Um roteiro para onde?
(1)
Em princípios de Maio, na sua visita a Israel e aos territórios
ocupados, Colin Powell encontrou-se com Mahmoud Abbas, o novo primeiro-ministro
palestino, e, separadamente, com um pequeno grupo de activistas da sociedade
civil, incluindo Hanan Ashrawi e Mostapha Barghuti. Segundo o testemunho deste
último, Powell manifestou surpresa e alguma consternação
pelos mapas computadorizados dos colonatos, pelo muro de oito metros de altura
e pelas dúzias de
checkpoints
do Exército israelense que têm feito a vida tão
difícil e o futuro tão sombrio para os palestinos. Apesar da
sua augusta posição, a visão que Powell tem da realidade
palestiniana é defeituosa, para usar uma expressão caridosa.
Contudo, ele pediu materiais para levar com ele e, mais importante, assegurou
aos palestinos que o mesmo esforço posto por Bush na campanha do
Iraque iria agora dirigir-se para a implementação do
roteiro. O mesmo havia já sido dito pelo próprio Bush
em entrevistas dadas a alguns
media
árabes nos últimos dias de Maio, embora, como de costume, a
ênfase fosse posta em generalidades e não em qualquer coisa de
específico. Ele encontrou-se com dirigentes israelenses e palestinos
na Jordânia, depois de se avistar com os mais importantes chefes de
Estado árabes, com a excepção óbvia de Bashar
al-Assad da Síria. Tudo isto faz parte do que agora parece ser uma
grande iniciativa norte-americana. Que Ariel Sharon tenha aceite o
roteiro (embora com suficientes reservas para minar por completo
essa aparente aceitação) parece ser de bom augúrio para a
perspectiva de um Estado palestino viável.
A visão de Bush (e esta palavra transmite um estranho toque
sonhador ao que é suposto ser um plano de paz sóbrio e
definitivo) deverá concretizar-se com a reestruturação da
Autoridade Palestiniana, a eliminação de toda a violência
ou incitação contra israelenses e a instalação de um
Governo que responda aos requisitos postos por Israel e pelo chamado quarteto
(os E. U. A., a O. N. U., a U. E. e a Rússia) responsável pelo
plano. Israel, pela sua parte, tentará melhorar a situação
humanitária, aliviando as restrições e levantando os
recolheres obrigatórios, embora nada se especifique sobre onde ou quando
isso se fará. A Fase 1 é suposto compreender também o
desmantelamento de 60 colonatos montanhosos (os chamados postos
avançados ilegais, implantados desde que Sharon chegou ao poder em
Março de 2001), embora nada se diga sobre a remoção dos
outros, que representam cerca de 200.000 colonos na Cisjordânia e faixa
de Gaza, para não falar já dos 200.000 mais que se radicaram na
anexada Jerusalém-Leste. A Fase 2, descrita como de
transição, está centrada algo estranhamente na
opção de criação de um Estado palestino
independente com fronteiras provisórias e atributos de soberania
nenhum destes é especificado e deverá culminar numa
conferência internacional para aprovar e logo criar o tal
Estado palestino, com as tais fronteiras provisórias. A
Fase 3 é suposto terminar para sempre com o conflito, também por
intermédio de uma conferência internacional cujo objectivo
será resolver os mais espinhosos de todos os assuntos pendentes:
refugiados, colonatos, Jerusalém, fronteiras. O papel de Israel em tudo
isto é apenas cooperar: o verdadeiro ónus é colocado nos
palestinos, que devem fazer continuadamente todos os esforços,
enquanto a ocupação militar se mantém firmemente em vigor,
ainda que aliviada nas principais áreas invadidas durante a Primavera de
2002. Nenhum elemento de arbitragem independente é previsto e a falsa
simetria na estrutura do plano deixa Israel com o controle total sobre o que
acontecerá a seguir, ou mesmo se algo acontecerá de facto. Quanto
aos direitos humanos palestinos que presentemente são
não tanto ignorados como suprimidos de facto nenhuma
rectificação específica da situação é
prevista no plano. Aparentemente, fica ao critério de Israel continuar
ou não tudo como está.
Por uma vez, todos os comentadores habituais são unânimes: Bush
oferece uma verdadeira esperança de compromisso no Médio Oriente.
