por Julio Boltvinik
"O valor, a lucidez e a resoluta devoção à
razão fazem da obra de Paul M. Sweezy um dos focos mais brilhantes da
história intelectual dos Estados Unidos no pós-guerra".
Paul A. Baran,
La economía política del crescimiento,
Fondo de Cultura Económica, México, 1956.
La Jornada
de anteontem publicou uma nota dos extraordinários correspondentes
deste diário nos EUA, Jim Cason e David Brooks, pela qual nos inteiramos
da morte de Paul M. Sweezy, aos 93 anos. O
New York Times
chamou-o, num obituário, "o mais importante intelectual marxista
do país, título que poucos poderiam disputar. Os leitores de
outros diários, e aqueles que não leem diários e se
informam pelo rádio e a televisão, não souberam deste
facto, que não é notícia para os media mercantilizados.
É muito provável que a maioria dos leitores jovens de
La Jornada
não saibam quem foi Sweezy. Como nos recordam os correspondentes, foi
autor de muitos livros, dentre eles,
Teoria do desenvolvimento capitalista
(Fondo de Cultura Económica, 1945; edição original em
inglês, 1942; excelente tradução de Hernán Laborde)
e fundador (junto com outro homem extraordinário, Leo Huberman) da
Monthly Review
, a mais importante revista marxista dos EUA que continua a ser publicada hoje
em dia. Eles recordam um dado surpreendente: o artigo central do primeiro
número da revista,
"Por que o socialismo?"
foi escrito por Albert Einstein. Também observam que Sweezy
"ajudou a formar uma corrente analítica marxista independente e
não alinhada".
Hoje quero recordar e prestar homenagem, com nostalgia e gratidão pela
transformação intelectual que os seus livros produziram em mim e
na minha geração, tanto Sweezy como Paul A. Baran em conjunto.
Não só suas qualidades intelectuais os converteram em grandes e
admiráveis como também a sua têmpera. Ser marxista nos EUA
em meados do século passado era ser condenado ao ostracismo e, pior
ainda na época do macartismo, à repressão aberta e ao
cárcere. Enquanto Sweezy esteve na prisão devido ao macartismo,
Baran sofreu o ostracismo na Universidade de Stanford, onde era o único
professor marxista
[1]
. Como disse William Tabb em entrevista a Cason e Brooks, "nos anos 40 e
50 não havia marxistas na academia estadunidense"
[2]
. Tabb assinalou que "o labor de Sweezy e seus escritos educaram uma
geração de economistas progressistas durante os anos 60, a guerra
do Vietnam, a expansão do movimento das mulheres". Sem demasiado
receio de me equivocar, creio que a obra conjunta de Sweezy, Baran e Huberman
[3]
educou também várias gerações de estudantes
mexicanos, particularmente na Escola Nacional de Economia da UNAM.
Da vasta obra de Sweezy li com avidez, enquanto estudante, e reli depois como
professor a fim de orientar meus alunos, sua
Teoria do desenvolvimento capitalista
, já citada, e
Monopoly Capital: An Essay on the American Economic and Social Order
[4]
(O capital monopolista)
, escrita em co-autoria com Paul A. Baran. O primeiro livro, publicado aos 31
anos, é um ensaio notável. Ao contrário dos manuais de
economia política do marxismo ortodoxo, muitos presentes na
formação de muitos marxistas latino-americanos, Sweezy
problematiza a ideias básicas de Marx e examina com abertura o
pensamento de outros autores. Inclui, por exemplo, dois apêndices, um
tomado do livro de Hilferding sobre o capital financeiro, e outro escrito por
Shigeto Tsuru, grande estudioso do marxismo, de origem japonesa, que compara os
esquemas de reprodução de Quesnay, Marx e Keynes. Sweezy estava
dotado de uma ferramenta indispensável para abordar o pensamento de Marx
numa época em que as traduções da sua obra eram muito
limitadas: o domínio do alemão.
