento nas taxas de juros.
Uma segunda questão é a natureza limitada dos vários
fundos de seguros que asseguram contra insolvências de bancos, fundos de
pensão e companhias de seguros (incluindo FDIC, FSLI, PBGC e fundos de
seguros estaduais para o seguro de companhias). Estes fundos de seguros
geralmente têm um pequeno fundo para manusear insolvências, e algum
mecanismo para avaliar a solvência de entidades no grupo se um dos
membros falhar. Em alguns casos, o financiamento adicional é cumprido
pelo aumento dos prémios de seguros pagáveis no ano seguinte para
as entidades solventes restantes.
Esta abordagem de financiamento funciona e houver apenas uma pequena
insolvência ocasional, mas não seu houver uma avalanche de
insolvências, todas elas decorrentes da mesma causa primária
(preços mais altos do petróleo, levando a preços mais
altos da energia e dos alimentos, provocando incumprimentos em muitas
áreas). Isto significa que houver um grande número de
insolvências, haverá a necessidade de alguma iniciativa
governamental para apoiar todas estas organizações, ao
invés de apenas os fundos de seguros.
Uma terceira questão é a aparente inflexibilidade do nosso
sistema de pipelines para a distribuição de produtos refinados de
petróleo. Tal como entendo isto, precisamos ter uma certa quantidade de
refinados de petróleo nos pipelines para mantê-los cheios. Se
tivermos muito pouco, os pipelines cairão abaixo do "nível
mínimo operacional" e teremos dificuldade em obter produtos
petrolíferos nos terminais dos pipelines. Isto não é
realmente uma possibilidade remota já incidimos neste problema em
várias partes da América do Norte nos últimos anos,
incluindo o Dakota do Norte, Colorado e Canadá.
Parece-me que à medida que a quantidade de petróleo que estamos a
utilizar diminui, a nossa vulnerabilidade a interrupções
provocadas pela queda do petróleo disponível abaixo do
nível operacional aumenta. Algumas possíveis fontes de
interrupção incluem um grande furacão; os EUA não
serem capazes de comparar bastante petróleo devido a uma queda no valor
do dólar; e a recusa da OPEP a vender-nos óleo. Pareceria como
se uma interrupção pudesse ter efeitos encadeados partes
do país podem ser deixadas sem quaisquer produtos petrolíferos
(gasolina, gasóleo ou jet-fuel) por um extenso período de tempo,
porque todos os produtos refinados são despachados no mesmo pipeline,
com espaçadores entre eles. Não acredito que tenhamos
suficientes camiões e barcaças de reserva para impedir as
rupturas de abastecimento de acontecerem.
Olhando adiante
À medida que avançarmos, antevejo que haverá cada vez mais
indivíduos, negócios e governos que serão incapazes de
reembolsar a sua dívida, por causa dos impactos indirectos dos
preços mais elevados do petróleo a fluírem através
da economia. Finalmente, o governo dos EUA terá de tomar uma
decisão quanto ao que fazer acerca destes incumprimentos. A
opções mais óbvias parecem ser:
(1) Apoiá-las até o possível
(2) Deixar acontecer o que tiver de acontecer.
Qualquer das duas parece ter potencial para levar a rupturas sérias. Se
a abordagem "apoiá-las até o possível" for
utilizada, isto teoricamente poderia conduzir a uma taxa de
inflação mais alta, taxas de juros mais altas e a uma queda
severa no dólar. Eu esperaria que importações de todas as
espécies caíssem, incluindo importações de
petróleo. Isto poderia levar partes do país a perderem os
combustíveis líquidos porque a estrutura de pipelines não
pode distribuir uma quantidade muito mais pequena de combustível. O
declínio nas outras importações além do
petróleo também poderia ser um grande problema porque
manufacturamos pouco nós próprios.
Se a abordagem "deixar acontecer o que tiver de acontecer" for
seguida, é possível que as bancarrotas caiam como uma cascata
através do sistema. Se há fundos inadequados no FDIC e FSLIC, e
for simplesmente permitido aos bancos entrarem em falência, isto teria
consequências muito negativas. Pode-se pensar de um bocado de outras
organizações que precisariam de apoio estados com muitas
dívidas, como a Califórnia; a Fannie Mae e o Freddie Mac;
fabricantes de automóveis; companhias de aviação;
terminais de gás natural liquefeito (LNG); refinarias independentes de
petróleo; e fundos de pensão, para mencionar apenas umas poucas.
Deixar qualquer das organizações importantes fracassar
provavelmente levaria a que mais proprietários de casa deixassem de
cumprir suas hipotecas e isto dispararia ainda mais bancarrotas. Neste
cenário, nossas importações provavelmente também
cairiam, porque pessoas e negócios não terão os fundos
para comprá-los. Isto poderia levar-nos de volta ao problema dos
pipelines abaixo do nível mínimo operacional.
Quanto disto acontecerá nos próximos dois trimestres? Eu
não sei. É provável que Ben Bernanke e Henry Paulson
tenham algumas ideias que eu não tenha pensado, e haja um caminho para
sair desta difícil situação. Não tenho todas as
respostas. O resto de 2008 provavelmentevai vai ser interessante.
01/Agosto/2008
NT
[1] Short sale: Venda de títulos não pertencentes ao vendedor
(com a intenção de comprá-los outra vez depois de o
preço cair).
O original encontra-se em
http://www.theoildrum.com/node/4303#more
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
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