Até a paciência estratégica tem os seus limites. Teerão manteve um "quebra-nozes" no Estreito de Ormuz durante 5,5 meses. O Império da Pirataria não recuou. Pelo contrário: a reação, somando-se ao bloqueio de Trump, centrou-se numa manipulação implacável e definitiva do mercado, mantendo os preços do petróleo relativamente baixos — recorrendo a tudo, desde o esgotamento das Reservas Estratégicas de Petróleo (SPR) até à DARPA a utilizar ferramentas de IA para manipular os mercados.
Custos terríveis estão prestes a ser pagos na íntegra – através de uma depressão global; de uma rejeição ainda maior dos "valores" ocidentais – e dos esquemas fraudulentos – em todo o Sul Global; e de uma divisão inevitável entre dois sistemas mundiais.
O Irão não pode continuar no caminho de um estrangulamento lento do Estreito de Ormuz – pois corre o risco de reverter os ganhos à medida que o tempo passa. O Irão está fadado a enfraquecer juntamente com todos os outros numa Grande Depressão Global. Essa não é, definitivamente, uma solução a longo prazo para um Estado-civilização orgulhoso, soberano e resiliente, com uma determinação milenar no que diz respeito à autossuficiência digna.
A liderança em Teerão compreendeu perfeitamente que a nova — na verdade, de volta à velha — estratégia do Império é sufocar financeira e economicamente a Pérsia, tal como fora feito, por exemplo, à Síria.
A situação piora. Muito pior: a atual normalização do recurso a armas nucleares táticas nas "discussões" às mesas do Império. Se o genocídio foi normalizado — por todo o Ocidente, coletivo e fragmentado —, por que não o bombardeamento nuclear (mas apenas pelo Império)?
Teerão está plenamente consciente de que uma longa nuvem negra pode estar a aproximar-se. Por isso, é o momento certo para acelerar o ritmo. Mohsen Rezaee — novo secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional (SNSC) e representante pessoal do Líder Moktaba Khamenei — está a dar o tom. Não há outra saída senão avançar a todo o vapor para forçar a Velha Ordem Hegemónica a curvar-se.
Coercivo, mas não decisivo
O bloqueio naval de Trump pode estar a causar alguns estragos no Irão; mas, por si só, não consegue alterar uma parte substancial da arquitetura que o mantém ligado à Eurásia.
O bloqueio prejudicou o comércio marítimo de petróleo do Irão. O tráfego no Estreito de Ormuz entrou em colapso. Dependendo da fonte de monitorização, as exportações de crude do Irão caíram de aproximadamente 1,8-2,0 milhões de barris por dia antes do bloqueio para menos de 300 000 barris por dia.
Trata-se de uma forte pressão coerciva. No entanto, o Irão está longe de estar geograficamente isolado. As ligações ferroviárias através da Ásia Central; o tráfego comercial através das fronteiras terrestres com o Paquistão (pelo menos seis canais); a rota do Cáspio para a Rússia; o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (INSTC): tudo isso permanece em vigor — e, no caso do INSTC, está mesmo a expandir-se, apesar de as infraestruturas ainda se encontrarem incompletas.
Parte do petróleo iraniano continua a escapar através de transferências de navio para navio, particularmente ao largo da Malásia. A carga que sai das águas iranianas é transferida em alto mar a fim de ocultar a sua origem antes de prosseguir, principalmente em direção a compradores asiáticos.
Durante a trégua de junho-julho, cerca de vinte petroleiros transportaram aproximadamente 6 mil milhões de dólares em petróleo bruto desta forma. É claro que isso não substitui o sistema de exportação do Irão anterior à guerra — uma vez que o processo depende de uma frota paralela limitada que opera sob uma enorme pressão de sanções.
Mas o ponto-chave é que o bloqueio americano apresenta brechas.
Assim, o bloqueio pode ser coercivo, mas não é decisivo — independentemente da enxurrada de propaganda por parte dos comparsas de Trump e de vários vigaristas.
Passando às negociações diretas entre os EUA e o Irão, estas encontram-se atoladas num oceano turbulento de contradições.
O IRGC e o Ministério dos Negócios Estrangeiros negaram publicamente — e de forma explícita — a existência de qualquer canal direto e ativo com os EUA. O IRGC ridicularizou a alegação americana como sendo guerra psicológica – mesmo quando Trump divulgou publicamente a existência de um canal secreto direto e estabelecido com o IRGC.
Bem, na verdade, existe um canal secreto: trata-se do canal estabelecido em maio de 2026, que passa pelo presidente do Curdistão, Nechirvan Barzani, até à alta liderança do IRGC. Esse canal agora ficou inativo. Pode até ter sido mantido, informalmente, num estado de pendência – embora Teerão o negue.
A "diplomacia" não é propriamente tão familiar para Trump quanto os Big Macs; as ameaças, sim. Veja-se a ameaça, agora pública, de bombardear Omã, mencionando-o nominalmente, em duas ocasiões distintas.
Omã está longe de ser um interveniente periférico. Mascate é, simultaneamente: um dos intermediários mais duradouros do CCG; profundamente envolvido no canal diplomático com o Irão; e co-negociador do mecanismo emergente de trânsito do Estreito de Ormuz.
