O que M. King Hubbert poderia dizer hoje

por Steve Andrews [*]

"Nossa ignorância não é tão vasta quanto o nosso fracasso em utilizar o que sabemos".
M. King Hubbert

M. King Hubbert, 1803-1989. Vinte anos atrás, entrevistei Marion King Hubbert na sua casa em Chevy Chase, Maryland. Hubbert era um homem brilhante e de opiniões firmes. Se ele fosse vivo não há dúvida que estaria fascinado pela quadruplicação dos preços do petróleo e pela discussão cada vez mais vigorosa acerca do Pico Petrolífero. Nesta coluna, procurarei ter a minha melhor pontaria para resumir o que Hubbert poderia ter dito hoje acerca dos desenvolvimentos recentes na indústria do petróleo. As suas observações naquela antiga entrevista estão em itálico.

1. Manteria a condenação do USGS

Para mim não há dúvida de que o relatório optimista de 2000 do USGS sobre os recursos petrolíferos mundiais estaria hoje no topo da agenda de Hubbert. A sua frustração teria nascido da sua experiência durante as décadas de 1960 e 1970, quando o USGS emitiu um certo número de previsões super-optimistas. Se bem que Hubbert precisaria de um curso rápido quanto às novas ferramentas de computação e à terminologia de avaliação de recursos, uma vez capacitado, suspeito que ele teria criticado o relatório de 2000 do USGS. Citações da entrevista de 1988:

O U.S. Geological Survey — Vincent McKelvey en particular — sempre apregoou uma estimativa de recursos finais em torno de 600 mil milhões de barris de petróleo bruto para os 48 estados "lower" [1] . Uma vez que o USGS é altamente respeitado, estes números equivocados foram tomados seriamente no Congresso. A indústria não os entendeu exactamente assim, mas o governo sim.

No princípio dos anos 1960 previ que os EUA atingiriam o pico dentro em breve, dentro de menos de 10 anos, e o Geologicas Survey estava a prever que ele ocorreria em cerca de 40 anos. De modo que, disse eu, "vamos esperar e ver o que acontece". Como se verificou, o USGS enganou o governo durante 15 anos [até 1977].

2. Criticando previsões irracionalmente optimistas:

Como se sentiria Hubbert quanto às previsão do U.S. Energy Information Administration (EIA) de um um pico global entre 2036 e 2043? Suspeito que ele estaria a ralhar com o EIA em público.

Na sua previsão, após o pico da produção, a EIA projecta uma taxa de declínio aguda (10% ao ano). Com base na sua declaração abaixo, Hubbert seria favorável a um declínio mais suave, semelhante àquele desenhado pela EIA em 2000, mostrando um pico em 2016 com uma taxa de declínio anual muito mais lenta (cerca de 2% ao ano). "Após a corcova, a produção não pode cair agudamente, ela vai declinar gradualmente porque é assim que você descobre petróleo. Você não o encontra todo de uma vez e você não o produz todo de uma vez. Ele extingue-se gradualmente". O ponto chave aqui: uma vez que a taxa de declínio caísse àquela velocidade, Hubbert insistiria que o pico teria de vir décadas antes do que se prevê actualmente.

O que acharia de optimistas, como Daniel Yergin e o Cambridge Energy Research Associates? Considere-se o pensamento de Hubbert aqui: "Depois de o meu estudo ter sido publicado, houve dois campos de pensamento. A primeira reacção foi 'aquele sujeito deve estar louco'. Isto violava o seu julgamento intuitivo. Mas quando algum dos cépticos arrependeram-se e deram uma olhadela à minha estimativa do final do petróleo, eles acharam que ela caía dentro da amplitude das suas estimativas, tornando a conclusão de um pico próximo na produção dos EUA não apenas provável como também inevitável. Mas outros consideraram a minha conclusão tão horrenda que não puderam aceitá-la". Ele provavelmente colocaria o CERA neste último campo.

