Bagdad Ano Zero:
A pilhagem do Iraque após uma utopia neoconservadora

por Naomi Klein [*]

Cartoon de Vinyeta. Só depois de ter estado um mês em Bagdad é que encontrei o que procurava. Tinha viajado ao Iraque um ano depois de começar a guerra, no momento mais alto do que deveria ter sido um boom da indústria de construção, mas após semanas de procura não vi uma única maquinaria pesada a não ser tanques e viaturas Humvee. Por fim encontrei-a: uma grua para construção. Era grande, amarela e impressionante e quando a entrevi ao virar a esquina num congestionado distrito comercial pensei que finalmente ia ser testemunha da reconstrução sobre a qual tanto tinha ouvido falar. Mas ao aproximar-me percebi que a grua não estava verdadeiramente a reconstruir nada, nenhum dos edifícios públicos bombardeados que ainda jazem em ruínas por toda a cidade, nem nenhuma das linhas de alta tensão que continuam retorcidas como montes de sucata, mesmo quando o calor do verão começa a derretê-las. Não, a grua estava a içar um gigantesco cartaz publicitário num edifício de três andares: "Sunbula: mel 100% Natural" , made in Arábia Saudita.

Vendo o cartaz, pensei em algo que o senador McCain dissera em Outubro último: o Iraque é um grandioso pote de mel que atrai milhões de moscas. As moscas a que McCain se estava a referir eram os Halliburton e Bechtel, assim como os aventurados capitalistas que afluíam ao Iraque através da senda aberta pelos veículos Bradley Fighting e pelas bombas guiadas por laser. O mel que os atraía não eram só os contratos sem licitação e a famosa riqueza petrolífera do Iraque mas a variedade de oportunidades de investimento oferecidas por um país que fora aberto depois de ter permanecido selado durante décadas, primeiro pela política económica de Saddam Hussein, depois pelas asfixiantes sanções das Nações Unidas.

Olhando para o cartaz do mel, recordei a explicação mais corrente sobre o que tinha corrido mal no Iraque, um protesto repetido por todos desde John Kerry a Pat Buchanan: o Iraque sofre sangue e provações porque George W. Bush não tem um plano pós-guerra.

O MEL E AS MOSCAS

O único problema com esta teoria é que não é verdadeira. A administração Bush tem, na verdade, um plano para o que fazer depois da guerra, para explicá-lo de forma simples, trata-se de mostrar tanto mel quanto possível e depois sentar-se e esperar que venham as moscas.

A teoria do mel na reconstrução iraquiana deriva da crença mais querida dos arquitectos ideológicos da guerra: de que a cobiça é boa. Não só boa para eles e seus amigos mas boa para a humanidade, e certamente boa para os iraquianos. A cobiça cria lucros, que criam crescimento, que cria trabalho, produtos e serviços e qualquer outra coisa que alguém pudesse possivelmente necessitar ou querer. O papel de um bom governo é, então, criar condições óptimas para que as corporações prossigam com a sua cobiça sem fundo, de modo a que, por sua vez, possam satisfazer as necessidades da sociedade.

O problema é que os governos, mesmo os governos neoconservadores, raramente têm a oportunidade de provar a sua sagrada teoria: apesar dos seus enormes esforços ideológicos, os republicanos de George Bush ainda são, nas suas cabeças, sabotados eternamente por democratas intrometidos, sindicatos obstinados e ambientalistas alarmados.

O Iraque iria mudar tudo isto. Num lugar da terra, a teoria finalmente seria posta em prática na sua mais perfeita e descomprometida forma. Um país de 25 milhões não seria reconstruído como era antes da guerra, seria apagado, desapareceria. No seu lugar apareceria uma sala de exposições deslumbrante para as políticas laissez-faire, uma utopia como o mundo nunca tinha visto. Toda medida política que permitisse às corporações multinacionais prosseguir a sua procura de lucros seria posta em marcha: um Estado encolhido, uma força de trabalho flexível, fronteiras abertas, impostos mínimos, sem taxas, sem restrições de propriedade.

O povo do Iraque teria, claro, que enfrentar um curto período de dor: activos comerciais, anteriormente de propriedade estatal, deveriam ser entregues para criar novas oportunidades de crescimento e investimento. Alguns trabalhos se perderiam e, como os produtos estrangeiros afluíam através das fronteiras, os empresários locais e as famílias de camponeses, infelizmente, seriam incapazes de competir. Mas, para os autores deste plano, isto seria um pequeno preço a pagar pelo florescimento da economia. Ela certamente explodiria uma vez que lhe fossem dadas as condições apropriadas, um florescimento tão poderoso que o país praticamente se reconstruiria por si mesmo.

O facto de que este florescimento nunca ter chegado e de o Iraque continuar a tremer sob explosões de tipo muito diferente não deveria ser atribuído à ausência de um plano. Mais concretamente, a culpa surge com o plano em si, e com a ideologia extraordinariamente violenta na qual se baseia.

Os torturadores acreditam que quando são aplicados choques eléctricos sobre várias partes do corpo em simultaneo os indivíduos ficam tão confusos quanto à origem da dor que são incapazes de resistir. Um manual desclassificado da CIA, Interrogatório de Contrainteligência, de 1963, descreve como um trauma infligido a prisioneiros abre um intervalo -- que pode ser extremamente breve -- de animação suspensa, uma espécie de choque psicológico ou paralisação. Neste momento a fonte está muito mais aberta ao sugestionamento, muito mais predisposta a colaborar.

Uma teoria similar aplica-se nas terapias de choque económico ou tratamento de choque, a expressão horrível usada para descrever a rápida implementação de reformas de livre mercado impostas no Chile no início do golpe do general Augusto Pinochet.

A teoria é que estes dolorosos ajustes económicos são absorvidos rapidamente no período que se segue a uma crise social sísmica como uma guerra, um golpe ou um colapso governamental. A população fica tão atónita, tão preocupada com as pressões pela sobrevivência diária, que também entra em animação suspensa, incapaz de resistir. Como declarou o almirante Lorenzo Gotuzzo, ministro da economia de Pinochet: A cauda do cão deve ser cortada com uma machadada só.

TERAPIA DE CHOQUE

Esta é em essência a tese em vigor no Iraque e -- de acordo com a crença de que as companhias privadas são mais adequadas que os governos para praticamente todas as tarefas -- a Casa Branca decidiu privatizar a tarefa de privatizar a economia estatal do Iraque. Dois meses antes de começar a guerra, a USAID começou a conceber um plano de trabalhos, a ser levada a cabo por uma empresa privada, de supervisionar a transição do Iraque para um sistema económico de mercado sustentável. O documento estabelece que a empresa vencedora terá uma vantagem adequada para a oportunidade exclusiva de rápido progresso nesta área proporcionada pela actual configuração das circunstâncias políticas. Foi precisamente o que se passou. Paul Bremer, que dirigiu a ocupação americana do Iraque desde 2 de Maio de 2003 até a sua fuga antecipada de Bagdad em 28 de Junho de 2004, admite que quando chegou "Bagdad estava debaixo de fogo, literalmente, quando vinha do aeroporto". Mas antes que os fogos do ataque militar de choque e terror (shock and awe) estivessem extintos, Bremer pôs em prática a sua terapia de choque, impondo mais mudanças drásticas num verão esgotante do que tudo o que o FMI tem tentado impor ao longo de três décadas na América Latina. Joseph Stiglitz, prémio Nobel e ex-economista chefe do Banco Mundial descreve as reformas de Bremer como "uma forma de terapia de choque ainda mais radical que as levadas a cabo no ex-mundo soviético".

O tom do mandato de Bremer ficou estabelecido com o seu primeiro acto após a posse: despediu 500 mil funcionários públicos, muitos deles soldados, mas também médicos, enfermeiras, professores, editores e gráficos.

