A caminho de Samarcanda!

Pepe Escobar [*]

Mesquita em Samarcanda.

A reunião do Conselho de Ministros da Organização de Cooperação de Xangai (OCX), em Tashkent, sexta-feira passada, envolveu alguns assuntos realmente muito sérios. Foi a reunião preparatória chave para a reunião da OCX a ser realizada em meados de setembro na lendária Samarcanda, onde a OCX distribuirá uma muito aguardada “Declaração de Samarcanda”,

Tal como era de prever, o que aconteceu em Tashkent foi pouco noticiado em todo o Ocidente coletivo e ainda não foi completamente digerido em vastas áreas do Oriente.

Assim, coube mais uma vez ao ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov ir direto ao cerne da matéria. O mais importante diplomata do planeta – em meio ao drama trágico da Era da Não Diplomacia, Ameaças e Sanções, cozinhada pelos EUA – identificou logo os dois principais temas sobrepostos que promovem a OCX como uma das organizações chave no caminho para a integração da Eurásia.

1. Interconectividade e a “criação de corredores de transporte eficientes”. A Guerra dos Corredores Econômicos é uma das características chave do século XXI.

2. Traçar “a rota para aumentar gradualmente a parte de cada divisa nacional nas compensações mútuas de pagamentos”.

Mas foi na sessão de Perguntas & Respostas que Lavrov pormenorizou em termos práticos todas grandes tendências, no atual estado incandescente das relações internacionais. Os principais pontos foram estes:

Quão confortável está com o dólar dos EUA?

África: “Concordámos em submeter à consideração dos líderes propostas de ações específicas para estabelecer a compensação de pagamentos em divisas nacionais. Penso que agora todos pensarão acerca disso. A África já tem experiência semelhante: divisas comuns em algumas estruturas sub-regionais, as quais, no entanto, em geral continuam ligadas às ocidentais. A partir de 2023, começará a funcionar uma zona de livre comércio no continente africano. O passo lógico seria reforçá-la com acordos monetários”.

Bielorússia – e muitos outros países – ansiosos para entrarem na Organização de Cooperação de Xangai: “Há amplo consenso quanto à candidatura da Bielorússia (...). Senti hoje. Há numerosos candidatos ao status de observador, parceiro de diálogo. Alguns países árabes mostram interesse, assim como a Armênia, Azerbaijão e vários estados asiáticos”.

Diplomacia dos cereais: “Quanto aos cereais russos, foram as sanções impostas pelos EUA que impediram, dadas as restrições criadas, que se implementassem os contratos já assinados: navios russos foram impedidos de entrar em numerosos portos, navios estrangeiros estão proibidos de entrar em portos russos para carregar, e os preços dos seguros subiram muito. (…) Cadeias financeiras também estão interrompidas pelas sanções ilegítimas impostas pelos EUA e a União Europeia (UE). O banco Rosselkhozbank, em particular, através do qual fazem-se pagamentos das exportações alimentares, foi um dos primeiros incluídos na lista de sanções. O secretário-geral da ONU, António Guterres, comprometeu-se a remover estas barreiras a fim de superar a crise alimentar global. Vamos aguardar”.

Formosa: “Não discutimos isto com o nosso colega chinês. A posição da Rússia de que só há uma China permanece inalterada. Os EUA periodicamente confirmam verbalmente essa mesma orientação, mas na prática os seus “feitos” nem sempre coincidem com as palavras. Não temos qualquer problema em reafirmar o princípio da soberania da China”.

A OCX deveria abandonar o dólar dos EUA? “Cada país da OCX deve decidir por si o quanto se sente confortável em confiar no dólar dos EUA, levando em conta a absoluta inconfiabilidade desta divisa e possíveis abusos. Os norte-americanos já o fizeram mais de uma vez em relação a vários estados”.

Por que a OCX import: “Na OCX não há líderes e seguidores. Não há situações como as que são corriqueiras em organizações como a NATO, quando os EUA e aliados mais próximos impõem uma ou outra linha de ação a todos os membros da aliança. Na Organização de Cooperação de Xangai não surgem situações como as que vemos hoje na UE: países soberanos estão a ser literalmente nocauteados, exigindo-se-lhes que ou parem de comprar gás ou reduzam o consumo, violando seus planos e interesses nacionais”.

Lavrov também explicou como “outras estruturas no espaço da Eurásia – por exemplo, a União Econômica Eurasiana (UEE) e os BRICS – são baseadas e operam com os mesmos princípios” da OCX. E referiu-se à cooperação crucial com os dez estados membros da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN).

Assim, estava preparado o cenário para o momento culminante: “Todos esses processos, em interconexão, ajudam a formar a Parceria da Eurásia Expandida (Greater Eurasian Partnership), acerca da qual o presidente Vladimir Putin tem falado repetidas vezes. Vemos nela um benefício para toda a população do continente eurasiano”.

As vidas de afegãos e árabes

A grande história dos Raging Twenties [Furiosos anos vinte] é o modo como a Operação Militar Especial na Ucrânia foi o ‘tiro de partida’ para “todos esses processos”, como mencionou Lavrov, levando simultaneamente à inexorável integração da Eurásia.

Mais uma vez, Lavrov teve de recordar dois fatos básicos que continuam a escapar a quaisquer análises sérias, por todo o Ocidente coletivo:

Fato 1: “Todas as nossas propostas para que fossem removidos [os ativos relativos à expansão da NATO], com base no princípio do respeito mútuo dos interesses de segurança foram ignorados pelos EUA, pela UE e pela NATO”.

Fato 2: “Quando o idioma russo foi proibido na Ucrânia, e o governo ucraniano promoveu teorias e práticas neonazistas, o Ocidente não se opôs mas, ao contrário, estimulou as ações do regime de Kiev e elogiou a Ucrânia como uma‘fortaleza da democracia’. Países ocidentais forneceram armas ao regime de Kiev e planearam a construção de bases navais em território ucraniano. Todas estas ações visavam abertamente conter a Federação Russa. Estivemos a advertir durante dez anos que isto é inaceitável”.

É importante que Lavrov tenha, mais uma vez, posto o Afeganistão, Iraque e Líbia em contexto: “Relembremos o exemplo do Afeganistão, onde até cerimónias de casamento foram sujeitas a ataques aéreos. Ou o Iraque e a Líbia, onde as soberanias dos estados foram completamente destruídas e muitas vidas humanas foram sacrificadas. Quando estados que facilmente executam tais políticas fazem hoje tanto barulho acerca da Ucrânia, só posso concluir que vidas de afegãos e árabes nada significam para os governos ocidentais. É lastimável. Duplos padrões, instintos racistas e coloniais devem ser eliminados”.

Ultimamente Putin, Lavrov, Patrushev, Medvedev têm chamado a atenção para o caráter racista e neocolonial da matriz do NATOstão. A OCX e outras organizações paneurasianas atuam de modo completamente diferente: atuam de modo respeitoso, consensual. E essa é a razão pela qual todo o Sul Global lhe prestam toda a atenção. Próxima parada: Samarcanda.

31/Julho/2022

[*] Jornalista.

O original encontra-se em thesaker.is/going-to-samarkand/ e em www.strategic-culture.org/news/2022/07/30/going-to-samarkand/

Este artigo encontra-se em resistir.info

04/Ago/22