Bagdad Ano Zero:
A pilhagem do Iraque após uma utopia neoconservadora
Só depois de ter estado um mês em Bagdad é que encontrei o
que
procurava. Tinha viajado ao Iraque um ano depois de começar a guerra, no
momento mais alto do que deveria ter sido um
boom
da indústria de
construção, mas após semanas de procura não vi uma
única maquinaria pesada a não ser tanques e viaturas Humvee. Por
fim
encontrei-a: uma grua para construção. Era grande, amarela e
impressionante e quando a entrevi ao virar a esquina num congestionado distrito
comercial pensei que finalmente ia ser testemunha da reconstrução
sobre a qual tanto tinha ouvido falar. Mas ao aproximar-me percebi que a grua
não estava verdadeiramente a reconstruir nada, nenhum dos
edifícios públicos bombardeados que ainda jazem em ruínas
por toda a cidade, nem nenhuma das linhas de alta tensão que continuam
retorcidas como montes de sucata, mesmo quando o calor do verão
começa a derretê-las. Não, a grua estava a içar um
gigantesco cartaz publicitário num edifício de três
andares:
"Sunbula: mel 100% Natural"
, made in Arábia Saudita.
Vendo o cartaz, pensei em algo que o senador McCain dissera em Outubro
último: o Iraque é um grandioso pote de mel que atrai
milhões de moscas. As moscas a que McCain se estava a referir eram os
Halliburton e Bechtel, assim como os aventurados capitalistas que
afluíam ao Iraque através da senda aberta pelos veículos
Bradley Fighting e pelas bombas guiadas por laser. O mel que os atraía
não eram só os contratos sem licitação e a famosa
riqueza petrolífera do Iraque mas a variedade de oportunidades de
investimento oferecidas por um país que fora aberto depois de ter
permanecido selado durante décadas, primeiro pela política
económica de Saddam Hussein, depois pelas asfixiantes
sanções das Nações Unidas.
Olhando para o cartaz do mel, recordei a explicação mais corrente
sobre o que tinha corrido mal no Iraque, um protesto repetido por todos desde
John Kerry a Pat Buchanan: o Iraque sofre sangue e provações
porque George W. Bush não tem um plano pós-guerra.
O MEL E AS MOSCAS
O único problema com esta teoria é que não é
verdadeira. A administração Bush tem, na verdade, um plano para
o que fazer depois da guerra, para explicá-lo de forma simples, trata-se
de mostrar tanto mel quanto possível e depois sentar-se e esperar que
venham as moscas.
A teoria do mel na reconstrução iraquiana deriva da crença
mais querida dos arquitectos ideológicos da guerra: de que a
cobiça é boa. Não só boa para eles e seus amigos
mas boa para a humanidade, e certamente boa para os iraquianos. A
cobiça cria lucros, que criam crescimento, que cria trabalho, produtos e
serviços e qualquer outra coisa que alguém pudesse possivelmente
necessitar ou querer. O papel de um bom governo é, então, criar
condições óptimas para que as corporações
prossigam com a sua cobiça sem fundo, de modo a que, por sua vez, possam
satisfazer as necessidades da sociedade.
O problema é que os governos, mesmo os governos neoconservadores,
raramente têm a oportunidade de provar a sua sagrada teoria: apesar dos
seus enormes esforços ideológicos, os republicanos de George
Bush ainda são, nas suas cabeças, sabotados eternamente por
democratas intrometidos, sindicatos obstinados e ambientalistas alarmados.
O Iraque iria mudar tudo isto. Num lugar da terra, a teoria finalmente seria
posta em prática na sua mais perfeita e descomprometida forma. Um
país de 25 milhões não seria reconstruído como era
antes da guerra, seria apagado, desapareceria. No seu lugar apareceria uma
sala de exposições deslumbrante para as políticas
laissez-faire, uma utopia como o mundo nunca tinha visto. Toda medida
política que permitisse às corporações
multinacionais prosseguir a sua procura de lucros seria posta em marcha: um
Estado encolhido, uma força de trabalho flexível, fronteiras
abertas, impostos mínimos, sem taxas, sem restrições de
propriedade.
O povo do Iraque teria, claro, que enfrentar um curto período de dor:
activos comerciais, anteriormente de propriedade estatal, deveriam ser
entregues para criar novas oportunidades de crescimento e investimento. Alguns
trabalhos se perderiam e, como os produtos estrangeiros afluíam
através das fronteiras, os empresários locais e as
famílias de camponeses, infelizmente, seriam incapazes de competir.
Mas, para os autores deste plano, isto seria um pequeno preço a pagar
pelo florescimento da economia. Ela certamente explodiria uma vez que lhe
fossem dadas as condições apropriadas, um florescimento
tão poderoso que o país praticamente se reconstruiria por si
mesmo.
O facto de que este florescimento nunca ter chegado e de o Iraque continuar a
tremer sob explosões de tipo muito diferente não deveria ser
atribuído à ausência de um plano. Mais concretamente, a
culpa surge com o plano em si, e com a ideologia extraordinariamente violenta
na qual se baseia.
Os torturadores acreditam que quando são aplicados choques
eléctricos sobre várias partes do corpo em simultaneo os
indivíduos ficam tão confusos quanto à origem da dor que
são incapazes de resistir. Um manual desclassificado da CIA,
Interrogatório de Contrainteligência,
de 1963, descreve como um trauma infligido a prisioneiros abre um intervalo
-- que pode ser extremamente breve -- de animação suspensa, uma
espécie de choque psicológico ou paralisação. Neste
momento a fonte está muito mais aberta ao sugestionamento, muito mais
predisposta a colaborar.
Uma teoria similar aplica-se nas terapias de choque económico ou
tratamento de choque, a expressão horrível usada para descrever a
rápida implementação de reformas de livre mercado impostas
no Chile no início do golpe do general Augusto Pinochet.
A teoria é que estes dolorosos ajustes económicos são
absorvidos rapidamente no período que se segue a uma crise social
sísmica como uma guerra, um golpe ou um colapso governamental. A
população fica tão atónita, tão preocupada
com as pressões pela sobrevivência diária, que
também entra em animação suspensa, incapaz de resistir.
Como declarou o almirante Lorenzo Gotuzzo, ministro da economia de Pinochet: A
cauda do cão deve ser cortada com uma machadada só.
TERAPIA DE CHOQUE
Esta é em essência a tese em vigor no Iraque e -- de acordo com a
crença de que as companhias privadas são mais adequadas que os
governos para praticamente todas as tarefas -- a Casa Branca decidiu privatizar
a tarefa de privatizar a economia estatal do Iraque. Dois meses antes de
começar a guerra, a USAID começou a conceber um plano de
trabalhos, a ser levada a cabo por uma empresa privada, de supervisionar a
transição do Iraque para um sistema económico de mercado
sustentável. O documento estabelece que a empresa vencedora terá
uma vantagem adequada para a oportunidade exclusiva de rápido progresso
nesta área proporcionada pela actual configuração das
circunstâncias políticas. Foi precisamente o que se passou. Paul
Bremer, que dirigiu a ocupação americana do Iraque desde 2 de
Maio de 2003 até a sua fuga antecipada de Bagdad em 28 de Junho de 2004,
admite que quando chegou "Bagdad estava debaixo de fogo, literalmente,
quando vinha do aeroporto". Mas antes que os fogos do ataque militar de
choque e terror
(shock and awe)
estivessem extintos, Bremer pôs em prática a sua terapia de
choque, impondo mais mudanças drásticas num verão
esgotante do que tudo o que o FMI tem tentado impor ao longo de três
décadas na América Latina. Joseph Stiglitz, prémio Nobel
e ex-economista chefe do Banco Mundial descreve as reformas de Bremer como
"uma forma de terapia de choque ainda mais radical que as levadas a cabo
no ex-mundo soviético".
O tom do mandato de Bremer ficou estabelecido com o seu primeiro acto
após a posse: despediu 500 mil funcionários públicos,
muitos deles soldados, mas também médicos, enfermeiras,
professores, editores e gráficos.