Aquilo que se seguiu foi a abertura das fronteiras do país a uma importação absolutamente ilimitada, sem normas, sem impostos, sem inspecções, sem taxas. O Iraque, declarou Bremer duas semanas após a sua chegada, estava aberto para os negócios.

Um mês mais tarde, Bremer revelou a obra-prima das suas reformas. Antes da invasão, a economia iraquiana não relacionada com o petróleo era dominada por 200 empresas estatais, que produziam tudo, desde cimento e papel a máquinas de lavar roupa. Em Junho, Bremer foi a uma cimeira económica na Jordânia e anunciou que essas firmas seriam privatizadas imediatamente: "Colocar ineficientes empresas estatais em mãos privadas é essencial para a recuperação da economia iraquiana", afirmou. Seria a maior liquidação de um Estado desde o colapso da União Soviética.

Mas a engenharia económica de Bremer só havia começado. Em Setembro, para atrair investimentos estrangeiros ao Iraque, decretou um pacote radical de leis sem precedentes na sua generosidade para com as corporações multinacionais.

Estava lá a ordem 37 que baixava a taxa de impostos sobre as empresas de 40% para uns escassos 15%. Estava a ordem 39, que permitia às empresas estrangeiras possuirem 100% de activos iraquianos, fora o sector de recursos naturais. Melhor ainda, os investidores podiam remeter 100% dos lucros que obtivessem no Iraque para fora do país, não se lhes poderia exigir reinvestimentos e não pagariam impostos. Segundo a ordem 39, poderiam assinar leasings e contratos que teriam uma vigência de 40 anos. A ordem 40 dava boas-vindas aos bancos estrangeiros no Iraque sob as mesmas condições favoráveis. Tudo o que restou da política económica de Saddam Hussein foi uma lei a restringir os sindicatos e os contratos colectivos de trabalho.

Se estas medidas soam familiares é porque são as mesmas que as multinacionais por todo o planeta pretendem impor aos governos nacionais e em acordos comerciais internacionais. Mas enquanto estas reformas são estabelecidas parcialmente ou de modo desordenado, Bremer pô-las em execução todas em conjunto, todas ao mesmo tempo. Da noite para o dia, o Iraque passou de país mais isolado do mundo para o mercado mais aberto do mundo.

Por fim, a teoria da terapia de choque parecia sustentar-se: os iraquianos envoltos numa violência tanto militar como económica, estavam demasiado ocupados a tentar sobreviver, a montar uma resposta política à campanha de Bremer.

A preocupação sobre a privatização do sistema de distribuição de água era um luxo inimaginável com metade da população sem acesso à água potável; o debate dos escassos impostos deveria esperar até que voltasse a luz eléctrica. Na imprensa internacional, as novas leis de Bremer foram facilmente superadas pelas dramáticas notícias sobre caos político e criminalidade crescente.

UM SONHO CAPITALISTA QUE SE ESFUMA

Algumas pessoas estavam, naturalmente, atentas. Aquele outono esteve inundado de exposições de negócios sobre a reconstrução do Iraque, em Washington, Londres, Madrid e Amman. The Economist descreve o Iraque sob o comando de Bremer como "um sonho capitalista", e lançou-se um turbilhão de novas firmas de consultoria que prometiam ajudar as empresas a aceder ao mercado iraquiano, com quadros directivos cheios de republicanos bem relacionados. A mais proeminente foi a New Bridge Strategies, iniciada por Joe Allbaugh, ex chefe da campanha Bush-Cheney. "Obter os direitos para distribuir produtos Procter & Gamble pode ser uma mina de ouro", insinuou um dos sócios destas companhias.

Um negócio óptimo, com bom stock, pode deitar por terra trinta lojas iraquianas, um Wal-Mart, poderia cobrir todo o país.

Rapidamente surgiram rumores de que abriria um McDonald's no centro de Bagdad, que estava quase pronto o investimento para construir um luxuoso hotel Starwood, e que a General Motors estava a planear construir uma fábrica automobilística.

Do ponto de vista financeiro, a HSBC teria filiais por todo o país, o Citigroup estava a preparar-se para oferecer substanciais empréstimos garantidos com vendas futuras de petróleo iraquiano e preparava-se a abertura em Bagdad de uma Bolsa de Mercadorias em estilo novaiorquino.

Em apenas uns poucos meses, o plano pós-bélico de converter o Iraque num laboratório para os neoconservadores, tinha sido levado a cabo. Leo Strauss pode ter dado o cunho intelectual à invasão preventiva do Iraque, mas foi aquele outro professor da universidade de Chicago, Milton Friedman, autor do manifesto antigovernamental Capitalismo e Liberdade que proporcionou o manual sobre o que fazer uma vez que o país estivesse seguro em mãos norte-americanas. Isto representou uma enorme vitória para a ala mais ideológica da administração Bush. Mas foi também algo mais: o culminar de duas sucessivas lutas pelo poder, uma entre exilados iraquianos aconselhando a Casa Branca na sua estratégia pós-guerra, a outra dentro da própria Casa Branca.

Como demonstrou o historiador britânico Dilip Hiro, em Segredos e Mentiras: a Operação "Liberdade Iraquiana" e, depois, os exilados iraquianos que impulsionavam a invasão. Estes estavam divididos em dois grandes campos. Num estavam os pragmáticos que preferiam desfazer-se de Saddam e tudo o que o envolvia, assegurar o acesso ao petróleo e lentamente introduzir reformas de livre mercado. Muitos desses exilados faziam parte do "Projecto Iraque futuro", do Departamento de Estado, o qual gerou um relatório de treze volumes sobre como restaurar os serviços básicos e a transição da democracia depois da guerra.

No outro lado estava o sector Ano Zero, aqueles que acreditavam que o Iraque estava tão contaminado que deveria ser apagado do mapa e reconstruído a partir das cinzas. O principal porta-voz dos pragmáticos era Iyad Allawi, um ex alto funcionário baathista, que rompeu com Saddam e passou a trabalhar para a CIA. O principal porta-voz dos Ano Zero era Ahmad Chalabi, cujo ódio ao Estado iraquiano, devido à expropriação dos activos da sua família durante a revolução de 1958, era tão profundo que desejava fervorosamente ver o país inteiro completa e totalmente queimado, tudo menos o Ministério do Petróleo, que seria o núcleo do novo Iraque, o conjunto de células das quais cresceria uma nova nação. Chamou a este processo desbaathização .

PRAGMÁTICOS & CRENTES

Uma batalha paralela entre pragmáticos e verdadeiros crentes desenrolava-se na administração Bush. Os pragmáticos eram homens como o secretário de Estado Colin Powell e o general Jay Garner, o primeiro enviado ao Iraque depois da guerra. O plano do general Garner era simples e suficiente: assegurar a infraestrutura, fazer eleições rápidas e sujas, deixar a terapia de choque para o FMI, e concentrar-se em assegurar as bases militares norte-americanas segundo o modelo das Filipinas. "Creio que devemos ver o Iraque como a nossa estação de abastecimento no Médio Oriente", declarou à BBC.

Também parafraseou a T. E. Lawrence, dizendo: É melhor para eles fazer isto imperfeitamente do que para nós fazer-lhes perfeitamente. Do outro lado estava a habitual equipa de neoconservadores: o vice-presidente Dick Cheney, o secretário de Defesa Donald Rumsfeld (que elogiou as devastadoras reformas de Bremer, "uma das mais iluminadas e convidativas leis fiscais e de investimento em todo o mundo livre"), o segundo secretário de Defesa Paul Wolfowitz e talvez, mais centralmente, o subsecretário de Defesa Douglas Feith.

