Boicote, Desinvestimento, Sanções
O massacre da Flotilha da Liberdade torna urgente intensificar o BDS
por Movimento BDS
Palestina Ocupada, 08/Junho/2010 Perante o massacre perpetrado por
Israel contra trabalhadores e activistas de ajuda humanitária a bordo da
Flotilha da Liberdade a 31 de Maio de 2010 e a sua insistência em
continuar o cerco ilegal de Gaza, tornou-se inegavelmente urgente pressionar
Israel para que cumpra com as suas obrigações ao abrigo da lei
internacional. Embriagado pelo poder e pela impunidade, Israel tem ignorado os
recentes apelos do secretário-geral da ONU assim como o consenso entre
os governos mundiais para que ponha fim ao cerco mortal, atirando o ónus
para a sociedade civil internacional de assumir a responsabilidade moral de
responsabilizar Israel perante a lei internacional e acabar com a sua
impunidade criminal. A campanha global encabeçada pelos palestinos para
o Boicote, Desinvestimento e Sanções (Boycott, Divestment and
Sanctions BDS) contra Israel provou ser a forma mais eficaz de o
conseguir.
O actual bloqueio de Israel aos alimentos essenciais, medicamentos, produtos
para a educação e para a construção, não
é apenas imoral; é uma forma grave de punição
colectiva, um crime de guerra que é estritamente proibido pelo Artigo 33
da Quarta Convenção de Genebra. Está a provocar uma
pobreza maciça, a contaminação da água, um colapso
ambiental, doenças crónicas, devastação
económica e centenas de mortos. Este cerco medieval que dura há
três anos contra 1,5 milhão de palestinos em Gaza foi condenado
abertamente por importantes juristas, incluindo o Prof. Richard Falk, Relator
Especial para os Direitos Humanos, das Nações Unidas, que o
descreveu como constituindo um "lento genocídio":
Os ataques amplamente condenados de Israel a navios desarmados da Flotilha da
Liberdade, conforme concordam importantes juristas internacionais
[1]
, violam a lei marítima internacional e a Convenção das
Nações Unidas para a Lei dos Mares, que estipula que "o alto
mar deve ser reservado para efeitos pacíficos".
Ao abrigo do artigo 3 da Convenção de Roma para a
Supressão de Actos Ilegais contra a Segurança da
Navegação Marítima de 1988, é um crime
internacional qualquer pessoa apoderar-se ou exercer o controlo de um navio
pela força, e é também um crime ferir ou matar qualquer
pessoa nesse procedimento. Conforme confirmaram estudiosos do direito
internacional, não há nenhuma justificação legal
para o acto de agressão de Israel contra barcos civis internacionais que
transportam ajuda humanitária e para desenvolvimento a civis que
estão a sofrer com uma ocupação e um cerco nitidamente
ilegais, que provocaram uma catástrofe humanitária feita pela
mão do homem e deliberadamente prolongada. A nossa resposta tem que ser
proporcional ao terrível sofrimento que resulta deste cerco assim como
aos sucessivos sistemas de opressão israelense, que duram há
décadas.
A reacção da comunidade internacional e dos povos por todo o
mundo tem que entender as recentes atrocidades israelenses no contexto de
décadas da impunidade de Israel, que lhe é proporcionada pelos
governos ocidentais e, mais recentemente, pelas Nações Unidas.
Desde o Nabka, a instalação de Israel a troco da expulsão
e limpeza étnica da maioria do povo palestino nativo, que Israel tem
sido autorizado a recusar aos mais de 6 milhões de refugiados o direito,
sancionado pela ONU, de regressar aos seus lares de origem. No mesmo
período, Israel conseguiu levar por diante o seu sistema de
discriminação racial legalizada e institucionalizada que enforma
a definição de apartheid segundo a Convenção
Internacional para a Supressão e Punição do Crime de
Apartheid, de 1993
[2]
. Há exactamente 43 anos que Israel mantém a sua
ocupação da Margem Ocidental, incluindo Jerusalém e Gaza,
e continua a alargar as suas colónias ilegais, praticando graves
violações do direito internacional e crimes de guerra com toda a
impunidade. Até mesmo a sentença do Tribunal Internacional de
Justiça em 2004, que considerou ilegais o Muro de Israel e a
instalação de colonatos e apelou directamente a todos os estados
para acabarem com ambas as coisas, foi ignorada.