Aquilo que se seguiu foi a abertura das fronteiras do país a uma
importação absolutamente ilimitada, sem normas, sem impostos, sem
inspecções, sem taxas. O Iraque, declarou Bremer duas semanas
após a sua chegada, estava aberto para os negócios.
Um mês mais tarde, Bremer revelou a obra-prima das suas reformas. Antes
da invasão, a economia iraquiana não relacionada com o
petróleo era dominada por 200 empresas estatais, que produziam tudo,
desde cimento e papel a máquinas de lavar roupa. Em Junho, Bremer foi a
uma cimeira económica na Jordânia e anunciou que essas firmas
seriam privatizadas imediatamente: "Colocar ineficientes empresas
estatais em mãos privadas é essencial para a
recuperação da economia iraquiana", afirmou. Seria a maior
liquidação de um Estado desde o colapso da União
Soviética.
Mas a engenharia económica de Bremer só havia começado.
Em Setembro, para atrair investimentos estrangeiros ao Iraque, decretou um
pacote radical de leis sem precedentes na sua generosidade para com as
corporações multinacionais.
Estava lá a ordem 37 que baixava a taxa de impostos sobre as empresas de
40% para uns escassos 15%. Estava a ordem 39, que permitia às empresas
estrangeiras possuirem 100% de activos iraquianos, fora o sector de recursos
naturais. Melhor ainda, os investidores podiam remeter 100% dos lucros que
obtivessem no Iraque para fora do país, não se lhes poderia
exigir reinvestimentos e não pagariam impostos. Segundo a ordem 39,
poderiam assinar
leasings
e contratos que teriam uma vigência de 40 anos. A ordem 40 dava
boas-vindas aos bancos estrangeiros no Iraque sob as mesmas
condições favoráveis. Tudo o que restou da
política económica de Saddam Hussein foi uma lei a restringir os
sindicatos e os contratos colectivos de trabalho.
Se estas medidas soam familiares é porque são as mesmas que as
multinacionais por todo o planeta pretendem impor aos governos nacionais e em
acordos comerciais internacionais. Mas enquanto estas reformas são
estabelecidas parcialmente ou de modo desordenado, Bremer pô-las em
execução todas em conjunto, todas ao mesmo tempo. Da noite para
o dia, o Iraque passou de país mais isolado do mundo para o mercado mais
aberto do mundo.
Por fim, a teoria da terapia de choque parecia sustentar-se: os iraquianos
envoltos numa violência tanto militar como económica, estavam
demasiado ocupados a tentar sobreviver, a montar uma resposta política
à campanha de Bremer.
A preocupação sobre a privatização do sistema de
distribuição de água era um luxo inimaginável com
metade da população sem acesso à água
potável; o debate dos escassos impostos deveria esperar até que
voltasse a luz eléctrica. Na imprensa internacional, as novas leis de
Bremer foram facilmente superadas pelas dramáticas notícias sobre
caos político e criminalidade crescente.
UM SONHO CAPITALISTA QUE SE ESFUMA
Algumas pessoas estavam, naturalmente, atentas. Aquele outono esteve inundado
de exposições de negócios sobre a
reconstrução do Iraque, em Washington, Londres, Madrid e Amman.
The Economist
descreve o Iraque sob o comando de Bremer como "um sonho
capitalista", e lançou-se um turbilhão de novas firmas de
consultoria que prometiam ajudar as empresas a aceder ao mercado iraquiano, com
quadros directivos cheios de republicanos bem relacionados. A mais
proeminente foi a New Bridge Strategies, iniciada por Joe Allbaugh, ex chefe da
campanha Bush-Cheney. "Obter os direitos para distribuir produtos Procter
& Gamble pode ser uma mina de ouro", insinuou um dos sócios destas
companhias.
Um negócio óptimo, com bom stock, pode deitar por terra trinta
lojas iraquianas, um Wal-Mart, poderia cobrir todo o país.
Rapidamente surgiram rumores de que abriria um McDonald's no centro de Bagdad,
que estava quase pronto o investimento para construir um luxuoso hotel
Starwood, e que a General Motors estava a planear construir uma fábrica
automobilística.
Do ponto de vista financeiro, a HSBC teria filiais por todo o país, o
Citigroup estava a preparar-se para oferecer substanciais empréstimos
garantidos com vendas futuras de petróleo iraquiano e preparava-se a
abertura em Bagdad de uma Bolsa de Mercadorias em estilo novaiorquino.
Em apenas uns poucos meses, o plano pós-bélico de converter o
Iraque num laboratório para os neoconservadores, tinha sido levado a
cabo. Leo Strauss pode ter dado o cunho intelectual à invasão
preventiva do Iraque, mas foi aquele outro professor da universidade de
Chicago, Milton Friedman, autor do manifesto antigovernamental
Capitalismo e Liberdade
que proporcionou o manual sobre o que fazer uma vez que o país
estivesse seguro em mãos norte-americanas. Isto representou uma enorme
vitória para a ala mais ideológica da administração
Bush. Mas foi também algo mais: o culminar de duas sucessivas lutas
pelo poder, uma entre exilados iraquianos aconselhando a Casa Branca na sua
estratégia pós-guerra, a outra dentro da própria Casa
Branca.
Como demonstrou o historiador britânico Dilip Hiro, em
Segredos e Mentiras: a Operação "Liberdade Iraquiana"
e, depois, os exilados iraquianos que impulsionavam a invasão. Estes
estavam divididos em dois grandes campos. Num estavam os pragmáticos
que preferiam desfazer-se de Saddam e tudo o que o envolvia, assegurar o acesso
ao petróleo e lentamente introduzir reformas de livre mercado. Muitos
desses exilados faziam parte do "Projecto Iraque futuro", do
Departamento de Estado, o qual gerou um relatório de treze volumes sobre
como restaurar os serviços básicos e a transição da
democracia depois da guerra.
No outro lado estava o sector Ano Zero, aqueles que acreditavam que o Iraque
estava tão contaminado que deveria ser apagado do mapa e
reconstruído a partir das cinzas. O principal porta-voz dos
pragmáticos era Iyad Allawi, um ex alto funcionário baathista,
que rompeu com Saddam e passou a trabalhar para a CIA. O principal porta-voz
dos Ano Zero era Ahmad Chalabi, cujo ódio ao Estado iraquiano, devido
à expropriação dos activos da sua família durante a
revolução de 1958, era tão profundo que desejava
fervorosamente ver o país inteiro completa e totalmente queimado, tudo
menos o Ministério do Petróleo, que seria o núcleo do novo
Iraque, o conjunto de células das quais cresceria uma nova
nação. Chamou a este processo desbaathização .
PRAGMÁTICOS & CRENTES
Uma batalha paralela entre pragmáticos e verdadeiros crentes
desenrolava-se na administração Bush. Os pragmáticos eram
homens como o secretário de Estado Colin Powell e o general Jay Garner,
o primeiro enviado ao Iraque depois da guerra. O plano do general Garner era
simples e suficiente: assegurar a infraestrutura, fazer eleições
rápidas e sujas, deixar a terapia de choque para o FMI, e concentrar-se
em assegurar as bases militares norte-americanas segundo o modelo das
Filipinas. "Creio que devemos ver o Iraque como a nossa
estação de abastecimento no Médio Oriente", declarou
à BBC.
Também parafraseou a T. E. Lawrence, dizendo: É melhor para eles
fazer isto imperfeitamente do que para nós fazer-lhes perfeitamente. Do
outro lado estava a habitual equipa de neoconservadores: o vice-presidente
Dick Cheney, o secretário de Defesa Donald Rumsfeld (que elogiou as
devastadoras reformas de Bremer, "uma das mais iluminadas e convidativas
leis fiscais e de investimento em todo o mundo livre"), o segundo
secretário de Defesa Paul Wolfowitz e talvez, mais centralmente, o
subsecretário de Defesa Douglas Feith.
Enquanto o Departamento de Estado dispunha do seu relatório sobre o
futuro do Iraque, os neoconservadores dispunham do contrato da USAID com a
Bearing Point para refazer a economia do Iraque: em 108 páginas a
palavra privatização era mencionada não menos de cinquenta
vezes. Aos verdadeiros crentes da Casa Branca, os planos do general Garner
para o pós-guerra pareciam-lhes desesperadamente pouco ambiciosos.
