por Miguel Urbano Rodrigues
Sob o desgoverno de José Maria Aznar a Espanha galopou muito para a
direita. A imagem que projecta é a do estado mais reaccionário
da Europa.
Como aliada dos EUA desempenhou um papel indecoroso nos meses que precederam a
agressão ao Iraque. Aznar gostaria de ter cumprido na guerra tarefas
importantes como o seu amigo Blair. Mas as forças armadas espanholas
não dispõem, ai dele, dos meios, da capacidade e da tecnologia
das britânicas. Entretanto, logo após a ocupação,
não somente enviou 1300 soldados para o Iraque, como andou pela
América Central em missão de Bush, promovendo a
formação de um contingente de tropas de países da
Região. Essa pobre gente, jogada no caldeirão iraquiano, lembra
mais um exército de opereta que uma força de combate. Alguns
hondurenhos já deixaram os ossos na Mesopotamia, sem perceber porque
morreram.
Os povos da Espanha começaram, alias, a pagar a factura da
política de total submissão do governo Aznar ao sistema de poder
dos EUA. A retirada do pessoal da Embaixada em Bagdad e as primeiras mortes de
espanhóis abatidos pela Resistência entre os quais sete
agentes secretos despontam como prólogo de um desastre de
grandes proporções.
ASSALTO À AMÉRICA LATINA
O assalto do capital financeiro espanhol à América Latina assume
uma feição avassaladora.
Em alguns países do Hemisfério os investimentos espanhóis
ocupam já o primeiro lugar, ultrapassando o total dos estadunidenses.
Não sem ironia, a revista
Newsweek
, num artigo de capa intitulado o Regresso de Cortez, chamou há dois
anos a atenção para essa invasão de novo tipo e para a sua
agressividade.
A Telefónica, Repsol e dois grandes bancos, o Santander e o Bilbao e
Bizcaya tentam cobrir com os seus tentáculos o mundo latino-americano.
Newsweek
enunciou uma verdade ao alertar os leitores para uma situação
pouco conhecida: o capital financeiro vindo da Espanha opera no Continente
com mais crueldade do que a maioria das empresas norte-americanas. No Brasil
a aquisição pelo Santander do Banco do Estado de São
Paulo (Banespa) concretizou-se em circunstancias anómalas. A negociata
e os seus desdobramentos desencadearam um escândalo maiúsculo.
Despedimentos maciços provocaram protestos e greves. Os
bancários brasileiros definem os métodos de gestão
introduzidos, tal como aconteceu nas empresas adquiridas pela
Telefónica, como típicos do capitalismo selvagem .
Seria uma ingenuidade atribuir exclusivamente a Aznar a responsabilidade pela
entrada torrencial na América Latina das transnacionais espanholas. O
capitalismo é um sistema que utiliza os homens de que precisa consoante
as circunstancias.
A invasão do capital espanhol principiou durante o governo de Felipe
Gonzalez, do PSOE, na realidade um social democrata convertido ao
neoliberalismo.
Alias, foi já com Aznar no Poder que Felipe Gonzalez enviou ao seu
amigo De La Rua, como assessor económico, Carlos Solchaga, antigo
ministro da Industria do PSOE. Como era de esperar, o conselheiro e o
presidente entenderam se às mil maravilhas. São vinho da mesma
pipa. O resultado da política de La Rua (mantendo a de Menem) é
conhecido: a quase bancarrota que precipitou a Argentina na maior crise da
sua história.
A presença de Kirchner na Casa Rosada suscitou apreensões em
Madrid. As transnacionais instaladas na Argentina temem que os seus
privilégios venham a ser afectados pela política do actual
presidente.
A recente visita do rei de Espanha à grande republica do Prata foi
um reflexo indirecto desses temores. A viagem suscitou, aliás, uma onda
de comentários contraditórios. Juan Carlos de Bourbon tem
cultivado a imagem de um monarca democrático, desprovido de
ambições. Mas é transparente que o rei mantém as
melhores relações com personalidades representativas do grande
capital.
Nesta viagem à Argentina, abrindo uma excepção, levou na
bagagem, como amigo pessoal, Francisco Luzon, o braço direito do homem
forte do Santander. O chefe do gigante bancário não pôde
seguir na comitiva porque contra a filha, Patrícia, directora
internacional do grupo, foi emitido em Buenos Aires um mandado de captura.
PORTUGAL: O OBJECTIVO OCULTO
Em Portugal, a invasão do capital espanhol apresenta facetas ainda mais
preocupantes do que na América Latina.
