Homenagem a Paul Sweezy (1910-2004)

por Julio Boltvinik

"O valor, a lucidez e a resoluta devoção à razão fazem da obra de Paul M. Sweezy um dos focos mais brilhantes da história intelectual dos Estados Unidos no pós-guerra".
Paul A. Baran, La economía política del crescimiento,
Fondo de Cultura Económica, México, 1956.


. La Jornada de anteontem publicou uma nota dos extraordinários correspondentes deste diário nos EUA, Jim Cason e David Brooks, pela qual nos inteiramos da morte de Paul M. Sweezy, aos 93 anos. O New York Times chamou-o, num obituário, "o mais importante intelectual marxista do país, título que poucos poderiam disputar. Os leitores de outros diários, e aqueles que não leem diários e se informam pelo rádio e a televisão, não souberam deste facto, que não é notícia para os media mercantilizados. É muito provável que a maioria dos leitores jovens de La Jornada não saibam quem foi Sweezy. Como nos recordam os correspondentes, foi autor de muitos livros, dentre eles, Teoria do desenvolvimento capitalista (Fondo de Cultura Económica, 1945; edição original em inglês, 1942; excelente tradução de Hernán Laborde) e fundador (junto com outro homem extraordinário, Leo Huberman) da Monthly Review , a mais importante revista marxista dos EUA que continua a ser publicada hoje em dia. Eles recordam um dado surpreendente: o artigo central do primeiro número da revista, "Por que o socialismo?" foi escrito por Albert Einstein. Também observam que Sweezy "ajudou a formar uma corrente analítica marxista independente e não alinhada".

Hoje quero recordar e prestar homenagem, com nostalgia e gratidão pela transformação intelectual que os seus livros produziram em mim e na minha geração, tanto Sweezy como Paul A. Baran em conjunto. Não só suas qualidades intelectuais os converteram em grandes e admiráveis como também a sua têmpera. Ser marxista nos EUA em meados do século passado era ser condenado ao ostracismo e, pior ainda na época do macartismo, à repressão aberta e ao cárcere. Enquanto Sweezy esteve na prisão devido ao macartismo, Baran sofreu o ostracismo na Universidade de Stanford, onde era o único professor marxista [1] . Como disse William Tabb em entrevista a Cason e Brooks, "nos anos 40 e 50 não havia marxistas na academia estadunidense" [2] . Tabb assinalou que "o labor de Sweezy e seus escritos educaram uma geração de economistas progressistas durante os anos 60, a guerra do Vietnam, a expansão do movimento das mulheres". Sem demasiado receio de me equivocar, creio que a obra conjunta de Sweezy, Baran e Huberman [3] educou também várias gerações de estudantes mexicanos, particularmente na Escola Nacional de Economia da UNAM.

Da vasta obra de Sweezy li com avidez, enquanto estudante, e reli depois como professor a fim de orientar meus alunos, sua Teoria do desenvolvimento capitalista , já citada, e Monopoly Capital: An Essay on the American Economic and Social Order [4] (O capital monopolista) , escrita em co-autoria com Paul A. Baran. O primeiro livro, publicado aos 31 anos, é um ensaio notável. Ao contrário dos manuais de economia política do marxismo ortodoxo, muitos presentes na formação de muitos marxistas latino-americanos, Sweezy problematiza a ideias básicas de Marx e examina com abertura o pensamento de outros autores. Inclui, por exemplo, dois apêndices, um tomado do livro de Hilferding sobre o capital financeiro, e outro escrito por Shigeto Tsuru, grande estudioso do marxismo, de origem japonesa, que compara os esquemas de reprodução de Quesnay, Marx e Keynes. Sweezy estava dotado de uma ferramenta indispensável para abordar o pensamento de Marx numa época em que as traduções da sua obra eram muito limitadas: o domínio do alemão.

