por Miguel Urbano Rodrigues
A prisão em Quito, no Equador do comandante Simón Trinidad, das
Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia-Exército do Povo
desencadeou a nível mundial uma estranha campanha mediática de
desinformação.
O tom triunfalista das notas oficiais emitidas em Bogotá e o seu
conteúdo têm por objectivo prioritário confundir a
opinião publica internacional.
As contradições existentes entre versões divulgadas em
Bogotá, Washington e Quito sobre a captura do destacado
revolucionário são transparentes.
Enquanto o governo de Lucio Gutierrez se apressava a reivindicar o
«mérito» da prisão, as forças armadas e os
serviços de inteligência colombianos apresentavam-na como o
desfecho de uma operação conjunta, preparada com larga
antecedência. Simultaneamente em Washington transpiravam
informações sobre a importância do papel desempenhado pela
CIA
Nesse festival noticioso recheado de inverdades e comentários
especulativos existe um denominador comum: nas três capitais as
autoridades tentam desviar a atenção de um aspecto fundamental
do assunto: a prisão de Simón Trinidad e a sua imediata
extradição vieram iluminar a rede de cumplicidades
estabelecida entre Quito, Bogotá e Washington. A entrega do comandante
das FARC às autoridades colombianas configura um acto de
traição de um dirigente político levado à
Presidência pelas forças progressistas do seu país.
UM CAMALEÃO
A vida permitiu-me conhecer as duas personagens de um acontecimento que,
transcendendo largamente o quadro regional, emocionou milhões de latino
americanos suscitando a sua indignação. Tive a oportunidade de
encontrar, em lugares e situações diferentes, Simón
Trinidad e Lucio Gutierrez.
Foi em San Salvador, em Julho de 2001, durante a I Conferencia Internacional de
Solidariedade com a Colômbia que conheci o actual presidente do Equador.
Ele integrava a delegação do seu pais e teve um papel destacado
no evento. Na sessão de abertura pronunciou de improviso um emocionado
discurso. No Plano Colômbia identificou uma ameaça global
à América Latina, e estabeleceu pontes entre ele e o projecto da
ALCA. Numa intervenção mais elaborada, expressou, no dia
seguinte, a sua firme solidariedade com a luta das organizações
guerrilheiras, nomeadamente com as FARC.
Estávamos alojados no mesmo hotel e, após o encerramento,
falámos, noite adiante, durante horas. Eu admirava Lúcio
Gutierrez. Fora o líder do punhado de militares que aderira à
insurreição indígena que derrubara o presidente Mahuad.
O movimento revolucionário conseguira ocupar o palácio da
Presidência após a marcha sobre a capital e detivera as
insígnias do Poder por algumas horas.
Gutierrez, no diálogo que mantivemos, evocou com pormenores as
circunstancias em que, enganado pelo chefe do Exército, permitira que
militares ao serviço do imperialismo retomassem o controlo da
situação. Preso posteriormente, os trabalhadores e a
Confederação Nacional dos Indígenas do Equador (CONAIE)
fizeram dele quase um herói popular. Recordo a sua veemência ao
dizer-me que nunca mais voltaria a ser ingénuo e que a sua vida de
soldado seria posta ao serviço do povo da sua terra, pátria de
Espejo. A conversa entrou pela madrugada e dela participaram um dirigente do
Partido da Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional,
principal organizadora da Conferencia, e revolucionários de Porto Rico.
Não esqueci que o jovem coronel manifestou a sua
admiração pelo MFA. Eu representara o PCP na Conferencia e
falou-se inclusive da possibilidade da edição em Portugal de um
trabalho que ele então preparava sobre a insurreição
indígena equatoriana.
Transcorrido algum tempo, o prestigio de Lúcio cresceu. Foi o candidato
das massas oprimidas e a sua eleição em 2002 não
surpreendeu. Entrou no Palácio com o apoio maciço do povo. A
sua imagem era a de um oficial progressista cujo discurso anti-neoliberal
tinha matizes revolucionários. Um vendaval de esperança correu
pelos vales da Cordilheira, descendo às quentes planuras da costa.