Estamos perante uma ofensiva global que é simultaneamente financeira,
comercial e cultural, produzindo efeitos em quase todos os sectores da vida
nacional. Inseparável de uma estratégia com objectivos
políticos inconfessáveis, configura uma grave ameaça
à própria identidade portuguesa.
A penetração do capital financeiro é acompanhada de
investimentos maciços em áreas tão diversificadas como a
industria, o comércio, os espaços urbanos, a agricultura, o
turismo, a comunicação social. Não escapam a essa
invasão nem as profissões liberais, sequer os lazeres.
Na ultima década, a Espanha tornou-se o primeiro parceiro comercial de
Portugal
[1]
. Quase deixamos de comer a fruta portuguesa substituída
pela que vem do pais vizinho. Até o pão e os gelados
espanhóis invadem os supermercados. Utilizando as portas abertas
pelos mecanismos da União Europeia, a inundação espanhola
mistura a comida com o vestuário, os electrodomésticos com a
compra em Lisboa e no Porto de quarteirões inteiros. A Durão
Barroso, agora, fascina-o o projecto de enviar portugueses doentes para
hospitais espanhóis. Este primeiro ministro vassalo contempla Madrid
como sede imperial com a devoção dos vice-reis do México
e do Peru na época dos monarcas da Casa de Áustria.
No Minho como no Alentejo, Portugal recua. A aquisição de
terrenos na zona de Alqueva avança num ritmo que justifica o temor de
que a barragem, em vez de cumprir a sua função social, seja
transformada num grande lago turístico de cores espanholas.
O processo de capitulação vem de longe. Intensificou-se durante
o governo de Guterres. Durão Barroso, com impudor, amplia as
cedências e oferece a Aznar instrumentos que permitirão à
Espanha criar condições ideais para transformar a hegemonia
económica em dominação política.
A incapacidade de defender os interesses nacionais, mesmo no âmbito das
engrenagens da UE ao contrario do que fizeram e fazem ,por exemplo ,a
Suécia, a Dinamarca, a Finlândia, a Grécia e a
própria Espanha manifesta-se de modo permanente no diálogo
com Madrid. Os espanhóis põem e dispõem no tocante
às pescas, aos rios da fronteira, às grandes questões
ambientais. O acordo da Figueira da Foz para a criação do
chamado mercado ibérico da energia eléctrica oferece-nos o
retrato de uma política de submissão neocolonial.
Para onde caminha Portugal com tal política? Ironicamente, a imprensa
madrilena já afirma que Portugal é a província da Espanha
que provoca menos dores de cabeça ao governo de Aznar.
NÃO SOMOS ESPANHÓIS
Na atmosfera apodrecida em que se movem os partidos da trilogia neoliberal
PSD, PS e PP a progressiva colonização de Portugal
pelo capital espanhol não suscita, obviamente, apreensões.
Ministros e deputados dessa direita orgulhosamente europeizada em que
alguns exibem mascara socialista, acham que tudo se faz no âmbito de
regras comunitárias, dentro do mais rigoroso respeito pelo ordenamento
jurídico e institucional da UE.
Uma minoria aspira mesmo a que a integração luso-espanhola seja
levada mais longe, no terreno político. Até onde? Ainda
não ousam dizê-lo abertamente, mas em rodas de amigos não
falta quem desengavete as bolorentas teses do iberismo, admitindo como
inevitável e benéfico o desaparecimento de Portugal como estado
plenamente soberano.
Comunista, sou internacionalista. Mas não esqueço que o
universal nasce do particular. Sinto-me português, e como
português alentejano. Foi a luta pela libertação do meu
povo que fez de mim um revolucionário marxista e não o inverso.
A crise global de civilização que atravessamos confirma quase a
cada dia que o combate por um mundo diferente contra o monstruoso sistema de
dominação imperial que ameaça a humanidade passa pela
resistência dos povos. A Revolução Francesa não
teria triunfado sem o profundo sentido do nacional que mobilizou o povo
francês contra a invasão estrangeira. A Revolução
cubana não teria podido avançar e sobreviver sem a
consciência da cubanidade de um povo que recusa ser outra vez
neocolonia dos EUA. No Iraque e no Afeganistão, hoje, noutro contexto
histórico, são, afinal, o mesmo apego a heranças culturais
acumuladas e a vontade colectiva de construir o futuro a partir de
valores próprios, rejeitando tutelas impostas por invasores, que
explicam a Resistência e mobilizam os povos desses países contra
os ocupantes estrangeiros.
