Nem tudo o que brilha é necessariamente ouro russo

– A "ordem internacional baseada em regras" está a desfazer-se muito mais rapidamente do que se poderia prever

Pepe Escobar [*]

Visita de Putin ao cofre do ouro do BCR.

A União Económica da Eurásia (EAEU) e a China começam a conceber, sob a supervisão de Sergei Glazyev, um novo sistema monetário e financeiro que contorna o dólar americano e destinado a competir com o sistema de Bretton Woods.

A Arábia Saudita – perpetrador de bombardeamentos, fome e genocídio no Iémen, armada pelos EUA, Reino Unido e UE – está a avançar com a adopção do petroyuan.

A Índia – o terceiro maior importador de petróleo do mundo – está prestes a assinar um mega-contrato para comprar petróleo da Rússia com um enorme desconto e utilizando um mecanismo rublo-rupia.

As exportações de petróleo de Riade ascendem a cerca de US$170 mil milhões por ano. A China compra 17% do mesmo, contra 21% para o Japão, 15% para os EUA, 12% para a Índia e cerca de 10% para a UE. Os EUA e os seus vassalos – Japão, Coreia do Sul, UE – permanecerão dentro da esfera petrodólar. A Índia, tal como a China, não poderá.

O ricochete das sanções está na ofensiva. Mesmo um filho dileto do capitalismo de mercado/casino, como o uber-nerd estratega do Credit Suisse, Zoltan Poznar, anteriormente do Fed de NY, FMI e Departamento do Tesouro, foi forçado a admitir, numa nota analítica:   "Se pensa que o Ocidente pode impor sanções que irão maximizar o sofrimento para a Rússia e ao mesmo tempo minimizar os riscos de estabilidade financeira e de preços para o Ocidente, então também pode acreditar em unicórnios".

Unicórnios são uma marca registada do enorme aparelho de psyops do NATOstão, claramente ilustrado pela "cimeira" encenada e completamente falsa em Kiev entre o Zé Comediante e os primeiros-ministros da Polónia, Eslovénia e República Checa, totalmente desmascarada por John Helmer e fontes polacas.

Poznar, que é um realista, insinuou de facto o enterro ritual do capítulo financeiro da "ordem internacional baseada em regras", em vigor desde os primeiros anos da Guerra Fria:   "Após o fim desta guerra [na Ucrânia], o 'dinheiro' nunca mais será o mesmo". Especialmente quando o Hegemon demonstra as suas "regras", usurpando o dinheiro dos outros.

E isto configura o princípio central da geopolítica marcial do século XXI como monetário/ideológico. O mundo, especialmente o Sul Global, terá de decidir se o "dinheiro" é representado pelo casino virtual com turbo-lixo privilegiado pelos americanos ou por activos tangíveis reais, tais como fontes de energia. Um mundo financeiro bipolar – dólar americano contra yuan – está à mão.

Ainda não há provas infalíveis – ainda. Mas o Kremlin pode certamente ter evocado que, utilizando reservas estrangeiras da Rússia como isco, provavelmente a serem congeladas por sanções, o resultado final poderia ser o esmagamento do petrodólar. Afinal de contas, a esmagadora maioria do Sul Global já compreendeu plenamente que o US dólar apoiado por nada como "moeda" – segundo Poznar – é absolutamente inconfiável.

Se for este o caso, trata-se de um ippon [golpe de judo] infernal de Putin.

Chegou a hora do roubo de ouro

Quando esbocei a emergência do novo paradigma, desde o novo sistema monetário a ser concebido por uma cooperação entre a EAEU e a China até ao advento do petroyuan, irrompeu uma séria discussão informada acerca de uma parte crucial do puzzle: o destino das reservas de ouro russas.

Houve um turbilhão de dúvidas quanto à política, indiscutivelmente suicida, do Banco Central Russo de manter activos em títulos estrangeiros ou em bancos vulneráveis às sanções ocidentais.

