Políticas de exacerbação do medo e censura na gestão do Covid

– A concentração de poder económico e mediático torna ainda mais premente a necessidade de vozes que exijam com firmeza o debate público

Ángeles Maestro [*]

Painéis na Comunidade de Madrid.

À medida que passa o tempo, a necessária análise retrospectiva das políticas governamentais e dos grandes meios de comunicação vai revelando factos que dificilmente correspondem aos objectivos de protecção da saúde das populações frente à nova pandemia.

As interrogações são muitas e como veremos, salvo algumas excepções, as linhas gerais aplicadas pelos governos e pelas corporações mediáticas “ocidentais” (leia-se a UE os EUA) não diferem no substancial.

1. Medo, confusão e impotência

A militarização do medo, diante da irrupção da crise sanitária, com a grotesca presença de uniformizados do Exército, a Polícia e da Guarda Civil nas conferências de imprensa para informar do Covid e da repressão, por vezes brutal, nas ruas, foi preparada com as terríveis imagens de pessoas idosas mortas em situação do abandono total, com a prévia negação de assistência na saúde pública. Enquanto isso, os hospitais privados exibiam uma situação de insultuosa normalidade e neles ingressavam personagens públicos e pessoas endinheiradas de todas as idades. As denúncias apresentadas por familiares de pessoas mortas por “homicídio imprudente, omissão do dever de socorro e negação de assistência média”, foram arquivadas pelo Ministério Público.

O resultado foi a criação de uma sensação de catástrofe e de risco de morte geral quanto a uma enfermidade com uma taxa global de letalidade de 0,8% [1].

2. A autorização condicional das vacinas para uma situação de emergência e a “inexistência” de alternativas terapeuticas.

Com o cenário do medo bem instalado, impõe-se a vacina como única solução.

A relação entre os governos da EU e dos EUA com as multinacionais farmacêuticas em relação às circunstâncias de autorização das vacinas foi recentemente tratada por mim no artigo: “A Covid, os governos da UE e as multinacionais farmacêuticas”.

O culminar do processo para a autorização de emergência (nos EUA) e condicional (na UE) exigiu duas condições interconectadas: convencer a opinião pública de que não existia tratamento alternativo e a neutralização da crescente informação que contradizia o discursos oficial.

Um dos quatro critérios estabelecidos pela Food and Drug Administration (FDA) para autorizar o uso emergencial de um medicamento é a inexistência de alternativa adequada,aprovada, disponível.

O primeiro objectivo, portanto, era situar a vacina como única possibilidade terapêutica, desacreditando outros medicamentos que, sem constituir a panaceia – isso em medicina não existe – estavam a demonstrar-se relativamente eficazes em tratamentos extra-hospitalares.

Apesar de 56 países [2] terem adoptado o tratamento ambulatório precoce para casos de Covid com medicamentos pouco custosos, bem conhecidos – a hidroxicloroquina (HQC) e a Ivermectina fazem parte da lista de medicamentos essenciais da OMS – e com uma eficácia relativamente alta, não só foram denegridos ou desvalorizados pelos grandes meios de comunicação como nos EUA chegou a proibir-se nas farmácias a sua dispensação para o tratamento do Covid.

O desprestigio de qualquer outro tratamento e dos profissionais que os utilizavam abria a porta – num cenário de terror e insegurança generalizados – às vacinas como solução definitiva.

Um dos escândalos editoriais mais ilustrativos ocorreu na prestigiosa revista The Lancet, com a publicação em 22/Maio/2020 de um estudo no qual se revelava o “perigo de morte cardíaca” provocado pelo HCQ no tratamento do Covid. Esta publicação, amplamente difundidas em todo o mundo, levou à imediata suspensão de ensaios clínicos com HCQ. Em 4/Junho, The Lancet retratava-se. Três dos quatro signatários do artigo retrataram-se e dois deles reconheceram ter conflito de interesses com a multinacional Gilead que promovia o Redemsivir, também para o tratamento do Covid. O artigo foi retirado, mas o dano já estava feito. Durante uma reunião de peritos a portas fechadas, filtrada em 24/Maio/2020 em França, os editores de The Lancet e de New England Journal of Medicine (NEJM) explicaram como actores farmacêuticos economicamente poderosos estavam a corromper “criminosamente” a ciência médica para promover os seus interesses [3].