Porquê instalar uma mera estação de abastecimento quando se
podia ter um modelo de mercado livre? Porquê pensar em termos de
Filipinas quando se pode ter um farol de esperança para o mundo?
Os Ano Zero do lado iraquiano faziam alianças naturais com os
neoconservadores da Casa Branca: o ódio furioso de Chalabi ao Estado
baathista encaixava perfeitamente com o ódio neoconservador ao Estado em
geral e as duas agendas surgiram fortalecidas. Juntos chegaram a imaginar a
invasão do Iraque como uma espécie de êxtase: onde o resto
do mundo via morte, eles viam um nascimento um país redimido
através da violência, purificado pelo fogo. O Iraque não
estava a ser destruído por mísseis de cruzeiro, toneladas de
bombas, caos e saques; estava a nascer de novo.
9 de Abril de 2003, o dia em que caiu Bagdad, foi o dia um do Ano Zero.
Enquanto a guerra se travava, não era claro se seriam os
pragmáticos e os partidários do Ano Zero que tomariam o controlo
sobre o Iraque ocupado. Mas a velocidade com que o país foi conquistado
aumentou dramaticamente o capital político neoconservador, já que
eles haviam previsto uma vitória fácil. Oito dias depois de
George Bush aterrar naquele porta-aviões com a faixa que dizia
"Missão Cumprida", o presidente ratificou a visão
neoconservadora do Iraque como modelo de um Estado corporativo que se abriria a
toda região.
A 9 de Maio, Bush propôs o "estabelecimento de uma área de
livre comércio EUA-Médio Oriente dentro de uma
década". Três dias depois Bush enviou Paul Bremer a Bagdad
para substituir Jay Garner, que permaneceu no cargo só três
semanas.
A mensagem era inequívoca: os pragmáticos haviam perdido. O
Iraque pertencia aos crentes.
Diplomata da era Reagan, convertido em empresário, Bremer havia provado
recentemente a sua habilidade para transformar escombros em ouro, ao esperar
exactamente um mês depois dos ataques do 11 de Setembro para
lançar Crisis Consulting Practice, uma companhia de seguros que vende
seguros contra risco de terrorismo a multinacionais. Bremer tinha dois
lugar-tenentes na frente económica: Thomas Foley e Michael Fleischer,
as cabeças do desenvolvimento do sector privado na
Confederação da Autoridade Provisória (APC). Foley
é um multimilionário de Greenwich, Connecticut, antigo amigo da
família Bush e pioneiro da campanha Bush-Cheney, que descreveu o Iraque
como uma febre de ouro da Califórnia.
Fleischer, um capitalista de risco
(venture)
, é o irmão do ex porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer. Nenhum
deles tem experiência diplomática de alto nível e ambos
usam a expressão "especialista
turnaround
" (um pouco de tudo, numa tradução aproximada) para
descrever aquilo que fazem. De acordo com Foley, isto qualifica-os
singularmente para administrar a economia iraquiana, já que o Iraque
é a mãe de todas as mudanças de direcção.
Muitos dos outros colocados no APC eram ideologicamente semelhantes. A Zona
Verde, a cidade dentro da cidade que hospeda os quartéis generais da
ocupação nos antigos palácios de Saddam, foi inundada por
jovens republicanos extraídos da Fundação Heritage. A
todos eles foram dadas responsabilidades que nunca teriam sonhado
alcançar em casa. A Jay Hallen, um jovem de 24 anos que havia
solicitado um trabalho na Casa Branca, foi dado o encargo de organizar a nova
Bolsa de Valores de Bagdad.
Scout Edwin, de 22 anos, ex empregado de Dick Cheney escreveu numa mensagem
electrónica para sua casa Estou a assistir a iraquianos na
administração de finanças e na organização
das forças de segurança internas. Qual o seu trabalho favorito na
faculdade antes deste? "O meu período como condutor de um
camião que vendia gelados". Naqueles dias iniciais, a Zona Verde
sentia-se um pouco como os Corpos da Paz, para as pessoas que acreditam que os
Corpos da Paz são uma conspiração comunista. Era a
oportunidade de dormir sobre macas de campanha e usar botas do exército,
enquanto eram guardados o tempo todo por soldados de verdade.
ELES ERAM O GOVERNO
As equipas de contabilistas KPMG, banqueiros investidores, fura-vidas de
think tanks
e jovens republicanos que povoavam a Zona Verde tinham muito em comum com as
missões do FMI que reordenam as economias dos países em
desenvolvimento a partir das suites presidenciais dos hotéis Sheraton de
todo o mundo. Excepto uma pequena diferença: no Iraque não
estavam a negociar com o governo para que aceitasse os seus ajustes estruturais
em troca de um empréstimo. Eles
eram
o governo.
Não obstante, deram-se alguns passos para trazer ao Iraque
políticos designados pelos EUA. Yegor Gaidar, o cérebro mestre do
remate das privatizações russas em meados de 90, que entregou os
activos do país aos oligarcas reinantes, foi convidado a partilhar a sua
sapiência numa conferência em Bagdad. Marek Belga, que como
ministro da Economia supervisionou o mesmo processo na Polónia,
também foi trazido.
Os iraquianos que provaram ter mais talento em repetir as linhas
neoconservadoras foram seleccionados para actuar como campeões da
política segundo a USAID. Homens como Ahmad al Mukhtar, que me falou
acerca dos seus compatriotas: "São ociosos. Os iraquianos por
natureza são muito dependentes. Têm que depender deles mesmos,
é a única maneira de sobreviver no mundo de hoje".
Apesar de não ter antecedentes económicos e de o seu
último trabalho ter sido ler notícias em inglês na
televisão, al Mukhtar foi nomeado director de relações
internacionais do Ministério do Comércio e líder da
representação do Iraque na Organização Mundial de
Comércio.
Eu estivera a acompanhar a frente económica da guerra durante quase um
ano e decidi finalmente ir ao Iraque. Estive presente nas
exposições comerciais "Reconstruindo o Iraque", estudei
as leis fiscais e de investimento de Bremer, reuni-me com empreiteiros nos seus
escritórios centrais nos Estados Unidos, entrevistei funcionários
do governo em Washington que são os que concebem as políticas.
Mas enquanto preparava a minha viagem ao Iraque em Março para ver de
perto esta experiência utópica de livre mercado, ia-se tornando
cada vez mais claro para mim que nada corria de acordo com o planeado. Bremer
estivera a trabalhar a teoria de que se se construísse uma utopia
corporativa as corporações viriam. Mas onde estavam elas? As
multinacionais norte-americanas ficavam felizes em aceitar os dólares
dos contribuintes ianques para reconstruir os sistemas de telefone ou
electricidade. Mas não estavam a apostar o seu próprio dinheiro
no Iraque. Não havia, até agora, nenhum McDonald's nem nenhum
Wal-Mart em Bagdad e, inclusivamente, a venda de fábricas estatais,
anunciada tão confidencialmente nove meses atrás, não se
havia concretizado.
Parte do atraso tinha a ver com os riscos fiscais que implica fazer
negócios no Iraque. Mas também havia outros riscos mais
significativos. Quando Paul Bremer anulou a constituição
baathista do Iraque e a substituiu com aquilo que
The Economist
proclamou como a lista de desejos dos investidores estrangeiros, havia um
pequeno pormenor que faltou mencionar: era tudo completamente ilegal.
A autoridade legal do APC derivava da resolução 1483 do Conselho
de Segurança das Nações Unidas, aprovado em Maio de 2003,
o qual reconhecia os Estados Unidos e o Reino Unido como ocupantes
legítimos do Iraque. Foi esta resolução que deu poder a
Bremer para decretar unilateralmente as leis no Iraque. Mas a
resolução também estabelecia que os EUA e a
Grã-Bretanha deviam "cumprir as suas obrigações
segundo o direito internacional em particular as Convenções de
Genebra de 1949 e as Regulamentos de Haia de 1907". Ambas as
convenções nasceram da tentativa de contrariar a infeliz
tendência histórica dos poderes ocupantes de rescrever as leis de
modo a poder despojar economicamente as nações que controlavam.
