O combóio da náusea
No mundo do G7, o clube dos países ocidentais "desenvolvidos"
mais o Japão, começou o tormento pois subitamente
acordou muito mais pobre. Todas as desesperadas soluções
alternativas que estão a ser pensadas por governos e bancos centrais
destinam-se a ultrapassar este facto espantoso, e nenhuma delas
funcionará. As referências de tudo estão em
mutação acções, valores de títulos e
de rendimentos, preços de commodities, ainda mais especialmente divisas
mas isto tende a disfarçar o facto básico do
empobrecimento crescente e cada vez mais generalizado. Está o
preço do petróleo nos US$80 na manhã de hoje?
Óptimo. Excepto se a companhia que o emprega estiver prestes a encerrar
e você enfrentar um período de férias forçadas a
conduzir freneticamente em torno de Atlanta à procura de outro emprego,
com poucas probabilidades de encontrar. Ou se estiver a viver de um fundo de
pensões de reforma que acaba de perder 37 por cento do seu valor e
estiver na hora de reabastecer o reservatório do óleo de
aquecimento.
Quanto a isto, a Islândia é o caso típico do dia. Na
pequena nação ilha com cerca de 320 mil almas brotou um sector
bancário que fez prosperar as finanças do
alguma-coisa-em-troca-de-nada. Em pouco mais de um mês, seus bancos
implodiram como mini-estrelas mortas, deixando a Islândia com uma divisa
pária. Como o país tem de importar quase tudo, as pessoas
estão a esvaziar as mercearias de qualquer coisa que ainda exista nelas.
É de se perguntar o que farão eles daqui a duas semanas. Daqui
a dez anos talvez uns 32 mil habitantes possam ter abandonado o país,
que estará a subsistir com sanduíches de gordura de baleia.
Talvez eu exagere um pouco, mas quem realmente sabe para onde vai tudo isto?
Aqui nos EUA, o Tesouro, desfrutando novos poderes para fazer gastos
discricionários aparentemente sem limites, começou a carregar
dólares às pazadas em qualquer camião que acoste no seu
cais. Os números são estarrecedores. A maior parte deste
dinheiro está a ser sugada directamente pelo buraco negro da
dívida e das
margin calls
de diferentes espécies. Esta é a riqueza anteriormente
presumida e que agora tem de ser despresumida. Ele está a deixar o
sistema, para nunca mais ser visto. Um modo prático de pensar acerca
disto é encarar os empréstimos anteriores da nossa sociedade como
tomadas contra o nosso próprio futuro. Portanto, estamos a ver o nosso
futuro desvanecer-se num buraco negro nosso futuro conforto,
saúde e alimentação básica.
Esta é a espécie de fiasco que deita governos abaixo, impele
sociedades a revoluções e principia guerras. Dentro de uns
poucos meses a América estará cheia de irados perdedores
económicos. Já não somos a mesma nação que
se apinhava em torno de antigos aparelhos de rádio para ouvir as
conversas de Franklin Roosevelt junto à lareira. Remontando a esse
tempo, éramos sobretudo uma sociedade industrial altamente disciplinada,
arregimentada, cheia de cidadãos que faziam o que lhes era dito para
fazer, e sobretudo confiavam na autoridade. Hoje, somos uma
nação de bárbaros tatuados, "consumidores" sem
controle dos seus impulsos, com um sentido de cobiça avassalador,
dirigida por um naipe de autoridades que vão desde um G W Bush ao
panteão de jogadores-bilionários presidentes da Wall Street
agora a encaminharem-se para bunkers secretos com os seus krugerrandes
[1]
acumulados, vitela à milanesa congelada e esquadrões de
segurança privada armados com carabinas XM-8.
Estou de acordo com a ideia de Nassim Nicholas Taleb ler
The Black Swan
(2007) de que ninguém realmente sabe alguma coisa.
Construímos as nossas narrativas a fim de tentar explicar
circunstâncias que estão a desenrolar-se não linearmente
diante de nós, e algumas narrativas são mais plausíveis do
que outras, dependendo do seu ponto de vista. Há infinitas narrativas.
