Será a socialização do investimento suficiente?
John Maynard Keynes foi de longe o economista burguês mais perspicaz do
século vinte. Ele não podia permitir-se ser um mero apologista do
sistema, uma vez que estava a escrever em meio à Grande Depressão
e no rastro da Revolução Bolchevique. Pretender num tempo assim
que tudo estava bem com o sistema capitalista teria sido o maior
desserviço que ele podia prestar àquele sistema, tão amado
por ele. Assim, para ele a melhor esperança para salvar o sistema era
ser honesto acerca dos seus viéses e tentar consertá-los.
O principal viés por ele detectado era o facto de o sistema ser quase
constantemente dominado pelo desemprego em massa, o qual, temia ele, levaria
à sua rejeição e portanto à
substituição. A razão para o desemprego em massa era que,
com decisões de investimento tomadas privadamente e separadamente por um
grupo de capitalistas, o investimento total nunca poderia ser suficientemente
amplo no agregado (excepto durante alguns "breves períodos de
excitação") para cobrir a diferença entre o output
produtível em pleno emprego e o consumo que se verificaria se aquele
output fosse realmente produzido. É isto que causa insuficiente procura
agregada
[NT]
com produção (output) em pleno emprego e portanto impede que
este se venha a realizar (pois o output realizado em qualquer economia
capitalista isolada deve equivaler a consumo mais investimento).
Assim, ele sugeriu que se as decisões de investimento pudessem ser
socializadas isto é, se o Estado pudesse assegurá-las em
nome da "sociedade", através de uma combinação
de políticas incluindo a política monetária e a
orçamental e se, no agregado, as decisões de investimento
fossem sempre tais que cobrissem a diferença entre a
produção de pleno emprego e o consumo a partir desta
produção, então o sistema poderia funcionar adequadamente.
A socialização do investimento dentro do próprio sistema
capitalista era, portanto, segundo ele, suficiente para superar as suas falhas;
a socialização da propriedade dos meios de
produção, nomeadamente o socialismo, era desnecessária.
Nas palavras de Keynes: "Não é a propriedade dos
instrumentos de produção que é importante que o Estado
assuma". Se o Estado for capaz de determinar o montante agregado de
recursos dedicados ao aumento dos instrumentos, e a taxa básica de
recompensa àqueles que os possuem, terá cumprido tudo o que
é preciso".
No próprio momento em que Keynes escrevia isso, muitos autores
pertencentes à tradição marxista salientaram que o seu
remédio era inadequado, que a socialização do investimento
dentro de um sistema capitalista, mesmo que tal socialização do
investimento pudesse ser efectuada, não era suficiente para superar o
desemprego em massa. Desde a sua época, tivemos também anos de
experiência prática, os quais corroboram amplamente esta
afirmação.
O desemprego em massa sob o capitalismo não é apenas devido
à procura inadequada. Uma quantidade mínima de desemprego em
massa, ou o que Marx chamava o "exército de reserva do
trabalho" é exigida para manter o sistema em andamento. O
desemprego em massa sob o capitalismo não é apenas um
viés; faz parte do seu
modus operandi.
De facto, o enorme desemprego visto durante a Grande Depressão da
década de 1930, ou mesmo o nível habitual de desemprego em massa
que se encontra numa economia capitalista, pode ser reduzido através de
uma estimulação da procura agregada por parte do Estado. Na
verdade, o capitalismo clássico, como destacou o economista marxista
polaco Michael Kalecki, é um "sistema constrangido pela
procura". Mas se se continuar a aumentar a procura, então depois de
o desemprego ter diminuído um pouco, haverá uma
inflação maciça. A razão é a seguinte.
Um papel importante do exército de reserva do trabalho numa economia
capitalista é manter baixa a força negocial dos trabalhadores,
para que estes não exijam salários mais elevados. Uma
redução do desemprego em massa abaixo de um certo nível
impede portanto que este papel seja cumprido. A força negocial dos
trabalhadores melhora e estes exigem salários mais elevados (mais
elevados do que a taxa de crescimento da produtividade do trabalho) a fim de
melhorar a sua quota-parte do produto. Mas os capitalistas, não estando
dispostos a conceder qualquer aumento da quota-parte dos trabalhadores no
produto, remarcam os preços, de modo a que não haja aumento da
quota-parte salarial. Isto dá origem à inflação, e
se os trabalhadores persistirem no seu esforço, então a
inflação torna-se contínua; e se os trabalhadores
anteciparem a inflação e assim a incorporarem nas suas
exigências salariais, então a inflação acelera-se ao
longo do tempo. O desemprego em massa, portanto, nunca pode ser eliminado sob o
capitalismo; nunca pode descer abaixo de um certo nível sem tornar o
sistema disfuncional através de uma crise inflacionária aguda.