Claro que há sempre a possibilidade de Moscovo ter calculado que nações detentoras de reservas russas – como a Alemanha e a França – tenham activos na Rússia que possam ser facilmente nacionalizados. E que a dívida total do Estado mais as das empresas russas exceda mesmo o montante das reservas congeladas.

Mas e quanto ao ouro?

No dia 1 de Fevereiro, três semanas antes do comêço da Operação Z, o Banco Central russo possuía US$630,2 mil milhões em reservas. Quase a metade – $311,2 mil milhões – foram colocados em títulos estrangeiros, e um quarto – $151,9 mil milhões – em depósitos junto a bancos comerciais e centrais estrangeiros. Não é exactamente uma estratégia brilhante. Em Junho do ano passado, o parceiro estratégico China detinha 13,8% das reservas da Rússia, em ouro e divisas estrangeiras.

Quanto ao ouro físico, US$132,2 mil milhões – 21% do total das reservas – permanecem nos cofres em Moscovo (dois terços) e em São Petersburgo (um terço).

Então, nenhum ouro russo foi congelado? Bem, é complicado.

O problema chave é que mais de 75% das reservas do Banco Central da Rússia são em divisas estrangeiras. Metade destas são títulos, como obrigações do Estado: nunca deixam a nação que os emitiu. Cerca de 25% das reservas estão ligadas a bancos estrangeiros, na sua maioria privados, assim como ao BIS e ao FMI.

Mais uma vez é essencial lembrar Sergei Glazyev no seu ensaio inovador Sanções e Soberania:   "É necessário completar a desdolarização das nossas reservas cambiais, substituindo o dólar, o euro e a libra por ouro. Nas condições actuais de crescimento explosivo esperado do preço do ouro, a sua exportação em massa para o estrangeiro assemelha-se à traição e é mais do que tempo de o regulador a travar".

Esta é uma acusação poderosa ao Banco Central Russo – que contraía empréstimos contra o ouro e o exportava. Para todos os efeitos práticos, o Banco Central poderia ser acusado de perpetrar um trabalho à socapa (inside job). E, a seguir, foram apanhados desprevenidos pelas devastadoras sanções americanas.

Como colocou um analista de Moscovo, o Banco Central "havia entregue alguns volumes de ouro a Londres em 2020-2021. Esta decisão fora motivada por um preço elevado do ouro nessa altura (perto de 2.000 dólares por onça) e dificilmente poderia ser iniciada por Putin. Se assim for, esta decisão pode ser qualificada como muito estúpida, ou mesmo parte de uma táctica diversionista (...) A maior parte do ouro entregue em Londres não foi armazenado, mas vendido e transferido para reservas em divisas estrangeiras (em euros ou libras) as quais foram congeladas posteriormente".

Não é de admirar que muitas pessoas na Rússia estejam lívidas. Uma rápida retrospectiva é necessária. Em Junho do ano passado, Putin assinou uma lei cancelando as exigências para o repatriamento das receitas em divisas estrangeiras provenientes das exportações de ouro. Cinco meses mais tarde, os mineiros de ouro da Rússia estavam a exportar como loucos. Um mês depois, a Duma quis saber porque é que o Banco Central havia deixado de comprar ouro. Não é de admirar que os meios de comunicação russos tenham entrado em erupção com acusações de "um roubo [de ouro] sem precedentes".

Agora é muito mais dramático: A RIA Novosti descreveu o congelamento ditado pelos americanos como – o que mais – um "roubo" e previu devidamente um caos económico global. Quanto ao Banco Central, está de volta ao negócio da compra de ouro.

No entanto, nada do acima mencionado explica algum ouro "em falta" que de facto não esteja sob a posse do Banco Central Russo. E é aí que entra uma personagem um tanto sombria, como Herman Gref.