Assim, a ameaça — feita duas vezes — de bombardear Omã significa que o Presidente dos EUA está a ir diretamente contra o próprio miniestado que está a ajudar a construir uma possível saída para o Império.
Não admira que não tenha havido qualquer declaração oficial do governo de Omã em resposta às ameaças. Nenhuma declaração do Sultão.
Nenhuma declaração do Ministério dos Negócios Estrangeiros.
O silêncio de Mascate, porém, não deve ser mal interpretado. Silêncio não é aquiescência. Silêncio não é desafio. O silêncio pode fazer parte de uma estratégia diplomática astuta: algo que é útil para ambas as partes.
Não há qualquer meio de bloquear a geografia do Irão
O porto de Gwadar, no Mar Arábico — um pilar fundamental do Corredor Económico China-Paquistão (CPEC) — tornou-se estrategicamente fundamental como porta de entrada para o trânsito terrestre para o Irão.
É assim que funciona. A carga chega a Gwadar; é consolidada; percorre por terra cerca de 89 km até à passagem de Gabd; e, em seguida, entra no Irão por estrada. O processo é muito mais curto do que transportar a mesma carga através de Karachi – reduzindo tempo e custos.
Ainda assim, não temos provas de que navios com bandeira iraniana façam escala regularmente em Gwadar ou de que carga marítima iraniana esteja a ser carregada e descarregada naquilo que equivale a uma rota marítima iraniana.
Depois, há o Mar Cáspio: a rota estrategicamente crucial, imune à Marinha dos EUA.
Verifiquei isso no ano passado quando filmava um documentário sobre o INSTC, os portos iranianos do Mar Cáspio, como Bandar Anzali, ligam-se principalmente à Rússia, especialmente a Astrakhan.
Desde o bloqueio, os portos iranianos do Mar Cáspio aumentaram o seu ritmo de operação; Bandar Anzali aproxima-se da capacidade máxima, movimentando cereais, produtos agrícolas, bens industriais, componentes e, acima de tudo, o comércio estratégico entre os membros do BRICS, o Irão e a Rússia.
Não há nada que a Marinha dos EUA possa fazer no Mar Cáspio, uma vez que a Convenção de 2018 sobre o Estatuto Jurídico do Mar Cáspio exclui potências navais extra-regionais.
Ao longo dos 7 200 km do INSTC, que liga a Rússia, o Irão e a Índia, o transporte de mercadorias entre a Rússia e o Irão tem crescido muito rapidamente — embora existam problemas de infraestruturas, como a falta da ligação ferroviária Rasht–Astara no interior do Irão.
E o facto é que a rota marítima do INSTC, de Chabahar, no Sistan-Baluchistão, até à Índia, não está, por enquanto, a funcionar como um canal de abastecimento significativo em tempo de guerra.
O Irão encontra-se, na verdade, no centro de duas arquiteturas de conectividade: a linha ferroviária China–Ásia Central–Irão, parte da BRI/Novas Rotas da Seda; e a rota do Mar Cáspio Irão–Rússia, parte do INSTC. Trata-se, de facto, de dois corredores que se cruzam: um de leste a oeste, o outro de norte a sul.
Depois, há o Corredor Transcaspiano, ou Corredor Médio — que não atravessa o Irão: trata-se da rota China-Cazaquistão-Cáspio — Azerbaijão-Geórgia-Turquia-Europa. O Corredor Médio, na verdade, contorna o Irão.
Então, o que é que tudo isto nos pode dizer acerca do bloqueio de Trump?
Em resumo: os EUA podem bloquear o Irão nos mares. Mas não podem bloquear a geografia do Irão.
Afinal, o Irão está no coração de uma rede que atravessa a Eurásia, incluindo o Paquistão, os "-stões" da Ásia Central, a Rússia, o Mar Cáspio e a China.
O que o atual impasse de "nem paz, nem guerra" está a fazer é aumentar exponencialmente o valor estratégico da rede. A rede impede que a coerção marítima se transforme em isolamento físico total. Esqueçam a ideia de os EUA lucrarem com um bloqueio estratégico.
Se há algo a considerar, é que o Irão passar à ofensiva poderá, de facto, provocar outro tipo de bloqueio estratégico. O Irão mantém uma arquitetura anti-acesso em várias camadas, incluindo mísseis antinavio de longo alcance; capacidade de minagem naval; e submarinos concebidos para operações em águas pouco profundas e restritas.
Além disso, a geografia agrava o problema. Grandes forças navais americanas a operar relativamente perto de uma costa extremamente hostil terão de enfrentar distâncias de advertência muito curtas e um espaço de dispersão muito reduzido.
O bloqueio americano devastou, de facto, o maior canal individual através do qual o Irão obtinha ganho em moeda forte – ou petroyuans. Mas não reduziu – nem, geograficamente, pode reduzir – o Irão a uma ilha, uma vez que o Irão continua a ligar-se a leste, norte e sudeste através de redes terrestres, ferroviárias e de mares interiores.
Cada dia que passa, essa arquitetura, a funcionar sob pressão, aumenta o incentivo para que o Irão, a Rússia, a China, o Paquistão e os "-stões" da Ásia Central a aprofundem.
E aprofundar a integração da Eurásia é o desenvolvimento geopolítico mais crucial do século XXI.