A ironia das sanções contra a Rússia

Prabhat Patnaik [*]

Cartoon 'Ingratidão'.

Os malabarismos que o imperialismo americano tem de fazer para manter a sua hegemonia tornam-se mais bizarros a cada dia que passa. Primeiro, continuou a picar a Rússia ("provocando o urso") "em nome da aliança ocidental", expandindo a NATO até às suas próprias fronteiras, sabendo muito bem que a adesão da Ucrânia à NATO seria totalmente inaceitável para a Rússia. O seu objectivo era impedir que a Rússia e a Europa Ocidental se aproximassem, o que teria ocorrido devido à dependência da segunda em relação à primeira no que respeita à energia. Relata-se mesmo que para manter as hostilidades entre a Rússia e a Ucrânia, sabotou um acordo entre as duas, que fora testemunhado pela França e pela Alemanha [NT]. Quando este confronto acabou por levar a Rússia a invadir a Ucrânia, impôs sanções económicas à Rússia, para que este país não pudesse ter acesso às suas próprias receitas em dólares obtidas com as exportações. Mas não impôs sanções à importação de petróleo e gás da Rússia (excepto para os próprios Estados Unidos, onde essa importação satisfaz cerca de 8% do total das necessidades energéticas); a razão é que até 40% das necessidades energéticas da União Europeia são satisfeitas através de importações da Rússia, e as sanções contra o petróleo russo teriam atingido duramente a população europeia, levando a uma possível ruptura da "aliança ocidental".

Mas não impor sanções à importação de petróleo, do qual a Rússia é um grande produtor e exportador, exportando cerca de 5 milhões de barris por dia, tem o efeito de tornar estas sanções algo desdentadas. Afinal de contas, de que serve impor sanções com o objectivo de pôr um país de joelhos se o seu item de exportação mais importante não for abrangido pelo âmbito das sanções? Assim, agora os EUA estão ocupados a tentar que outros produtores de petróleo aumentem a sua produção e exportações, para que se crie uma situação em que o mundo se possa desenvencilhar sem petróleo russo. Está a pressionar a Arábia Saudita a aumentar a sua produção petrolífera; além disso, está também a falar com o Irão e a Venezuela, para vender mais petróleo no mercado internacional, para que o mundo não sinta falta do petróleo russo.

O Irão e a Venezuela foram os dois países contra os quais os EUA impuseram, e ainda hoje impõem, sanções severas que prejudicaram severamente as suas economias, lhes negaram medicamentos essenciais, causando a morte de milhares de pessoas, incluindo crianças. De facto, o seu "regime de sanções" foi ensaiado pela primeira vez contra estes dois países antes de ser utilizado contra a Rússia. Mas tal é a ironia da situação que agora os EUA se aproximam destes mesmos países com ramos de oliveira para os fazer produzir e exportar mais, para que o maior inimigo do momento, a Rússia, seja devidamente humilhado.

A hostilidade americana contra o regime "bolivariano" da Venezuela foi tão grande que ainda hoje tenta derrubar este regime, promovendo um pretendente, Juan Guaidó, no lugar do presidente eleito, Nicholas Maduro. Os EUA e os seus parceiros de aliança não só reconheceram Guaidó como presidente da Venezuela, como também têm pressionado todos os outros países a seguir o exemplo. Mas quando se tratava de negociar a produção de petróleo, não foi ter com o seu protegido Guaido, cujo mandato não tem qualquer validade; em vez disso, foi para onde sabe que o poder está realmente na Venezuela, o governo de Maduro. E o governo de Maduro colocou, muito justamente, uma condição perante a administração dos EUA: tem de reconhecer o governo de Maduro se quiser obter algum petróleo da Venezuela. O imperialismo está assim tramado devido às suas próprias maquinações. Safar-se desta situação não será fácil.

Contra o Irão foram impostas sanções com intensidade variável, durante muito tempo. Foram impostas pela primeira vez em 1979 devido à crise dos reféns; em 1981, quando os reféns foram libertados, estas sanções foram levantadas, mas foram reinstauradas pelos EUA em 1984 e reforçadas em 1987 e 1995. As Nações Unidas impuseram sanções contra o Irão em 2006 devido ao programa nuclear daquele país, mas estas foram levantadas em 2016, quando o acordo nuclear iraniano foi negociado. Contudo, em 2019, os EUA sob Donald Trump retiraram-se unilateralmente do acordo nuclear e reinstauraram sanções contra o Irão. Joe Biden, depois de se ter tornado presidente, anunciou em Fevereiro de 2021 que as sanções contra o Irão continuariam sob a sua presidência. É especialmente irónico neste contexto que a mesma administração Biden esteja agora a falar com o Irão como um meio de isolar a Rússia.

