Comecemos por quatro variáveis-chave em jogo nesta encruzilhada cada vez mais perigosa.
Primeiro. O Majlis – o Parlamento iraniano – reuniu-se na terça-feira à noite, no início da nova era de Moktaba, que teve início na passada sexta-feira, após os rituais fúnebres finais do antigo Líder Supremo, o aiatolá Khamenei, assassinado em Mashhad. Os 290 membros aprovaram por unanimidade duas resoluções. A primeira exige que o governo — sob a liderança do Presidente Pezeshkian — "acelere as capacidades nucleares". Isso pode ser interpretado tanto como um aumento do enriquecimento de urânio, como algo muito mais revolucionário.
A segunda resolução rejeita qualquer (itálico meu) compromisso com os EUA sobre termos previamente acordados. Tradução: mesmo que houvesse um memorando de entendimento (MoU) renovado — de facto anulado pelo Presidente dos Estados Unidos logo após a cimeira da NATO em Ancara —, os termos seriam muito mais severos para os EUA.
Dois. O canal Irão-Paquistão-Catar.
No início desta semana, Islamabad e Doha retomaram consultas intensas — poder-se-ia até classificá-las como frenéticas — na tentativa de reabrir conversações diretas com Teerão no próximo domingo.
Trata-se de um trabalho de Sísifo, porque teria de decorrer em nítido contraste com os intensos bombardeamentos americanos contra alvos iranianos — incluindo infraestruturas civis — e com o lema entoado por milhões nas ruas do Irão na semana passada: "Vingança".
A diplomacia, contudo, é real. No entanto, foi rebaixada pelos mediadores de "caminho para um acordo" para "prevenção de uma catástrofe".
Três. O canal secreto Trump-Munir.
Os mediadores nos lamentáveis restos da mesa de negociações confirmam que Trump continua a fazer chamadas diretas ao marechal de campo paquistanês Asim Munir, pressionando-o a encontrar uma saída que evite a humilhação pessoal.
Isso invalida completamente as declarações estridentes características do Presidente dos EUA — que dominam sempre o ciclo noticioso — de que o Irão está a implorar por um acordo. A realidade é exatamente o oposto. Munir, aliás, é a última cartada de Trump quando se trata de uma saída.
Quatro. A resposta militar iraniana aos bombardeamentos dos EUA.
Isso inclui, fundamentalmente, as munições de fragmentação de precisão que devastaram bases norte-americanas no Kuwait, no Bahrein e na Jordânia.
A esmagadora maioria dos danos reais não está a ser divulgada publicamente. Desde a Base Aérea de Al Udeid, no Qatar, até ao Centro de Comando e Controlo na Jordânia; passando pelos sistemas de mísseis Patriot destruídos no Kuwait e pela Base Aérea de Al Dhafra, nos Emirados Árabes Unidos; desde a destruição de hangares de drones MQ-9, lançadores HIMARS e depósitos de munições até às plataformas de reabastecimento arrasadas no porto de Duqm, em Omã.
Essa última foi de arrasar: Duqm fica na costa do Mar Arábico, fora do Estreito de Ormuz. É aí que os navios americanos atracam sem entrar no Golfo Pérsico, reabastecem e recebem serviços de reparação e abastecimento: um nó-chave da retaguarda operacional da frota dos EUA destacada no norte do Oceano Índico.
Onde está Moktaba Khamenei?
Mais uma vez: mesmo que houvesse um caminho para um Memorando de Entendimento 2.0, logo na primeira reunião Teerão deixaria bem claro: Washington tem de implementar o parágrafo 1 do Memorando de Entendimento (sobre o fim de todas as guerras). Sem isso, não há negociações. Entretanto, com ou sem um Bloqueio de Trump 2.0, Teerão manterá o Estreito de Ormuz fortemente restrito: o trânsito só é possível através dos canais da Marinha do IRGC ao largo da ilha de Larak.
Agora, quanto ao "Enigma de Moktaba".
A arquitetura de segurança da Ásia Ocidental não se limitou a mudar. Fracturou-se e foi redefinida. Os termos dessa redefinição estão a ser ditados por Teerão – que, além disso, detém o domínio da escalada em todo o Golfo Pérsico.
O Memorando de Entendimento de 14 pontos deixa claro que é o Irão que define os termos – e os mediadores/negociadores sabem disso. Estão a esforçar-se freneticamente para manter vivo até mesmo um frágil canal de diálogo indireto.
O novo líder, Moktaba Khamenei, goza de um consenso nacional esmagador. Desde a última sexta-feira, como líder de uma nova era, governa de facto através de diretivas escritas.
Um membro influente do Majlis, Mahmoud Nabavian, já leu algumas das cartas internas de Moktaba na televisão estatal iraniana – nas quais este se opõe a quaisquer concessões nucleares, exige uma compensação dos EUA e insiste no controlo exclusivo do Estreito de Ormuz por parte do Irão.
O Irão simplesmente não vai ser forçado a regressar à mesa de negociações — sejam quais forem os argumentos apresentados pelos mediadores e pelos observadores externos. Os clamores generalizados dos enlutados ao longo de seis dias, de Teerão e Qom a Mashhad, dia e noite, exigiam "vingança". E Moktaba reiterou precisamente esse ponto na sua declaração escrita.
A narrativa religiosa e estratégica que molda a nova era da República Islâmica do Irão enraíza profundamente a morte do aiatolá Khamenei na narrativa fundacional da identidade política xiita – transformando um assassinato perpetrado por uma potência estrangeira num ato sagrado de sacrifício.