Foi precisar esperar até há poucos dias para que a OMS anunciasse a colocação em marcha do ensaio chamado Solidarity para estudar o tratamento do Covid com vários deles, dentre eles a hidroxicloroquina, depois de haver suspenso o ensaio correspondente em Maio/2020, por precaução

O desprestígio de qualquer outro tratamento, inclusive a administração do soro hiper-imune procedente de pacientes que superaram o Covid, e dos profissionais que os utilizavam, como veremos, abria a porta – num cenário de terror e insegurança generalizados – às vacinas como solução definitiva.

3. A eliminação de informação que questione o discurso oficial

Pouco tempo depois de surgir a pandemia, começaram a aparecer links nos navegadores da Internet para notícias não buscadas, precisamente quando se tratava de encontrar opiniões de peritos que pudessem questionar o discurso dominante. Nestes links qualifica-se como fake a notícia requerida e dirigiam para informções oficiais. Desde háalguns meses, para os motores de busca em língua castelhana, o procedimento refinou-se. Páginas como newtral.es ou maldita.es, actuando à velocidade do raio, qualificam como falsa toda informação emitida por cientistas de qualquer parte do mundo que questionem a versão imperante. Pode-se dizer que a rapidez com que actuam é directamente proporcional à categoria profissional do investigador emissor da informação.

Mas a Espanha não é diferente. Trata-se de uma estratégia geral centralizada na Trusted New Initiative (TNI, Iniciativa de Notícias de Confiança) posta em andamento e liderada pela BBC. A TNI foi criada em 2019, mas adquire um enorme impulso duas semanas depois de a OMS declarar a situação de pandemia devido ao Covid, assumindo como objectivo "combater a desinformação danosa sobre vacinas" no momento em que "anuncia um importante projecto de investigação".

Os membros da TNI [4] alertam-se imediatamente da presença de conteúdo inadequado, o qual "será revisto com prontidão para garantir que não se torne a publicar a desinformação. Ou seja, será eliminada.

Estas empresas buscam em cada país os sócios mais adequados. No Estado espanhol, a Newtral e a Maldita actuam em colaboração com o Facebook / Whatsapp e Googloe/Youtube. A empresa Newtral, da jornalista Ana Pastor, declara um capital social inicial, em Outubro/2017, inferior a 10 mil euros e afirma haver facturado em 2020 mais de 2.500.000 euros.

O cânone, o único discurso válido, é o oficial que provém da OMS ou dos organismos governamentais. Tudo isso, apesar de que, como é normal num processo anteriormente desconhecido, as informações "oficiais" revelam-se como falsas ou contraditórias pouco tempo depois.

Não se pode ocultar que as multinacionais farmacêuticas têm um longuíssimo historial de corrupção de políticos, peritos e médicos para alcançarem seus objectivos económicos.

Não se pode ocultar que as multinacionais farmacêuticas têm um longuíssimo historial de corrupção de políticos, peritos e médicos para alcançarem seus objectivos económicos, como denunciou magistralmente Peter C. Gotzsche [5]. Basta agora recordar o suborno realizado pelas multinacionais farmacêuticas do Comitéde Peritos da OMS para a gripe A e denunciado pela mesma agência internacional no dia seguinte a declarar extinta a pandemia. No passado mês de Julho soube-se que as três maiores empresas distribuidoras de medicamentos e a farmacêutica Johnson & Johnson haviam acordado pagar US$26 mil milhões para fazer frente aos processos pela sua responsabilidade em promover fraudulentamente o consumo de opióides. Gerou-se assim a adição aos mesmos de muitas centenas de milhares de pessoas, falecendo cerca de 70 mil por sobredose.

3.1. Quem move os dentes da engrenagem?

Como corresponde ao multimilionário negócio aberto com a compra pelos Estados de centenas de milhões de doses de vacinas contra o Covid 19, as duas maiores empresas de Fundos de Investimento do mundo, Black Rock e Vanguard, são as maiores accionistas das três grandes multinacionais farmacêuticas produtoras de vacinas: Pfizer, Moderna e Astra Zeneka.

Estes dois Fundos gigantescos são investidores maioritários nas principais empresas do Ibex 35, incluídos os grandes bancos CaixaBank, Banco Santander e BBVA, os quais por sua vez são accionistas dos principais meios de comunicação do Estado espanhol. Estes dois Fundos são além disso accionistas maioritários do New YorkTimes e de quatro dos seis grandes grupos que controlam os meios de comunicação nos EUA e em boa parte do mundo: Time Warner, Comcast, Disney e News Corp.

No Estado espanhol não só ambos os fundos de investimento controlam a produção de informação e a criação de opinião pública através destes gigantes da comunicação como, desde Novembro/2020, a Blackrock e outro grande fundo de investimento, o CVC, converteram-se nos maiores proprietários do Grupo Prisa, inclusive El País e a Cadena SER, ao comprarem a sua dívida por um valor de mais de 1000 milhões de euros.