3. O solar e o caminho da eficiência:

Uma das famosas apresentações de Hubbert, mostrada 52 anos atrás a uma audiência dos seus pares, foi denominada "Energia nuclear e combustíveis fósseis". Naquele tempo, ele antecipou que a energia nuclear avançaria para substituir a futura produção declinante de petróleo. Posteriormente, ele viu demasiados problemas no nuclear e começou a promover, ao invés, a energia solar.

"Fôssemos nós uma sociedade racional, uma virtude de que raramente fomos acusados, faríamos isto e aquilo...", sugeriu Hubbert. Ele acreditava que deveríamos economizar nossos abastecimentos minguantes de petróleo e gás – complementados por importações enquanto elas estiverem disponíveis – e instituir um programa comparável ao da indústria nuclear das décadas de 1940, 50 e 60 destinado à conversão para a energia solar. Ele compreendia que o tempo era um recurso precioso e fugaz. "Ainda temos grande flexibilidade, mas o nosso espaço de manobra diminuirá com o tempo".

4. Desafio à Shell para que confessasse:

Hubbert gostava de dizer a verdade ao poder. Antes da sua famosa apresentação de 1956, responsáveis da Shell estiveram a torcer o braço de Hubbert até ao último minuto a fim de que alterasse a sua mensagem. Logo a seguir: "Esta coisa chegou ao New York Times e alguns responsáveis na Shell foram além do que imaginava. Eles tiveram uma reacção louca. As coisas ficaram muito intensas durante umas poucas semanas dentro da Shell. Mas quando eles tiveram tempo para estudar o documento descobriram que não podiam refutá-lo".

Finalmente a Shell restabeleceu-se. Hubbert continuou a efectuar palestras em cursos de um mês na escola de treinamento de executivos de Arden House para quadros promovidos e recém admitidos. "Tenho uma carta que recebi nos anos 1980, escrita por um vice-presidente da Shell que desejavam alguma informação para uma palestra que ele tinha de dar. Ele estivera num destes grupos da Arden House e disse que me considerava o geólogo mais pessimista que alguma vez tinha ouvido... e agora comentava sobre quão certo eu estava".

Agora chegamos a 2008, e o Presidente Executivo Chefe da Royal/Dutch Shell, Jeroen van der Veer, escreve à sua equipe que a produção de petróleo convencional está prestes a tingir o pico, que a procura mundial por petróleo e gás ultrapassará a oferta dentro de sete anos. Mas neste país, o presidente local da Shell, John Hofmeister, disparou uma salva de tiros na semana passada a fim de desacreditar o conceito de Pico Petrolífero. Hubbert seria favorável à visão da Shell Europa quanto ao futuro que se revela e mandaria Hofmeister estudar.

5. Tratamento pouco suave de candidatos presidenciais:

Sobre os candidatos presidenciais de 1988, ele opinava com firmeza: "Eles são ignorantes, não sabem nada sobre energia. Toda essa safra, com a excepção do [governador Bruce] Babbitt, é um cacho de asnos ignorantes. Eles não têm nenhuma ideia do estado do país em relação aos recursos energéticos". Imagine simplesmente o que Hubbert diria acerca da recente promoção de candidatos presidenciais ao lobby do etanol de Iowa. Não seria bonito.

6. Crescimento como um problema cultural:

"Estamos a tratar de um problema cultural. Não tivemos nada senão crescimento exponencial ao longo de 200 anos. Durante este período desenvolvemos uma cultura de crescimento exponencial. Os políticos estão sempre a tentar manter o nosso crescimento. Se pudéssemos mantê-lo, ele nos destruiria".

[1] Não considera os estados do Alasca e Hawai.

[*] Analista de energia e co-fundador da ASPO-USA .

  • Ver também http://www.hubbertpeak.com/hubbert/

    O original encontra-se no boletim Peak Oil Review, nº 12, 24/Março/2008


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 27/Mar/08