O sentido do nacional a que me refiro é incompatível com o
nacionalismo reaccionário fascista que conhecemos durante o consulado
de Salazar, cujo miolo ideológico está presente no discurso da
actual extrema direita portuguesa. O primeiro é humanista e fraterno;
o segundo agressivo, hegemonista, classista.
Quero deixar transparente que não confundo o povo espanhol com os
políticos de Madrid e as transnacionais que emergem como
responsáveis pela ofensiva envolvente que configura uma
ameaça à identidade portuguesa.
Tenho uma bisavó andaluza e na juventude a minha formação
cultural foi muito influenciada pelos grandes escritores e artistas do
Século de Ouro Espanhol. O Quixote continua a ser para mim um livro de
cabeceira.
O meu amor pelo mundo latino-americano é indissociável de uma
grande intimidade com a historia da Espanha no Novo Mundo, uma história
dolorosa na qual o trágico e o épico formam um todo
inextricável.
A direita portuguesa, aliada e cúmplice da madrilena, faz alarde da sua
indignação quando, em defesa dos interesses nacionais e da
própria identidade, se levantam vozes de alerta para a
colonização do país pelo capital espanhol. Qualquer
crítica a esse processo de penetração económica,
recebe, pasme-se, o rotulo de reaccionária.
Alguns epígonos do sistema chegam ao cúmulo de achar inoportunas
e de mau gosto referencias a Aljubarrota e desejariam a supressão do
feriado do 1 de Dezembro (e se possível o do 25 de Abril).
Esse berreiro não me impressiona minimamente. Como marxista não
sinto inibição em lembrar que a classe dominante espanhola, essa
sim anacrónica, fiel ao saudosismo imperial, não somente teima
em enaltecer como feitos gloriosos matanças como o genocídio de
Tenochtitlán, no México, como sente secreta
frustração pela existência de Portugal como estado
soberano.
Recordo que, no sexto centenário da Revolução de 1383, o
general Vasco Gonçalves escreveu sobre Aljubarrota, num Suplemento de
0 diário,
o mais importante e belo artigo que conheço sobre o tema.
Tal como esse grande português do século XX, penso que a grande
lição de Aljubarrota não perdeu actualidade.
Hoje, obviamente, é inimaginável um conflito militar com a
Espanha.
O que significa, então, Aljubarrota, compreendida nos novos tempos?
Em primeiro lugar que Portugal (e também o Brasil) existe tal como
é porque o povo português Resistiu, porque decidiu seguir um
caminho próprio, recusando a integração em Castela. As
grandes viagens marítimas dos portugueses a mais bela
contribuição do meu povo para o progresso da Humanidade
foram uma consequência indirecta da Revolução de 1383-85.
Em segundo lugar, o levantamento nacional teve êxito porque a
traição da nobreza (a cavalaria pesada portuguesa aderiu
maciçamente a D. João de Castela) exigiu a criação
de um exército improvisado, saído do povo.
Bolívar odiado e caluniado pelas oligarquias crioulas
afirmava que o Exército Libertador era o povo em armas. Essa sua
concepção do que deve ser um exército democrático
é, alias, hoje reassumida na América Latina por milhões
de jovens.
Tal como Vasco Gonçalves, sinto orgulho pelo desenvolvimento de uma
revolução em que o povo português tomou armas para garantir
o seu direito à independência.
Não é pelas armas que nos cabe hoje defender a identidade
portuguesa. São outros os tempos e diferentes, na Europa, as formas de
luta contra as tentativas de dominação estrangeira.
Mas o exemplo de firmeza, coerência, coragem e lucidez dos nossos
compatriotas que há seis séculos tornaram possível a
vitória de uma grande revolução democrática e
nacional pode e deve ser um estímulo na luta contra a ameaça
à soberania nacional que acompanha a progressiva
colonização do pais pelo capital espanhol.
Aquilo que não conseguiu pela força das armas, tenta a Espanha
de Aznar e das transnacionais obtê-lo agora pelo poder do dinheiro.
A Resistência a esse projecto imperial anuncia-se como um dos maiores
desafios que o povo de Portugal enfrenta neste início do século
XXI.
Lisboa, 3 de Dezembro de 2003.
________
[1]
Actualmente, Portugal é o quinto parceiro comercial da Espanha. As
exportações daquele país para Portugal excedem em valor a
soma de todas as suas exportações para a América Latina
(in revista
Visão,
13-19 Nov.pp, 2003)
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