Com isto em mente, as convenções estipulam que um ocupante deve
subordinar-se às leis existentes no país, a menos que esteja
absolutamente impedido de o fazer.
Também estabelecem que um ocupante não é dono dos
edifícios públicos, de patrimónios reais, bosques e campos
agrícolas do país que está a ocupar, mas sim o seu
administrador e custódia, guardando-o em segurança até
que a soberania seja restabelecida.
Esta é a verdadeira ameaça ao plano Ano Zero: como os EUA
não são donos dos activos do Iraque, não podem
vendê-los legalmente, o que significa que quando a ocupação
terminar um governo iraquiano poderia chegar ao poder e decidir que prefere
manter as empresas públicas nas mãos do Estado, ou, como é
norma na região do Golfo, excluir as empresas estrangeiras de ter 100%
dos activos nacionais. Se isto ocorresse, os investimentos feitos sob as
regras de Bremer poderiam ser expropriados, deixando as empresas sem recursos
pois os seus investimentos haviam violado a lei internacional desde o
principio.
Em Novembro, os advogados de negócios começaram a aconselhar os
seus clientes corporativos a não irem ainda para o Iraque, seria melhor
esperar até depois da transição. As companhias de seguros
estavam tão assustadas que nenhuma das grandes firmas seguraria os
investidores por riscos políticos, essa área da lei de seguros
que protege as empresas contra governos estrangeiros que se tornem
nacionalistas ou socialistas e expropriem os investimentos.
Até mesmo os políticos iraquianos sustentados pelos EUA,
até agora tão obedientes, começaram a pôr-se
nervosos acerca do seu futuro político e da sequência dos planos
de privatização. O ministro das Comunicações
Haider al-Abadi falou-me sobre a sua primeira reunião com Bremer. Eu
lhe disse: "Olhe, não temos mandato para vender nada disto. A
privatização é uma grande coisa. Temos que esperar
até que haja um governo iraquiano". O ministro da Indústria
Mohamad Tofiq foi ainda mais directo: "Não vou fazer nada que
não seja legal. Isso é tudo".
Ambos, al-Abadi e Tofiq, falaram-me de uma reunião, nunca divulgada
à imprensa, que teve lugar em finais de Outubro de 2003. Nela os 25
membros do Concelho de Governo do Iraque, assim como os 25 membros internos
decidiram unanimemente que não participariam na
privatização das empresas estatais do Iraque ou da sua
infra-estrutura de propriedade pública.
Mas Bremer não cedeu. As leis internacional proíbe os ocupantes
de vender activos estatais, mas não diz nada acerca dos governos
títeres que eles nomeiam. Inicialmente, Bremer havia prometido entregar
o poder a um governo iraquiano eleito por eleições directas, mas
no principio de Novembro foi a Washington a uma reunião privada com o
presidente Bush e voltou com um plano B. A 30 de Junho a
ocupação terminaria oficialmente, mas não realmente.
Seria substituída por um governo designado, eleito por Washington. Este
governo não estaria atado por leis internacionais que impedem o ocupante
de vender activos estatais, mas estaria atado por uma
constituição interina, um documento que protegeria as leis de
investimento e de privatização de Bremer.
O plano era arriscado. A data limite de 30 de Junho estava extremamente
próxima, e fora escolhida por uma razão menor: para que o
presidente Bush pudesse anunciar o fim da ocupação do Iraque
durante a campanha eleitoral. Se tudo corresse como o planeado, Bremer teria
êxito e forçaria um governo iraquiano soberano a aplicar as suas
reformas ilegais. Mas se algo saísse mal, teria que seguir em frente
com a transferência de governo a 30 de Junho de qualquer forma, porque
Karl Rove, e não Dick Cheney ou Donald Rumsfeld, lá estaria. E
se há que optar entre a ideologia no Iraque e a elegibilidade de George
Bush, todos sabem quem é que ganha.
Ao principio, o plano B parecia correr bem. Bremer persuadiu o Concelho de
Governo iraquiano a concordar com tudo: o novo cronograma, o governo interino
e a constituição interina. Até conseguiu introduzir
sigilosamente na constituição uma cláusula completamente
revista, o Artigo 26. Estabelecia que enquanto durasse o governo interino as
leis, regulamentos, ordens e directivas ditadas pelo APC permaneceriam em vigor
e só poderiam ser mudadas depois de uma eleição geral.
Bremer havia encontrado este expediente legal. Abria uma janela sete
meses entre o fim oficial da ocupação e a data de
realização de eleições gerais. Dentro desta
janela, as proibições das Convenções de Genebra e
de Haia sobre privatizações não teriam mais
aplicação, mas as leis de Bremer, graças ao Artigo 26,
permaneceriam. Durante estes sete meses, os investidores estrangeiros poderiam
vir ao Iraque e assinar contratos por 40 anos de compra de activos iraquianos.
Se um futuro governo iraquiano eleito decidisse mudar as regras, os
investidores poderiam exigir indemnização. Mas Bremer teve um
tremendo oponente: o grande Ayatola Ali Al Sistani, o mais alto clérigo
xiita no Iraque. Al Sistani tratou de bloquear o plano de Bremer a cada passo,
conclamando por eleições imediatas para que a
constituição fosse redigida depois dessas eleições,
não antes. Ambas as exigências, se aceites, teriam fechado a
janela da privatização de Bremer.
Então, a 2 de Março quando os membros xiitas do Concelho de
Governo recusaram assinar a constituição interina, cinco bombas
explodiram frente a mesquitas em Karbala e Bagdad, matando cerca de 200 crentes.
O general John Abizaid, comandante chefe norte-americano no Iraque, advertiu
que o país estava no limiar de uma guerra civil. Assustado por esta
perspectiva, Al Sistani retrocedeu e os políticos xiitas assinaram a
constituição interina. Era uma história conhecida: o
choque de um ataque violento abre caminho a mais terapia de choque.
Quando cheguei ao Iraque uma semana mais tarde, o projecto económico
parecia estar novamente em andamento. O que faltava a Bremer era obter a sua
constituição interina ratificada por uma resolução
do Concelho de Segurança. Então os advogados nervosos e os
correctores de seguros poderiam descansar e a liquidação do
Iraque poderia finalmente começar. A APC, entretanto, tinha
lançado uma nova e grande ofensiva na área das
relações públicas, destinada a reassegurar aos novos
investidores que o Iraque era já um lugar seguro e empolgante para fazer
negócios.
A peça central da campanha era a Exposição Destino Bagdad,
uma exposição comercial maciça para potenciais
investidores que teria lugar no principio de Abril no Centro Internacional
Bagdad. Era o primeiro evento desta natureza dentro do Iraque e os
organizadores tinham denominado a feira comercial com as siglas DBX, como se
fosse alguma corrida de bicicletas auspiciadas por Mountain Dew. Falando de
desportos extremos, Thomas Foley viajou a Washington para dizer a um monte de
executivos que os riscos no Iraque são comparáveis aos de
"esquiar ou andar de mota, os quais, para muitos, são riscos
aceitáveis".
Mas, três horas depois da minha chegada a Bagdad, verifiquei que essas
afirmações eram extremamente difíceis de acreditar. Ainda
não havia desfeito as malas quando o meu quarto de hotel se encheu de
escombros e as janelas da recepção estalaram. Na rua abaixo, o
Hotel Monte Líbano havia sido bombardeado, nessa altura o maior ataque
deste tipo desde o fim oficial da guerra. No dia seguinte, outro hotel foi
bombardeado em Bassorá, e dois homens de negócios finlandeses
foram mortos a caminho de uma reunião em Bagdad.
O oficial-general Mark Kimmit finalmente admitiu que algo se desenhava:
"os extremistas começaram a abandonar os objectivos duros (e) agora
estão a dirigir-se para objectivos particularmente mais suaves".