Fugas de informação orquestradas a partir da Casa Branca
sugeriram uma lista de possíveis sanções a aplicar contra
Israel se Sharon se mostrasse demasiado intransigente, mas isto foi rapidamente
desmentido e logo deixou de ser mencionado. Emerge um certo consenso
mediático que apresenta os conteúdos do documento muitos
deles reminiscentes de anteriores planos de paz como o resultado da
renovada confiança de Bush, após o seu triunfo no Iraque. Como na
maioria das discussões anteriores sobre o conflito Israel-palestinos,
lugares-comuns manipulados e suposições extravagantes no
lugar das duras realidades do poder e da história concretamente vivida
enformam o discurso corrente. Os cépticos e os críticos
são desqualificados como anti-americanos, enquanto uma
porção apreciável da liderança judaica organizada
denuncia o roteiro como exigindo demasiadas concessões israelenses. A
Imprensa do
establishment
insiste em lembrar-nos que Sharon falou pela primeira vez de uma
ocupação, algo que ele nunca antes tinha concedido
existir. E que anunciou a sua intenção de acabar com a
subjugação israelense imposta a 3,5 milhões de
palestinos. Mas estará ele ao menos ciente do que é isso que
se propõe acabar? O comentador do
'Haaretz'
(2)
Gideon Levy escreveu em 1 de Junho passado que, em comum com a grande
maioria dos israelenses, Sharon não sabe absolutamente nada
àcerca da vida sob recolher obrigatório em comunidades que
estão sujeitas a cerco militar há anos. Que sabe ele sobre as
humilhações nos
checkpoints
, ou sobre pessoas que são forçadas a viajar em caminhos de
gravilha enlameados, com risco da própria vida, para poderem levar uma
mulher em trabalhos de parto a um hospital? Sobre a vida no limiar da
inanição? Sobre casas demolidas? Sobre crianças que
vêm os seus pais ser espancados e humilhados a meio da noite?
Outra omissão arrepiante no roteiro diz respeito ao
gigantesco muro de separação que está em
construção na Cisjordânia: 347 quilómetros de
cimento de Norte para Sul, dos quais 120 estão já erigidos. Tem
oito metros de altura e dois de espessura, sendo o seu custo aproximado de 1,6
milhões de dólares por quilómetro. O muro não se
limita a separar Israel de um putativo Estado palestino com base das
fronteiras de 1967: anexa novos pedaços de terra palestiniana, por vezes
a cinco ou seis quilómetros de profundidade. Está rodeado de
trincheiras, fossos e fios electrificados, com torres de controle a intervalos
regulares. Quase uma década após o fim do
apartheid
sul-africano, este muro sinistramente racista está a ser
construído sem que isso mereça qualquer observação
por parte da maioria dos israelenses, ou dos seus aliados norte-americanos que,
queiram-no ou não, vão acabar por pagá-lo quase todo. Os
40.000 habitantes palestinos da cidade de Qalqilya vivem de um lado do muro,
enquanto as terras que eles cultivam e de que vivem ficam do outro lado.
Estima-se que quando o muro estiver concluído presumivelmente
enquanto os EUA, Israel e os palestinos discutem interminavelmente sobre
detalhes procedimentais quase 300.000 palestinos ficarão
separados da sua terra. O roteiro faz silêncio sobre isto,
como o faz sobre a recente aprovação por Sharon de um outro muro
na parte leste da Cisjordânia, o qual, se construído,
reduzirá o montante de território palestino disponível
para o Estado sonhado por Bush a cerca de 40% da sua área total.
É isto que Sharon teve em vista desde sempre.
