por Miguel Urbano Rodrigues
O ano 2004 encontra a humanidade colocada perante a alternativa sintetizada,
noutro contexto histórico, por Rosa Luxemburgo: Socialismo ou
Barbárie.
Não temos a menor idéia dos contornos que poderia assumir o
socialismo do futuro. Mas a evolução da crise de
civilização a maior da história - fecha as
saídas. Ou caminhamos para o abismo ou criamos condições
para aprofundar a crise do capitalismo, inviabilizando a sua continuidade.
Sou otimista. Precisamente porque a humanidade, embora lentamente,
começa a perceber que a sua sobrevivência é posta em causa
por um sistema de poder monstruoso, acredito que o grande desafio da nossa
época terá um desfecho positivo. A irracionalidade do sistema na
sua forma última de capitalismo imperial de dominação
planetária tende a acionar mecanismos cuja ação interna e
externa, complementares, contribuirá para apressar a sua implosão.
Tomar consciência de que o projeto de sociedade robotizada que nos querem
impor é tão medonho como o do III Reich é premissa da
dinamização da luta em escala universal. Nesse sentido, os povos
do Iraque e do Afeganistão, recusando a ocupação, abalam
os alicerces da doutrina das guerras preventivas, emperram o funcionamento da
engrenagem militar e iluminam o ventre da crise do sistema. Ao demonstrarem que
é possível resistir nas circunstâncias mais adversas,
apontam um rumo à humanidade.
Sendo hoje estrutural a crise do capitalismo nos EUA - como demonstra
István Mészaros -, ela vai agravar-se, o que
reforçará a agressividade do sistema de poder imperial. Cabe
às forças progressistas contribuir para que, dialeticamente, a
resistência se amplie também, diversificando-se. A grande
maré de condenação das guerras e de solidariedade com as
suas vítimas não deve ter refluxo. Mantê-la num
nível sempre alto é exigência numa luta cuja
globalização aparece como réplica à imposta pelo
inimigo.
A solidariedade aos povos que resistem e os da Palestina aparecem na
linha de frente ao lado dos do Iraque e do Afeganistão
manifesta-se de maneira muito diferente nos países industrializados,
cujos governos são cúmplices do sistema de poder imperial (em
alguns casos, como os da Inglaterra, Espanha e Itália, sócios na
agressão), e nos países do Terceiro Mundo.
É minha convicção que na América Latina o choque
entre os povos e o pólo imperial vai se intensificar. A vulnerabilidade
do sistema será mais transparente. Contribuirão para isso o
aprofundamento da crise estrutural do capitalismo nos EUA (gigantescos
déficits fiscais, da conta corrente, da balança comercial,
desvalorização do dólar, refluxo de capitais estrangeiros
etc.), a condenação crescente das guerras na Ásia e o
avolumar de tensões com a União Européia.
O inevitável esforço de Washington para impor a ALCA em 2005
provocará a correspondente reação dos povos contra o
projeto de recolonização imperial. Seria pura
especulação prever que políticas, num ano eleitoral,
desenvolverá a atual administração estadunidense
relativamente à Venezuela e à Colômbia. A perigosa
tentação da intervenção direta no último
desses países será contrariada pelo temor de um fracasso militar
cujas conseqüências seriam devastadoras para Washington.
Mas tudo indica que as dificuldades crescentes enfrentadas pelo sistema de
dominação imperial em todo o mundo funcionarão como um
estímulo ao projeto bolivariano que Chávez, acossado por uma
oposição feroz e golpista, procura, numa conjuntura muito
difícil, levar adiante.
Simultaneamente, na vizinha Colômbia, o sonho de Uribe Vélez
um representante das oligarquias mais anacrônicas do
Hemisfério - desfez-se no confronto com a realidade. As FARC hoje
um exército de 18.000 homens que combate em 60 frentes - resistiram a
todas as ofensivas que visavam aniquilá-las. O discurso que apresentava
a destruição da insurgência guerrilheira pelas armas,
repetindo o dos generais do Pentágono no Vietnã, foi
desmoralizado no terreno.
À demonstração de que a resistência pelas armas
é ainda possível em circunstâncias históricas e
geográficas muito específicas, soma-se a certeza de que a
intervenção das massas no processo político poderá
pesar decisivamente no choque entre a América Latina e o sistema de
poder imperial dos EUA.
Não cabe neste breve texto esboçar, mesmo sumariamente, as formas
que a resistência tende a assumir nos países a Sul do rio Bravo.
Mas os acontecimentos da Bolívia chamaram a atenção para
uma evidência. A teimosa insistência imperial estadunidense em
impor políticas neoliberais conduzirá a fracassos em cadeia. A
capitulação de governos eleitos com o apoio de grandes maiorias
poderá, como aconteceu no Equador, com Lúcio Gutierrez, gerar
ilusões. Mas a derrota final espera essas manobras num Continente onde
os povos têm uma sede insaciável de participar na
construção do seu futuro.
É neste caldeirão efervescente que o povo brasileiro será
confrontado em 2004 com a necessidade de opções
inadiáveis. O discurso oficial do governo não consegue já
ocultar o malogro de uma estratégia que, invocando a necessidade de
pôr a casa em ordem e evitar o descalabro econômico e financeiro,
foi gradualmente cimentada em concessões inaceitáveis ao
imperialismo. Um banqueiro estadunidense mascarado de brasileiro à
frente do Banco Central e políticos como Palocci, Furlan e outros
assessorados por uma corte de oportunistas trataram de garantir a continuidade
de uma estratégia neoliberal, enquanto prometiam para o imediato a
política social que era o cerne do compromisso de Lula. O PT apodrece
visivelmente.
0 Brasil, cujo leme é controlado por políticos que rumam contra o
sentido da história, terá, assim o espero, que assumir no
Continente o papel insubstituível para o qual está vocacionado.
Não há discurso tático que possa justificar, na crise de
civilização contemporânea, políticas de
transição que servem aos objetivos de uma estratégia que
encaminha a humanidade para o abismo.
Resistir, com a cabeça fria, com prudência, mas com firmeza e
lucidez, é um dever para os povos da América Latina, tão
diretamente ameaçados. Cada qual de acordo com a sua
situação específica. Cuba, por exemplo, resiste
heroicamente há 45 anos. A coragem demonstrada, num contexto de
tragédia, pelos povos do Iraque, do Afeganistão e da Palestina
lembra-nos de que o inimigo é mais vulnerável do que parece e
que, cedo ou tarde, todos os povos terão de intervir na batalha, em
defesa da sua própria sobrevivência.
O original encontra-se em
http://www.correiocidadania.com.br/
, ed. 378, 04-11/Jan/2004.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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