Para a maioria dos equatorianos as portas de uma nova era estavam prestes a
abrir-se.
Pura ilusão. A guinada foi imediata. Lucio Gutierrez capitulou antes
mesmo de tomar posse. Voltou da primeira visita a Bush domado e comprado pelo
imperialismo. Engavetou os compromissos assumidos e cedeu a todas as
exigências de Washington.
Novas ilusões surgiram, entretanto, porque do governo formado
participavam algumas personalidades progressistas, incluindo a ministra dos
Negócios Estrangeiros, uma índia quechua. Mas a política
que desenvolveu, de ostensiva orientação neoliberal, foi
praticamente desde o inicio a imposta pelo Departamento de Estado. A
dolarização manteve-se, a Base de Manta continuou a funcionar
como um autentico enclave norte-americano e as relações com o
governo fascizante de Álvaro Uribe assumiram um caracter de intimidade
chocante. Em reuniões internacionais Lucio Gutierrez passou a
comportar-se como um porta voz das posições de Washington,
apoiando o Plano Colômbia, a ALCA e a política de
intervenção naquele pais.
Poucas vezes terá ocorrido no Continente uma metamorfose tão
rápida de um chefe de Estado. Os indígenas, que nele haviam
confiado, tomaram distância. Lucio aparece hoje como um presidente
títere, que renegou os ideais pelos quais se havia batido desde a
juventude. Os ministros progressistas saíram do governo, desiludidos.
A repressão contra os trabalhadores voltou às ruas como dura
realidade. O povo principiou a exigir a renuncia do Presidente. Semanas
atrás foi declarado traidor do povo equatoriano.
O inicio deste ano 2004 será recordado por um gesto de
abjecção política que somente tem precedentes em
atitudes de ditadores de republicas
bananeras.
O Presidente que há três anos erguia o punho, saudando as FARC
em Conferencias Internacionais, deu o seu aval à entrega ao fascismo
colombiano do comandante Simón Trinidad, preso em Quito pelos seus
esbirros.
O REVOLUCIONÁRIO
De Simón Trinidad eu tinha notícia muito antes de o encontrar
pela primeira vez.
Dele se pode dizer antes de mais que é um revolucionário
atípico, com uma trajectória incomum.
Oriundo de uma família tradicional, a passagem pelos EUA, onde se
doutorou na Universidade de Harvard, distanciou-o do sistema de
dominação imperial em vez de o integrar na engrenagem. Como
economista o êxito acompanhou-o permanentemente. Um dia desapareceu.
Desempenhava então funções de direcção num
grande banco. O
beautiful people
de Cundinamarca, Antioquia e do Valle não compreendeu como aquele
fascinante jovem executivo que a tudo podia aspirar, filho de um ganadero
riquíssimo do Departamento de César, rompia com a sua classe.
Não mais se falou em Bogotá do economista Ricardo Palmera; mas
não tardou que o nome de Simón Trinidad surgisse nas manchetes
como destacado comandante das FARC.
O seu nome já adquirira ressonância continental quando o conheci
em Los Pozos, na vila-acampamento erguida pelas FARC na zona
desmilitarizada, o lugar onde transcorriam as negociações da
organização revolucionaria com o governo de Andrés
Pastraña, representado por um alto comissário. Simón
integrava então o grupo das FARC, chefiado pelo comandante Raul Reyes,
que era o interlocutor do Poder.
Falamos durante escassos minutos. O suficiente para que aquele
brevíssimo encontro me deixasse uma impressão forte. Recordo que
Simón Trinidad, de uniforme, com uma metralhadora à tiracolo,
entrou de rompante no barracão onde eu estava para se sentar frente a
um computador e começar a escrever algo com uma rapidez incomum.
Trocamos poucas palavras quando o informaram que eu passava umas semanas com a
guerrilha, num acampamento, algures na selva.
