por Miguel Urbano Rodrigues
O pedido de extradição dos comandantes das FARC, apresentado por
George Bush a Álvaro Uribe durante visita aos EUA do presidente da
Colômbia, surpreendeu os aliados mais dóceis de Washington.
O espanto é legitimo. Mais do que iniciativa política parece
episódio de uma farsa.
Um chefe de estado estrangeiro pedir a um colega a extradição,
para serem submetidos à justiça do seu pais, dos comandantes da
mais legendaria guerrilha da América Latina é atitude sem
precedentes. Não menos surpreendente foi a prontidão da resposta.
O sim foi imediato. Veio do presidente visitante, do seu superministro
Londoño, das Forças Armadas Colombianas. O poder judicial no
momento em que escrevo, ainda não se tinha pronunciado. O que
não tem a menor importância.
Faltou somente o agradecimento de Uribe a Bush.
As facetas sensacionalistas desta estória ocultam mal os entendimentos
que precederam a esdrúxula iniciativa bushiana. Na realidade tudo fora
discutido em pormenor entre as partes, com muita antecedência e em
atmosfera de fraternidade. Aliás, Bush pediu aquilo que Uribe lhe
implorara que pedisse...
A ESCALADA FASCISTIZANTE
Voltemos um pouco atrás.
Uribe teve um início de mandato muito ruidoso. No momento em que tomava
posse
do cargo, em Agosto, quando cingia a faixa, rodeado de chefes de Estado e
primeiro ministros, protegido por um dispositivo de segurança de 20 mil
homens, o palácio presidencial foi bombardeado assim como outros
edifícios públicos de Bogotá.
As suas primeiras medidas esburacaram mais a desconjuntada fachada
institucional do Estado colombiano. Na pratica o país vive desde
então sob estado de sítio (o nome é outro) e os decretos
fascistizantes, atentatórios das liberdades e direitos constitucionais,
sucederam-se. Um corpo especial de bufos passou a colaborar com as
Forças Armadas e a policia política. São centenas de
milhares de informadores remunerados e armados pelo governo. Nem na Alemanha
de Hitler a delação foi organizada e financiada com tamanha
minúcia e amplitude.
O discurso oficial que prometia rápidas e decisivas vitórias
contra a insurgência, esse, não foi, porem, confirmado pelos
factos.
O Exército o mais numeroso e bem armado da América Latina
não conseguiu alcançar os êxitos anunciados pelos
novos generais nomeados por Uribe. Os comunicados oficiais anunciam todas as
semanas grandes vitorias. Mas o próprio «El Tiempo», o
grande diário da oligarquia, mostra-se céptico quanto a esses
triunfos imaginários. As FARC-EP estão activíssimas na
maioria das 70 frentes de combate que em três Blocos agrupam
aproximadamente 18 mil guerrilheiros.
Uribe deu continuidade a uma iniciativa de Pastraña. A cabeça
dos principais comandantes guerrilheiros, posta a prémio, vale agora
mais dinheiro. No conjunto são muitos milhões de dólares.
Por Manuel Marulanda, «el Tiro Fijo» um herói da
América Latina o governo pagaria uma fortuna.
O resultado pratico dessa iniciativa e do trabalho dos
"sapos"
(bufos) foi nulo: nem um só dirigente das FARC caiu nas mãos
de Uribe.
Enquanto a ofensiva militar contra as guerrilhas prosseguia com muito estrondo
e nenhum proveito, uma manobra ambiciosa desenvolvia-se paralelamente nos
bastidores.
O protagonista foi, inicialmente, Carlos Castaño, o fundador das
Autodefesas Unidas da Colômbia, eufemismo pelo qual se designam os bandos
paramilitares, responsáveis pelo assassínio de dezenas de
milhares de pessoas, sobretudo camponeses. No âmbito da disputa do poder
dentro do paramilitarismo, Castaño, cuja carreira se fez no bojo do
narcotráfico, voltara às manchetes por acusar publicamente
alguns dos seus cumpinchas de envolvimento em negócios da droga .
Quando esse estranho processo de purificação começou a
desencadear manifestações de solidariedade vindas das grandes
famílias, o Procurador Geral da Justiça dos EUA, John Ashcroft,
dirigiu-se ao governo de Bogotá.
Produziu-se então o golpe de teatro. Castaño longe de expressar
indignação, declarou-se disponível para se entregar
à Justiça dos EUA e responder ali às
acusações que o visam.
Uribe aplaudiu. Significativamente, nem o Procurador da Republica nem o
Supremo Tribunal levantaram objecções, ao contrário do que
acontecera em oportunidades similares quando exigiram que narcotraficantes
cujas extradições haviam sido solicitadas fossem julgados,
primeiro, pela Justiça colombiana.
Castaño, aliás, nunca foi incomodado pelo Exército.
Aparecia em público com frequência, viajava para o Panamá,
recebia elogios de deputados e senadores, e um ex-candidato à
Presidência da Republica, o general Bedoya expressou o seu apreço
pessoal por ele.