No dia seguinte, o Departamento de Estado actualizou a sua advertência
quanto a viagens: os cidadãos norte-americanos eram severamente
advertidos quanto a viagens ao Iraque. Os riscos físicos de fazer
negócios no Iraque pareciam entrar numa espiral sem controlo. Isto,
volto a repetir, não fazia parte do plano original. Quando Bremer
chegou pela primeira vez a Bagdad a resistência armada era tão
escassa que se podia caminhar pelas ruas com um ambiente de segurança
mínimo. Durante os seus quatro meses no cargo, 109 soldados
norte-americanos foram mortos e 570 feridos. Nos quatro meses seguintes,
quando a terapia de choque de Bremer já havia tido efeito, o
número de baixas norte-americanas quase duplicou, com 195 soldados
mortos e 1633 feridos. Há muita gente no Iraque que alega que esses
factos estão relacionados, que as reformas de Bremer foram o principal e
único factor de crescimento da resistência armada.
Tomem como exemplo as primeiras baixas de Bremer. Os soldados e trabalhadores
que ele despediu sem pensões nem indemnizações não
desapareceram tranquilamente. Muitos deles foram directamente para os
mujadines
, formando a medula espinal da resistência armada. "Meio
milhão de pessoas estão agora pior, e aí tens a torneira
que mantém a rebeldia activa. É um emprego alternativo",
diz Hussain Kubba, director de um importante grupo empresarial iraquiano, a
Kubba Consulting.
Algumas das outras vitimas económicas de Bremer recusaram-se a
desaparecer tranquilamente. Diz-se que muitos dos empresários cujas
companhias foram ameaçadas pelas leis de investimento de Bremer
decidiram fazer investimentos neles mesmos, na resistência. É em
parte o seu dinheiro que sustenta guerrilheiros com Kalashnikovs e RPGs.
Este desenrolar apresenta um desafio à lógica básica da
terapia de choque: os neoconservadores estavam convencidos que se
implementassem as suas reformas rápida e impiedosamente os iraquianos
ficariam demasiado atónitos para resistirem. Mas o choque parece ter
tido o efeito contrário, ao invés da paralisação
prevista pôs muitos iraquianos em acção, em grande parte
extrema. Haider al-Abadi, ministro da Comunicação do Iraque,
apresentou-o desta forma: "Sabemos que há terroristas no
país, antes não tinham tido êxito, estavam isolados.
Agora, que a totalidade do país está descontente e uma grande
quantidade de gente não tem trabalho, esses terroristas encontram
ouvidos que os escutam".
Bremer estava agora a lutar não só contra os iraquianos que se
opunham aos seus planos mas contra os comandantes militares dos Estados Unidos
encarregados de dissipar a rebeldia que as suas políticas alimentavam.
Começaram a levantar-se algumas perguntas heréticas: Em vez de
despedir as pessoas, o que aconteceria se a APC criasse novos trabalhos para os
iraquianos? E se em vez de vender apressadamente as 200 empresas estatais do
Iraque, o que aconteceria se as puséssemos novamente a trabalhar?
Desde o começo, a conduta dos neoconservadores demonstrava que
não manifestavan senão desdém pelas empresas estatais. De
acordo com o seu plano Ano Zero regozijo apocalíptico com o saque
das fábricas durante a guerra as forças norte-americanas
nada fizeram. Sabah Asaad, director e gerente de uma fábrica de
refrigerantes fora de Bagdad, disse-me que enquanto se dava o saque foi a uma
base do exército dos EUA e pediu ajuda. "Pedi a um dos oficiais
que enviasse dois soldados e um veículo para me ajudar a expulsar os
saqueadores. Eu estava a chorar. O oficial respondeu-me: "Lamento,
não podemos fazer nada, necessitamos de uma ordem do presidente
Bush".
Em Washington, Donald Rumsfeld, encolhendo os ombros, disse: "As pessoas
livres são livres de se enganar, de cometer crimes e fazer coisas
más".
Olhar para os restos da fábrica de Asaad, grande como um campo de
futebol, é compreender porque Frank Gehry teve uma crise
artística depois do 11 de Setembro e foi durante algum tempo incapaz de
desenhar estruturas que recordassem escombros de edifícios modernos.
A fábrica saqueada e incendiada de Asaad, assemelhava-se
extraordinariamente a uma versão
heavy metal
do prémio Guggenheim de Gehry em Bilbao, Espanha, com ondas de
aço, retorcidas pelo fogo, que jaziam em montes dourados terrivelmente
formosos. Mesmo assim, nem tudo estava perdido. "Os saqueadores tinham
boas intenções", disse-me um dos pintores de Asaad,
explicando que deixaram as ferramentas e as máquinas, "para que
pudéssemos trabalhar de novo". Porque as máquinas ainda
aí estão, muitos administradores de empresas no Iraque dizem que
não lhes custaria muito voltar à produção plena.
Com os cortes de electricidade diários necessitam de geradores de
emergência para as arranjar, e necessitam de capital para
matérias-primas. Se isto se conseguisse, teria consequências
tremendas na reconstrução do Iraque, porque significaria que
muitos dos materiais chave necessários para a reconstrução
cimento e aço, tijolos e móveis poderiam ser
produzidos no país.
Mas isto não aconteceu. Imediatamente após o fim nominal da
guerra, o Congresso apropriou-se de 2,5 mil milhões de dólares
para a reconstrução do Iraque, seguidos de uns adicionais 18,4
mil milhões de dólares em Outubro. Contudo, em Julho de 2004, as
empresas estatais do Iraque foram minuciosamente excluídas dos
contratos de reconstrução.
Por sua vez, milhares de milhões foram parar a empresas ocidentais, com
a maior parte dos materiais para reconstrução a serem importados
a preços elevados.
Com um desemprego da ordem dos 67%, os produtos importados e os trabalhadores
estrangeiros a fluírem através das fronteiras tornaram-se uma
fonte de tremendo ressentimento no Iraque e, outra torneira adicional que aviva
a rebeldia. E os iraquianos não têm de olhar muito para
trás para recordar esta injustiça; exposta no símbolo mais
omnipresente da ocupação: o muro antiexplosões. As
placas de betão de dez pés (3 m) de altura estão em toda a
parte no Iraque, a separar os protegidos a gente em hotéis
modernos, casas luxuosas, bases militares e, claro, a Zona Verde dos
desprotegidos e expostos.
Como se isto não fosse suficiente, todos os muros são importados,
do Curdistão, Turquia, ou até de mais longe, apesar de o Iraque
ter sido em tempos um dos maiores produtores de cimento da região, e
poder sê-lo de novo facilmente. Há 17 fábricas de cimento
estatais por todo o país, mas a maioria está inactiva a trabalhar
à metade da sua capacidade. De acordo com o ministro da
Indústria, nenhuma destas fábricas recebeu um só contrato
para ajudar na reconstrução, mesmo quando poderiam produzir os
muros e satisfazer outras necessidades de cimento a custos consideravelmente
menores.
A APC paga até US$1000 por cada muro de betão; os produtores
locais dizem que os poderiam fabricar por US$100. O ministro Tofiq diz que
há uma razão simples pela qual os norte-americanos se negam a que
as fábricas de cimento se ponham novamente em acção:
entre os que tomam as decisões nenhum acredita no sector público.
[Tofiq disse que várias companhias norte-americanas haviam mostrado um
forte interesse na compra das fábricas de cimento estatais. Isto
dá azo no Iraque a uma forte convicção de que há
uma estratégia deliberada para arruinar as empresas estatais, uma
prática conhecida como provoca a fome e depois vende]
MUROS DE BREMER
Este tipo de cegueira ideológica tornou os ocupantes do Iraque
prisioneiros das suas próprias políticas, escondidos atrás
de muros que, pela sua mera existência, alenta a ira contra a
presença dos EUA e, com isso, aumenta a necessidade de novos muros. Em
Bagdad as barreiras de cimento receberam o popular sobrenome de muros de Bremer.