Uma premissa não expressa subjaz à aceitação do
plano por parte de Israel (com todas as suas reservas), bem como ao evidente
empenho dos EUA na sua implementação: o relativo sucesso da
resistência palestiniana. Isto é verdade mesmo que deploremos
alguns dos seus métodos, o seu custo exorbitante, o pesado fardo que
impôs a mais uma geração de palestinos que se recusaram
a desistir, face à esmagadora superioridade de poderio do par
Israel-EUA. Todas as espécies de razões foram buscadas para o
aparecimento do roteiro: que 56% dos israelenses o apoiam; que
Sharon finalmente se curvou perante a realidade internacional; que Bush precisa
de cobertura israelo-árabe para as suas aventuras militares na
região; que os palestinos caíram finalmente em si e trouxeram
para a ribalta Abu Mazen (o nome de guerra de Abbas, que é aliás
o seu mais conhecido), etc., etc.. Alguma parte disto será verdade, mas
continuo a afirmar que se não fosse a obstinada recusa dos palestinos
em aceitar que são um povo derrotado, como o
Chefe-de-Estado-Maior israelense recentemente os descreveu, não haveria
qualquer plano de paz. E contudo, quenquer que pense que o roteiro
oferece algo de semelhante a um compromisso, ou que ele aborda os principais
assuntos contenciosos, estará completamente enganado. Como tanto do
discurso de paz prevalecente, ele coloca toda a necessidade de constrangimento,
renúncia e sacrifício directamente nos ombros dos palestinos,
assim negando toda a densidade, a gravidade mesmo da história
palestiniana. Ler o roteiro é confrontar-se com um documento
não situado, alheado do seu tempo e do seu lugar.
O roteiro, na verdade, não é tanto um plano de paz
como um plano de pacificação. O seu objectivo é pôr
um fim à Palestina enquanto problema. Daí a
repetição constante do termo
performance
na língua de pau do documento - por outras palavras, a maneira
como se espera que os palestinos se comportem: nenhuma violência,
nenhum protesto, mais democracia, melhores dirigentes e
instituições tudo isto com base na ideia que o problema
subjacente tem sido a ferocidade da resistência palestiniana, e
não a ocupação que lhe dá causa. Nada de
comparável é esperado de Israel, excepto que os pequenos
colonatos a que já me referi, conhecidos como postos
avançados ilegais (uma classificação inteiramente
nova, que ademais sugere que as outras implantações israelenses em
terra palestiniana seriam legais), devem ser abandonados. Os colonatos
principais, esses, seriam congelados, é certo, mas
certamente que não removidos nem desmantelados. Nem uma palavra é
dita sobre o que, desde 1948, e depois novamente desde 1967, os palestinos
têm sofrido às mãos de Israel e dos EUA. Nada
àcerca do des-desenvolvimento da economia palestiniana. Nada
àcerca das demolições de casas, o arrancamento de
árvores, os prisioneiros (que são pelo menos 5.000), a
política de assassinatos selectivos, os bloqueios de fronteiras desde
1993, o arruinamento completa de toda a infra-estrutura, o incrível
número de mortes e estropiamentos tudo isso e muito mais passa
sem uma única palavra.
A agressividade truculenta e rígido unilateralismo das equipas
negociadoras israelenses e norte-americanas são já sobejamente
conhecidos. A equipa palestiniana, essa, inspira muito pouca confiança,
composta que ela é em exclusivo de idosos e reciclados cortesãos
de Arafat. Na verdade, o roteiro parece ter dado a Yasser Arafat
mais um sopro de vida, não obstante todos os elaborados esforços
de Powell e seus assistentes para evitar visitá-lo. Apesar da
estúpida política israelense de tentar humilhá-lo,
encerrando-o num complexo completamente destruído pelos bombardeamentos,
ele continua em completo controlo da situação. Continua a ser o
presidente eleito da Palestina, tem os cordões da bolsa palestiniana
firmemente nas mãos (a bolsa é que não é lá
muito bojuda) e, quanto ao seu estatuto, ninguém da presente equipa
reformadora pode esperar rivalizar com o velho em carisma e poder.
Abu Mazen, por exemplo. Encontrei-o pela primeira vez em Março de 1977,
na minha primeira reunião do Conselho Nacional, no Cairo. Ele fez de
longe o discurso mais longo, na forma didáctica que ele deve ter
aperfeiçoado como professor do ensino secundário no Qatar,
explicando aos parlamentares palestinos reunidos as diferenças entre
o Sionismo e os sionistas dissidentes. Foi uma intervenção digna
de registo, porque a maioria dos palestinos nesses tempos não tinha
qualquer noção de que Israel era composto não apenas de
sionistas fundamentalistas (que eram anátema para qualquer árabe)
mas também de variadas espécies de activistas, incluindo
pacifistas. Em retrospectiva, acho que este discurso de Abu Mazen lançou
a campanha da OLP de encontros (a maioria deles secretos) entres palestinos
e israelenses esses longos diálogos na Europa sobre a paz tiveram
um efeito considerável nas duas sociedades, preparando o caminho que
tornou possível o processo de Oslo.