Actualmente, vemos sinais de que o apoio incondicional dado a Israel durante
décadas pela comunidade internacional para o impedir de ter que prestar
contas, ou sequer ser criticado, está a mostrar algumas fendas. O
Massacre da Flotilha feito por Israel tem tido como resposta
sanções internacionais incluindo a suspensão de
relações diplomáticas entre a Nicarágua e Israel
[3]
; a África do Sul
[4]
e a Turquia
[5]
mandaram retirar os seus respectivos embaixadores em Tel Aviv, assim como um
pedido unânime do parlamento turco para "rever as
relações políticas, militares e económicas com
Israel" e para "pedir justiça contra Israel através das
entidades legais nacionais e internacionais"
[6]
. Mais ainda, a ministra da educação da Noruega e chefe do
partido da Esquerda Socialista, Kristin Halvorsen, reconfirmou a
proibição de armas da Noruega para Israel e apelou a todos os
outros estados para "seguirem a posição norueguesa que
exclui o comércio de armas com Israel"
[7]
.
A sociedade civil internacional também reagiu rápida e
eficazmente ao ataque israelense à Flotilha. O Sindicato dos
Trabalhadores Portuários Suecos seguiu o apelo do BNC
[8]
decidindo um bloqueio a todas as cargas de e para Israel entre 15 e 24 de
Junho
[9]
. A federação sul-africana do comércio COSATU apelou para
"um maior apoio à campanha internacional de boicote,
desinvestimento e sanções contra Israel", encorajando
"todos os sul-africanos a recusarem-se a comprar ou manipular quaisquer
produtos de Israel ou a fazerem quaisquer acordos com homens de negócios
israelenses"
[10]
. A União Sul-Africana dos Trabalhadores de Transportes e Afins
(SATAWU), que foi pioneira no boicote ao tráfego marítimo
israelense em Fevereiro de 2009, recusando-se a descarregar um navio em Durban,
também correspondeu ao apelo do BNC, apelando aos seus membros
"para não permitirem que nenhum navio israelense entrasse no porto
ou descarregasse" e apelando aos sindicalistas congéneres para
"não lhes tocar"
[11]
. A União de Trabalhadores Municipais Sul-Africanos (SAMWU) apelou
unanimemente para que cada município da África do Sul se
declarasse zona livre do apartheid Israelense
[12]
. O maior sindicato britânico, a Unite, na sua primeira conferência
política em Manchester, aprovou por unanimidade uma moção
BDS para boicotar todas as empresas israelenses
[13]
. A maior federação sindical da Noruega, a LO, que engloba quase
um quinto de toda a população norueguesa, apelou para que o Fundo
de Pensões Estatais, o terceiro maior do mundo, desinvestisse de todas
as empresas israelenses
[14]
. Uma sondagem efectuada após o ataque à Flotilha, mostrou que
mais de 42% dos noruegueses apoiam agora um boicote abrangente de produtos
israelenses
[15]
.
Figuras importantes da cultura também tiveram uma palavra a dizer. O
mundialmente conhecido escritor britânico,
Iain Banks
, escreveu no
Guardian
que a melhor forma para os artistas, escritores e académicos
internacionais "convencerem Israel da sua degradação moral e
isolamento ético" é "pura e simplesmente não
terem mais nada a ver com este estado fora-de-lei"
[16]
. Os
Klaxons
e os
Gorillaz Sound System
cancelaram os seus concertos já marcados em Israel, por causa do ataque
à Flotilha
[17]
e o mesmo fizeram os
Pixies
[18]
. O escritor de best-sellers a nível mundial, o sueco
Henning Mankell
, que estava na Flotilha da Liberdade quando esta foi atacada, apelou a
sanções globais no género da África do Sul contra
Israel em resposta a este acto brutal
[19]
. A escritora de best-sellers americana,
Alice Walker
, recordou ao mundo o boicote, desencadeado por Rosa Parks e liderado por
Martin Luther King, contra uma empresa de autocarros racista em Montgomery,
Alabama, durante o movimento pelos direitos civis, e apelou a uma ampla
adesão ao BDS contra Israel como um dever moral.
[20]
O Comité Nacional Palestino para o BDS (BNC) acolhe calorosamente estas
posições e acções internacionais corajosas, com
princípios e eficazes que têm como objectivo acabar com o cerco de
Israel e a sua impunidade criminal. Saudamos os artistas, os desportistas e os
sindicatos por corresponderem aos apelos da sociedade civil palestina para uma
verdadeira solidariedade para com o povo palestino sob a forma do BDS.
Apelamos hoje:
-
Às
uniões de estivadores
para aderirem ao apelo
[21]
lançado a 7 de Junho de 2010 por todo o movimento sindicalista
palestino para bloquear a carga e descarga de navios israelenses.