Enquanto o Departamento de Estado dispunha do seu relatório sobre o futuro do Iraque, os neoconservadores dispunham do contrato da USAID com a Bearing Point para refazer a economia do Iraque: em 108 páginas a palavra privatização era mencionada não menos de cinquenta vezes. Aos verdadeiros crentes da Casa Branca, os planos do general Garner para o pós-guerra pareciam-lhes desesperadamente pouco ambiciosos. Porquê instalar uma mera estação de abastecimento quando se podia ter um modelo de mercado livre? Porquê pensar em termos de Filipinas quando se pode ter um farol de esperança para o mundo?

Os Ano Zero do lado iraquiano faziam alianças naturais com os neoconservadores da Casa Branca: o ódio furioso de Chalabi ao Estado baathista encaixava perfeitamente com o ódio neoconservador ao Estado em geral e as duas agendas surgiram fortalecidas. Juntos chegaram a imaginar a invasão do Iraque como uma espécie de êxtase: onde o resto do mundo via morte, eles viam um nascimento – um país redimido através da violência, purificado pelo fogo. O Iraque não estava a ser destruído por mísseis de cruzeiro, toneladas de bombas, caos e saques; estava a nascer de novo.

9 de Abril de 2003, o dia em que caiu Bagdad, foi o dia um do Ano Zero.

Enquanto a guerra se travava, não era claro se seriam os pragmáticos e os partidários do Ano Zero que tomariam o controlo sobre o Iraque ocupado. Mas a velocidade com que o país foi conquistado aumentou dramaticamente o capital político neoconservador, já que eles haviam previsto uma vitória fácil. Oito dias depois de George Bush aterrar naquele porta-aviões com a faixa que dizia "Missão Cumprida", o presidente ratificou a visão neoconservadora do Iraque como modelo de um Estado corporativo que se abriria a toda região.

A 9 de Maio, Bush propôs o "estabelecimento de uma área de livre comércio EUA-Médio Oriente dentro de uma década". Três dias depois Bush enviou Paul Bremer a Bagdad para substituir Jay Garner, que permaneceu no cargo só três semanas.

A mensagem era inequívoca: os pragmáticos haviam perdido. O Iraque pertencia aos crentes.

Diplomata da era Reagan, convertido em empresário, Bremer havia provado recentemente a sua habilidade para transformar escombros em ouro, ao esperar exactamente um mês depois dos ataques do 11 de Setembro para lançar Crisis Consulting Practice, uma companhia de seguros que vende seguros contra risco de terrorismo a multinacionais. Bremer tinha dois lugar-tenentes na frente económica: Thomas Foley e Michael Fleischer, as cabeças do desenvolvimento do sector privado na Confederação da Autoridade Provisória (APC). Foley é um multimilionário de Greenwich, Connecticut, antigo amigo da família Bush e pioneiro da campanha Bush-Cheney, que descreveu o Iraque como uma febre de ouro da Califórnia.

Fleischer, um capitalista de risco (venture) , é o irmão do ex porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer. Nenhum deles tem experiência diplomática de alto nível e ambos usam a expressão "especialista turnaround " (um pouco de tudo, numa tradução aproximada) para descrever aquilo que fazem. De acordo com Foley, isto qualifica-os singularmente para administrar a economia iraquiana, já que o Iraque é a mãe de todas as mudanças de direcção.

Muitos dos outros colocados no APC eram ideologicamente semelhantes. A Zona Verde, a cidade dentro da cidade que hospeda os quartéis generais da ocupação nos antigos palácios de Saddam, foi inundada por jovens republicanos extraídos da Fundação Heritage. A todos eles foram dadas responsabilidades que nunca teriam sonhado alcançar em casa. A Jay Hallen, um jovem de 24 anos que havia solicitado um trabalho na Casa Branca, foi dado o encargo de organizar a nova Bolsa de Valores de Bagdad.

Scout Edwin, de 22 anos, ex empregado de Dick Cheney escreveu numa mensagem electrónica para sua casa – Estou a assistir a iraquianos na administração de finanças e na organização das forças de segurança internas. Qual o seu trabalho favorito na faculdade antes deste? "O meu período como condutor de um camião que vendia gelados". Naqueles dias iniciais, a Zona Verde sentia-se um pouco como os Corpos da Paz, para as pessoas que acreditam que os Corpos da Paz são uma conspiração comunista. Era a oportunidade de dormir sobre macas de campanha e usar botas do exército, enquanto eram guardados o tempo todo por soldados de verdade.

ELES ERAM O GOVERNO

As equipas de contabilistas KPMG, banqueiros investidores, fura-vidas de think tanks e jovens republicanos que povoavam a Zona Verde tinham muito em comum com as missões do FMI que reordenam as economias dos países em desenvolvimento a partir das suites presidenciais dos hotéis Sheraton de todo o mundo. Excepto uma pequena diferença: no Iraque não estavam a negociar com o governo para que aceitasse os seus ajustes estruturais em troca de um empréstimo. Eles eram o governo.

Não obstante, deram-se alguns passos para trazer ao Iraque políticos designados pelos EUA. Yegor Gaidar, o cérebro mestre do remate das privatizações russas em meados de 90, que entregou os activos do país aos oligarcas reinantes, foi convidado a partilhar a sua sapiência numa conferência em Bagdad. Marek Belga, que como ministro da Economia supervisionou o mesmo processo na Polónia, também foi trazido.

Os iraquianos que provaram ter mais talento em repetir as linhas neoconservadoras foram seleccionados para actuar como campeões da política segundo a USAID. Homens como Ahmad al Mukhtar, que me falou acerca dos seus compatriotas: "São ociosos. Os iraquianos por natureza são muito dependentes. Têm que depender deles mesmos, é a única maneira de sobreviver no mundo de hoje".

Apesar de não ter antecedentes económicos e de o seu último trabalho ter sido ler notícias em inglês na televisão, al Mukhtar foi nomeado director de relações internacionais do Ministério do Comércio e líder da representação do Iraque na Organização Mundial de Comércio.

Eu estivera a acompanhar a frente económica da guerra durante quase um ano e decidi finalmente ir ao Iraque. Estive presente nas exposições comerciais "Reconstruindo o Iraque", estudei as leis fiscais e de investimento de Bremer, reuni-me com empreiteiros nos seus escritórios centrais nos Estados Unidos, entrevistei funcionários do governo em Washington que são os que concebem as políticas.

Mas enquanto preparava a minha viagem ao Iraque em Março para ver de perto esta experiência utópica de livre mercado, ia-se tornando cada vez mais claro para mim que nada corria de acordo com o planeado. Bremer estivera a trabalhar a teoria de que se se construísse uma utopia corporativa as corporações viriam. Mas onde estavam elas? As multinacionais norte-americanas ficavam felizes em aceitar os dólares dos contribuintes ianques para reconstruir os sistemas de telefone ou electricidade. Mas não estavam a apostar o seu próprio dinheiro no Iraque. Não havia, até agora, nenhum McDonald's nem nenhum Wal-Mart em Bagdad e, inclusivamente, a venda de fábricas estatais, anunciada tão confidencialmente nove meses atrás, não se havia concretizado.

Parte do atraso tinha a ver com os riscos fiscais que implica fazer negócios no Iraque. Mas também havia outros riscos mais significativos. Quando Paul Bremer anulou a constituição baathista do Iraque e a substituiu com aquilo que The Economist proclamou como a lista de desejos dos investidores estrangeiros, havia um pequeno pormenor que faltou mencionar: era tudo completamente ilegal.

A autoridade legal do APC derivava da resolução 1483 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, aprovado em Maio de 2003, o qual reconhecia os Estados Unidos e o Reino Unido como ocupantes legítimos do Iraque. Foi esta resolução que deu poder a Bremer para decretar unilateralmente as leis no Iraque. Mas a resolução também estabelecia que os EUA e a Grã-Bretanha deviam "cumprir as suas obrigações segundo o direito internacional em particular as Convenções de Genebra de 1949 e as Regulamentos de Haia de 1907". Ambas as convenções nasceram da tentativa de contrariar a infeliz tendência histórica dos poderes ocupantes de rescrever as leis de modo a poder despojar economicamente as nações que controlavam.