Além disso, a Blackrock é proprietária de parte importante das acções dos principais conglomerados mediáticos do Estado espanhol. Controla directamente parte das acções do grupo Atresmedia, proprietário da Antena 3 e da Sexta, e do grupo Mediaset, proprietário de Cuatro e Telecinco.

Diferentes autores estão a assinalar o conhecimento limitado e instável que se possui acerca do Covid, o que faz com que temas como a eficácia do confinamento ou das vacinas estejam em discussão. E, sobretudo, perguntam-se acerca da confiabilidade que se pode atribuir àqueles que decidem se uma informação é falsa ou danosa. A investigadora de bioética sueca Emilia Niemec analisava num recente relatório científico intitulado "Covid-19 e desinformação: Será a censura da redes sociais um remédio para a difusão de desinformação médica?", se a censura poderia servir interesses políticos, comerciais ou outros. No mencionado relatório afirmava: "A censura não se baseia unicamente na ciência. Uma análise do conteúdo proibido nas redes sociais sugere que a moderação frequentemente tem um viés político".

Diferentes autores estão a assinalar o conhecimento limitado e instável que se possui acerca do Covid, o que faz com que temas como a eficácia do confinamento ou das vacinas estejam em discussão. E, sobretudo, perguntam-se acerca da confiabilidade que se pode atribuir àqueles que decidem se uma informação é falsa ou danosa.

No mesmo sentido, o senador australiano Malcom Roberts perguntou no Senado a 11 de Agosto "se existia um possível 'conflito de interesses' que desse ao Google a última palavra sobre como se analisa e aprova a informação sobre a vacina Covid-19". Roberts assinalou a respeito que "a empresa matriz do Google e do YouTube, a Alphabet, possui 12 por cento da Vaccitech Ltd. Através de um fundo de capital de risco GV (anteriormente Google Ventures). A Vaccitech é uma empresa de biotecnologia com sede no Reino Unido que co-inventou a vacina AstraZeneca". A publicação citada afirma haver-se dirigido à Alphabet, Vaccitech e Google para contrastar a informação sem haver obtido resposta.

Este conglomerado de poder económico e mediático conta com a colaboração passiva da maior parte das sociedades médicas – que subsistem em grande medida graças às subvenções da indústria farmacêutica – e a muito activa dos governos de todas as cores políticas como braços executores indispensáveis de toda esta engrenagem de interesses. Falar da independência dos meios de comunicação, em geral, e muito especialmente no que se refere à epidemia Covid e às vacinas, parece uma piada de mau gosto e/ou um insulto à inteligência.

4. A quem se censurou?

Caso alguma pessoa ingénua possa pensar que foram censurados youtubers “anti-vacinas” ou líderes negacionistas de extrema-direita, menciono algumas das muitas personalidades científicos de alto nível e sem conflitos de interesses com a indústria farmacêutica. Este aspecto é crucial, como se bem se pode entender, e está por demonstrar por parte dos sócios centrais e periféricos da TNI.

Estas pessoas censuradas, denegridas e estigmatizadas como “negacionistas” ou “anti-vacinas” não têm nada em comum entre si, salvo haverem emitido pontos de vista críticos às vacinas Covid ou à gestão da pandemia, vinculados estritamente ao seu âmbito profissional ou científico. Todas elas foram insultadas por gente dos media com uma qualificação muito inferior ou inexistente para estes temas e para os quais, insisto, está por estabelecer, para eles e para suas empresas, a ausência de vinculação económica com as grandes corporações farmacêuticas.

O TNI também censurou pessoal médico de alto nível que salvou milhares de vidas com os primeiros tratamentos de Covid-19. Em finais do mês de Julho soube-se a notícia de que Giuseppe de Donno, ex-chefe de pneumologia do hospital Calo Poma, de Mantova (Itália), conhecido por haver usado com pacientes graves o tratamento com soro hiper-imune procedente de pessoas que haviam sofrido e sobrevivido ao Covid 19, havia aparecido enforcado em sua casa. Apesar de todos os pacientes assim tratados terem sobrevivido à doença, De Donno foi atacado e denegrido publicamente, até o ponto em que abandonou o seu posto e dedicou-se à “medicina de base”. O Ministério Público abriu investigações para esclarecer as circunstâncias da sua morte e excluir um homicídio.

É inaceitável, do ponto de vista mais elementar do direito à informação, a censura como instrumento para negar qualquer debate ou controvérsia pública entre interlocutores qualificados com posições diferentes.