-
A
outros sindicatos
para aderir ao BDS, implementando um boicote aos produtos israelenses e ao
desinvestimento dos seus fundos de pensões de todas as
acções em companhias israelenses e internacionais que tirem
proveito da ocupação e apartheid de Israel. Também
apelamos aos sindicatos internacionais para que sigam o exemplo
histórico dado pelo sindicato académico britânico, UCU,
quando decidiu
[22]
em 21 de Maio cortar relações com o Histadrut, ainda antes de
ter sido noticiada a declaração do Histadrut
[23]
desculpando o massacre da Flotilha feito por Israel. O movimento sindical
palestino, representado totalmente no BNC, condenou fortemente a defesa da
Histadrut dos crimes de guerra israelenses. A Federação Geral
Palestina dos Sindicatos (PGFTU), por exemplo, acusou
[24]
o Histadrut de se esconder "por detrás da cooperação
sindicato a sindicato a fim de justificar ataques brutais contra civis que
tentaram prestar ajuda humanitária a 1,5 milhão de palestinos, na
sua maioria gente trabalhadora, em Gaza". Vale a pena mencionar que o
Histadrut defendeu os crimes de guerra de Israel em Gaza durante 2008-2009.
[25]
-
Aos
governos
para cessarem imediatamente toda a conivência com o bloqueio ilegal de
Israel da Faixa de Gaza, e para pressionarem Israel para que garanta o acesso
sem restrições e a liberdade de movimentos de pessoas e produtos
para dentro e para fora da Faixa de Gaza. Os governos que defendem a lei
internacional e os direitos humanos devem iniciar um embargo global ao
armamento contra Israel e boicotar os negócios com os colonatos.
-
Às
pessoas de consciência
para que pressionem os governos a suspender imediatamente o comércio de
armas com Israel, e a implementar sanções comerciais,
apresentando à justiça todos os funcionários e militares
israelenses que tomaram a decisão e/ou implementaram este último
massacre assim como anteriores crimes de guerra.
-
Às
organizações da sociedade civil
incluindo grupos religiosos, universidades, sindicatos,
associações de mulheres, grupos de estudantes,
associações académicas, etc. para desinvestir as
suas instituições e fundos de pensões de todos os
investimentos em companhias israelenses e internacionais que sejam
cúmplices em manter a ocupação de Israel, o apartheid e a
violação da lei internacional e para boicotar os produtos
israelenses. Apelamos ainda a todos eles que pressionem os seus governos para
acabar com os acordos de comércio livre (FTAs) com Israel, e para
implementar um embargo imediato ao armamento contra Israel, tal como foi pedido
anteriormente pela Amnistia Internacional após a operação
Cast Lead.
[26]
Em especial, apelamos:
-
aos
EUA
para se recusar a renegociar o Plano de Acção EUA-Israel e
suspender o Acordo de Associação EUA-Israel; aos estados da
Mercosul para suspenderem o FTA com Israel; à Índia e ao Chile
para porem fim a todas as negociações em torno de um FTA com
Israel.
-
à
Turquia
, à
Grécia
e à
Irlanda
, enquanto estados cujos navios civis foram atacados ilegalmente por Israel em
águas internacionais, para usarem de todos os meios legais
possíveis para levar a tribunal os israelenses responsáveis por
esse crime de guerra e suspender todos os acordos bilaterais com Israel
até que este respeite a lei internacional.
-
Para o
fim do comércio de armas e relações militares
: em especial à
Índia
, à
Turquia
e ao
Brasil
os três principais importadores de armas israelenses
[27]
para porem fim a todas as relações militares e
comércio de armas com Israel.
-
ao
Movimento Não-Alinhado
(NAM) para activar os seus apelos ao boicote aos produtos dos colonatos,
à recusa em deixar entrar colonos e a sanções às
companhias/entidades envolvidas no Muro e nos colonatos, emitidos repetidamente
nas reuniões do NAM desde 2004
[24]
.
-
ao
parlamento sul-africano
para se juntar à luta contra o apartheid israelense começando
por excluir dos contratos públicos as companhias israelenses e
internacionais implicadas na ocupação e no apartheid.
Também apelamos para que tome a iniciativa de um embargo de armas global
contra Israel e de um boicote gradual aos produtos israelenses. Também
tem que se acabar gradualmente com o comércio de diamantes com Israel,
implementando oficinas de lapidação na África do Sul em
vez de se permitir que Israel explore os diamantes sul-africanos para extrair
lucros enormes com o processo de lapidação.