Tudo isto não é apenas teorização ociosa. Foi
precisamente o que pôs fim ao boom do pós-guerra. Nos anos do
pós-guerra, recorde-se, as políticas defendidas por Keynes haviam
sido seguidas na maior parte dos países capitalistas, o que aumentou a
procura, fez baixar o desemprego e, devido ao elevado nível de procura,
estimulou o investimento dos capitalistas, dando origem a elevados
níveis de crescimento. Este período foi consequentemente
denominado a "Idade de Ouro do capitalismo". Mas os prolongados
baixos níveis de desemprego acabaram por dar origem a um conflito
irreconciliável sobre a distribuição entre as fatias
salariais e dos lucros, o qual se manifestou sob a forma de uma
inflação aguda. Por causa disto, o capitalismo voltou a registar
elevados níveis de desemprego sob Thatcher e Reagan.
Mas, antes da restauração do elevado desemprego, foi feito um
esforço para salvar a visão keynesiana através da
imposição de uma "política de preços e
rendimentos". A ideia era controlar a inflação
através de um acordo entre trabalhadores e capitalistas sobre as suas
respectivas fatias, de modo a que os aumentos dos salários
monetários e dos preços fossem mantidos sob controlo. Mas uma
política de preços e de rendimentos nunca poderá funcionar
numa economia capitalista. Isto acontece porque mesmo que os trabalhadores e os
capitalistas cheguem a acordo em cada indústria em particular, como a
taxa de crescimento da produtividade do trabalho será diferente
consoante as indústrias a taxa de crescimento dos salários reais
que resulta destes acordos também será diferente. Assim,
trabalhadores em indústrias onde a produtividade do trabalho é
baixa ou estagnada sofrerão salários reais estagnados sem ser por
culpa sua (afinal, não são eles que decidem sobre o crescimento
da produtividade laboral); e começará a ocorrer uma
divisão entre os trabalhadores, com alguns a verem um rápido
aumento dos salários reais e outros a testemunharem salários
reais estagnados. Por conseguinte, tais acordos irão romper-se
inevitavelmente.
A alternativa é ter um acordo a nível nacional entre os
representantes dos trabalhadores e os representantes dos capitalistas sobre o
peso dos salários e deixar que os salários reais em todo o lado
aumentem ao mesmo ritmo que a taxa média de crescimento da produtividade
laboral. Mas nesse caso, a participação nos lucros estará
a aumentar em algumas indústrias (onde o crescimento da produtividade do
trabalho é mais elevado) e a diminuir noutras. É por isso que
qualquer acordo deste tipo também se desmoronará inevitavelmente
com os capitalistas em indústrias cuja fatia de lucros
está em declínio a revoltarem-se contra ele. Portanto, uma
política de preços e rendimentos é impossível de
alcançar na economia capitalista.
Considere-se, em contraste, uma economia socialista. Como todas as
indústrias são propriedade do Estado, a
distribuição dos lucros entre as indústrias deixa de ter
importância, uma vez que todos os lucros acabam por ir para o
erário público. Assim, um acordo segundo o qual todos os
trabalhadores experimentem todos os anos uma taxa de crescimento dos
salários reais igual à taxa média de crescimento da
produtividade laboral, não criará dificuldades. (É claro
que o crescimento médio dos salários pode exceder o crescimento
médio da produtividade se houver acordo sobre o aumento da quota-parte
salarial, e pode ficar aquém se houver acordo sobre a
redução da quota-parte salarial). Em suma, uma economia
socialista pode facilmente seguir uma política de preços e
rendimentos, e manter o pleno emprego, como de facto os países
socialistas existentes haviam feito anteriormente.
Assim, a receita de Keynes da década de 1930 pode, na melhor das
hipóteses, remover apenas um viés no funcionamento de uma
economia capitalista; mas o
modus operandi
do próprio sistema é enviesado, no sentido de ser baseado sobre
o antagonismo de classe. Acreditar que o sistema pode ser resgatado do seu
funcionamento defeituoso é portanto uma quimera.
Contudo, tipicamente, quando se verifica inflação aguda sob o
capitalismo, há um esforço para resolvê-la a expensas dos
pequenos produtores fornecedores de matérias-primas e bens salariais
(matérias-primas primárias) do terceiro mundo, os quais
geralmente actuam como "tomadores de preços"
("price-takers")
com pouca força negocial. Eles constituem um grupo importante de
fornecedores de insumos para a metrópole capitalista os quais não
conseguem sequer manter a sua quota-parte no produto, razão pela qual um
surto inflacionário acabará por ser resolvido às suas
custas. Na verdade, um papel importante do imperialismo é assegurar que
eles permaneçam como "tomadores de preços". Mas dado o
historial de esmagamento já suportado da sua quota-parte, esta agora
caiu tão baixo que controlar a inflação nas
metrópoles espremendo-o ainda mais já se tornou quase
impossível. Além disso, acreditar que o capitalismo metropolitano
pode estabilizar-se para sempre à custa de outras nações
é simultaneamente odioso e irrealista.
04/Julho/2021
[NT] Procura Agregada
(Agregate Demand):
é a quantidade total (ou agregada) do produto que é
possível adquirir num determinado nível de preços,
mantendo-se tudo o mais constante. Representa portanto a despesa desejada pelo
conjunto de agentes económicos, nomeadamente: consumo das
famílias (C), investimento das empresas (I), gastos do estado (G) e
exportações líquidas (X-M).
[*]
Economista, indiano, ver
Wikipedia
O original encontra-se em
peoplesdemocracy.in/2021/0704_pd/socialisation-investment-enough
Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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