Contudo, ninguém duvidava que fora Arafat a autorizar o discurso de Abu
Mazen e a campanha subsequente, que custou a vida a homens corajosos como Issam
Sartawi e Said Hammami. E enquanto os participantes palestinos emergiram do
próprio centro da política palestiniana (i.é, a Fatah), os
israelenses vieram de um pequeno grupo marginalizado de vilipendiados apoiantes
da paz, cuja coragem era por isso mesmo tanto mais admirável. Durante os
anos da OLP em Beirute, entre 1971 e 1982, Abu Mazen esteve colocado em
Damasco, mas depois juntou-se ao exilado Arafat e à sua equipa em
Túnis, aí se mantendo ao longo da próxima década
aproximadamente. Vi-o aí várias vezes e fiquei impressionado com
o seu bem organizado escritório, os seus modos amenamente
burocráticos e o seu evidente interesse na Europa e nos Estados Unidos
enquanto arenas em que os palestinos poderiam fazer trabalho útil de
promoção da paz. Depois da conferência de Madrid de 1991,
dizia-se que ele reunira funcionários da OLP e intelectuais
independentes na Europa, formando com eles equipas que prepararam pastas de
negociação em assuntos como água, refugiados, demografia e
fronteiras, em antecipação do que viriam a ser os encontros
secretos de Oslo. No entanto, tanto quanto eu saiba, nenhuma destas pastas foi
usada, nenhum dos peritos palestinos esteve directamente envolvido nas
negociações e nenhum dos resultados desta pesquisa influenciou os
documentos finais que emergiram.
Em Oslo, os israelenses puseram em campo um vasto grupo de especialistas,
apoiados por mapas, documentos, estatísticas e pelo menos 17 rascunhos
prévios daquilo que os palestinos haveriam de acabar por assinar.
Enquanto isso, infelizmente, os palestinos restringiram os seus negociadores
a três homens da OLP, dos quais nenhum sabia inglês ou tinha
qualquer preparação em direito internacional (ou qualquer outra
espécie de direito). A preocupação de Arafat parece ter
sido pôr em campo uma equipa sobretudo com vista a mantê-lo a ele
próprio dentro do processo, especialmente depois da sua expulsão
de Beirute e da sua desastrosa decisão de apoiar o Iraque na Guerra do
Golfo de 1991. Se ele tinha outros objectivos em vista então não
se preparou para eles efectivamente, como sempre foi o seu estilo. Nas
memórias de Abu Mazen 'Por canais secretos: o caminho até Oslo'
(1995), e noutros depoimentos anedóticos sobre as discussões de
Oslo, o subordinado de Arafat é creditado como sendo o
arquitecto dos acordos, apesar de nunca ter saído de
Túnis. Abu Mazen vai ao ponto de dizer que demorou um ano, depois das
cerimónias de Washington (em que apareceu ao lado de Arafat, Rabin,
Peres e Clinton) para convencer Arafat de que ele não conseguira ainda
arrancar um Estado do processo de Oslo. Contudo, a maioria dos relatos das
negociações de paz salientam o facto de que Arafat puxava todos
os cordelinhos. Não admira assim que as negociações de
Oslo tenham tornado a situação dos palestinos um bom bocado
pior. (A equipa norte-americana dirigida por Dennis Ross, um antigo empregado
do
lobby
israelense emprego que ele presentemente retomou suportava
rotineiramente a posição de Israel que, após uma
década inteira de negociações, consistia em devolver aos
palestinos 18 por cento dos territórios ocupados em termos altamente
desfavoráveis, com as Forças Armadas israelenses encarregadas da
segurança, fronteiras e água. Naturalmente, o número de
colonatos mais do que duplicou desde então.)
Desde o regresso da OLP aos territórios ocupados, em 1994, Abu Mazen
permaneceu uma figura secundária, conhecida universalmente pela sua
flexibilidade perante Israel, a sua subserviência a Arafat e
a sua falta de uma base política organizada, apesar de ser um dos
fundadores da Fatah, secretário-geral e um dos mais antigos membros do
seu comité central. Tanto quanto eu saiba, ele nunca foi eleito para
nada. Para o Conselho Legislativo palestino, seguramente que nunca foi. A
OLP e a Autoridade Palestiniana sob Arafat são tudo menos transparentes.