-
aos
Estados árabes
para acabarem com os acordos diplomáticos e comerciais existentes com
Israel e para excluir dos contratos públicos todas as companhias
internacionais envolvidas nas violações israelenses da lei
internacional e dos direitos humanos, em especial a Veolia, a Alstom, a Lev
Leviev, a Caterpillar, a Motorola, a Volvo, etc. O Egipto devia abrir
indefinidamente o Cruzamento Rafah.
-
aos Sindicatos que participam na próxima conferência ITUC
(International Trade Union Confederation) em Vancouver para aderir ao BDS e
cortar ligações com o Histadrut.
Nas palavras de Nelson Mandela, a justiça para o povo da Palestina
tornou-se na "maior questão moral da nossa época". O
brutal cerco de Israel a Gaza é actualmente a mais crítica e mais
urgente de todas as injustiças israelenses contra o povo palestino.
O BNC apela às pessoas de consciência e aos grupos de
cidadãos em todo o mundo para intensificarem as campanhas de BDS contra
Israel como sendo o meio mais eficaz de acabar com o cerco e tornar Israel
responsável perante a lei internacional na procura de uma paz justa.
Notas
[1]
O importante jurista internacional, Prof. Bem Saul, por exemplo, comenta o
ataque à Flotilha, dizendo: "Este último episódio,
triste e chocante, realça o desprezo de Israel pelas vidas dos outros, o
seu profundo desdém pela opinião internacional, e a sua rudeza
como um fora-da-lei da comunidade internacional".
http://www.abc.net.au/unleashed/stories/s2915343.htm
Conhecidos juristas britânicos chegaram à mesma conclusão
numa carta ao
Times:
http://www.timesonline.co.uk/tol/comment/letters/article7142646.ece
E o mesmo aconteceu com conhecidos professores holandeses de direito
internacional numa carta ao
NRC Handelsblad:
www.iss.nl/News/Karin-Arts-co-authors-letter-about-Israel-for-Dutch-newspaper
[2]
http://untreaty.un.org/cod/avl/ha/cspca/cspca.html
[3]
http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-3897773,00.html
[4]
http://www.bloomberg.com/apps/news?sid=a_vBbjBZJ6LM&pid=20601087
[5]
www.todayszaman.com
[6]
www.news-gazette.com
[7]
www.swedishwire.com/nordic/4809-norway-calls-for-boycott-on-arms-to-israel
[8]
http://www.bdsmovement.net/?q=node/710
[9]
ibnkafkasobiterdicta.wordpress.com
[10]
www.cosatu.org.za
[11]
http://groups.google.com/group/cosatu-press/msg/a2ff0baff48201c4?pli=1
[12]
http://www.samwu.org.za/index.php?option=com_content&task=view&id=621&Itemid=1
[13]
http://www.thejc.com/news/uk-news/32579/unite-votes-boycott-israel
[14]
http://www.nrk.no/nyheter/norge/1.7148110
[15]
http://www.ynetnews.com/articles/0,7340,L-3898052,00.html
[16]
http://www.guardian.co.uk/world/2010/jun/03/boycott-israel-iain-banks
[17]
www.haaretz.com
[18]
http://www.abc.net.au/news/stories/2010/06/06/2919568.htm?section=justin
[19]
www.telegraph.co.uk
[20]
http://electronicintifada.net/v2/article11319.shtml
[21]
http://www.bdsmovement.net/?q=node/712
[22]
http://www.jpost.com/International/Article.aspx?id=177210
[23]
http://www.unions.org.il/BRPortal/br/P106.jsp?id=7642
[24]
http://www.pgftu.org/ensite/news.php?action=view&id=76
[25]
http://www.labourstart.org/israel/Histadrut_on_Gaza.pdf
[26]
www.amnesty.org
[27]
Ver Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI),
http://armstrade.sipri.org/armstrade/page/values.php
[28]
"No que se refere aos Estados Membros, os ministros assumiram tomar
medidas, através de legislação, colectiva, regional e
individualmente, para impedir quaisquer produtos dos colonatos israelenses
ilegais de entrarem nos seus mercados, de acordo com as
obrigações ao abrigo dos Tratados Internacionais, para recusar a
entrada a colonos israelenses e para impor sanções contra
companhias e entidades envolvidas na construção do muro e em
outras actividades ilegais no Teritório Palestino Ocupado, incluindo
Jerusalém Oriental".
http://unispal.un.org/UNISPAL.NSF/0/4B3B9C4D7017D42D8525722700520F5F
O original encontra-se em
www.bdsmovement.net
. Tradução de Margarida Ferreira.
info@bdsmovement.net
Este texto encontra-se em
http://resistir.info/
.
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