Com isto em mente, as convenções estipulam que um ocupante deve subordinar-se às leis existentes no país, a menos que esteja absolutamente impedido de o fazer.

Também estabelecem que um ocupante não é dono dos edifícios públicos, de patrimónios reais, bosques e campos agrícolas do país que está a ocupar, mas sim o seu administrador e custódia, guardando-o em segurança até que a soberania seja restabelecida.

Esta é a verdadeira ameaça ao plano Ano Zero: como os EUA não são donos dos activos do Iraque, não podem vendê-los legalmente, o que significa que quando a ocupação terminar um governo iraquiano poderia chegar ao poder e decidir que prefere manter as empresas públicas nas mãos do Estado, ou, como é norma na região do Golfo, excluir as empresas estrangeiras de ter 100% dos activos nacionais. Se isto ocorresse, os investimentos feitos sob as regras de Bremer poderiam ser expropriados, deixando as empresas sem recursos pois os seus investimentos haviam violado a lei internacional desde o principio.

Em Novembro, os advogados de negócios começaram a aconselhar os seus clientes corporativos a não irem ainda para o Iraque, seria melhor esperar até depois da transição. As companhias de seguros estavam tão assustadas que nenhuma das grandes firmas seguraria os investidores por riscos políticos, essa área da lei de seguros que protege as empresas contra governos estrangeiros que se tornem nacionalistas ou socialistas e expropriem os investimentos.

Até mesmo os políticos iraquianos sustentados pelos EUA, até agora tão obedientes, começaram a pôr-se nervosos acerca do seu futuro político e da sequência dos planos de privatização. O ministro das Comunicações Haider al-Abadi falou-me sobre a sua primeira reunião com Bremer. Eu lhe disse: "Olhe, não temos mandato para vender nada disto. A privatização é uma grande coisa. Temos que esperar até que haja um governo iraquiano". O ministro da Indústria Mohamad Tofiq foi ainda mais directo: "Não vou fazer nada que não seja legal. Isso é tudo".

Ambos, al-Abadi e Tofiq, falaram-me de uma reunião, nunca divulgada à imprensa, que teve lugar em finais de Outubro de 2003. Nela os 25 membros do Concelho de Governo do Iraque, assim como os 25 membros internos decidiram unanimemente que não participariam na privatização das empresas estatais do Iraque ou da sua infra-estrutura de propriedade pública.

Mas Bremer não cedeu. As leis internacional proíbe os ocupantes de vender activos estatais, mas não diz nada acerca dos governos títeres que eles nomeiam. Inicialmente, Bremer havia prometido entregar o poder a um governo iraquiano eleito por eleições directas, mas no principio de Novembro foi a Washington a uma reunião privada com o presidente Bush e voltou com um plano B. A 30 de Junho a ocupação terminaria oficialmente, mas não realmente. Seria substituída por um governo designado, eleito por Washington. Este governo não estaria atado por leis internacionais que impedem o ocupante de vender activos estatais, mas estaria atado por uma constituição interina, um documento que protegeria as leis de investimento e de privatização de Bremer.

O plano era arriscado. A data limite de 30 de Junho estava extremamente próxima, e fora escolhida por uma razão menor: para que o presidente Bush pudesse anunciar o fim da ocupação do Iraque durante a campanha eleitoral. Se tudo corresse como o planeado, Bremer teria êxito e forçaria um governo iraquiano soberano a aplicar as suas reformas ilegais. Mas se algo saísse mal, teria que seguir em frente com a transferência de governo a 30 de Junho de qualquer forma, porque Karl Rove, e não Dick Cheney ou Donald Rumsfeld, lá estaria. E se há que optar entre a ideologia no Iraque e a elegibilidade de George Bush, todos sabem quem é que ganha.

Ao principio, o plano B parecia correr bem. Bremer persuadiu o Concelho de Governo iraquiano a concordar com tudo: o novo cronograma, o governo interino e a constituição interina. Até conseguiu introduzir sigilosamente na constituição uma cláusula completamente revista, o Artigo 26. Estabelecia que enquanto durasse o governo interino as leis, regulamentos, ordens e directivas ditadas pelo APC permaneceriam em vigor e só poderiam ser mudadas depois de uma eleição geral.

Bremer havia encontrado este expediente legal. Abria uma janela – sete meses – entre o fim oficial da ocupação e a data de realização de eleições gerais. Dentro desta janela, as proibições das Convenções de Genebra e de Haia sobre privatizações não teriam mais aplicação, mas as leis de Bremer, graças ao Artigo 26, permaneceriam. Durante estes sete meses, os investidores estrangeiros poderiam vir ao Iraque e assinar contratos por 40 anos de compra de activos iraquianos. Se um futuro governo iraquiano eleito decidisse mudar as regras, os investidores poderiam exigir indemnização. Mas Bremer teve um tremendo oponente: o grande Ayatola Ali Al Sistani, o mais alto clérigo xiita no Iraque. Al Sistani tratou de bloquear o plano de Bremer a cada passo, conclamando por eleições imediatas para que a constituição fosse redigida depois dessas eleições, não antes. Ambas as exigências, se aceites, teriam fechado a janela da privatização de Bremer.

Então, a 2 de Março quando os membros xiitas do Concelho de Governo recusaram assinar a constituição interina, cinco bombas explodiram frente a mesquitas em Karbala e Bagdad, matando cerca de 200 crentes.

O general John Abizaid, comandante chefe norte-americano no Iraque, advertiu que o país estava no limiar de uma guerra civil. Assustado por esta perspectiva, Al Sistani retrocedeu e os políticos xiitas assinaram a constituição interina. Era uma história conhecida: o choque de um ataque violento abre caminho a mais terapia de choque.

Quando cheguei ao Iraque uma semana mais tarde, o projecto económico parecia estar novamente em andamento. O que faltava a Bremer era obter a sua constituição interina ratificada por uma resolução do Concelho de Segurança. Então os advogados nervosos e os correctores de seguros poderiam descansar e a liquidação do Iraque poderia finalmente começar. A APC, entretanto, tinha lançado uma nova e grande ofensiva na área das relações públicas, destinada a reassegurar aos novos investidores que o Iraque era já um lugar seguro e empolgante para fazer negócios.

A peça central da campanha era a Exposição Destino Bagdad, uma exposição comercial maciça para potenciais investidores que teria lugar no principio de Abril no Centro Internacional Bagdad. Era o primeiro evento desta natureza dentro do Iraque e os organizadores tinham denominado a feira comercial com as siglas DBX, como se fosse alguma corrida de bicicletas auspiciadas por Mountain Dew. Falando de desportos extremos, Thomas Foley viajou a Washington para dizer a um monte de executivos que os riscos no Iraque são comparáveis aos de "esquiar ou andar de mota, os quais, para muitos, são riscos aceitáveis".

Mas, três horas depois da minha chegada a Bagdad, verifiquei que essas afirmações eram extremamente difíceis de acreditar. Ainda não havia desfeito as malas quando o meu quarto de hotel se encheu de escombros e as janelas da recepção estalaram. Na rua abaixo, o Hotel Monte Líbano havia sido bombardeado, nessa altura o maior ataque deste tipo desde o fim oficial da guerra. No dia seguinte, outro hotel foi bombardeado em Bassorá, e dois homens de negócios finlandeses foram mortos a caminho de uma reunião em Bagdad.

O oficial-general Mark Kimmit finalmente admitiu que algo se desenhava: "os extremistas começaram a abandonar os objectivos duros (e) agora estão a dirigir-se para objectivos particularmente mais suaves".