Enquanto a rebeldia crescia, tornou-se imediatamente claro que se Bremer
continuasse com as suas ideias de vender as empresas estatais a violência
poderia piorar. Não havia dúvida de que as
privatizações exigiriam mais despedimentos: o ministro da
Indústria estima que cerca de 145 mil trabalhadores seriam despedidos a
fim de tornar as empresas apetecíveis aos investidores, com cada um
desses trabalhadores a sustentar em média uma família de cinco
membros. Para os assedidados ocupantes do Iraque a pergunta era: estas
vitimas da terapia de choque aceitariam o seu destino ou revoltar-se-iam?
A resposta chegou, de modo bastante dramático, a uma das maiores
empresas estatais, a Companhia Geral de Óleos Vegetais. O complexo de
seis fábricas produz óleo de cozinha, sabão, detergentes
de roupa, creme de barbear e champô. Pelo menos foi o que disse um
recepcionista que me deu folhetos brilhantes e almanaques que ostentavam
instrumentos modernos e a última e mais avançada
inovação no campo da indústria. Mas quando me aproximei
da fábrica de sabão, descobri um grupo de trabalhadores que
dormiam na parte de fora de um edifício escuro. O nosso guia correu
até eles, gritando algo a uma mulher com uma bata branca de
laboratório, e subitamente a fábrica pôs-se em actividade:
as luzes acenderam-se, os motores começaram a funcionar e os
trabalhadores ainda pestanejando de sono começaram a
encher garrafas de plástico com um líquido azul pálido.
Perguntei a Nada Ahmed, a mulher de bata branca, porque é que a
fábrica não estava a trabalhar à uns minutos atrás.
Explicou-me que só tinham electricidade e materiais suficientes para
pôr as máquinas em funcionamento umas horas por dia, mas que
quando chegavam visitas possíveis investidores,
funcionários ministeriais, jornalistas tinham que as pôr em
marcha.... Para mostrar, explicou. Por trás de nós uma
dúzia de máquinas volumosas estavam inactivas, cobertas por capas
de plástico grosso e presas por uma fita adesiva.
Num beco escuro da planta cruzámo-nos com um velho curvado sobre um saco
cheio de tampas brancas de plástico. Com uma fina folha de metal
molhada em cera, talhava os bordes de cada tampa, deixando a seus pés
uma pilha de aparas. "Como não temos a peça adequada para o
modelo, temos que as cortar à mão", explicou-nos
desculpando-se o supervisor. "Não temos recebido
reposições da Alemanha desde que começaram as
sanções".
Notei ainda que na linha de montagem que estava a funcionar quase não
havia mecanização: as garrafas eram postas à mão
porque o tapete transportador não corria, as tampas que eventualmente
eram postas à máquina eram postas a marteladas com um masso de
madeira. Inclusivamente a água para a fábrica ia-se buscar a um
poço que estava fora, recolhida à mão e acartada para
dentro.
A solução proposta pelos ocupantes do Iraque não era
organizar a planta mas sim vendê-la. Quando Bremer anunciou a venda em
Junho de 2003 esta estava entre as primeiras empresas mencionadas. Não
obstante, quando visitei a fábrica em Março, ninguém
queria falar sobre o plano de privatização; o mero pronunciar da
palavra dentro do edifício gerava um silêncio embaraçoso e
expressivos olhares. Este era um cenário pouco natural numa
fábrica de sabão, e tratei de chegar ao fundo da questão
quando entrevistei o gerente assistente. Mas a entrevista em si foi igualmente
estranha: levei uma semana e meia a consegui-la, enviando as perguntas por
escrito para que as aprovassem, obtendo uma nota de aprovação
assinada pelo ministro da Indústria.
Mas quando finalmente começou a entrevista, o gerente assistente
negou-se a dar-me o seu nome e não permitiu gravar a conversa.
"Cada gerente mencionado na imprensa é atacado depois".
disse-me. E quando lhe perguntei se a companhia ia ser vendida, deu-me esta
resposta oblíqua: "Se a decisão for dos trabalhadores, eles
estão contra a privatização; mas se for dos
funcionários de alto escalão e do governo, a
privatização é uma ordem e as ordens devem ser
cumpridas".
Deixei a planta sentindo que sabia menos do que quando cheguei. Mas no caminho
até ao portão, um jovem segurança entregou ao meu tradutor
uma nota. Queria encontrar-se comigo depois do trabalho num restaurante ali
perto, "para esclarecer o que realmente ocorria com a
privatização". O seu nome era Mahmud, e tinha 25 anos com
uma barba cuidada e grandes olhos negros (para sua segurança omito o seu
apelido). A sua história começou em Julho, poucas semanas depois
do anúncio de Bremer sobre a privatização. O gerente da
companhia, a caminho do trabalho, foi assassinado a tiro. Os relatos da
imprensa especulavam que o gerente fora assassinado porque estava a favor do
plano de privatização da planta, mas Mahmud estava convencido que
ele tinha sido assassinado porque se opunha ao plano. "Nunca venderia as
fábricas como querem os americanos. Por isso mataram-no".
O homem que mataram foi substituído por um novo gerente, Mudhfar Ja'far.
Pouco depois de tomar posse Ja'far convocou uma reunião com
funcionários do ministério para discutir a venda da
fábrica de sabão, o que implicava o despedimento de dois
terços dos seus empregados. A vigiar esta reunião havia
vários seguranças da planta. Eles conseguiram escutar de muito
perto os planos de Ja'far e rapidamente informaram os seus companheiros sobre
as alarmantes notícias. "Estávamos chocados",
explicou-me Mahmud. "Se o sector privado comprar a nossa companhia, a
primeira coisa que vão fazer será reduzir o pessoal da planta
para fazer mais dinheiro. E seremos forçados a um destino muito duro,
porque a fábrica é o nosso único meio de
sobrevivência".
Assustados com esta perspectiva, um grupo de uns 17 trabalhadores, incluindo
Mahmud, foram ao escritório de Ja'far para confrontá-lo com o que
tinham ouvido. "Infelizmente, não estava lá, só
estava o gerente assistente, com quem tu estivestes", disse-me Mahmud.
Deu-se inicio a uma rixa: um trabalhador atacou o gerente assistente, e um
guarda-costas disparou três tiros contra os operários.
Então, o grupo atacou o guarda-costas, tirou-lhe a arma e, diz Mahmud, -
e apunhalaram-no com uma faca nas costas três vezes. Esteve um mês
no hospital. Em Janeiro ainda houve mais violência.
A caminho do trabalho, Ja'far, o gerente e o seu filho foram alvejados e
ficaram seriamente feridos. Mahmud disse-me que não fazia ideia de quem
estava por detrás do ataque, mas eu comecei a perceber porque os
gerentes de fábrica no Iraque tentam manter um baixo perfil.
"NÃO SERÁ PRIVATIZADA"
No final da reunião, perguntei a Mahmud o que aconteceria se a planta
fosse vendida mesmo com a objecção dos operários,
"Há duas possibilidades", disse-me, olhando-me nos olhos e
sorrindo gentilmente: "Ou ateamos fogo à fábrica e deixamos
que as chamas a devorem por completo, ou fechamo-nos lá dentro. Mas
não será privatizada".
Se houve algum momento em que os iraquianos estavam tão desorientados
que não conseguiam resistir à terapia de choque, esse momento
definitivamente já está ultrapassado. As relações
laborais, em todo o Iraque, haviam-se tornado um desporto sangrento. A
violência das ruas para lá dos portões das fábricas,
ameaça engoli-las. Os operários receiam a perda do trabalho como
uma sentença de morte e os gerentes, por sua vez, temem os seus
trabalhadores, um facto que faz com que a privatização seja
substancialmente mais complicada do que os neoconservadores haviam previsto.
[* Foi em Bassorá que a relação entre reformas
económicas e mobilização da resistência tomou
proporções mais graves. Em Dezembro o sindicato dos trabalhadores
petrolíferos estava a negociar um aumento salarial com o
Ministério do Petróleo. Como não conseguiam nada, os
trabalhadores exigiram ao ministro uma escolha simples: aumentava os seus
magros salários ou todos eles se uniriam à resistência
armada. Receberam um aumento substancial.]
Quando terminou a reunião com Mahmud, ouvi que havia uma grande
manifestação à porta dos quartéis da APC.