O que mais recordo do livro é a profunda impressão que me causou
a maneira na qual aborda a teoria do valor, o centro da economia
política de Marx, dividindo-a no problema do valor qualitativo e o do
valor quantitativo, nessa ordem. Dedica um capítulo a cada um. Em
primeiro lugar mostra que no pensamento de Adam Smith a divisão do
trabalho origina-se da mudança de umas coisas por outras e este por sua
vez deriva de uma propensão da natureza humana. Portanto, "a
produção de mercadorias é a forma universal e
inevitável da vida económica; a ciência económica
é a ciência da produção de mercadorias. A partir
deste ponto de vista continua Sweezy os problemas da economia
política têm um carácter exclusivamente quantitativo".
Para Marx, em troca, a divisão do trabalho não está
necessariamente ligada à troca (pode haver divisão de trabalho
sem troca, como ocorre em algumas comunidades). Portanto, a
produção de mercadorias não é a forma universal e
inevitável da vida económica. Sweezy deriva daí as
seguintes implicações:
"A produção de mercadorias separa-se do reino dos
fenómenos naturais e converte-se e matéria válida da
investigação histórico-social. O economista já
não pode confinar sua atenção às
relações quantitativas que nascem da produção de
mercadorias; deve dirigir sua atenção também ao
carácter das relações sociais subjacentes à forma
mercadoria" ... A grande originalidade do pensamento da teoria do valor
de Marx reside na sua aceitação destes dois elementos do problema
e do seu desígnio de considerá-los simultaneamente dentro de uma
só armação conceptual.
[5]
(pp. 39-40)
E conclui explicando-nos porque dividiu a exposição em duas
partes:
"Deve-se às mesmas razões, entretanto, em medida
considerável, a grande dificuldade que experimentam para entender essa
teoria quase todos os que foram educados na tradição principal do
pensamento económico. Por esta razão pareceu-nos conveniente
dividir a teoria marxista do valor nas duas partes que a compõem e
procurar examiná-la uma a uma" (p. 40)
Esta percepção profunda das dificuldades de compreensão da
teoria marxista do valor faz dos dois capítulos nos quais expõe
seus princípios básicos um texto único, não
só pelo seu valor pedagógico como pela profundidade da sua
compreensão deste componente essencial do pensamento de Marx, que tem um
dos pontos mais altos na tese do carácter fetichista das mercadorias.
Esta separação provavelmente influiu a que mais tarde, no outro
livro de Sweezy que quero comentar,
O capital monopolista
(dedicado a Che Guevara), ele e Baran
[6]
deixassem de lado o conceito central de Marx, mais-valia, e o
substituíssem pelo de excedente económico que Baran usou e
trabalhou com todo pormenor em
Economia política do crescimento.
Este livro, publicado em 1966, está organizado em torno de um tema: a
geração e absorção do excedente económico
que os autores consideram a "maneira mais útil e iluminadora de
analisar o funcionamento puramente económico do sistema. Mas,
não menos importante, acreditamos também que os modos de
utilização do excedente constituem o mecanismo que articula a
fundação económica da sociedade com o que os marxistas
chamam sua superestrutura política, cultura e ideológica"
(p. 8). O excedente económico real, como explica Baran em
Economia política...
é a diferença entre a produção real gerada pela
sociedade e seu consumo efectivo corrente. Compreende uma parte menor do
produto total que a mais-valia de Marx, uma vez que não inclui, como
esta, a parte da mais-valia consumida pela classe capitalista nem os gastos
governamentais em administração e em estabelecimentos militares
(p. 39). Em
Capital monopolista
sustentam que o tamanho do excedente reflecte o grau de liberdade
alcançado por essa sociedade, ao passo que a composição do
excedente mostra como utiliza essa liberdade: quanto investe na
expansão da sua capacidade produtiva, quanto consome de diversas
maneiras, quanto desperdiça e de que formas.
Os autores advertem que o seu livro não é um tratado e sim um
ensaio, uma vez que muitos temas ficam de fora. Em particular a análise
do processo de trabalho, central na análise de Marx em
O capital
. Isto decorre, em parte, do deslocamento do conceito de mais-valia pelo de
excedente, uma vez que este não exige, como aquele, analisar detidamente
as relações entre trabalho e capital no lugar de trabalho,
perdendo-se um elemento central na análise dinâmica da sociedade
capitalista. Os autores exprimiram sua consciência de que haviam deixado
fora o tema, mas não é claro se também estavam conscientes
das desvantagens analíticas da mudança de conceito.