No dia seguinte, o Departamento de Estado actualizou a sua advertência quanto a viagens: os cidadãos norte-americanos eram – severamente advertidos quanto a viagens ao Iraque. Os riscos físicos de fazer negócios no Iraque pareciam entrar numa espiral sem controlo. Isto, volto a repetir, não fazia parte do plano original. Quando Bremer chegou pela primeira vez a Bagdad a resistência armada era tão escassa que se podia caminhar pelas ruas com um ambiente de segurança mínimo. Durante os seus quatro meses no cargo, 109 soldados norte-americanos foram mortos e 570 feridos. Nos quatro meses seguintes, quando a terapia de choque de Bremer já havia tido efeito, o número de baixas norte-americanas quase duplicou, com 195 soldados mortos e 1633 feridos. Há muita gente no Iraque que alega que esses factos estão relacionados, que as reformas de Bremer foram o principal e único factor de crescimento da resistência armada.

Tomem como exemplo as primeiras baixas de Bremer. Os soldados e trabalhadores que ele despediu sem pensões nem indemnizações não desapareceram tranquilamente. Muitos deles foram directamente para os mujadines , formando a medula espinal da resistência armada. "Meio milhão de pessoas estão agora pior, e aí tens a torneira que mantém a rebeldia activa. É um emprego alternativo", diz Hussain Kubba, director de um importante grupo empresarial iraquiano, a Kubba Consulting.

Algumas das outras vitimas económicas de Bremer recusaram-se a desaparecer tranquilamente. Diz-se que muitos dos empresários cujas companhias foram ameaçadas pelas leis de investimento de Bremer decidiram fazer investimentos neles mesmos, na resistência. É em parte o seu dinheiro que sustenta guerrilheiros com Kalashnikovs e RPGs.

Este desenrolar apresenta um desafio à lógica básica da terapia de choque: os neoconservadores estavam convencidos que se implementassem as suas reformas rápida e impiedosamente os iraquianos ficariam demasiado atónitos para resistirem. Mas o choque parece ter tido o efeito contrário, ao invés da paralisação prevista pôs muitos iraquianos em acção, em grande parte extrema. Haider al-Abadi, ministro da Comunicação do Iraque, apresentou-o desta forma: "Sabemos que há terroristas no país, antes não tinham tido êxito, estavam isolados. Agora, que a totalidade do país está descontente e uma grande quantidade de gente não tem trabalho, esses terroristas encontram ouvidos que os escutam".

Bremer estava agora a lutar não só contra os iraquianos que se opunham aos seus planos mas contra os comandantes militares dos Estados Unidos encarregados de dissipar a rebeldia que as suas políticas alimentavam.

Começaram a levantar-se algumas perguntas heréticas: Em vez de despedir as pessoas, o que aconteceria se a APC criasse novos trabalhos para os iraquianos? E se em vez de vender apressadamente as 200 empresas estatais do Iraque, o que aconteceria se as puséssemos novamente a trabalhar?

Desde o começo, a conduta dos neoconservadores demonstrava que não manifestavan senão desdém pelas empresas estatais. De acordo com o seu plano Ano Zero — regozijo apocalíptico com o saque das fábricas durante a guerra — as forças norte-americanas nada fizeram. Sabah Asaad, director e gerente de uma fábrica de refrigerantes fora de Bagdad, disse-me que enquanto se dava o saque foi a uma base do exército dos EUA e pediu ajuda. "Pedi a um dos oficiais que enviasse dois soldados e um veículo para me ajudar a expulsar os saqueadores. Eu estava a chorar. O oficial respondeu-me: "Lamento, não podemos fazer nada, necessitamos de uma ordem do presidente Bush".

Em Washington, Donald Rumsfeld, encolhendo os ombros, disse: "As pessoas livres são livres de se enganar, de cometer crimes e fazer coisas más".

Olhar para os restos da fábrica de Asaad, grande como um campo de futebol, é compreender porque Frank Gehry teve uma crise artística depois do 11 de Setembro e foi durante algum tempo incapaz de desenhar estruturas que recordassem escombros de edifícios modernos.

A fábrica saqueada e incendiada de Asaad, assemelhava-se extraordinariamente a uma versão heavy metal do prémio Guggenheim de Gehry em Bilbao, Espanha, com ondas de aço, retorcidas pelo fogo, que jaziam em montes dourados terrivelmente formosos. Mesmo assim, nem tudo estava perdido. "Os saqueadores tinham boas intenções", disse-me um dos pintores de Asaad, explicando que deixaram as ferramentas e as máquinas, "para que pudéssemos trabalhar de novo". Porque as máquinas ainda aí estão, muitos administradores de empresas no Iraque dizem que não lhes custaria muito voltar à produção plena. Com os cortes de electricidade diários necessitam de geradores de emergência para as arranjar, e necessitam de capital para matérias-primas. Se isto se conseguisse, teria consequências tremendas na reconstrução do Iraque, porque significaria que muitos dos materiais chave necessários para a reconstrução – cimento e aço, tijolos e móveis – poderiam ser produzidos no país.

Mas isto não aconteceu. Imediatamente após o fim nominal da guerra, o Congresso apropriou-se de 2,5 mil milhões de dólares para a reconstrução do Iraque, seguidos de uns adicionais 18,4 mil milhões de dólares em Outubro. Contudo, em Julho de 2004, as empresas estatais do Iraque foram minuciosamente excluídas dos contratos de reconstrução.

Por sua vez, milhares de milhões foram parar a empresas ocidentais, com a maior parte dos materiais para reconstrução a serem importados a preços elevados.

Com um desemprego da ordem dos 67%, os produtos importados e os trabalhadores estrangeiros a fluírem através das fronteiras tornaram-se uma fonte de tremendo ressentimento no Iraque e, outra torneira adicional que aviva a rebeldia. E os iraquianos não têm de olhar muito para trás para recordar esta injustiça; exposta no símbolo mais omnipresente da ocupação: o muro antiexplosões. As placas de betão de dez pés (3 m) de altura estão em toda a parte no Iraque, a separar os protegidos – a gente em hotéis modernos, casas luxuosas, bases militares e, claro, a Zona Verde – dos desprotegidos e expostos.

Como se isto não fosse suficiente, todos os muros são importados, do Curdistão, Turquia, ou até de mais longe, apesar de o Iraque ter sido em tempos um dos maiores produtores de cimento da região, e poder sê-lo de novo facilmente. Há 17 fábricas de cimento estatais por todo o país, mas a maioria está inactiva a trabalhar à metade da sua capacidade. De acordo com o ministro da Indústria, nenhuma destas fábricas recebeu um só contrato para ajudar na reconstrução, mesmo quando poderiam produzir os muros e satisfazer outras necessidades de cimento a custos consideravelmente menores.

A APC paga até US$1000 por cada muro de betão; os produtores locais dizem que os poderiam fabricar por US$100. O ministro Tofiq diz que há uma razão simples pela qual os norte-americanos se negam a que as fábricas de cimento se ponham novamente em acção: entre os que tomam as decisões nenhum acredita no sector público. [Tofiq disse que várias companhias norte-americanas haviam mostrado um forte interesse na compra das fábricas de cimento estatais. Isto dá azo no Iraque a uma forte convicção de que há uma estratégia deliberada para arruinar as empresas estatais, uma prática conhecida como provoca a fome e depois vende]

MUROS DE BREMER

Este tipo de cegueira ideológica tornou os ocupantes do Iraque prisioneiros das suas próprias políticas, escondidos atrás de muros que, pela sua mera existência, alenta a ira contra a presença dos EUA e, com isso, aumenta a necessidade de novos muros. Em Bagdad as barreiras de cimento receberam o popular sobrenome de muros de Bremer.