Seguidores do jovem clérigo radical Moqtada al Sadr estavam a protestar
pelo encerramento do seu jornal,
al Hawza
, pela polícia militar. O APS acusou o
al Hawza
de publicar "artigos falsos que podiam aumentar os riscos reais de
violência".
Como exemplo citavam um artigo a denunciar que Bremer "está a
seguir uma política de fome para aumentar a preocupação do
povo iraquiano pela procura do pão diário, de modo a que
não tenhamos possibilidades de exigir as nossas liberdades
políticas e individuais". Pareceu-me mais um sumário
conciso da receita de Milton Friedman para a terapia de choque do que
literatura de ódio.
Uns dias antes de o jornal fechar, eu tinha ido a Bufa durante as
orações de sexta-feira a fim de escutar al Sadr na sua mesquita.
Começou com uma investida contra a constituição interina
de Bremer assinada recentemente, classificando-a como "um documento
injusto e terrorista".
A mensagem do sermão era clara: o grande Ayatolá Ali al Sistani
pode ter recuado no que respeita à constituição, mas al
Sadr e os seus seguidores estavam determinados a lutar e se eles
ganhassem sabotariam o cuidadoso plano neoconservador de impingir ao
próximo governo do Iraque a sua lista de desejos.
Com o fecho do jornal, Bremer estava a dar a sua resposta a al Sadr:
não estava a negociar com este jovenzinho desconhecido; mais depressa os
retiraria à força. Quando cheguei à
manifestação as ruas estavam cheias de homens vestidos de negro,
que rapidamente se tornariam o lendário Exército Mahdi.
Impressionou-me o facto de que se Mahmud perdesse o trabalho como
segurança na fábrica de sabão, poderia ser um deles. Isto
é o que os infantes de al Sadr são: homens que foram postos de
parte nos grandes planos neoconservadores para o Iraque, que não
vêm nenhuma possibilidade de trabalho, e cujos seguidores não
viram nada da prometida reconstrução. Bremer fracassou para
estes jovens, e em tudo o que Bremer fracassou Moqtada al Sadr astutamente
tentou ter êxito.
Nos bairros pobre xiitas, desde Bagdad a Bassorá, uma rede de Centros
Sadr coordena uma espécie de reconstrução na sombra. Com
fundos de doações, os centros enviam electricistas para arranjar
as linhas eléctricas ou telefónicas, organizam a recolha de lixo,
dirigem o trânsito onde os semáforos não funcionam. E,
sim, também organizam milícias. Al Sadr agarrou nas
vítimas económicas de Bremer, vestiu-as de negro e deu-lhes
rústicas Kalashnikovs.
Os seus milicianos protegiam as mesquitas e as empresas do Estado quando as
autoridades da ocupação não o faziam, mas nalgumas
áreas também cometeram excessos, fizeram cumprir à risca a
lei islâmica despejando bebidas alcoólicas e aterrorizando
mulheres sem véu.
Na verdade, o alargamento astronómico da facção de
fundamentalismo religioso que al Sadr representa é outra
consequência da terapia de choque de Bremer: se a
reconstrução tivesse providenciado trabalho, segurança e
serviços aos iraquianos, al Sadr teria sido poupado da sua missão
e dos seus numerosos seguidores.
Enquanto os seguidores de al Sadr gritavam "Morte à
América" na parte de fora da Zona Verde, algo se passava noutra
parte do país que alteraria tudo. Quatro soldados mercenários
norte-americanos foram mortos em Faluja, os seus corpos desmembrados e
carbonizados foram pendurados como trofeus sobre o Eufrates.
Os ataques foram um golpe devastador nos neoconservadores, do qual nunca mais
se recuperariam. Com tais imagens, investir no Iraque deixou repentinamente de
ser um sonho capitalista: converteu-se num pesadelo macabro transformado em
realidade.
O dia em que deixei Bagdad foi o pior. Faluja estava cercada e o
oficial-general Kimmitt estava a ameaçar "destruir o
exército de al-Mahdi".
Cerca de 2000 iraquianos foram assassinados nessas duas campanhas
gémeas. Tinham-me deixado num controlo de segurança a
várias milhas do aeroporto, logo fui num autocarro cheio de empreiteiros
que arrastavam as suas malas feitas à pressa. Ainda que ninguém
a chamasse assim, aquilo era uma evacuação: durante a semana
seguinte 1500 empreiteiros deixaram o Iraque e alguns governos começaram
a retirar os seus compatriotas do país por via aérea. No
autocarro ninguém falava: todos escutávamos os morteiros,
esticando o pescoço para ver o resplendor vermelho. Um tipo que levava
uma pasta do KPGM decidiu aliviar a coisa. Há classe executiva neste
voo?, perguntou ao silencioso conjunto de passageiros. Desde lá do fundo
alguém respondeu: "Ainda não".
De certeza que ainda falta muito para a classe executiva chegar ao Iraque.
Quando aterrámos em Amman, soubemos que nos tínhamos vindo embora
mesmo a tempo. Nessa manhã três civis japoneses haviam sido
sequestrados e os seus raptores ameaçavam atear-lhes fogo vivos. Dois
dias mais tarde desapareceu Nicholas Berg e não foi visto de novo
até ser dada a conhecer pelos seus raptores a fita do seu assassinato,
uma mensagem ainda mais terrível para os empreiteiros dos EUA que a dos
corpos carbonizados em Faluja. Esse foi o começo da onda de sequestros
e assassinatos de estrangeiros, na sua maioria homens de negócios, de
uma série de países: Coreia do Sul, Itália, China, Nepal,
Paquistão, Filipinas, Turquia.
Em finais de Junho divulgou-se a morte de mais de noventa empreiteiros no
Iraque. Quando foram sequestrados sete empreiteiros turcos em Junho, os seus
raptores exigiram à companhia que cancelasse todos os contratos e
retirasse os seus empregados do Iraque. Muitas companhias de seguros deixaram
de vender seguros de vida a empreiteiros e outras começaram a pôr
apólices tão altas como US$10 mil por semana para um executivo
ocidental solteiro, o mesmo montante, que segundo dizem, alguns rebeldes pagam
por um americano morto.
PAISAGEM IRAQUIANA SEM IRAQUIANOS
Por sua vez, os organizadores do DBX decidiram instalar a histórica
feira comercial de Bagdad na adorável cidade turística de
Diyarbakir na Turquia, a apenas 250 km da fronteira iraquiana. Uma paisagem
iraquiana, só que sem os temidos iraquianos. Três semanas mais
tarde não mais de quinze pessoas manifestaram interesse por uma
conferência do Departamento de Comércio sobre investimentos no
Iraque, em Lansing, Michigan. O seu anfitrião, o congressista
republicano Mike Rogers, tentou tranquilizar a sua céptica
assistência dizendo que o Iraque é "como qualquer bairro
perigoso em qualquer parte da América".
Os investidores estrangeiros, a quem foram oferecidos todos os atractivos
imagináveis do livre mercado, não estavam claramente convencidos;
não há ainda nenhum sinal deles. Keith Crane, um economista
senior que trabalhou para APS disse-o francamente na Rand Corporation:
"Não creio que a direcção de uma empresa
multinacional possa aprovar um investimento importante neste ambiente. Quando
há tiroteios, é muito difícil fazer negócios".
Hamid Jassim Khamis, gerente da maior engarrafadora de refrigerantes da
região, disse-me que não conseguiu encontrar nenhum investidor,
ainda que tenha licença exclusiva para produzir Pepsi no Iraque Central.
"Muita gente se mostrou interessada em investir na empresa, mas agora
estão realmente na dúvida".
Khamis disse que não poderia culpá-los. Em cinco meses
sobreviveu a uma tentativa de assassinato, uma perseguição de
carro, duas bombas postas à entrada da sua empresa e ao sequestro do seu
filho.
Embora tenha obtido a primeira licença em 40 anos para um banco
estrangeiro operar no Iraque, o HSBC ainda não havia aberto as suas
sucursais, uma decisão que poderia significar a perda da licença.
A Procter & Gamble pôs a sua
joint venture
no congelador e a General Motors fez o mesmo.
