Não existe sionismo “de esquerda”

Francisco Fernandes Ladeira [*]

Netaniyahu.

Com o genocídio em Gaza dominando a agenda geopolítica global, pessoas em todo o planeta têm demonstrado cada vez mais interesse em pesquisar, refletir e debater sobre a chamada “Questão Palestina”.

Entre os temas discutidos sobre o assunto, está o sionismo “de esquerda”, apontado por seus defensores como alternativa viável contra os “extremismos”, na busca de uma solução para a o principal foco de tensão no Oriente Médio.

Isto posto, podemos nos perguntar se é coerente posicionar-se politicamente à esquerda e, ao mesmo tempo, defender o Estado de Israel e suas ações? Para início de conversa, é preciso definir o sionismo. Trata-se, em síntese, do movimento surgido na Europa, no final do século XIX, com objetivo de criar um Estado Judeu, onde suspostamente existiu o Reino de Israel dos tempos bíblicos. Ao contrário do que muitos pensam, não se tratava de um movimento de libertação nacional de um povo; mas da proposta de uma organização política nos moldes coloniais europeus, sob comando da burguesia judaica (o que demonstra a origem de classe da ideologia sionista).

Uma análise sobre o slogan sionista “uma terra sem povo para um povo sem terra” e trechos do livro “O Estado Judeu”, de Theodor Herzl não deixam dúvidas sobre o que estava por trás da criação do Estado de Israel.

Primeiramente, conforme aponta o historiador israelense Shlomo Sand, é controverso falar em “povo judeu”, no sentido étnico do termo. Apesar de formarem comunidades religiosas importantes em diversas regiões do mundo, os judeus não constituem uma nação portadora de uma origem única.

Dito de outro modo, os fundadores do movimento sionista eram descendentes de europeus que se converteram à fé judaica ao longo do tempo; portanto, suas origens não remetem aos judeus que protagonizaram a grande diáspora ocorrida no século I d.C. (movimento também questionado em sua existência por Sand). Além disso, por uma dessas ironias da história, os palestinos têm mais ligações genéticas com o antigo povo de Israel do que as pessoas que migraram da Europa para formar o Estado sionista.

Também o pressuposto “uma terra sem povo”, relacionado à Palestina, se mostra falacioso. Como se sabe, há séculos os árabes palestinos já estavam por lá estabelecidos. Nesse sentido, os planos sionistas para a Palestina não diferem do que os britânicos fizeram nos Estados Unidos, Austrália e África do Sul, no chamado “colonialismo de povoamento”. Tais projetos consistem, essencialmente, na eliminação das populações nativas (indígenas, aborígenes, negros ou palestinos) e sua substituição por brancos europeus.

Sob forte influência das ideias nacionalistas e supremacistas que vigoravam no continente europeu durante o século XIX, no processo de colonização da “Antiga Terra de Israel”, os líderes sionistas impediram que os judeus considerados fracos e doentes migrassem para a Palestina. Segundo o historiador israelense Gur Alroey, eram priorizados potenciais migrantes “produtivos, fortes e saudáveis”. Qualquer semelhança com os pressupostos nazistas, não é mera coincidência.

Na mesma época, o principal argumento utilizado pelas potências europeias para subjugar outros povos mundo afora era a chamada “missão civilizadora”, o “fardo do homem branco”. Desse modo, não por acaso Herzl escreveu em seu “Estado Judeu”: “Para a Europa construiríamos na região [Palestina] uma parte da muralha contra a Ásia, seríamos a sentinela avançada da civilização contra a barbárie”.

Portanto, como é absurdo falar em “movimento burguês de esquerda”, “colonialismo de esquerda” e “supremacismo de esquerda”, é fácil concluir que não existe “sionismo de esquerda”.

Por outro lado, alguém poderia argumentar que os kibutzim – comunidades onde as pessoas vivem, trabalham e produzem em conjunto –, a existência do Partido Trabalhista em Israel e o país abrigar a “maior parada gay do Oriente Médio” comprovariam a hipótese do “sionismo de esquerda”.

De fato, os kibutzim lembram certas experiências socialistas e o histórico princípio comunista “cada um de acordo com suas capacidades, cada um de acordo com suas necessidades”. No entanto, estas comunidades eram restritas a judeus e, não raro, se localizavam em terras usurpadas ao povo palestino. Assim, valia a lógica orwelliana: “todos iguais, mas uns são mais iguais do que outros”.

Já o Partido Trabalhista esteve no poder em Israel desde a declaração de independência, em 1948, até 1977. Entre os acontecimentos mais emblemáticos desse período podemos citar o processo de limpeza étnica na Palestina, a expulsão de mais de 700 mil palestinos de suas terras, a invasão do Egito pelo exército sionista e a expansão do território israelense para além das fronteiras definidas pela ONU.

Indo para o presente contexto, os adeptos do dito “sionismo de esquerda” precisam explicar o porquê de os palestinos (cerca de 20% da população) serem tratados em Israel como cidadãos de “segunda classe”, a Faixa de Gaza ser a maior prisão a céu aberto do planeta e os palestinos da Cisjordânia terem cerceados seus direitos de ir e vir (além de estarem restritos a determinadas áreas, à semelhança dos bantustões da África do Sul).

Em suma, pensar num “sionismo de esquerda”, é o mesmo que falar em “apartheid de esquerda”, “etnocracia de esquerda”, “fascismo de esquerda” e “nazismo de esquerda”. Não há meios-termos e eufemismos quando tratamos de ideologias extremistas, que estão por trás dos maiores crimes contra a humanidade.

04/Maio/2024

[*] Doutorando em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

Este artigo encontra-se em resistir.info

07/Mai/24