Enquanto a rebeldia crescia, tornou-se imediatamente claro que se Bremer continuasse com as suas ideias de vender as empresas estatais a violência poderia piorar. Não havia dúvida de que as privatizações exigiriam mais despedimentos: o ministro da Indústria estima que cerca de 145 mil trabalhadores seriam despedidos a fim de tornar as empresas apetecíveis aos investidores, com cada um desses trabalhadores a sustentar em média uma família de cinco membros. Para os assedidados ocupantes do Iraque a pergunta era: estas vitimas da terapia de choque aceitariam o seu destino ou revoltar-se-iam?

A resposta chegou, de modo bastante dramático, a uma das maiores empresas estatais, a Companhia Geral de Óleos Vegetais. O complexo de seis fábricas produz óleo de cozinha, sabão, detergentes de roupa, creme de barbear e champô. Pelo menos foi o que disse um recepcionista que me deu folhetos brilhantes e almanaques que ostentavam instrumentos modernos e a última e mais avançada inovação no campo da indústria. Mas quando me aproximei da fábrica de sabão, descobri um grupo de trabalhadores que dormiam na parte de fora de um edifício escuro. O nosso guia correu até eles, gritando algo a uma mulher com uma bata branca de laboratório, e subitamente a fábrica pôs-se em actividade: as luzes acenderam-se, os motores começaram a funcionar e os trabalhadores – ainda pestanejando de sono – começaram a encher garrafas de plástico com um líquido azul pálido.

Perguntei a Nada Ahmed, a mulher de bata branca, porque é que a fábrica não estava a trabalhar à uns minutos atrás. Explicou-me que só tinham electricidade e materiais suficientes para pôr as máquinas em funcionamento umas horas por dia, mas que quando chegavam visitas – possíveis investidores, funcionários ministeriais, jornalistas – tinham que as pôr em marcha.... Para mostrar, explicou. Por trás de nós uma dúzia de máquinas volumosas estavam inactivas, cobertas por capas de plástico grosso e presas por uma fita adesiva.

Num beco escuro da planta cruzámo-nos com um velho curvado sobre um saco cheio de tampas brancas de plástico. Com uma fina folha de metal molhada em cera, talhava os bordes de cada tampa, deixando a seus pés uma pilha de aparas. "Como não temos a peça adequada para o modelo, temos que as cortar à mão", explicou-nos desculpando-se o supervisor. "Não temos recebido reposições da Alemanha desde que começaram as sanções".

Notei ainda que na linha de montagem que estava a funcionar quase não havia mecanização: as garrafas eram postas à mão porque o tapete transportador não corria, as tampas que eventualmente eram postas à máquina eram postas a marteladas com um masso de madeira. Inclusivamente a água para a fábrica ia-se buscar a um poço que estava fora, recolhida à mão e acartada para dentro.

A solução proposta pelos ocupantes do Iraque não era organizar a planta mas sim vendê-la. Quando Bremer anunciou a venda em Junho de 2003 esta estava entre as primeiras empresas mencionadas. Não obstante, quando visitei a fábrica em Março, ninguém queria falar sobre o plano de privatização; o mero pronunciar da palavra dentro do edifício gerava um silêncio embaraçoso e expressivos olhares. Este era um cenário pouco natural numa fábrica de sabão, e tratei de chegar ao fundo da questão quando entrevistei o gerente assistente. Mas a entrevista em si foi igualmente estranha: levei uma semana e meia a consegui-la, enviando as perguntas por escrito para que as aprovassem, obtendo uma nota de aprovação assinada pelo ministro da Indústria.

Mas quando finalmente começou a entrevista, o gerente assistente negou-se a dar-me o seu nome e não permitiu gravar a conversa. "Cada gerente mencionado na imprensa é atacado depois". disse-me. E quando lhe perguntei se a companhia ia ser vendida, deu-me esta resposta oblíqua: "Se a decisão for dos trabalhadores, eles estão contra a privatização; mas se for dos funcionários de alto escalão e do governo, a privatização é uma ordem e as ordens devem ser cumpridas".

Deixei a planta sentindo que sabia menos do que quando cheguei. Mas no caminho até ao portão, um jovem segurança entregou ao meu tradutor uma nota. Queria encontrar-se comigo depois do trabalho num restaurante ali perto, "para esclarecer o que realmente ocorria com a privatização". O seu nome era Mahmud, e tinha 25 anos com uma barba cuidada e grandes olhos negros (para sua segurança omito o seu apelido). A sua história começou em Julho, poucas semanas depois do anúncio de Bremer sobre a privatização. O gerente da companhia, a caminho do trabalho, foi assassinado a tiro. Os relatos da imprensa especulavam que o gerente fora assassinado porque estava a favor do plano de privatização da planta, mas Mahmud estava convencido que ele tinha sido assassinado porque se opunha ao plano. "Nunca venderia as fábricas como querem os americanos. Por isso mataram-no".

O homem que mataram foi substituído por um novo gerente, Mudhfar Ja'far. Pouco depois de tomar posse Ja'far convocou uma reunião com funcionários do ministério para discutir a venda da fábrica de sabão, o que implicava o despedimento de dois terços dos seus empregados. A vigiar esta reunião havia vários seguranças da planta. Eles conseguiram escutar de muito perto os planos de Ja'far e rapidamente informaram os seus companheiros sobre as alarmantes notícias. "Estávamos chocados", explicou-me Mahmud. "Se o sector privado comprar a nossa companhia, a primeira coisa que vão fazer será reduzir o pessoal da planta para fazer mais dinheiro. E seremos forçados a um destino muito duro, porque a fábrica é o nosso único meio de sobrevivência".

Assustados com esta perspectiva, um grupo de uns 17 trabalhadores, incluindo Mahmud, foram ao escritório de Ja'far para confrontá-lo com o que tinham ouvido. "Infelizmente, não estava lá, só estava o gerente assistente, com quem tu estivestes", disse-me Mahmud. Deu-se inicio a uma rixa: um trabalhador atacou o gerente assistente, e um guarda-costas disparou três tiros contra os operários. Então, o grupo atacou o guarda-costas, tirou-lhe a arma e, diz Mahmud, - e apunhalaram-no com uma faca nas costas três vezes. Esteve um mês no hospital. Em Janeiro ainda houve mais violência.

A caminho do trabalho, Ja'far, o gerente e o seu filho foram alvejados e ficaram seriamente feridos. Mahmud disse-me que não fazia ideia de quem estava por detrás do ataque, mas eu comecei a perceber porque os gerentes de fábrica no Iraque tentam manter um baixo perfil.

"NÃO SERÁ PRIVATIZADA"

No final da reunião, perguntei a Mahmud o que aconteceria se a planta fosse vendida mesmo com a objecção dos operários, "Há duas possibilidades", disse-me, olhando-me nos olhos e sorrindo gentilmente: "Ou ateamos fogo à fábrica e deixamos que as chamas a devorem por completo, ou fechamo-nos lá dentro. Mas não será privatizada".

Se houve algum momento em que os iraquianos estavam tão desorientados que não conseguiam resistir à terapia de choque, esse momento definitivamente já está ultrapassado. As relações laborais, em todo o Iraque, haviam-se tornado um desporto sangrento. A violência das ruas para lá dos portões das fábricas, ameaça engoli-las. Os operários receiam a perda do trabalho como uma sentença de morte e os gerentes, por sua vez, temem os seus trabalhadores, um facto que faz com que a privatização seja substancialmente mais complicada do que os neoconservadores haviam previsto.

[* Foi em Bassorá que a relação entre reformas económicas e mobilização da resistência tomou proporções mais graves. Em Dezembro o sindicato dos trabalhadores petrolíferos estava a negociar um aumento salarial com o Ministério do Petróleo. Como não conseguiam nada, os trabalhadores exigiram ao ministro uma escolha simples: aumentava os seus magros salários ou todos eles se uniriam à resistência armada. Receberam um aumento substancial.]