Os financiadores norte-americanos dos complexos comerciais e hotéis
luxuosos Starwood caminham com pézinhos de lã e a Siemens AG
retirou a maior parte do seu pessoal do Iraque. O sino ainda não tocou
na Bolsa de Mercadorias de Bagdad de facto não se podem usar
cartões de crédito na economia a conta-gotas do Iraque. A New
Bridge Strategies, a companhia que em Outubro havia lançado a teoria de
como um Wal-Mart poderia tomar todo o país, agora parece mais humilde:
"O McDonald's não abrirá nenhum negócio em
breve", disse ao
Washington Post
um sócio da empresa, Ed Rogers. Muito menos o Wal-Mart.
O
Financial Times
classificou o Iraque como "o lugar mais perigoso do mundo para fazer
negócios". É quase um sarcasmo: ao tentar conceber o
melhor lugar do mundo para fazer negócios, os neoconservadores
conseguiram criar o pior, a manifestação mais eloquente da
lógica que guia os mercados livres desregulados.
A violência não espantou só os investidores. Também
forçou Bremer, antes de se ir embora, a abandonar muitas das suas
políticas económicas centrais. A privatização das
empresas estatais já não está na agenda; por sua vez,
várias empresas estatais foram oferecidas em leasing, mas só se o
investidor se comprometer a não despedir um só empregado.
Milhares de trabalhadores públicos que Bremer despediu foram
reincorporados, e houve aumentos significativos no sector público em
geral. Os planos de acabar com o programa alimentar também foram
deitados para o lixo. Não é o melhor momento para negar a
milhões de iraquianos a única comida que têm.
O golpe final no sono dos neoconservadores chegou semanas antes da
mudança de governo. A Casa Branca e o APS estavam preocupados em
conseguir que o Concelho de Segurança das Nações Unidas
aprovasse a resolução da mudança de poder. Haviam-se
empenhado ao dar o principal posto ao ex-agente da CIA Iyad llawi, uma medida
que asseguraria a conversão do Iraque, pelo menos, numa
estação de reabastecimento das tropas norte-americanas como Jay
Garner havia preconizado. Mas se no futuro os grandes grupos de investidores
viessem para o Iraque necessitariam de uma sólida garantia de que as
leis económicas de Bremer prevaleceriam. Só havia uma maneira de
o conseguir: a resolução do Conselho de Segurança tinha
que ratificar a constituição interina, que consolidava as leis de
Bremer durante o governo interino.
Mas al Sistani opôs-se uma vez mais, desta vez dizendo inequivocamente
que a constituição fora "rejeitada pela maioria do povo
iraquiano".
A 8 de Junho, o Conselho de Segurança aprovou unanimemente uma
resolução que aprovava o plano de entrega do poder, mas que
não fazia absolutamente nenhuma referência à
constituição. Face a esta grande derrota, George W. Bush
celebrou a resolução como uma vitória histórica,
que chegou mesmo a tempo para uma fotografia eleitoral para a cimeira do G-8 na
Geórgia.
Com as leis de Bremer no limbo, os ministros iraquianos falavam já
abertamente em anular os contratos assinados pelo APS. O plano de
empréstimos do Citigroup fora rejeitado por ser um uso indevido dos
rendimentos petrolíferos do Iraque. O ministro das
Comunicações do Iraque está a ameaçar renegociar os
contratos com as três empresas de comunicação que prestam
ao país o seu pobre serviço de telefones celulares. E as
empresas libanesas e norte-americanas que tomaram posse da rede televisiva
estatal, foram informadas de que poderiam perder as suas licenças por
não serem iraquianas. "Vamos ver se conseguimos mudar de
contrato", disse, em Maio, Hamid al-Kifaey, porta-voz do Concelho de
Governo. "Não têm a mais pequena ideia sobre o que é
o Iraque". Para a maioria dos investidores, esta falta total de certeza
legal torna o Iraque demasiado arriscado.
Apesar de a resistência iraquiana ter assustado a primeira onda de
salteadores corporativos, restam poucas dúvidas de que vão
voltar. Seja qual for o próximo governo iraquiano nacionalista,
islâmico ou liberal herdará uma esmagadora dívida de
120 mil milhões de dólares. Então, como em todos os
países pobres do mundo, homens do FMI de fato azul escuro
aparecerão à porta, com empréstimos e promessas de
boom
económico, se se cumprirem certos ajustes estruturais que, claro,
serão um pouco dolorosos ao principio mas valerão o
sacrifício no final. De facto, este processo já começou:
o FMI está para aprovar empréstimos de 2000 a 2500 milhões
de dólares, segundo o acordo sobre as condições. Depois
de uma sucessiva e corajosa resistência e da perda de tantas vidas, o
Iraque converter-se-á numa nação tão pobre como
qualquer outra, com políticos determinados a introduzir políticas
rejeitadas pela vasta maioria da população, e todos os
compromissos viciosos que isso implica. Não há dúvida de
que o mercado livre chegará ao Iraque, mas o sonho neoconservador de
transformar o país numa utopia do livre mercado já morreu,
vítima de um sonho ainda maior, um segundo mandato de George W. Bush.
A grande ironia histórica da catástrofe que ocorreu no Iraque
é que as reformas da terapia de choque que se supunha que produziriam um
boom
económico que reconstruiria o país, activaram uma
resistência que tornou a reconstrução impossível.
As reformas de Bremer desencadearam forças que os neoconservadores
não haviam previsto nem poderiam esperar controlar, desde
rebeliões armadas dentro das fábricas até milhares de
jovens desempregados a pegarem em armas. Estas forças transformaram o
Ano Zero do Iraque no oposto ao que os neoconservadores ansiavam: não
numa utopia corporativa, mas numa macabra distopia, onde ir a uma simples
reunião de negócios pode fazer com que acabes linchado, queimado
vivo ou decapitado. Estes perigos são tão grandes que o
capitalismo global retirou-se do Iraque, pelo menos por agora.
Para os neoconservadores este deve ter sido um desfecho chocante: a sua
crença ideológica na cobiça tornou-se mais forte que a
própria cobiça.
O Iraque foi para os neoconservadores aquilo que o Afeganistão foi para
os Talibãs: o único lugar na terra onde eles podiam
forçar os outros a viver segundo a interpretação mais
literal e estéril dos seus textos sagrados. Pensar-se-ia que os
resultados sangrentos desta experiência poderiam levar a uma crise de
fé: no país onde eles reinaram absolutamente livres, onde
já não havia governo local para os culpar, onde as reformas
económicas foram introduzidas com o máximo impacto e com a maior
perfeição criaram, ao invés de um modelo de mercado livre,
um Estado falido em que nenhum investidor sensato poderia investir. E os
neoconservadores da Zona Verde e os seus mestres em Washington estão
tão dispostos a reexaminar o núcleo das suas crenças
quanto os talibãs mullah a reverem as suas almas, quando o seu Estado
islâmico se converteu num depravado Hades de ópio e
escravidão sexual. Quando os factos ameaçam os verdadeiros
crentes, eles simplesmente fecham os olhos e oram mais alto.
Foi precisamente o que fez Thomas Foley. O ex-cabecilha do desenvolvimento do
sector privado deixou o Iraque e aceitou outro trabalho: presidente do
comité de reeleição de George Bush em Connecticut.
A 30 de Abril Foley falou a uma multidão de empresários em
Washington acerca das perspectivas de negócio em Bagdad. Era um dia
bastante duro para pronunciar um discurso optimista: naquela manhã
haviam aparecido as primeiras fotografias de Abu Ghraib, incluindo a do
prisioneiro encarapuçado com cabos eléctricos atados às
mãos. Era outro tipo de terapia de choque, muito mais rigorosa do que a
que Foley ajudara a administrar, mas não totalmente desconectada.
"Seja o que for que estejam a ver, nada é tão mau como
parece", disse Foley à multidão. "Têm que
aceitar isto com fé".
_________
[*]
Autora de
No Logo
e produtora do filme
La Toma,
documentário sobre as fábricas ocupadas na Argentina.
Tradução de Joana Neves.
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