Sem pretender que as avaliações dos cientistas censurados concentrem as análises definitivas sobre o tema, o que é inaceitável a partir do mais elementar direito à informação é a censura como instrumento para negar qualquer debate ou controvérsia pública entre interlocutores qualificados com posições diferentes. O facto de que seja esta a política geral que se está a implementar na maioria dos países aponta para a suspeita de que se está a ocultar o debate à sociedade, precisamente porque é a única maneira de conseguir que o medo faça o seu trabalho, anestesiando a reivindicação do direito a saber, enquanto os donos das farmacêuticas e dos meios de comunicação reforçam o seu negócio.

Resumindo, os proprietários dos grandes fundos de investimento do mundo são, por sua vez, os donos maioritários das principais multinacionais farmacêuticas que estão a vender suas vacinas aos Estados por valores de dezenas de milhares de milhões de euros. E esses mesmos fundos de investimento não só controlam a maior parte dos grandes empórios mediáticos nos EUA — que por sua vez controlam os media locais "ocidentais" —, como são proprietários maioritários, directa ou indirectamente, dos principais grupos mediáticos do Estado espanhol.

Nesta fase do capitalismo, com o maior grau de concentração de capital já experimentado na históia, o que permite o maior grau de controle social, [o sistema] já não suporta níveis de liberdade expressão que, no seu momento, foram consubstanciais às revoluções burguesas. Máxima capacidade de controle e mínima elasticidade para suportar a contradição, indicadores da falsa liberdade que preconizam e da decadência do sistema.

Em todo o caso, o facto de que a concentração de poder económico e mediático converta em anedota irrelevante a cor política dos diferentes governos que, submissos, marcam o passo daqueles que realmente têm o poder nas suas mãos, torna ainda mais premente a necessidade de que surjam — e que se publiquem em meios de comunicação verdadeiramente independentes — vozes que exijam com firmeza o debate público. Um debate aberto e livre com perfis não só científicos como económicos, políticos, filosóficos e éticos.

Vozes que, como “Eu acuso” de Emile Zola, devem levantar-se sobre a violência que impõe acusações de “negacionista”, “anti-vacinas” ou suspeitoso de conivência com a extrema-direita, realizadas precisamente por aqueles que a partir de posições dogmáticas tentam impor o pensamento único, ou o que dá no mesmo, o não pensamento.

Notas
1) O risco geral de morte por infecção foi de 0,8% (19 228 de 2,3 milhões de pessoas infectadas, intervalo de confiança de 95%: 0,8% a 0,9%) para as mortes confirmadas por covid-19 e 1,1% (24 778 de 2,3 milhões de pessoas infectadas, 1,0% a 1,2 %) por excesso de mortes". Ainda que a referida taxa, como costuma ocorrer nas enfermidades respiratórias, aumentasse sensivelmente a partir dos 50 anos (11,6%) e sobretudo, a partir dos 80 anos: (11,4% a 23,2%) em homens e de 4, 6 a 6,5% em mulheres". Estudo sero-epidemiológico realizado por investigadores do Instituto de Salud Carlos III e publicado no British Medical Journal.  www.bmj.com/content/bmj/371/bmj.m4509.full.pdf
2)  https://c19adoption.com/  Citado por Elizhabeth Woodworth em  www.globalresearch.ca/covid-19-shadowy-trusted-news-initiative/5752930
3) Uma análise detalhada e rigorosa deste processo, realizado pela Dra. Elizabeth Woodworth pode ser consultada aqui:  off-guardian.org/2020/06/23/the-deadly-hydroxychloroquine-publishing-scandal/
4) A BBC informou que os seus sócios são: AP, AFP; BBC, CBC / Radio-Canada, Unión Europea de Radiodifusión (EBU), Facebook, Financial Times, First Draft, Google / YouTube, The Hindu, Microsoft, Reuters, Instituto Reuters para el Estudio del Periodismo, Twitter, The Washington Post”.
5) Gotzsche, Peter C. (2014). Medicamentos Mortais e Crime Organizado.

[NR] O livro Carnets de guerre: COVID-19, Le plus grand scandale sanitaire du XXIe. siécle, do Prof. Didier Raoult, pode ser descarregado em resistir.info/livros/livros.html.

08/Setembro/2021

[*] Médica, Técnica Superior de Saúde Púlica. Ex deputada, porta-voz de Saúde no Congresso.

O original encontra-se em www.lahaine.org/mundo.php/politicas-de-exacerbacion-del-miedo

Este artigo encontra-se em resistir.info

14/Set/21