Quando terminou a reunião com Mahmud, ouvi que havia uma grande manifestação à porta dos quartéis da APC. Seguidores do jovem clérigo radical Moqtada al Sadr estavam a protestar pelo encerramento do seu jornal, al Hawza , pela polícia militar. O APS acusou o al Hawza de publicar "artigos falsos que podiam aumentar os riscos reais de violência".

Como exemplo citavam um artigo a denunciar que Bremer "está a seguir uma política de fome para aumentar a preocupação do povo iraquiano pela procura do pão diário, de modo a que não tenhamos possibilidades de exigir as nossas liberdades políticas e individuais". Pareceu-me mais um sumário conciso da receita de Milton Friedman para a terapia de choque do que literatura de ódio.

Uns dias antes de o jornal fechar, eu tinha ido a Bufa durante as orações de sexta-feira a fim de escutar al Sadr na sua mesquita. Começou com uma investida contra a constituição interina de Bremer assinada recentemente, classificando-a como "um documento injusto e terrorista".

A mensagem do sermão era clara: o grande Ayatolá Ali al Sistani pode ter recuado no que respeita à constituição, mas al Sadr e os seus seguidores estavam determinados a lutar – e se eles ganhassem sabotariam o cuidadoso plano neoconservador de impingir ao próximo governo do Iraque a sua lista de desejos.

Com o fecho do jornal, Bremer estava a dar a sua resposta a al Sadr: não estava a negociar com este jovenzinho desconhecido; mais depressa os retiraria à força. Quando cheguei à manifestação as ruas estavam cheias de homens vestidos de negro, que rapidamente se tornariam o lendário Exército Mahdi.

Impressionou-me o facto de que se Mahmud perdesse o trabalho como segurança na fábrica de sabão, poderia ser um deles. Isto é o que os infantes de al Sadr são: homens que foram postos de parte nos grandes planos neoconservadores para o Iraque, que não vêm nenhuma possibilidade de trabalho, e cujos seguidores não viram nada da prometida reconstrução. Bremer fracassou para estes jovens, e em tudo o que Bremer fracassou Moqtada al Sadr astutamente tentou ter êxito.

Nos bairros pobre xiitas, desde Bagdad a Bassorá, uma rede de Centros Sadr coordena uma espécie de reconstrução na sombra. Com fundos de doações, os centros enviam electricistas para arranjar as linhas eléctricas ou telefónicas, organizam a recolha de lixo, dirigem o trânsito onde os semáforos não funcionam. E, sim, também organizam milícias. Al Sadr agarrou nas vítimas económicas de Bremer, vestiu-as de negro e deu-lhes rústicas Kalashnikovs.

Os seus milicianos protegiam as mesquitas e as empresas do Estado quando as autoridades da ocupação não o faziam, mas nalgumas áreas também cometeram excessos, fizeram cumprir à risca a lei islâmica despejando bebidas alcoólicas e aterrorizando mulheres sem véu.

Na verdade, o alargamento astronómico da facção de fundamentalismo religioso que al Sadr representa é outra consequência da terapia de choque de Bremer: se a reconstrução tivesse providenciado trabalho, segurança e serviços aos iraquianos, al Sadr teria sido poupado da sua missão e dos seus numerosos seguidores.

Enquanto os seguidores de al Sadr gritavam "Morte à América" na parte de fora da Zona Verde, algo se passava noutra parte do país que alteraria tudo. Quatro soldados mercenários norte-americanos foram mortos em Faluja, os seus corpos desmembrados e carbonizados foram pendurados como trofeus sobre o Eufrates.

Os ataques foram um golpe devastador nos neoconservadores, do qual nunca mais se recuperariam. Com tais imagens, investir no Iraque deixou repentinamente de ser um sonho capitalista: converteu-se num pesadelo macabro transformado em realidade.

O dia em que deixei Bagdad foi o pior. Faluja estava cercada e o oficial-general Kimmitt estava a ameaçar "destruir o exército de al-Mahdi".

Cerca de 2000 iraquianos foram assassinados nessas duas campanhas gémeas. Tinham-me deixado num controlo de segurança a várias milhas do aeroporto, logo fui num autocarro cheio de empreiteiros que arrastavam as suas malas feitas à pressa. Ainda que ninguém a chamasse assim, aquilo era uma evacuação: durante a semana seguinte 1500 empreiteiros deixaram o Iraque e alguns governos começaram a retirar os seus compatriotas do país por via aérea. No autocarro ninguém falava: todos escutávamos os morteiros, esticando o pescoço para ver o resplendor vermelho. Um tipo que levava uma pasta do KPGM decidiu aliviar a coisa. Há classe executiva neste voo?, perguntou ao silencioso conjunto de passageiros. Desde lá do fundo alguém respondeu: "Ainda não".

De certeza que ainda falta muito para a classe executiva chegar ao Iraque. Quando aterrámos em Amman, soubemos que nos tínhamos vindo embora mesmo a tempo. Nessa manhã três civis japoneses haviam sido sequestrados e os seus raptores ameaçavam atear-lhes fogo vivos. Dois dias mais tarde desapareceu Nicholas Berg e não foi visto de novo até ser dada a conhecer pelos seus raptores a fita do seu assassinato, uma mensagem ainda mais terrível para os empreiteiros dos EUA que a dos corpos carbonizados em Faluja. Esse foi o começo da onda de sequestros e assassinatos de estrangeiros, na sua maioria homens de negócios, de uma série de países: Coreia do Sul, Itália, China, Nepal, Paquistão, Filipinas, Turquia.

Em finais de Junho divulgou-se a morte de mais de noventa empreiteiros no Iraque. Quando foram sequestrados sete empreiteiros turcos em Junho, os seus raptores exigiram à companhia que cancelasse todos os contratos e retirasse os seus empregados do Iraque. Muitas companhias de seguros deixaram de vender seguros de vida a empreiteiros e outras começaram a pôr apólices tão altas como US$10 mil por semana para um executivo ocidental solteiro, o mesmo montante, que segundo dizem, alguns rebeldes pagam por um americano morto.

PAISAGEM IRAQUIANA SEM IRAQUIANOS

Por sua vez, os organizadores do DBX decidiram instalar a histórica feira comercial de Bagdad na adorável cidade turística de Diyarbakir na Turquia, a apenas 250 km da fronteira iraquiana. Uma paisagem iraquiana, só que sem os temidos iraquianos. Três semanas mais tarde não mais de quinze pessoas manifestaram interesse por uma conferência do Departamento de Comércio sobre investimentos no Iraque, em Lansing, Michigan. O seu anfitrião, o congressista republicano Mike Rogers, tentou tranquilizar a sua céptica assistência dizendo que o Iraque é "como qualquer bairro perigoso em qualquer parte da América".

Os investidores estrangeiros, a quem foram oferecidos todos os atractivos imagináveis do livre mercado, não estavam claramente convencidos; não há ainda nenhum sinal deles. Keith Crane, um economista senior que trabalhou para APS disse-o francamente na Rand Corporation: "Não creio que a direcção de uma empresa multinacional possa aprovar um investimento importante neste ambiente. Quando há tiroteios, é muito difícil fazer negócios". Hamid Jassim Khamis, gerente da maior engarrafadora de refrigerantes da região, disse-me que não conseguiu encontrar nenhum investidor, ainda que tenha licença exclusiva para produzir Pepsi no Iraque Central. "Muita gente se mostrou interessada em investir na empresa, mas agora estão realmente na dúvida".

Khamis disse que não poderia culpá-los. Em cinco meses sobreviveu a uma tentativa de assassinato, uma perseguição de carro, duas bombas postas à entrada da sua empresa e ao sequestro do seu filho.

Embora tenha obtido a primeira licença em 40 anos para um banco estrangeiro operar no Iraque, o HSBC ainda não havia aberto as suas sucursais, uma decisão que poderia significar a perda da licença. A Procter & Gamble pôs a sua joint venture no congelador e a General Motors fez o mesmo.