Depois de apresentar a corporação gigante como
instituição central do capitalismo monopolista, nos
capítulos seguintes analisam as tendências do excedente para
crescer, as quatro formas de absorção do excedente: o consumo
capitalista e o investimento, o esforço de vendas, o governo, o
militarismo e o imperialismo, que formam o conjunto central do livro. Os
últimos capítulos abordam a história do capitalismo
monopolista, as relações raciais e os temas qualitativos: o
10º denomina-se "Sobre a qualidade do capitalismo monopolista" e
o 11º "Sistema irracional". Neste oferecem uma das
críticas mais demolidoras da sociedade estadunidense que já se
escreveram. É difícil seleccionar um parágrafo que
reflicta sua profundidade. Que seja o seguinte, pela radicalidade das suas
conclusões: "Por trás do vazio, da degradação
e do sofrimento que envenenam a existência humana nesta sociedade subjaz
a profunda irracionalidade e a bancarrota moral do próprio
capitalismo... Chegámos a um ponto no qual a única racionalidade
verdadeira encontra-se na acção para substituir aquilo que se
converteu num sistema irracional sem esperanças".
__________
NOTAS
1- Se bem me recordo, as referências ao ostracismo sofrido por Baran
foram lidas no número especial de homenagem póstuma que lhe fez a
Monthly Review
, intitulada
Paul A. Baran: A Collective Portrait
(Março de 1965). Não encontrei a revista para confirmar.
2- Entretanto, o prefácio de Teoria do desenvolvimento capitalista foi
firmado na Universidade de Harvard e na capa da versão em espanhol,
abaixo do nome de Sweezy, encontra-se a inscrição: "Da
Universidade de Harvard", pelo que devemos concluir que foi professor da
mesma durante alguns anos.
3- De Huberman apreciei intensamente, e utilizei nos meus cursos,
Los bienes terrenales del hombre
(Ediciones Iguazú, Buenos Aires) que combina magistralmente a
histórica económica com o pensamento económico da
época.
4- Monthly Review Press, Nova York, 1966. Há tradução
para o espanhol da Siglo XXI Editores, mas é muito má. Em 1970
indiquei a leitura do último e importantíssimo capítulo
deste livro
(El sistema irracional)
aos meus estudantes no Instituto Tecnológico Autónomo do
México, onde era professor a tempo inteiro. Foram preparadas
cópias deste capítulo (em espanhol) destinadas aos alunos, como
parte do seu pacote de leituras. Como eu já havia lido a versão
em inglês, não revi o texto em espanhol. Em classe
(Introdução à economia), baseada em discussões
abertas dos textos lidos previamente, comecei a notar que os alunos não
pareciam ter lido o mesmo texto que eu. Verifiquei parágrafos da
tradução contra o original em inglês e notei, para meu
espanto, que era uma confusão sem pés nem cabeça. Tive
que expor da mesma maneira que um professor tradicional e pedir-lhes que
tomassem apontamentos. Àqueles que liam inglês foi-lhes dada uma
cópia nesse idioma. Não sei se a tradução foi
corrigida naquela editora.
5- Sweezy observa que tomou esta ideia do único livro, em
alemão, escrito por Franz Petry (morto aos 26 anos de idade).
6- Paul Baran faleceu em Março de 1964, 40 anos antes de Sweezy, antes
de
O capital monopolista
ser publicado, pelo que Sweezy assina apenas o prefácio no qual
dá conta da morte de Baran, sendo esta a sua última obra. Poucos
autores podem orgulhar-se, como Baran, de ter escrito dois grandes livros que
fizeram época. O outro é Economia política do
crescimento, publicado pela primeira vez em 1957 também pela Monthly
Review Press. A primeira edição em espanhol, 1959, traduzida de
maneira impecável por Nathan Warman, foi publicada pela Fondo de Cultura
Económica.
O original deste artigo encontra-se no diário mexicano
La Jornada
,
edição de 5 de Março de 2004, pg. 29.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
.