Pouco se sabe sobre a forma como as decisões têm sido tomadas, ou
como é gasto o dinheiro, onde está ele e quem, além de
Arafat, tem alguma palavra a dizer nessa matéria. Toda a gente concorda,
contudo, que Arafat, um controleiro maníaco e minucioso, permanece a
figura central em todos os sentidos. É por isso que a
elevação de Abu Mazen ao estatuto de primeiro-ministro
reformador, que tanto agrada a israelenses e norte-americanos, é vista
por muitos palestinos como, enfim, uma espécie de anedota, uma
maneira de o velho se agarrar ao poder inventando uma nova pantomima. Abu Mazen
é geralmente considerado como um personagem descolorido, moderadamente
corrupto, sem quaisquer ideias próprias claras, excepto que quer agradar
ao homem branco.
Como Arafat, Abu Mazen nunca viveu em qualquer lado para além do Golfo,
Síria, Líbano, Tunísia e agora a Palestina ocupada.
Não conhece outras línguas além do arábico,
não é um grande orador nem dispõe de uma presença
pública que impressione. Por contraste, Mohammed Dahlan a outra
figura muito badalada em quem os israelenses e norte-americanos depositam grande
esperança é mais jovem, arguto e absolutamente
implacável. Durante os oito anos em que ele dirigiu uma das 14 ou 15
organizações de segurança de Arafat, a faixa de Gaza ficou
conhecida como o Dahlanistão. Demitiu-se o ano passado, sendo agora
re-recrutado para o papel de chefe-de-segurança-unificado
pelos europeus, norte-americanos e israelenses, apesar de sempre ter sido, ele
também, um dos homens de Arafat. Agora requer-se-lhe que reprima o Hamas
e a Jihad Islâmica - uma das exigências reiteradas dos israelenses,
sob a qual espreita a esperança de que rebente algo semelhante a uma
guerra civil palestiniana, um brilhozinho nos olhos dos militares
israelenses
De qualquer modo parece-me claro que, por mais assídua e flexível
que seja a
performance
de Abu Mazen, ela vai ser limitada por três factores. Um, é
claro, é o próprio Arafat, que continua a controlar a Fatah.
Outro é Sharon (que presumivelmente terá os EUA completamente
do seu lado). Numa lista de 14 reparos sobre o roteiro
publicados no '
Haaretz
' de 27 de Maio passado, Sharon assinalou os limites extremamente apertados a
que obedecerá tudo o que possa ser considerado flexibilidade por parte
de Israel. O terceiro é Bush e a sua Administração. A
julgar pela maneira como abordaram o pós-guerra na Afeganistão e
no Iraque eles não têm nem o estômago nem competência
para as tarefas da reconstrução. Desde já, apoiantes
sulistas de Bush, da direita religiosa extremista, protestam ruidosamente
contra qualquer ideia de pôr pressão sobre Israel. E o
poderosíssimo
lobby
pró-israelense, mais o seu dócil adjunto, o Congresso
norte-americano, entraram já em acção contra qualquer
sugestão de uso de coerção contra Israel, apesar de isso
ser absolutamente crucial na fase final em que agora entramos.
Pode parecer quixotesco da minha parte dizer que, apesar de as perspectivas do
ponto de vista palestino serem sombrias, elas não são de um
negrume total. Para o justificar, tenho de retornar ao tema da
obstinação que abordei há pouco e ao facto de que a
sociedade palestiniana devastada, quase arruinada, desoladora em muitos
aspectos é, como o tordo de Hardy, na sua plumagem chamuscada,
ainda assim capaz de projectar a sua alma por sobre o ascenso das trevas
(3)
.
Nenhuma outra sociedade árabe é tão turbulenta e
saudavelmente desordenada, e nenhuma é tão plena de iniciativas
cívicas e sociais, de instituições que funcionam
efectivamente (incluindo um miraculosamente activo conservatório
musical). Embora estejam maioritariamente desorganizados e em certos casos
tenham vidas miseráveis de exílio e desamparo, os palestinos
da diáspora continuam energicamente empenhados nos problemas do seu
destino colectivo. Todos aqueles que conheço estão
permanentemente a tentar ajudar a causa, das mais variadas maneiras. Só
uma ínfima fracção desta energia encontrou alguma vez o
seu caminho até à Autoridade Palestiniana, a qual, com
excepção da figura ambivalente de Arafat, permaneceu sempre
estranhamente apartada do destino comum. De acordo com sondagens recentes, a
Fatah e o Hamas, entre si, reúnem o apoio de cerca de 45 % do eleitorado
palestino, sendo os 55% remanescentes atraídos por outras
formações políticas bem diversas e muito mais auspiciosas.