O que mais recordo do livro é a profunda impressão que me causou a maneira na qual aborda a teoria do valor, o centro da economia política de Marx, dividindo-a no problema do valor qualitativo e o do valor quantitativo, nessa ordem. Dedica um capítulo a cada um. Em primeiro lugar mostra que no pensamento de Adam Smith a divisão do trabalho origina-se da mudança de umas coisas por outras e este por sua vez deriva de uma propensão da natureza humana. Portanto, "a produção de mercadorias é a forma universal e inevitável da vida económica; a ciência económica é a ciência da produção de mercadorias. A partir deste ponto de vista – continua Sweezy – os problemas da economia política têm um carácter exclusivamente quantitativo". Para Marx, em troca, a divisão do trabalho não está necessariamente ligada à troca (pode haver divisão de trabalho sem troca, como ocorre em algumas comunidades). Portanto, a produção de mercadorias não é a forma universal e inevitável da vida económica. Sweezy deriva daí as seguintes implicações:

"A produção de mercadorias separa-se do reino dos fenómenos naturais e converte-se e matéria válida da investigação histórico-social. O economista já não pode confinar sua atenção às relações quantitativas que nascem da produção de mercadorias; deve dirigir sua atenção também ao carácter das relações sociais subjacentes à forma mercadoria" ... A grande originalidade do pensamento da teoria do valor de Marx reside na sua aceitação destes dois elementos do problema e do seu desígnio de considerá-los simultaneamente dentro de uma só armação conceptual. [5] (pp. 39-40)

E conclui explicando-nos porque dividiu a exposição em duas partes:

"Deve-se às mesmas razões, entretanto, em medida considerável, a grande dificuldade que experimentam para entender essa teoria quase todos os que foram educados na tradição principal do pensamento económico. Por esta razão pareceu-nos conveniente dividir a teoria marxista do valor nas duas partes que a compõem e procurar examiná-la uma a uma" (p. 40)

Esta percepção profunda das dificuldades de compreensão da teoria marxista do valor faz dos dois capítulos nos quais expõe seus princípios básicos um texto único, não só pelo seu valor pedagógico como pela profundidade da sua compreensão deste componente essencial do pensamento de Marx, que tem um dos pontos mais altos na tese do carácter fetichista das mercadorias. Esta separação provavelmente influiu a que mais tarde, no outro livro de Sweezy que quero comentar, O capital monopolista (dedicado a Che Guevara), ele e Baran [6] deixassem de lado o conceito central de Marx, mais-valia, e o substituíssem pelo de excedente económico que Baran usou e trabalhou com todo pormenor em Economia política do crescimento.

Este livro, publicado em 1966, está organizado em torno de um tema: a geração e absorção do excedente económico que os autores consideram a "maneira mais útil e iluminadora de analisar o funcionamento puramente económico do sistema. Mas, não menos importante, acreditamos também que os modos de utilização do excedente constituem o mecanismo que articula a fundação económica da sociedade com o que os marxistas chamam sua superestrutura política, cultura e ideológica" (p. 8). O excedente económico real, como explica Baran em Economia política... é a diferença entre a produção real gerada pela sociedade e seu consumo efectivo corrente. Compreende uma parte menor do produto total que a mais-valia de Marx, uma vez que não inclui, como esta, a parte da mais-valia consumida pela classe capitalista nem os gastos governamentais em administração e em estabelecimentos militares (p. 39). Em Capital monopolista sustentam que o tamanho do excedente reflecte o grau de liberdade alcançado por essa sociedade, ao passo que a composição do excedente mostra como utiliza essa liberdade: quanto investe na expansão da sua capacidade produtiva, quanto consome de diversas maneiras, quanto desperdiça e de que formas.

Os autores advertem que o seu livro não é um tratado e sim um ensaio, uma vez que muitos temas ficam de fora. Em particular a análise do processo de trabalho, central na análise de Marx em O capital . Isto decorre, em parte, do deslocamento do conceito de mais-valia pelo de excedente, uma vez que este não exige, como aquele, analisar detidamente as relações entre trabalho e capital no lugar de trabalho, perdendo-se um elemento central na análise dinâmica da sociedade capitalista. Os autores exprimiram sua consciência de que haviam deixado fora o tema, mas não é claro se também estavam conscientes das desvantagens analíticas da mudança de conceito.