Voltei a vê-lo, dias depois em San Vicente del Caguan, na sede das FARC,
instalada naquela cidade do Caquetá que para um forasteiro europeu
acordava reminiscências do velho Oeste norte-americano.
Mas a imagem mais nítida que guardo do combatente ora entregue por Lucio
Gutierrez à escória uribista é inseparável da
atmosfera que envolveu o almoço oferecido a 28 de Junho pelo
Secretariado das FARC aos embaixadores que acompanharam a entrega de
três centenas de prisioneiros à Cruz Vermelha Internacional, em
gesto unilateral de boa vontade da organização revolucionaria.
Naquele pequeno
pueblo
amazónico perdido nas solidões verdes do Meta, diplomatas da
Europa, da América e da Ásia haviam assistido à parada
militar das FARC que precedera o desfile dos prisioneiros.
Chovia torrencialmente, um daqueles dilúvios próprios das
regiões equatoriais. O almoço fora óptimo, mas o
cenário, o ambiente, os convivas, na clareira da selva projectavam-me
num universo extraterrestre. Sob o enorme toldo que fustigado pela
tempestade aquática, corriam uma infindável mesa e os bancos
que dela eram o complemento indispensável. Depois do café,
falava-se no terreiro que prolongava o «restaurante». Os
embaixadores rodeavam sobretudo Manuel Marulanda, Tiro Fijo, o comandante das
FARC cuja morte fora anunciada mais de vinte vezes por muitos presidentes para
de cada uma, depois, ressuscitar. Era de respeito, de
admiração a atitude de todos os estrangeiros ao dirigirem a
palavra ao legendário guerrilheiro, que rompera todos os cercos contra
ele ideados, que sobrevivera a todos os bombardeamentos, nos Andes, nas selvas,
nos
llanos.
Findava uma época em que Andres Pastraña aparecia na
televisão ao lado de Marulanda, colocando-lhe a mão no ombro,
saudando-o com cortesia.
Lembro-me também da atenção com que alguns embaixadores
escutavam o comandante Jorge Briceño,
el Mono Jojoy,
o estratega militar das FARC, pesadelo do Exercito colombiano ao qual infligiu
incontáveis derrotas.
Foi a ultima vez que encontrei Simón Trinidad. O revolucionário
que naqueles dias era abraçado por diplomatas vindos de mais de uma
dezena de países teve mais tarde, com outros camaradas, a
cabeça posta a prémio, a pedido do governo Bush. Por ela
ofereceram 800 mil dólares.
Um presidente camaleão e traidor acaba de o entregar ao presidente
fascista da Colômbia. Mas revolucionários com a têmpera de
Simón Trinidad estão sempre preparados para enfrentar qualquer
situação, por mais terrível que ela seja. Não
cedem.
Li na Internet que Lúcio Gutierrez telefonou a Uribe, contente,
considerando de "bom augúrio" a captura de Simón
Trinidad. Tão baixo descem os homens quando perdem os últimos
farrapos da dignidade.
Subiu-me hoje na memória um conselho que lhe dei quando me pediu a
opinião, em San Salvador, sobre o discurso que pronunciara na abertura
da solidariedade com a Colômbia insurgente.
Ele terminara gritando: «Viva o mundo!»
Por inexperiência não fora capaz de encontrar um fecho adequado.
Eu disse-lhe nessa noite:
«Não diga, coronel, Viva o Mundo! .O mundo é demasiado
vasto e fluido para o vitoriarmos. Nele cabe tudo, o que amamos e o que
detestamos, o que nos move na luta e o que desprezamos, os heróis e os
traidores».
Não foi sem emoção que na TV vi Simón Trinidad,
rodeado de policias, erguer as mãos algemadas, abrir os dedos no V da
vitoria e bradar: «Viva Simón Bolívar; viva a luta das
FARC-Exército do Povo».
São homens como ele que mantém acesa a esperança de um
mundo diferente daquele em que, encasteladas no Poder, existem criaturas como
Lucio, o camaleão, e Bush o seu patrão.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
.