Os financiadores norte-americanos dos complexos comerciais e hotéis luxuosos Starwood caminham com pézinhos de lã e a Siemens AG retirou a maior parte do seu pessoal do Iraque. O sino ainda não tocou na Bolsa de Mercadorias de Bagdad – de facto não se podem usar cartões de crédito na economia a conta-gotas do Iraque. A New Bridge Strategies, a companhia que em Outubro havia lançado a teoria de como um Wal-Mart poderia tomar todo o país, agora parece mais humilde: "O McDonald's não abrirá nenhum negócio em breve", disse ao Washington Post um sócio da empresa, Ed Rogers. Muito menos o Wal-Mart.

O Financial Times classificou o Iraque como "o lugar mais perigoso do mundo para fazer negócios". É quase um sarcasmo: ao tentar conceber o melhor lugar do mundo para fazer negócios, os neoconservadores conseguiram criar o pior, a manifestação mais eloquente da lógica que guia os mercados livres desregulados.

A violência não espantou só os investidores. Também forçou Bremer, antes de se ir embora, a abandonar muitas das suas políticas económicas centrais. A privatização das empresas estatais já não está na agenda; por sua vez, várias empresas estatais foram oferecidas em leasing, mas só se o investidor se comprometer a não despedir um só empregado. Milhares de trabalhadores públicos que Bremer despediu foram reincorporados, e houve aumentos significativos no sector público em geral. Os planos de acabar com o programa alimentar também foram deitados para o lixo. Não é o melhor momento para negar a milhões de iraquianos a única comida que têm.

O golpe final no sono dos neoconservadores chegou semanas antes da mudança de governo. A Casa Branca e o APS estavam preocupados em conseguir que o Concelho de Segurança das Nações Unidas aprovasse a resolução da mudança de poder. Haviam-se empenhado ao dar o principal posto ao ex-agente da CIA Iyad llawi, uma medida que asseguraria a conversão do Iraque, pelo menos, numa estação de reabastecimento das tropas norte-americanas como Jay Garner havia preconizado. Mas se no futuro os grandes grupos de investidores viessem para o Iraque necessitariam de uma sólida garantia de que as leis económicas de Bremer prevaleceriam. Só havia uma maneira de o conseguir: a resolução do Conselho de Segurança tinha que ratificar a constituição interina, que consolidava as leis de Bremer durante o governo interino.

Mas al Sistani opôs-se uma vez mais, desta vez dizendo inequivocamente que a constituição fora "rejeitada pela maioria do povo iraquiano".

A 8 de Junho, o Conselho de Segurança aprovou unanimemente uma resolução que aprovava o plano de entrega do poder, mas que não fazia absolutamente nenhuma referência à constituição. Face a esta grande derrota, George W. Bush celebrou a resolução como uma vitória histórica, que chegou mesmo a tempo para uma fotografia eleitoral para a cimeira do G-8 na Geórgia.

Com as leis de Bremer no limbo, os ministros iraquianos falavam já abertamente em anular os contratos assinados pelo APS. O plano de empréstimos do Citigroup fora rejeitado por ser um uso indevido dos rendimentos petrolíferos do Iraque. O ministro das Comunicações do Iraque está a ameaçar renegociar os contratos com as três empresas de comunicação que prestam ao país o seu pobre serviço de telefones celulares. E as empresas libanesas e norte-americanas que tomaram posse da rede televisiva estatal, foram informadas de que poderiam perder as suas licenças por não serem iraquianas. "Vamos ver se conseguimos mudar de contrato", disse, em Maio, Hamid al-Kifaey, porta-voz do Concelho de Governo. "Não têm a mais pequena ideia sobre o que é o Iraque". Para a maioria dos investidores, esta falta total de certeza legal torna o Iraque demasiado arriscado.

Apesar de a resistência iraquiana ter assustado a primeira onda de salteadores corporativos, restam poucas dúvidas de que vão voltar. Seja qual for o próximo governo iraquiano – nacionalista, islâmico ou liberal – herdará uma esmagadora dívida de 120 mil milhões de dólares. Então, como em todos os países pobres do mundo, homens do FMI de fato azul escuro aparecerão à porta, com empréstimos e promessas de boom económico, se se cumprirem certos ajustes estruturais que, claro, serão um pouco dolorosos ao principio mas valerão o sacrifício no final. De facto, este processo já começou: o FMI está para aprovar empréstimos de 2000 a 2500 milhões de dólares, segundo o acordo sobre as condições. Depois de uma sucessiva e corajosa resistência e da perda de tantas vidas, o Iraque converter-se-á numa nação tão pobre como qualquer outra, com políticos determinados a introduzir políticas rejeitadas pela vasta maioria da população, e todos os compromissos viciosos que isso implica. Não há dúvida de que o mercado livre chegará ao Iraque, mas o sonho neoconservador de transformar o país numa utopia do livre mercado já morreu, vítima de um sonho ainda maior, um segundo mandato de George W. Bush.

A grande ironia histórica da catástrofe que ocorreu no Iraque é que as reformas da terapia de choque que se supunha que produziriam um boom económico que reconstruiria o país, activaram uma resistência que tornou a reconstrução impossível. As reformas de Bremer desencadearam forças que os neoconservadores não haviam previsto nem poderiam esperar controlar, desde rebeliões armadas dentro das fábricas até milhares de jovens desempregados a pegarem em armas. Estas forças transformaram o Ano Zero do Iraque no oposto ao que os neoconservadores ansiavam: não numa utopia corporativa, mas numa macabra distopia, onde ir a uma simples reunião de negócios pode fazer com que acabes linchado, queimado vivo ou decapitado. Estes perigos são tão grandes que o capitalismo global retirou-se do Iraque, pelo menos por agora.

Para os neoconservadores este deve ter sido um desfecho chocante: a sua crença ideológica na cobiça tornou-se mais forte que a própria cobiça.

O Iraque foi para os neoconservadores aquilo que o Afeganistão foi para os Talibãs: o único lugar na terra onde eles podiam forçar os outros a viver segundo a interpretação mais literal e estéril dos seus textos sagrados. Pensar-se-ia que os resultados sangrentos desta experiência poderiam levar a uma crise de fé: no país onde eles reinaram absolutamente livres, onde já não havia governo local para os culpar, onde as reformas económicas foram introduzidas com o máximo impacto e com a maior perfeição criaram, ao invés de um modelo de mercado livre, um Estado falido em que nenhum investidor sensato poderia investir. E os neoconservadores da Zona Verde e os seus mestres em Washington estão tão dispostos a reexaminar o núcleo das suas crenças quanto os talibãs mullah a reverem as suas almas, quando o seu Estado islâmico se converteu num depravado Hades de ópio e escravidão sexual. Quando os factos ameaçam os verdadeiros crentes, eles simplesmente fecham os olhos e oram mais alto.

Foi precisamente o que fez Thomas Foley. O ex-cabecilha do desenvolvimento do sector privado deixou o Iraque e aceitou outro trabalho: presidente do comité de reeleição de George Bush em Connecticut.

A 30 de Abril Foley falou a uma multidão de empresários em Washington acerca das perspectivas de negócio em Bagdad. Era um dia bastante duro para pronunciar um discurso optimista: naquela manhã haviam aparecido as primeiras fotografias de Abu Ghraib, incluindo a do prisioneiro encarapuçado com cabos eléctricos atados às mãos. Era outro tipo de terapia de choque, muito mais rigorosa do que a que Foley ajudara a administrar, mas não totalmente desconectada. "Seja o que for que estejam a ver, nada é tão mau como parece", disse Foley à multidão. "Têm que aceitar isto com fé".
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[*] Autora de No Logo e produtora do filme La Toma, documentário sobre as fábricas ocupadas na Argentina. Tradução de Joana Neves.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

06/Out/04