Depois de apresentar a corporação gigante como instituição central do capitalismo monopolista, nos capítulos seguintes analisam as tendências do excedente para crescer, as quatro formas de absorção do excedente: o consumo capitalista e o investimento, o esforço de vendas, o governo, o militarismo e o imperialismo, que formam o conjunto central do livro. Os últimos capítulos abordam a história do capitalismo monopolista, as relações raciais e os temas qualitativos: o 10º denomina-se "Sobre a qualidade do capitalismo monopolista" e o 11º "Sistema irracional". Neste oferecem uma das críticas mais demolidoras da sociedade estadunidense que já se escreveram. É difícil seleccionar um parágrafo que reflicta sua profundidade. Que seja o seguinte, pela radicalidade das suas conclusões: "Por trás do vazio, da degradação e do sofrimento que envenenam a existência humana nesta sociedade subjaz a profunda irracionalidade e a bancarrota moral do próprio capitalismo... Chegámos a um ponto no qual a única racionalidade verdadeira encontra-se na acção para substituir aquilo que se converteu num sistema irracional sem esperanças".

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NOTAS
1- Se bem me recordo, as referências ao ostracismo sofrido por Baran foram lidas no número especial de homenagem póstuma que lhe fez a Monthly Review , intitulada Paul A. Baran: A Collective Portrait (Março de 1965). Não encontrei a revista para confirmar.
2- Entretanto, o prefácio de Teoria do desenvolvimento capitalista foi firmado na Universidade de Harvard e na capa da versão em espanhol, abaixo do nome de Sweezy, encontra-se a inscrição: "Da Universidade de Harvard", pelo que devemos concluir que foi professor da mesma durante alguns anos.
3- De Huberman apreciei intensamente, e utilizei nos meus cursos, Los bienes terrenales del hombre (Ediciones Iguazú, Buenos Aires) que combina magistralmente a histórica económica com o pensamento económico da época.
4- Monthly Review Press, Nova York, 1966. Há tradução para o espanhol da Siglo XXI Editores, mas é muito má. Em 1970 indiquei a leitura do último e importantíssimo capítulo deste livro (El sistema irracional) aos meus estudantes no Instituto Tecnológico Autónomo do México, onde era professor a tempo inteiro. Foram preparadas cópias deste capítulo (em espanhol) destinadas aos alunos, como parte do seu pacote de leituras. Como eu já havia lido a versão em inglês, não revi o texto em espanhol. Em classe (Introdução à economia), baseada em discussões abertas dos textos lidos previamente, comecei a notar que os alunos não pareciam ter lido o mesmo texto que eu. Verifiquei parágrafos da tradução contra o original em inglês e notei, para meu espanto, que era uma confusão sem pés nem cabeça. Tive que expor da mesma maneira que um professor tradicional e pedir-lhes que tomassem apontamentos. Àqueles que liam inglês foi-lhes dada uma cópia nesse idioma. Não sei se a tradução foi corrigida naquela editora.
5- Sweezy observa que tomou esta ideia do único livro, em alemão, escrito por Franz Petry (morto aos 26 anos de idade).
6- Paul Baran faleceu em Março de 1964, 40 anos antes de Sweezy, antes de O capital monopolista ser publicado, pelo que Sweezy assina apenas o prefácio no qual dá conta da morte de Baran, sendo esta a sua última obra. Poucos autores podem orgulhar-se, como Baran, de ter escrito dois grandes livros que fizeram época. O outro é Economia política do crescimento, publicado pela primeira vez em 1957 também pela Monthly Review Press. A primeira edição em espanhol, 1959, traduzida de maneira impecável por Nathan Warman, foi publicada pela Fondo de Cultura Económica.


O original deste artigo encontra-se no diário mexicano La Jornada , edição de 5 de Março de 2004, pg. 29.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

04/Abr/04