Uma delas, em particular, impressionou-me como muito significativa (a ponto de
me ter ligado a ela) no sentido em que é a única
formação genuinamente de massas que se afasta tanto dos partidos
religiosos e da sua política fundamentalmente sectária como do
nacionalismo tradicional da Fatah de Arafat, como os seus activistas geralmente
um tanto idosos. É a chamada Iniciativa Política Nacional (IPN),
que tem como figura de proa Mostapha Barghuti, um médico formado em
Moscovo, cujo trabalho principal tem sido o de director do excelente
Comité de Assistência Médica Aldeã, que já
garantiu o acesso a cuidados de saúde a mais de 100.000 palestinos
vivendo em zonas rurais. Antigo militante do Partido Comunista, Barghuti
é um organizador afável e tenaz. Ele superou as centenas de
obstáculos físicos que impedem os palestinos de se moverem ou
viajarem ao estrangeiro, conseguindo reunir quase todos os indivíduos
independentes e organizações dignas de nota em apoio a um
programa político que promete reforma social e libertação
de dogmas doutrinais. Barghuti construiu um movimento de solidariedade
invejavelmente bem dirigido e que pratica efectivamente o pluralismo e a
coexistência que prega. A IPN não se atira às cegas para a
militarização sem rumo da intifada. Ela oferece programas de
formação para os desempregados e serviços sociais para os
miseráveis, alegando que são estas as melhores respostas
às presentes circunstâncias e à pressão israelense.
Acima de tudo, a IPN - que está em vias de se tornar um partido
político formalmente reconhecido - procura mobilizar a sociedade
palestiniana, internamente e no exílio, para eleições
livres e autênticas, que garantam representação aos
interesses dos palestinos e não aos dos israelenses ou aos dos EUA.
Este sentido de autenticidade é o que falha tão flagrantemente no
caminho traçado para Abu Mazen.
A visão que aqui se produz não é a de um
Estado artificial e provisório em 40% da terra, com os refugiados
entregues à sua sorte e Jerusalém toda para Israel, mas antes a
de um território genuinamente soberano, libertado da
ocupação militar pela acção de massas envolvendo
árabes e judeus sempre que possível. Porque a IPN é um
movimento autenticamente palestino, a reforma e a democracia tornaram-se
parte da sua prática quotidiana. Reuniões organizativas já
se realizaram (estando muitas mais planeadas) na Palestina e no exterior,
apesar das terríveis restrições a viagens em vigor. Traz
algum conforto pensar que, enquanto as negociações e
discussões formais prosseguem, uma série de alternativas
informais e não-cooptadas existem também, das quais a IPN e uma
crescente campanha internacional de solidariedade são agora os
componentes principais.
03/Jun/2003
[*]
Edward Said é um académico norte-americano de origem
palestiniana, professor na Universidade de Columbia na área de
crítica literária e estudos culturais. Desde os anos 60 acompanha
a luta pela auto-determinação palestiniana conduzida pela OLP, de
forma independente e frequentemente crítica. Um arquivo não
oficial de Edward Said pode ser consultado em
http://www.edwardsaid.org/
.
NOTAS DO TRADUTOR:
(1) A expressão original inglesa
road map for peace
seria mais exactamente traduzida por mapa de estradas para a paz.
Sucede que roteiro é a expressão já consagrada
na Imprensa portuguesa. Embora concorde com António Louçã
em como esta é uma tradução tendenciosa e subserviente,
não vamos aqui remar contra a maré numa questão de detalhe.
(2) O
'Haaretz'
é um jornal diário israelense de orientação
moderada, dito de centro-esquerda.
(3) Said faz aqui referência ao poema de Thomas Hardy (1840-1928) 'The
Darkling Thrush' (Um tordo ao lusco-fusco), parafraseando uma passagem.
O original encontra-se em
http://www.counterpunch.org/said06142003.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
.
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