Esta é apenas a minha. As circunstâncias em que estamos a entrar
parecem, por enquanto, tomar a forma de uma depressão
deflacionária esmagadora tendo no topo, para culminar, a cereja de uma
hiper-inflação significando que inicialmente perdem-se
empregos, rendimentos e pensões, mas que posteriormente até mesmo
o pouco dinheiro que as pessoas conseguiram guardar talvez sobretudo de
esmolas do governo de uma espécie ou de outra perde
constantemente o seu valor. Seja qual for a maneira como misture as coisas,
apenas se chega ao mesmo significado: uma sociedade mais pobre. Certamente
não será uma sociedade de compradores recreativos, gente que vai
andar pelos corredores das lojas Target à procura de velas de cheiro e
enfeites para o lar. A hiper-inflação poderia tornar
dívidas antigas sem significado, mas ela também tornaria o
crédito sem significado e as despesas absurdas.
Dada a forma como a nossa sociedade evoluiu e está a operar como uma
infindável espiral ascendente de tomadas de empréstimos
já se pode ver como um terrível conjunto de coisas já
não funciona, e como um terrível conjunto de pessoas já
não trabalha nelas ou para elas. Talvez os governos do G7 consigam
efectuar empréstimos aos níveis mais elevados, mas quem
exactamente é capaz de tomar empréstimos além de
companhias agora à beira da bancarrota e por que continuar a
emprestar-lhes? (Excepto para manter a pretensão de que "alguma coisa
está a ser feita".) Além disso, há demasiado
dinheiro tomado emprestado anteriormente que não será
reembolsado, e o "resultado" de toda aquela dívida implica
apenas a contínua aflição para vender todo e qualquer
activo de modo que os EUA tornam-se com efeito um país feira da
ladra.
Pessoalmente, penso que toda a reengenharia no mundo dos números e dos
índices não resolverá seja o que for, e realmente
representa apenas uma espécie de neurose obsessiva-compulsiva
relacionada com a numerologia que nada fará para reajustar nossas
actividades diárias rumo à produção de coisas que
tenham valor real e duradouro. Na minha narrativa, o destino dos países
industriais depende realmente dos recursos energéticos. O preço
do petróleo pode estar baixo neste momento talvez devido ao
desalavancamento dos
hedge funds,
bancos e investidores individuais, possivelmente combinado com uma
percepção de "destruição da procura"
mas a geologia e a geopolítica do petróleo não
mudou desde Junho último quando o barril estava a US$147. Suponhamos
que o consumo de petróleo nos EUA baixe um milhão de barris por
dia. Dentro dos próximos dois anos, seremos capazes de perder mais do
que aquilo que declinam nossas importações só do
México e da Venezuela. A estimativa mais recente da Agência
Internacional de Energia é de um aumento da procura mundial apenas
ligeiramente menor do que a estimativa anterior. Ainda assim, há um
aumento líquido da procura. O consumo mundial de petróleo ainda
excede a produção mundial neste momento, talvez de forma
permanente. Finalmente, o actual mergulho dos preços do petróleo
subitamente suspendeu os empreendimentos muito custosos na
exploração e desenvolvimento que se esperava virem a aumentar a
oferta mundial de petróleo. Tudo isto anuncia um agravamento da oferta
de petróleo e problemas de distribuição nos
próximos cinco anos, e em última análise petróleo
muito mais caro e mais difícil de obter.
O que não podemos defrontar é a perspective de que podemos
tornar-nos algo diferente de uma sociedade industrial de
"consumidores". Minha narrativa inclui a convicção de
que teremos perturbações na produção de alimentos
para nós próprios quando a petro-agricultura fracassar, e uma vez
que a sociedade não pode andar sem produção de comida,
vejo esta actividade voltar outra vez a estar muito mais próxima do
centro das nossas vidas diárias. Não estamos prontos para pensar
acerca disso. O aspecto negativo da nossa não prontidão é
a possibilidade de um bocado de americanos passar fome na próxima
década.
A propósito, nada disto é um argumento para desespero, mas
certamente constitui um apelo à necessidade de rever drasticamente as
expectativas e de dar atenção séria à lista
nacional de coisas "a fazer". Estamos a caminho de nos tornarmos um
outro país, quer gostemos disso ou não. Nenhuma quantidade de
augúrios numerológicos ou mesmo sentimentos de culpa irá
mudar a situação. A grande questão para, digamos, os
próximos 24 meses é: quão desordeiramente
permitiremos
que se efectue esta transição?
13/Outubro/2008
[1] Krugerrand: Moeda de ouro emitida pela África do Sul com o peso de 1
onça-troy (31,103 gr).
[*]
Novo romance do autor sobre o futuro pós-petróleo:
World Made by Hand
.
O original encontra-se em
jameshowardkunstler.typepad.com/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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