Tanto a Venezuela como o Irão sofreram com as sanções devido à redução das exportações de petróleo. O Irão manteve durante algum tempo a sua produção de petróleo e armazenou dentro do país o petróleo que não podia exportar, pois reabrir poços de petróleo se estes forem fechados devido a cortes de produção, é difícil e caro. Mas ultimamente parece que a sua produção de petróleo também diminuiu, tal como a produção de petróleo da Venezuela.

Mesmo que o Irão e a Venezuela concordem em aumentar as suas exportações de petróleo em resposta às exigências dos EUA, dois problemas continuarão a existir quando se tratar da substituição da Rússia como fornecedor de petróleo. Primeiro, a quantidade de petróleo que estes países podem exportar ainda não será suficientemente grande para substituir as exportações russas. A produção petrolífera do Irão diminuiu quase para a metade em relação ao nível anterior às sanções que era cerca de 4 milhões de barris por dia. E a produção da Venezuela desceu para apenas cerca de 1 milhão de barris por dia a partir do pico de 4 milhões anterior às sanções, as quais foram elas próprias responsáveis pela perda de produção naquele país. A recuperação da produção de níveis tão reduzidos em ambos os países não será fácil e não será suficiente para substituir as exportações petrolíferas russas de cerca de 5 milhões de barris por dia. Em segundo lugar, e mais importante, o preço a que o petróleo russo está a ser vendido é 25-30 dólares por barril mais baixo que o de qualquer petróleo substituto que possa vir a estar disponível no mercado mundial. Portanto, mesmo que petróleo adicional para substituir as exportações russas se torne fisicamente disponível, será muito mais caro, razão pela qual os países, especialmente na União Europeia, serão mais relutantes em abandonar o petróleo russo.

O preço mais baixo do petróleo russo levou mesmo a Índia a aumentar as suas importações de petróleo daquele país. Parece que nos últimos dias as importações de petróleo da Índia provenientes da Rússia quadruplicaram para cerca de 360.000 barris por dia. Importar petróleo da Rússia mesmo a esta escala significaria, portanto, uma factura de importação que seria mais baixa em pelo menos 200 milhões de dólares por mês. Qualquer país que não aproveitasse esta oportunidade de cortar a factura de importação seria estúpido. E os EUA, mesmo que consigam que alguns países produtores de petróleo aumentem a produção e as exportações para substituir as da Rússia, dificilmente poderão andar pelo mundo a subsidiar os preços mundiais do petróleo a fim de torná-los competitivos com os preços russos. Se persistir no seu esforço para substituir as exportações petrolíferas russas, terá então de coagir países a pagarem mais pela sua factura de importação de petróleo, o que, no caso de grandes potências como a Alemanha e a França, será quase impossível; mesmo outros resistirão a tal coacção.

Já há vozes na UE que querem o fim da guerra através de negociações ao invés de um prolongamento da mesma através do armamento da Ucrânia, como os EUA gostariam de ver. Num episódio significativo recente, trabalhadores italianos no aeroporto de Pisa recusaram-se a carregar carga destinada à Ucrânia marcada como "ajuda humanitária" quando descobriram que continha armas de vários tipos que eram fornecidas sub-repticiamente como "ajuda". Este exemplo de intervenção de trabalhadores num grande país da UE é provável que encontre eco noutros países caso se prolongue a guerra.

Estamos muito longe dos velhos tempos coloniais quando os governantes coloniais tomavam decisões que nunca eram explicadas, extraíam preços do povo que nunca eram sequer compreendidos, e impunham os seus ditames aos povos que nunca eram questionados de imediato. Os EUA de hoje não têm a hegemonia absoluta que as potências coloniais tiveram. Os seus esforços desesperados para reter o que lhe resta de hegemonia, seriam mais debatíveis precisamente porque esta hegemonia não é absoluta nem inquestionada. O que hoje estamos a testemunhar é um processo de declínio gradual da hegemonia do imperialismo dos EUA sobre o mundo em geral.

27/Março/2022

[NT] É verdade que os EUA sabotaram os acordos de Minsk 1 e Minsk 2. No entanto, a Rússia não foi parte desses acordos e sim testemunha (tal como a Alemanha e a França).

[*] Economista, indiano, ver Wikipedia

O original encontra-se em https://peoplesdemocracy.in/2022/0327_pd/irony-sanctions-against-russia

Este artigo encontra-se em resistir.info

01/Abr/22