Vamos verificar isto junto ao deputado da Duma Mikhail Delyagin, o qual tinha algumas coisas a dizer sobre a bonança do ouro exportado para Londres:

"Este processo tem estado a decorrer desde o ano passado. De acordo com algumas estimativas foram exportadas 600 toneladas. Nabiulina [Governadora do Banco Central da Rússia] disse – quem quer que queira vender ouro para obter cash, ou se você minerar ouro e comercializá-lo, tenha em mente que o Estado, na minha pessoa, não lhe comprará ouro a um preço de mercado. Aceitamo-lo com um grande desconto. Se quiser obter dinheiro honesto por ele, por favor, exporte-o. O centro mundial do comércio de ouro é Londres. Consequentemente, todos começaram a exportar e a vender ouro ali. Incluindo o Sr. [Herman] Gref. O Sberbank, formalmente estatal, vendeu uma enorme parte das suas reservas de ouro".

Veja aqui pormenores fascinantes acerca as manobras ardilosas deste Gref do Sberbank.

Fique atento ao rublo com lastro ouro

Pode ser um caso de demasiado pouco demasiado tarde, mas pelo menos agora o Kremlin estabeleceu um comité – com autoridade sobre os totós do Banco Central – para lidar com as coisas sérias.

É espantoso que o Banco Central russo não responda à constituição russa, bem como ao sistema judicial, mas esteja de facto subordinado ao FMI. Pode argumentar-se que este sistema financeiro concebido por cartel – o que implica soberania zero – simplesmente não pode ser atacado frontalmente por qualquer nação do planeta, e Putin tem tentado miná-lo passo a passo. Isto inclui, naturalmente, manter Elvira Nabiullina no cargo, mesmo quando ela segue o consenso de Washington ao pé da letra.

E isso traz-nos de volta à possibilidade extremamente alta de que o Kremlin possa ter querido desde o início que não houvesse barreiras, forçando os atlanticistas a revelarem a sua verdadeira mão e expondo o seu sistema num espectactular "O Rei vai nu" para uma audiência mundial.

E é aí que entra o novo sistema monetário/financeiro da EAEU/China, sob a supervisão de Glazyev. Podemos certamente imaginar a Rússia, a China e vastas zonas da Eurásia a divorciarem-se progressivamente do capitalismo de casino; o rublo reconvertido para uma moeda com lastro ouro; e a Rússia concentrada na auto-suficiência, investimento interno produtivo e conectividade comercial com a maior parte do Sul Global.

Muito para além das suas reservas confiscadas no estrangeiro e das toneladas de ouro vendidas em Londres, o que importa é que a Rússia continua a ser a derradeira potência dos recursos naturais. Escassez? Um pouco de austeridade durante um bocado de tempo vai resolver o problema: nada tão dramático como o empobrecimento nacional sob os anos 90 sob os neoliberais. E um impulso extra viria da exportação de recursos naturais a preços de desconto premium para outros BRICS e para a maior parte da Eurásia e do Sul Global.

O Ocidente colectivo acabou de fabricar uma nova e mesquinha divisão Leste-Oeste. A Rússia está a virá-la de cabeça para baixo, para seu próprio lucro: afinal de contas, o mundo multipolar está em ascensão no Leste.

O Império das Mentiras não vai recuar, porque não tem um Plano B. O Plano A é "cancelar" a Rússia em todos os quadrantes – ocidentais. E depois? Russofobia, racismo, psyops o tempo inteiro, excesso de propaganda, cultura de cancelamento com mobilizaçãos online, isso nada significa.

Os factos importam: o Urso tem bastante equipamento nuclear/hipersónico para destruir a NATO em poucos minutos antes do pequeno-almoço e dar uma lição ao Ocidente colectivo antes dos cocktails que precedem o jantar. Chegará uma altura em que algum excepcionalista com um QI decente compreenderá finalmente o significado de "indivisibilidade da segurança".

18/Março/2022

Ver também:
  • Putin Reappoints Russian Central Bank Chief Who Handed Over Russia’s Reserves to Russia’s Enemies (Will Russia Be Defeated By Her Own Central Bank?)
  • [*] Analista político.

    O original encontra-se em thesaker.is/all-that-glitters-is-not-necessarily-russian-gold/

    Este artigo encontra-se em resistir.info

    /Mar/22