E a "vingança", neste contexto, assume uma conotação transcendental. Moktaba não retratou a "vingança" como uma escolha política ou uma questão de política de Estado. Definuiu-a como a vontade da nação. E, acima de tudo, como uma missão atemporal e divina.
Assim, será a História a decidir quando a "vingança" estará consumada. Moktaba enquadrou-a como algo que não depende dele pessoalmente, nem de qualquer órgão estatal ou funcionário: "pessoas livres em todo o mundo" levarão a cabo, cada uma à sua maneira, parte desta missão sagrada.
Como declaração de teologia política na era pós-moderna, isto é único no seu género.
Narciso a afogar-se na sua própria espiral
Entretanto, a via de negociação de Ghalibaf e Araghchi e a via de comando e controlo militar do IRGC de Vahidi continuarão a coexistir no seio do governo liderado pelo Presidente Pezeshkian. Trata-se, de facto, de dois vetores do mesmo processo. Toda a propaganda sobre "fraturas" internas é — o que mais poderia ser? — propaganda americana.
Agora, falemos dos manipuladores. É do conhecimento público que o eixo sionista Washington-Nova Iorque-Tel Aviv está a dar tudo por tudo para manter os EUA em modo de "Totaler Krieg" ("Guerra Total").
É assim que cada movimento de Teerão — sempre defensivo — é retratado como um casus belli. E uma via de saída como o Memorando de Entendimento é menosprezada como "apaziguamento". A mentalidade da "Guerra Total" garante uma escalada perpétua. E oferece mesmo a Teerão a justificação para qualquer resposta — seja o encerramento do Estreito de Ormuz ou a possibilidade de uma retirada do TNP. E isso reforça os falcões sionistas para pressionarem por — o que mais poderia ser — mais guerra.
Esta máquina infernal, um ciclo auto-vicioso, acaba por beneficiar o Irão — porque o Irão só precisa que o ciclo continue. Cada reviravolta transforma os métodos de devastação imperialista dos EUA em legitimidade acumulada para o Irão — a nível interno e na maior parte do Sul Global.
Trump encontra-se totalmente no território "Narciso Afogado", confrontado com uma série de imperativos intoleráveis: um Estreito de Ormuz fechado, que inevitavelmente fará disparar os preços do petróleo quando as Reservas Estratégicas de Petróleo (SPR) atingirem o alerta vermelho; a possível retirada do Irão do TNP.
É importante lembrar que o prazo de 60 dias do Memorando de Entendimento (MoU) expira em meados de agosto — daqui a apenas um mês. Um acordo final tem de ser alcançado até lá ou todo o quadro caduca.
Mais uma vez, para que conste: para Teerão, o Memorando de Entendimento original de 14 pontos é a única opção viável. Não haverá nenhuma (itálico meu) renegociação; apenas a implementação da sua sequência. Teerão tem sempre de deixar isto bem claro – porque os americanos ainda não percebem. Teerão já venceu a questão central da guerra: o Estreito de Ormuz. Isso nunca teve a ver com o dossiê nuclear. Washington terá de aceitar esta realidade.
Bem, isso será quase impossível. Os cenários que se avizinham parecem sombrios.
"Desescalada controlada" parece agora uma miragem no deserto.
O mesmo se aplica a um impasse congelado – em que as negociações continuam; sem acordo; incidentes esporádicos com petroleiros; o tráfego marítimo permanecem a um terço-um quinto dos níveis pré-guerra.
Na situação atual, todos os indicadores apontam, pelo contrário, para uma escalada vertical: encerramento total do Estreito de Ormuz; a iminente e violenta onda de ataques dos EUA; o Irão a responder com a retirada do TNP.
Para todos os efeitos práticos, Trump não está a negociar com o Irão. Está a tentar desesperadamente reverter uma derrota estratégica massiva.
O "cessar-fogo" foi sempre uma pausa para recuperar a influência perdida. Trump queria a rendição, a capitulação total, a mudança de regime, o Irão como uma neocolónia. Conseguiu um Memorando de Entendimento que não compreende, e que talvez nem sequer tenha lido, apesar de o ter assinado, com grande pompa, em Versalhes. Nem sequer compreende que o documento que assinou não atribui a tomada de decisões sobre o Estreito de Ormuz entre o Irão e Omã: apenas ao Irão.
É por isso que está a tentar reescrever o que assinou sem o admitir — recorrendo à escalada de tensão; à coação extrema disfarçada de diplomacia; forçando Teerão a renunciar à sua influência; e enlouquecendo completamente, ameaçando na próxima semana atacar todas as centrais elétricas, pontes e instalações energéticas do Irão.
Tecnicamente, o Irão cumpriu todos os termos do Memorando de Entendimento que assinou. Foram os EUA — e estes são apenas alguns exemplos — que se recusaram a desbloquear os ativos congelados do Irão; impuseram novas sanções (violação direta do Artigo 9.º); anularam as isenções às sanções petrolíferas (violação direta do Artigo 10.º); e retomaram a guerra (violação direta do Artigo 1.º).
A história acabará por tratar isto como um caso de estudo sobre como gerir o calendário de uma guerra. Teerão está deliberadamente a conter-se face a Washington porque o tempo — e os mercados petrolíferos — estão do seu lado. A Reserva Estratégica de Petróleo (SPR) estará esgotada em menos de um mês, e a vantagem do Irão no Estreito de Ormuz é total.
Apenas um Estado civilizado, habituado a lidar com todo o tipo de variáveis históricas, é capaz de jogar um jogo muito mais longo do que uma máquina imperial brutal, conservando o poder de fogo essencial enquanto esgota o que resta da reserva estratégica imperial.