Essa atitude é compreensível. O chefe do paramilitarismo foi, em
determinado momento, segundo Juan Escobar, da
Agencia de Notícias Nova Colômbia
, «a invenção perfeita
do Estado Colombiano, que o construiu e apresentou como um símbolo da
luta contrainsurreccional».
O paramilitarismo nasceu nos quartéis. É um filho espúrio
do Exército e parte da política de Estado colombiana .
O segundo acto desta farsa dramática principiou quando Castaño,
em declarações a uma grande cadeia de televisão, a RCN,
apresentou três condições para se entregar à
Justiça dos EUA. Uma delas, a única relevante, surpreendeu um
povo habituado receber com serenidade as atitudes mais absurdas: o criador
das AUC exigiu que Washington solicitasse oficialmente a
extradição dos comandantes das Forças Armadas
Revolucionárias da Colômbia-Exército do Povo, FARC-EP.
Caso contrário, nada feito. Sem a contrapartida por ele exigida,
considerar-se-ia «vendido». Assim falou. E a sugestão foi
apoiada pelo Governo.
A cena seguinte foi dominada pela voz poderosa de Bush. O presidente
norte-americano, lépido, deu instruções ao Procurador
Ashcroft, que logo reclamou de Bogotá a extradição dos
comandantes das FARC-EP.
A esse nível desceu o exercício da Presidência na Casa por
onde passaram Jefferson e Lincoln.
O JOGO DE CASTAÑO
Segundo a ANNCOL, o próximo capítulo seria de previsão
fácil: «o Sr Castaño viajará, apresentar-se-á
directamente perante um tribunal norte-americano se bem que nenhuma autoridade
colombiana o verá sair de qualquer aeroporto do pais, fará uma
«negociação» supremamente rápida com as
autoridades gringas, delatando certamente alguns dos seus sócios no
narcotráfico para dar melhor apresentação à coisa.
Obviamente não será obrigado a pagar nem um só dia de
cárcere naquele pais e ficará livre, gozando, além disso,
ele e a sua família da protecção do FBI, desfrutando a sua
volumosa fortuna».
O acordo prévio entre os actores que montaram todo este
espectáculo é tão transparente e chocante que até
o conspícuo «El Tiempo», instituição
centenária da oligarquia, achou indispensável dedicar ao assunto
um labiríntico editorial (25 de Set. pp) do qual transcrevo algumas
perguntas:
«Por que decidem os EUA pedir a extradição da cúpula
paramilitar e por que escolheram a viagem de Uribe para anunciar o pedido? O
facto de o ministro de Estado, Fernando Londoño, ter sido o primeiro a
comunicar a decisão de Washington indicaria acordo prévio entre
ambos os governos? Pretende o chefe paramilitar salvar a pele delatando os
capos dos novos cartéis, ou é parte de uma jogada de alta
política a três bandas, que combina a narcotizada visão
estadunidense do problema colombiano com os motivos que possa ter o governo de
Uribe para se couraçar contra as acusações que lhe
fizeram até agora sem provas das suas
relações com o paramilitarismo».
ACONTECEU EM EL CHARCO
Enquanto Castaño, contra o qual foram emitidos 23 mandados de captura,
se dirigia, tranquilo, pela televisão, a 44 milhões de
colombianos, o povo de El Charco, no Departamento de Nariño, pegou em
armas (machados, revolveres e caçadeiras) e expulsou da pequena cidade
um bando de 200 paramilitares que, ante a passividade do Governo, ali se
mantinha há mais de um ano aterrorizando os moradores. O alcaide, para
salvar a cabeça, teve de fugir.
Que faziam ali?
Segundo um morador «entravam e saiam do município quando queriam.
Não pagavam a renda das casas onde se alojavam, comiam o que queriam e
onde queriam e abusavam sexualmente das moças da cidade».
Consumada a expulsão dos paramilitares, o general comandante da
Região, informado dos acontecimentos, decidiu enviar para El Charco um
pelotão de fuzileiros navais para «restabelecer a ordem na
zona».
Assim corre a vida nos «pueblos» onde os paramilitares de
Castaño irrompem para «defender as populações»
das guerrilhas
URIBE, O BOM HOMEM...
Ocupando-se desse e de outros temas, Álvaro Uribe pediu em Washington
mais umas centenas de milhões de dólares ao seu colega dos EUA,
mais armamento e, sobretudo a extradição dos comandantes das
FARC.
Bush fez promessas, muitas, e em comentário amplamente divulgado
sintetizou a magnífica impressão que lhe deixara o visitante:
«É necessário ajudar este bom homem».
Em poucas linhas os grandes jornais norte-americanos chamaram a
atenção para um pormenor que não ficou claro: como
se
concretizará a extradição dos comandantes das
FARC-EP?
Eles encontram-se nas montanhas e selvas da Colômbia lutando pela
liberdade e pela independência do seu povo. Aquilo que pelas armas
não conseguiram em 37 anos os governantes de Bogotá com a
ajuda de Washington não é obviamente concretizável
através de um mandato judicial norte-americano. Ousará o
presidente Bush levar a guerra também à Colômbia?
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info